agosto 2009 Arquivo

picasso-boy-with-pipe.jpgERA PRIMAVERA

VER ERAT

 

Poesia latina de Arthur Rimbaud, traduzida por Leonardo D'Avila de Oliveira.

 

  

Primav-era[1], e abatido em Roma languidecia

Ver erat, et morbo Romae languebat inerti

 

Orbílio[2]: a trama mestra maldosa estava muda

Orbilius : diri tacuerunt tela magistri

 

Já não vinham aos ouvidos as sonoras pancadas

Plagarumque sonus non jam veniebat ad aures,

 

Nem palmatória assídua em dor torturava o corpo.

Nec ferula assiduo cruciabat membra dolore.

 

Desfrutei do momento: me atirei a alegres campos

Arripui tempus : ridentia rura petivi

 

Sem lembrar; solto e fora da vigilância e estudo

Immemor ; a studio moti curisque soluti

 

Branda alegria recriou minha mente cansada.

Blanda fatigatam recrearunt gaudia mentem.

 

Com o peito d'algo novo cheio, alegre e doce,

Nescio qua laeta captum dulcedine pectus

 

Já aulas tediosas, já tristes mestras palavras

Taedia jam ludi, jam tristia verba magistri

 

Esquecidas, gozava ao olhar os campos ao longe

Oblitum, campos late spectare juvabat

 

Compreendendo a alegria e os milagres da terra.

Laetaque vernantis miracula cernere terrae.

 

Garoto, nem buscava tanto o vão rural ócio:

Nec ruris tantum puer otia vana petebam:

 

Sentimentos maiores cabiam no jovem peito:

Majores parvo capiebam pectore sensus:

 

Desconhecido espírito divino dava asa aos

Nescio lymphatis quae mens divinior alas

 

Sentidos desregrados: calado, contemplava

Sensibus addebat : tacito spectacula visu

 

Aos olhos Espetáculos: o peito e o amor do campo

Attonitus contemplabar: pectusque calentis

 

Quente manifestava: como antes anel férreo,

Insinuabat amor ruris: ceu ferreus olim

 

O rochedo em Magnésia atrai com força arcana e,

Annulus, arcana quem vi Magnesia cautes

 

Quieto, junta consigo por anzol invisível[3].

Attrahit, et caecis tacitum sibi colligat hamis.

 

 

 

 

Nisto os membros cansados e cadentes por longas

Interea longis fessos erroribus artus

 

Jornadas, deitei à borda dum verdejante rio

Deponens, jacui viridanti in fluminis orâ

 

Após desmaiar inerte com o som d'água, e pelo ócio

Murmure languidulo sopitus, et otia duxi,

 

Ido, aos cantos dos pássaros cativo e às brisas zéfiras.

Permulsus volucrum concentu auraque Favoni.

 

Eis que pelo ar do vale entraram algumas pombas

Ecce per aetheream vallem incessere comlumbae,

 

De alva mão, e elaborada ao bico floral grinalda

Alba manus, rostro florentia serta gerentes

 

Qual Vênus colhia em Chipre os aromas do jardim.

Quae Venus in Cypriis redolentia carpserat hortis.

 

A relva, a me renovar pelo som derramado,

Gramen, ubi fusus recreabar turba petivit

 

Acometeu-se ao tenro bater das asas: nisto

Molli remigio : circum plaudentibus alis

 

Envolveu-se a cabeça minha, e o 'anzol' atou as mãos ao

Inde meum cinxere caput, vincloque virenti

 

Verdejante, e engrinalda-me a têmpora com olente

Devinxere manus, et olenti tempora myrto

 

Coroa de murta, e o peso meu foi erguido levinho

Nostra coronantes, pondus per inane tenellum

 

Pelo vazio... Levava-me o campo por nuvens altas

Erexere... Cohors per nubila celsa vehebat

 

Sob coroa rósea lânguido: brando vento soprava

Languidulum roseâ sub fronde : cubilia ventus

 

Meu leito num embalar digno de danças suaves.

Ore remulcebat molli nutantia motu.

 

Para chegar nos ninhos, rapidamente voando,

Ut patrias tetigere domos, rapidoque volatu

 

Entraram na pendência das moradas as pombas

Monte sub aerio pendentia tecta columbae

 

Sob alto monte, e deixam-me acanhado, posto e alerta.

Intravere, breve positum vigilemque reliquunt.

 

Oh doce ninho pássaro! ... Luz de pura brancura.

O dulcem volucrum nidum! ... Lux candida puri.

 

Derramado meu corpo, cobriu todos meus braços:

Circumfusa humeros radiis mea corpora vestit:

 

Nem a penumbrosa luz é em verdade esta luz

Nec vero obscurae lux illa similima luci,

 

A qual ofusca a vista nossa mesclada à bruma.

Quae nostros hebetat mixta caligine visus:

 

A origem da celeste não tem a luz terrena!

Terrenae nil lucis habet caelestis origo!

 

Um estranho manifesta-se continuamente em meu peito,

Necio quid caeleste mihi per pectora semper

 

Como em corrente rio, um aceno incognoscível.

Insinuat, pleno currens ceu flumine, numen.

 

 

 

 

Logo voltaram os pássaros, e, com o bico, mostraram

Interea redeunt volucres, rostroque coronam

 

Láurea coroa em grinalda, como Apolo cingido

Laurea serta gerunt, quali redimitus Apollo

 

Avivasse sonoras cordas ao polegar.

Argutas gaudat compellere pollice chordas.

 

Mas quando a coroa láurea envolveu minha face

Ast ubi laurifera frontem cinxere coronâ,

 

Eis que se me abriu o céu, e a vista subitamente

Ecce mihi patuit caelum, visuque repente

 

Atônita, aspirando a grandiosa nuvem áurea,

Attonito, volitans super aurea nubila, Phoebus

 

Febo, divina-voz, estendeu com a mão a lira.

Diuina vocale manu praetendere plectrum.

 

Então o Capite[4], no céu escreveu, estas palavras, com várias chamas:

Tum capiti inscripsit caelesti haec nomina flammâ:

 

TU SERÁS VIDENTE[5] . . . . Em meu corpo incorreu

TU VATES ERIS . . . . In nostros se subjicit artus

 

Um calor nunca visto, como em esplêndido vidro,

Tum calor insolitus, ceu, puro splendida vitro,

 

Força solar por raios aquece a límpida fonte.

Solis inardescit radiis vis limpida fontis.

 

Então a anterior visão dos pombos dissipou-se:

Tunc etiam priscam speciem liquere columbae:

 

Coro das musas surge, a soar doce melodia e,

Musarum chorus apparet, modulamina dulci

 

Brandamente tomado aos braços, elevou a mim,

Ore sonans, blandisque exeptum sustulit ulnis,

 

O advir tri-revelando, me louro-tri-coroando[6].

Omina ter fundens ter lauro tempora cingens.   



[1] A primavera deste poema não é somente aquela que aquece o campo e o coração do jovem poeta. Ela é a própria primavera da poesia completa de Rimbaud e o primeiro de seus seis textos em latim que restaram. Curiosamente, o texto Adieu de Une saison em enfer, tido por muitos como a despedida de Rimbaud da poesia, começa por dizer que já é outono. Portanto, Ver erat, em muito ignorado pelos editores ao redor do mundo, é um dos primeiros poemas mais consistentes de Rimbaud e possui uma grande importância para a análise da sua poesia em conjunto. Além do mais, ele não perde em qualidade para outros, uma vez que possui uma bela sonoridade e em uma métrica latina rígida. Também revela o prodígio do poeta que realizou-o em um tempo de 3 horas! Destarte, procurou-se transpor a métrica em versos alexandrinos não necessariamente exatos para fazer referência à sonoridade dos versos bem como um pouco do caráter sintético do latim. 

[2] Orbílio: mestre de Horácio, lembrado por sua rigidez e castigos corporais para com seus alunos.

[3] Notam-se os versos ceu ferreus olim anulus,/ arcana quem ui Magnesia cautes/ sustulerit, longam nexu pendente catenam/ implicat et caecis inter se conserit hamis, retirados de Nutricia, nas Silvae de Angelo Poliziano (Silvae, Nutricia, 193-196). Neste texto, o autor, um humanista da renascença florentina trata com um ar platônico dos dons divinos dados a certos poetas, desde Homero até o renascimento. Isto é muito curioso porque Rimbaud se refere em Ver Erat justamente a um presságio de Apolo o qual lhe revela seu destino de poeta visionário. Também pode se notar que, desta forma, Rimbaud aos 14 anos já se pretendia igual aos grandes poetas clássicos, o que, por si só, já é prova de sua avidez pelo seu destino de estar entre os maiores escritores da humanidade.

[4] Sobrenome poético comum a Apolo e Minerva

[5] a grande maioria das traduções traz vates como poeta. Preferiu-se traduzi-la como vidente, - e o significante permite - tende em vista a pretensão visionária que Rimbaud possuía sobre si mesmo. Isto pode ser encontrado tanto na lettre du voyant como em Une saison em enfer. Também vale destacar que pode ser uma alusão a tu Marcellus eris. De Virgílio. Eneida VI, 883.

[6] O verso em latim é Omina ter fundens ter lauro tempora cingens. Um dos mais sintéticos e trabalhosos desta tradução em virtude do termo latino ter dar um sentido de três vezes. Uma tradução mais literal seria: Que revela três vezes o presságio e que cinge a têmpora três vezes com louro. Assim, apelou-se ao uso de neologismos para se manter a sonoridade e a métrica de modo que os particípios presente (tempo verbal praticamente inexistente no português) fundens e cingens são passados para os gerúndios revelando e coroando ao passo que ter foi traduzido por tri em razão da fonética e semântica das palavras.

 

*imagem: garçon avec une Pipe de Pablo Picasso

 

CARTOMANCIA POLÍTICA

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... Em uma consulta com o tarólogo e curandeiro mestre Barbarralah...

 

- Mestre Barbarralah, nas próximas eleições eu voto no Serra ou na Dilma? Quem vai ganhar?

- Vejamos o que dizem as cartas... Sinto que o futuro está para:

O%20Louco.jpgO louco.

- O louco? O que significa isso mestre? Significa que vai ganhar o Serra?

- Não.

- É a Dilma que vai ficar louca com tanta pressão?

- Também não.

- E o que é então?

- Olha a boca. Cadê a palavra mágica?

- ... p o r    f a v o r ...

- Enfim: o louco quer dizer que chegam notícias novas e que levam por caminhos inesperados.

- Ah é?

- Sim, o louco caminha por si ao mesmo tempo considerando o mundo, mas a partir de uma ótica própria. Caminha em direção do que acredita e os tropeços trazem surpresas, ele permite a chegada de novidades e de novas possibilidades de pensamento.

- Ele é um coringa? O Obama foi retratado como coringa recenetemente... Ele vai tomar a Amazônia e ser presidente do Brasil?

- Não não, aqueles norte-americanos que o retrataram assim são só uns idiotas. Sim, o coringa é uma carta que pode mudar o jogo quando tudo parece estar perdido. Mas só neste sentido estrito pode-se comparar esta figura com um coringa. Acontece que haverá um novo candidato ou uma nova candidata que fará o circo pegar fogo. As eleições podem tomar um rumo que não se espera.

- Ela vai ganhar então, mestre?

- Isso ainda não dá para saber. E o fato de não se saber é o melhor disso. Só posso dizer que agora nada está definido e tudo pode acontecer, inclusive no campo das idéias. Já que falaste em Amazônia, o louco é frequentemente associado à figura de São Francisco de Assis, amante de todas as criaturas vivas e das plantas. Ele foi atrás daquilo que pensou e fundou uma verdadeira revolução na instituição em que fazia parte.

- Mas a Igreja continuou corrupta...

- Boas idéias são sempre distorcidas pelas figuras mesquinhas, que sempre são maioria. Mas o que fica é a experiência e a mudança inevitável que as pessoas grandes criam.

- Hmmm... Ah, mais umas coisa mestre: por que as criaturas vivas e as plantas? As plantas, por acaso não são vivas também? Hem, hem?

- Depende... Quanto à soja transgênica, por exemplo, sempre fica uma dúvida.

- Bom saber. Muito obrigado mestre Barbarralah.

- Não há de quê.

 

 

 

 

dinossauro-gaucho.jpg

Os nossos amigos gaúchos (nisto incluo riograndenses e argentinos) com certeza adoraram a nova série televisiva da RBS-TV (emissora da Globo no Rio Grande e em Santa Catarina). Segundo o documentário, os atuais pampas favoreceram a criação dos gigantescos dinossauros porque se localizavam antigamente no centro da única massa continental da Terra, a Pangea. Ou seja, fica cientificamente provado que Porto Alegre é mesmo o centro do mundo de jure.


Abaixo uma sinopse da reportagem. Os videos poderão ser assistidos na seguinte página do site clicRBS.


Continente Único - 8 de agosto

No Rio Grande do Sul foram encontrados os fósseis dos mais antigos dinossauros do mundo. Durante a união de todos os continentes em um só, chamado Pangéa, há 280 milhões de anos, a América do Sul era ligada a África. O Rio Grande do Sul situava-se no centro desse imenso continente e foi ali que surgiram os dinossauros. Nessa região são encontrados atualmente muitos fósseis desses animais pré-históricos. O primeiro programa mostra a formação da Pangéa, a posterior separação dos continentes e as condições para o surgimento dos dinossauros.