BRUXELAS: FOSSO DOS LOBOS

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Eu tinha que trocar a data da minha passagem para vir embora para o Brasil dentro de alguns meses. O escritório para fazer esse procedimento ficava no centro de Bruxelas. Rua Welvengracht. Para facilitar as coisas pedi para uma grande amiga me explicar como chegar nesse endereço, cujo nome eu não conseguia nem mesmo pronunciar. Logo veio ela: "ah, você sai aqui pela rue d'Assaut e depois entra na Fossé aux Loups". Respondi: "ah bom, e depois onde fica a Welvengracht?" Tive a resposta de que a rua era a mesma. Como assim, a mesma, pensei. Era só uma questão de tradução, respondeu a querida belga. A rua era a mesma, somente mudava a língua. Até se pode pensar em alguma proximidade entre o termo francês "Loups" e o Holandês "Wolven", que se parece com "Wolves" do Inglês. Mas na minha cabeça, não fazia tanto sentido. Depois eu tirei a passagem sem problema algum. Já nem me lembro de como era a rua. Para falar a verdade, nem me lembro de como foi tudo lá no dia. Mas nunca me esqueci dos "dois" nomes da Rua. Na curiosidade, procurei algumas imagens de lá. Não tive muitas, até porque ela  não tinha nada de espetacular, nem mesmo o fato de ter dois nomes, ou melhor, um nome em duas línguas, porque todas as ruas da capital da Bélgica se traduzem da mesma forma. Mas achei duas imagens bem interessantes.

  

Uma é a de um projeto de um pequeno jardim suspenso para uma das esquinas de Wolvengracht e outra delas é a de um restaurante de um hotel atual que já tem ares de jardim suspenso, como em Babel. (Não fazem uma Torre porque em geral Bruxelas não permite os arranha-céus) O problema dessa rua é que eles pensam que, como a Bélgica, o lugar é o mesmo e que somente há uma mudança de língua, tradução portanto. Essa conseqüência vem recentemente trazendo maiores conseqüências. A pior delas é o fato de que a Bélgica é um país com tensões lingüísticas terríveis e está quase a prestes de se separar. Isto na capital da União Européia, que era para ser o maior exemplo do funcionamento da razão comunicativa de Habermas. De fato é, porque há toda uma pompa de diálogo por uma união de povos quando no próprio país sede a quase milenar Universidade de Louvain teve que se separar em campus francófono e campus neerlandófono (supostamente um lugar que era para ser bastante racional e comunicativo) em razão das brigas violentas entre os seus estudantes. Já houve inclusive algumas propostas de separar o campeonato de futebol em duas línguas. 

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(Projeto de Jardim Suspenso na rua Fosso dos Lobos. Fonte: http://www.archiborescence.net/archiborescence/2150/J-V-Loups.html) Abaixo foto do Hotel Radisson Blu Royal Hotel, também lá. Detalhe nas plantas suspensas.


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A tradução é impossível, mas terei de fazer um esforço com ela

ara tirar as últimas conclusões. "Fossé aux Loups", em português poderia ser "Fosso dos Lobos" ou "Fosso aos Lobos", para ser mais literal. Poço e lobo. Hoje o projeto europeu pensa no poço. Mas parece que estão nele em busca de uma arca que apenas desconfiam ou às vezes tentam sair dele para poder ver o céu. Há uma busca pela unidade ausente na idéia de uma materialidade impossível, mas traduzível. Em vez de se pensar puramente a partir do poço, e tentar se acostumar com ele, procura-se sair pelo apelo à origem, à língua, ou mesmo a coletividade. A idéia de um Estado verdadeiro com diversas versões é um tipo de guerra, que nem mesmo depende de aparato estatal para funcionar. Aqueles que não ajudam a cavar mais o fosso (nacionalistas, neonazistas) ou a construir a escada (habermasianos), não  têm vida fácil não. Seus colegas humanitários ou nacionalistas têm lá suas sanções. Mas, enquanto não se separa ou une de vez a Bélgica, enquanto se discute muito nos escritórios europeus e, sobretudo, se traduz muito em Bruxelas, lembro que lá também fica a sede da OTAN, mas nessa última nunca ouvi falar sobre problemas de comunicação não. Nem nas relações comerciais. Os militares são bem mais pragmáticos. O mercado também.


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