Anéis de serpente (Resenha)

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978-85-7559-110-9_big.jpgEvidências do Real
Susan Willis

Tradução: Marcos Fabris e Marcos Soares
Editora: Boitempo (Coleção Estado de Sítio)
Ano: 2008

"Nós, a sociedade do individualismo crescente e da cultura da replicação da mercadoria (cuja contradição aparente encontrou sua solução no nascimento do primeiro clone humano), estamos condenados a temer que cada evento singular gere seus próprios duplicadores indesejáveis".

(Os números entre parêntesis se referem à página do livro resenhado)

 

Um dos maiores equívocos dos pseudo-intelectuais leitores de orelha de livro é, diante de uma câmera de vigilância no meio da rua (ou num bar, ou num estabelecimento público), citar Vigiar e Punir e reclamar da sociedade disciplinar. Como qualquer um que tenha lido de fato Foucault, sabemos que não é exatamente disso que se trata, e sim, de biopolítica. Trocando em miúdos: a tal câmera não serve pra produzir comportamentos, nem para evitar crimes, mas para permitir identificações (de alguém que cometa um crime, de algum terrorista que porventura tenha passado pelo local, etc etc): não se trata mais de produzir a ordem, mas de regular, gerenciar a desordem (Cf, neste sentido, On Security and Terror, de Giorgio Agamben). Mais do que o panóptico, os identificadores biométricos e os bancos de DNA. Mais do que a fábrica, a empresa. Gilles Deleuze preferiu chamar a sociedade atual, seguindo a idéia de Burroughs, de "sociedade de controle": "Não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se 'dividuais', divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou 'bancos'. (...) É fácil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de máquina, não porque as máquinas sejam determinantes, mas porque elas exprimem as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las. As antigas sociedades de soberania manejavam máquinas simples, alavancas, roldanas, relógios; mas as sociedades disciplinares recentes tinham por equipamento máquinas energéticas, com o perigo passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem; as sociedades de controle operam por máquinas de uma terceira espécie, máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e o ativo a pirataria e a introdução de vírus." É desta sociedade que trata Evidências do real, livro de ensaios de Susan Willis, traduzido este ano pela Boitempo, deste "mundo onde o código é a realidade. [Onde] O genoma humano é nosso significado" (68-69). A autora, professora da Duke, se propõe a ler pequenos aspectos culturais da sociedade norte-americana como "evidências do real, figuras que tocam os mais profundos nervos da História para dar visibilidade 'aquilo que reprimimos" (102). Assim, por exemplo, os múltiplos sentidos que adquire a bandeira americana no seu alastramento pós-11 de setembro (frente das casas, nos carros, nos uniformes dos times esportivos, no Afeganistão, no Iraque) levam Willis a encarar "A Velha Glória" (como os americanos chamam a sua bandeira e título do primeiro ensaio do livro) como um "significante vazio, [pois] ela concentra o poder, inerente à mercadoria, de se tornar um fetiche": "De fato, em seu poder de evocar cura e perseverança em Nova York [no Marco Zero das Torres Gêmeas] e retribuição em Kandahar [a derrubada do regime talibã no Afeganistão], essa bandeira se apresenta como um significante vazio, capaz de designar inúmeros referentes sem que estes sejam percebidos como contradiórios". (19) Além da bandeira, são analisados o atirador que agiu nos subúrbios de Washington em outrubro de 2001 ("Tudo que vai, volta"),  a peripécia de McKinley, que se colocou dentro duma caixa e se postou, em um avião de carga, para o endereço da mãe ("O maior show da Terra"), e as fotos de americanos torturando presos iraquianos ("Quién es más macho?"). O maior problema, a meu ver, do livro de Willis, não são nem as "evidências", nem o "do" (ou seja, acredito que pequenos aspectos culturais dizem tanto ou mais da sociedade que grandes tratados, promulgação de leis, discursos políticos), mas o seu "real" por vezes simplificado demais (ainda que atenda a função de "cartilha" (15) a que se propõe): "o fundamentalismo da Casa Branca de Bush" (19-20), "a religiosidade caipira de nosso presidente" (115), e outros chavões, frases feitas que censuram pensamento (o ponto fraco do cinema de Michael Moore é justamente o de imbecilizar demais o que quer criticar). De um modo geral, este é um defeito em que volta e meia recaem os estudos culturais: por exemplo, Beatriz Sarlo, em A paixão e a exceção faz uma excelente leitura, a partir de jornais e revistas de época, de como as fraquezas artísticas de Evita foi o sustentáculo de sua força política ao lado de Perón - mas não tem coragem de dizer: Evita (e mesmo sua more) é o laboratório da política (não-assumidamente fascista) convertida em espetáculo.  Em todo caso, dois ensaios merecem destaque. "Somente o sombra sabe" analisa o complexo jogo entre cópia e original, replicação e replicação da replicação, cujo efeito é a fantasmogorização total. A profusão arquivos subterrâneos onde os cidadãos podem depositar seus documentos e fotos originais revela que "Ao contrário da crença popular, a era dos computadores não tornou o papel obsoleto, mas gerou uma necessidade maior desse suporte e de oiutros tipos de arquivos." (78) Mas são outros abrigos subterrâneos que merecem uma atenção mais detalhada: os bunkers do "governo paralelo", que relacionados tanto ao faz de conta de alguns programas televisivos onde políticos comentam como seria o país sobre seu governo, quanto ao fraude eleitoral que elegeu Bush ("Nem sombra, nem real, Gore se tornou um tabu, o homo sacer do mundo político" (76)), demonstram que "Apenas replicantes e sombras reais podem brincar de ser presidente, pois a verdade da presidência é sua equipe de clones, cuja função é dissolver a realidade por meio de uma série de ficções" (76). A impressão que tenho é que a razão desta fantasmagorização dos governantes (não explicada por Willis) reflete uma virada gerencialista da política: ao invés do pessoa do soberano, temos uma máquina gerencial, de administração; mas este governo de ninguém e/ou de fantasmas, como alertava, Hannah Arendt a respeito da burocracia, "não significa necessariamente a ausência de governo; pode, de fato, em certas circunstâncias, vir a ser uma das mais cruéis e tirânicas versões". O ensaio mais interessante é "Nós somos o antraz" (o grande pecado dos tradutores foi ter optado por traduzir o título, quando deveriam ter preservado o intraduível original: "Anthrax R US"; erro mitigado por uma nota explicativa), que aborda a profusão, logo depois do 11 de setembro, de trotes que falsamente denunciavam antraz em alguma repartição pública, empresa, etc: "Ao imitar as ameaças verdadeiras do antraz, milhares de golpistas dão expressão simbólica ao segredo mais bem guardado da nossa sociedade: o maior depósito de armas de destruição de massa fica nos EUA e não no Iraque. A verdade desses trotes é que o antraz, diferentemente da grande maioria dos nossos artigos de consumo, é verdadeiramente made in America. Se o antraz representa o retorno do reprimido, não é a história da luta da humanidade contra um flagelo natural que retorna para nos amedtrontar, mas a clandestina e ultra-secreta produção de armas bacteriológicas em nossos próprios laboratórios" (39). Se "As forças políticas e os meios de comunicação conluiam-se numa campanha de dominação do medo", se "A ideologia da segurança que nos cobre como mortalha dá provas de um aparato estatal repressor" (91), isto é, se o medo tornou-se a regra em cima da qual trabalha o governo gerencialista norte-americano, o trote (bem como o atirador de Washington) perfura "a banalidade da ameaça constante" (59): "O trote é uma manobra simbólica que mira o espetacular. É o irreal que evoca o real. Ele dá aos indivíduos descontentes um poder tremedo sobre outros indivíduos igualmente descontentes. De modo dramático, ele convoca a polícia, especialistas, toneladas de equipamento, os meios de comunicação; e lança todos para além de uma situação de normalidade, para uma nova, dura e cortante realidade de vida e morte. Ele fratura o tempo, rompe com a monótona linearidade temporal do trabalho ou da escola, todas aquelas horas que somamos e traduzimos em contracheques e impostos - o que Debord chama de a 'infinita acumulação de intervalos equivalentes'. Como uma ferramenta enfiada entre os dentes da engrenagem da opressão diária, o trote rompe com o tempo transformado em mercadoria. Seu produto é o não-produto do atraso. Tempo é dinheiro, seja no trabalho ou nas férias. (...) É de admirar que muitos juízes tenham multado os golpistas do antraz na quantia monetária equivalente ao tempo perdido em virtude de sua brincadeira?" (44). Mas, como o vírus e a pirataria, que são apenas perigo ativo da sociedade de controle, isto é, seu sub-produto, o trote do antraz é apenas uma replicação da sociedade do espetáculo e do medo. Como diria Deleuze, " Os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira." 

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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
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notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
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Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
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O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
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Um antropófago em Hollywood:
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O que é um bandido?
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A alegria da decepção
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