abril 2009 Arquivo

Se um ser humano incauto desse o azar de conhecer o Brasil somente pela mídia, teria a convicção de que aqui a corrupção tem mão única: só existe o lado passivo, o do que recebe propina para liberar obra, facilitar licenças, fraudar licitações (devemos diferenciar corrupção de "mero" roubo: o caso daquele que utiliza dinheiro público para comprar um carro, por exemplo - o que a nossa imprensa adora denunciar). Todo mundo sabe que empreiteiras formam cartéis para disputar as licitações - e cadê o "jornalismo investigativo" para dar nomes aos bois? Corrupção é, nos lembra Badiou recorrendo aos jacobinos, antes de mais nada, corrupção da virtude, corrupção do bem público (a corrupção que gera dividendos é sua conseqüência. Lembro de uma matéria do Jornal Nacional à época da eleição de 2006 em que era abordado o superfaturamento de estradas e pontes e se afirmava a necessidade de maior controle por parte do Estado e nenhuma palavra sobre as empresas (e os empresários) que dela se beneficiam. Hoje, saiu na Folha de S. Paulo o resultado de uma pesquisa do Datafolha, encomendada pela ONG Amigos da Terra Amazônia Brasileira em que, além da pergunta sobre o que era mais interessante para o país (94% dos entrevistados responderam pela opção "Parar o desmatamento para evitar desastres ambientais como mudanças climáticas", contra 3% que preferiram "Permitir mais desmatamento para produzir mais produtos agrícolas" - o resultado é meio óbvio, pois o significante "desmatamento" é viciado; ninguém quer as "mudanças climáticas", assim como ninguém é contra a "democracia", mas há um meio de campo entre significante e significado, onde entra a ação humana, tanto política quanto ética, que é muito mais embolado), havia outra questão: "Qual é o principal responsável pelo desmatamento?" Entre as possíveis respostas, havia "Falta de controle por parte das instituições de governo" (que, obviamente, levou a maioria, 60%), "Leis muito permissivas" (ganhou a prata), os "Consumidores" (sic - terceiro lugar, com 9%), "Financiamento dos bancos a atividades que desmatam" e "Redes de varejo que não limitam a origem dos produtos" - além da categoria vale-tudo "Outros", que amargou 1%. Ou seja, não havia entre as respostas o agente direto do desmatamento, isto é, da corrupção ativa, do desvirtuamento do bem público: os agroempresários. Assim, a corrupção passiva, o Estado fraco, os intermediários (bancos e supermercados; tudo bem, eles tem sua boa parcela de culpa), bem como os consumidores (que não tem como saber se o produto agrícola comprado é produzido em área desmatada ou não) são culpados pela corrupção, não os corruptos. O histórico de nossa "burguesia", vendida e entreguista (para ficar no período mais recente, basta lembrar sua adesão ao golpe de 64 e ao financismo do petucanismo), já diz tudo. Mas, para a "opinião pública", os corruptos (não) são os "Outros".

Atualização: a pesquisa completa em .pdf aqui. A melhor ministra do meio-ambiente que já tivemos, Marina Silva, fez uma leitura completamente diferente dela.


Sopro 8

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Começando pela colaboração de Georges Bataille, o Sopro passa a publicar, paulatinamente, os textos que formaram o dossiê "Conocimiento de América Latina", publicados - em espanhol - no primeiro número da revista Imán (1931), secretariada por Alejo Carpentier, e editada em Paris. Além do texto de Bataille, traduzido por mim, três verbetes: Rosto (de Lévinas), por Rodrigo Lopes, Vestígios (I), por Cristiano Moreira, e Libelo, por Jonnefer Barbosa. O número 8 do Sopro em pdf aqui.

Próximos números: O nono número debaterá os 45 anos do golpe militar-civil de 1964. Está prevista, para breve, a publicação de Os dois totalitarismos, de Slavoj Zizek (traduzido por Rodrigo Cássio), e de A independência da Argélia e a independência de Derrida, de Jean-Luc Nancy (tradução de Leonardo D'Ávila), além dos demais textos que integraram o dossiê Conocimiento de América Latina (escritos por G. Ribemont-Dessaignes, Robert Desnos e Michel Leiris) da revista Imán.

P.S.: Vai com bastante atraso, mas pra quem não leu ainda, vale a pena ler esta belíssima reportagem sobre Rudá de Andrade publicada na Piauí.

P.S.2.: No Vistos e escritos - nome delicioso por sinal -, há um belo texto sobre a relação entre religiosidade e política em Glauber Rocha. O tema é imprescindível para o debate sobre o Brasil (guardadas as devidas proporções, o marxismo profano-messiânico de Glauber faz dele uma espécie de Walter Benjamin dos trópicos).


Resenha minha de Quando todos os acidentes acontecem, de Manoel Ricardo de Lima (7Letras), publicada hoje no caderno Cultura do Diário Catarinense: aqui

P.S.: o título correto da resenha é "...nada é acidental", um complemento/contraponto ao título do livro. Por esse tipo de "intervenção" que os jornalistas dominam como ninguém, no jornal sumiu o "...".


adriano.jpg... e não é preciso nenhum olho pra ver isso. A decisão de Adriano de parar de jogar não pode ser entendida de modo simplista como sintoma de uma patologia (isso para não falar da violenta grosseria de quem vê como mimado ou covarde o Imperador - a tão progressista Soninha acaba de dizer, no Bate-Bola da ESPN, que um trabalhador comum não pode abandonar o emprego sem dar satisfação). Isto é tentar normalizar a sua atitude, sem questionar o sistema contra a qual ela é dirigida. Adriano não deixa de jogar futebol. Ele continua jogando ao não jogar, driblando o rapto que capturara toda a sua potencialidade. É preciso tomar as suas declarações a sério e literalmente: a indústria do futebol seqüestrou o que lhe prometera, a felicidade. Só os verdadeiros jogadores podem parar de jogar e nisso manter toda a sua potência de jogar: "Só uma potência que tanto pode a potência como a impotência é, então, a potência suprema. (...) Face à habilidade, que simplesmente nega e abandona a própria potência de não tocar [jogar], a maestria conserva e exerce no ato não a sua potência de tocar [jogar] (é esta a posição da ironia, que afirma a superioridade da potência positiva sobre o ato), mas a de não tocar [jogar]" (G. Agamben). O gesto de Adriano (não importa que inconscientemente) de preferir não continuar a jogar é uma tentativa crítica de sustar a maníaca e incessante conversão de sua maestria em espetáculo ordenado, de acertar as contas com a sua própria potência de jogar (de lidar com o acaso, espaço, por excelência, da ética) - i.e., de tornar possível o acontecimento, sempre casual, da felicidade.

"Em resposta à lei antifumo de Serra, preciso achar a camiseta que comprei anos atrás e trazia uma caveira com cigarro e os dizeres: `O cigarro adverte: o governo faz mal à saúde´. Grande verdade, porque nada aumenta tanto a pressão sanguínea quanto pagar impostos escorchantes, que, no limite, serão usados para pagar empregadas domésticas de parlamentares."

(Simone Montgomery Troula, em carta à FSP, 09/04/2009. O Balaio do Kotscho faz uma boa análise tanto da carta quanto da lei). 


Sopro 7

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O SOPRO número 7 já está no ar, com "A poesia e a sua sombra", do filósofo italiano Franco Rella, e o verbete "Página em branco", do amigo Victor da Rosa. Além disso, o site do SOPRO está de cara nova.

Os sites Derrida en castellano e Heidegger en castellano, grande instrumento (fruto do trabalho do professor argentino Horácio Potel) de divulgação dos dois pensadores, foram retirados do ar por decisão judicial (Ler a respeito aqui e aqui). 

Todavia, os textos que estavam no site foram capturados pela Wayback Machine e o Catatau fez o favor de organizar um índice, tanto dos textos de Derrida, quanto dos de Heidegger

(Atualização 1: uma pasta em formato .zip com os arquivos dos dois sites para download
Basta clicar no link, ir para baixo na página e escolher Download gratuito (talvez seja necessário esperar alguns segundos). Na janela seguinte, cliquem em Download this file, escolha onde salvar a pasta e pronto, basta esperar - pode demorar um pouco, a pasta .zip tem 22mega de tamanho

Atualização 2: o Cultura Libre informa que há versões mais atualizadas dos sites que as acima; aí vão os links: Derrida - http://www.4shared.com/file/92553002/bdbc5876/elias.html ; Heidegger - http://www.4shared.com/file/92533683/89af6bfa/marrano.html ).

O tiro deve sair pela culatra, e os textos devem acabar circulando mais do que nunca. Pra variar, teremos "somente" a produção de um bode expiatório. Mesmo que desse certo, o impedimento da circulação dos textos tenderia a ser contra-producente, já que os sites eram uma porta de entrada, um mostruário dos dois pensadores.

Outro site interessante é o Fark Yaraları, com inúmeros textos de vários autores (Agamben, Deleuze, Badiou, etc.) em inglês - basta escolher o autor no menu à esquerda (devo a informação ao átrio do invisível).



"esse seu jornal não pode chamar a ditadura de ditabranda, viu? Não pode, não. Você não sabe o que é a quantidade de secreção que sai de um ser humano quando ele apanha e é torturado. Porque essa quantidade de líquidos que nós temos, o sangue, a urina e as fezes aparecem na sua forma mais humana. Não dá para chamar isso de ditabranda, não."

Dilma Rousseff, em entrevista a Folha de S. Paulo, 05 de abril de 2009. As respostas da ministra são sensacionais e de uma lucidez absurda. Questionada pela repórter sobre a declaração de um antigo algoz da ditadura de que talvez votaria nela para presidente - eleições, o tema preferido (ou único) da FSP -, Dilma vai nos dedos: "Minha querida, pelo amor de Deus. A vida é um pouquinho mais complicada que isso." Link para a entrevista (só para assinantes).



acefala.gifCrítica Acéfala
Raúl Antelo

Editora: Grumo (Coleção Materiales)
Ano: 2008

(Resenha publicada no primeiro número do SOPRO)

"La Historia es mera exterioridad de la ficción". Tal sentença, verdadeiro "objecto gritante" que encontramos em Crítica Acéfala recapitula - no duplo sentido de cumprimento e abolição - o percurso crítico de seu autor, Raúl Antelo. A frase, integrante do ensaio voltado às transformações do capitalismo (a passagem da concorrência ao monopólio, da empresa ao cassino, do emprego ao jogo, em suma, da indústria ao espetáculo) através da análise de A cartomante, de Machado de Assis, e duas de suas "traduções", a de Jorge Luis Borges para a Revista Multicolor de los Sábados, e a de Clarice Lispector n'A hora da estrela, sentencia não o fim da história, mas o seu caráter aleatório. Não há mais Destino. Ou melhor, ele não pode ser previsto pelo gesto de leitura (das cartas, mas também dos indicadores econômicos). Não foi à toa, portanto, que, ao tentar definir o dinheiro, o jovem Marx tenha feito uso de uma formulação que parece conceituar a ficção, ou a linguagem: "O dinheiro - enquanto exterior, não oriundo do homem enquanto homem, nem da sociedade humana enquanto sociedade - faz da representação efetividade e da efetividade uma pura representação, transforma igualmente as forças essenciais humanas efetivas e naturais em puras representações abstratas e, por isso, em imperfeições, angustiantes fantasias, assim como, por outro lado, transforma as efetivas imperfeições e fantasias, as suas forças essenciais realmente impotentes que só existem na imaginação do indivíduo, em forças essenciais efetivas e efetiva capacidade". O dinheiro, enquanto linguagem objetificada, apresenta-se como pura exterioridade.  É no mesmo sentido que podemos ler os espólios do célebre debate no cenário jurídico do século XIX, entre Ihering e Savigny sobre a natureza do instituto jurídico da posse. Se houve um vitorioso neste jogo agonístico, já que a maioria das legislações adotou a concepção do primeiro, tudo se complica quando atentamos ao objeto em disputa: o lugar onde um fato vira direito (ou seja, onde uma coisa se torna um objeto, onde a ficção toca a história). Ihering definia a posse justamente como a "exterioridade, a visibilidade da propriedade", mas a proibição jurídica de argüir questões de propriedade em ações possessórias, bem como a hercúlea, incessante, mas infrutífera, tentativa dos juristas de isolarem as pseudo-posses (ficta possessio, posse indireta, etc.), revela que é possível que a exterioridade não seja uma exteriorização, que o fora independa do dentro, que haja um apossamento que não seja posse, a nuda  detentio, assim como há vida nua sem forma de vida, como há dinheiro sem valor, como há história sem ficção. É este o campo que Lacan chamou  de Real. Neste sentido, a crítica não pode declarar falência, como quer certa matriz de pensamento brasi-frankfurt-kantiana; ela é, desde sempre, infalível (ainda que perca a cabeça), pois não visa julgar a adequação de comportamentos a normas de valor, mas desativar estas normas que vigem sem valorar, como pura força. Isto não significa que a crítica passe a girar em falso, que ela se converta, para usar as palavras de Araripe Jr. na sua invectiva contra o hermetismo de seguidores de Mallarmé (e, avant la lettre, contra certo pensamento ingênuo-desconstrucionista), em "niilismo literário" (cujas conseqüências máximas seriam a "verbolisia" e o "estilismo agudo"  - "um estilo que persegue um assunto"), a idéia - que teria tomado conta, por exemplo, de Raúl Pompéia - de "que toda a tradução do pensamento humano era uma queda satânica, um suplício de Prometeu, e que, neste caso, mais valia impedir que esse poema se cristalizasse no bico da pena do compositor". Se há história sem ficção, se há literatura sem sociedade, a crítica não só não pode se limitar a relacionar as duas esferas, como não pode cair no perigo oposto, ainda que conjugado ao primeiro, o de separá-las, o de valorizar (e praticar) o mero delírio. A tarefa continua sendo aquela apontada por Guy Debord no Relatório que apresentou quando da fundação da Internacional Situacionista de Cosio d'Arroscia, em 1957: "É preciso (...) racionalizar mais o mundo, primeira condição para torná-lo apaixonado". É neste contexto que se deve compreender a erudição e o cuidado filológico, sempre apontados como marcantes nas análises de Antelo, e que continuam presentes neste novo livro, publicado pela coleção Materiales da Editora Grumo, e que reúne parte da sua vastíssima produção mais recente. Não se trata de esforço historicista, nem seu oposto - o diferimento infinito. Antes, o resultado parece ser o saber daquele "jagunço civilisado", descrito por Araripe Jr. em carta a Euclides da Cunha, que, "de posse da eletricidade, terá sobre o extrangeiro a vantagem de conhecer não só os caminhos secretos da vida interior, mas tambem de saber que são de pedra os monstros, que fazem esgares das torres da velha cathedral e não obstante assustam os desprecavidos que ali penetram". Trata-se, nas palavras do próprio Antelo, de "ruptura imanente". Se, de fato, como argumenta Deleuze, o conceito é o momento poético do pensamento e, como quer Agamben, os dispositivos são formas de capturar a vida, máquinas de produção de subjetividade, a noção poética de "ruptura imanente" visa, no corpo-a-corpo com a história e a ficção, liberar a potência Comum a ambas - e isto quer dizer: desativar a relação que separa, articulando interioridade e exterioridade. Não é por acaso que esta noção tenha sido apresentada por Antelo no contexto de uma dupla refutação, que é também uma dupla aceitação: tanto da tática "desconstrucionista", quanto da "marxista" (e o caráter aleatório desta oposição é muito bem traçada em um dos ensaios que compõem Crítica Acéfala, com a alternância de posições entre os dois lados da polêmica), tanto do "entre-lugar" quanto das "idéias fora do lugar" (e, de fato, a "ruptura imamente" é, ao lado destes dois conceitos, provavelmente o mais criativo e elucidativo no cenário da crítica brasileira das últimas décadas), tanto da antropofagia quanto da antropoemia, os dois "tipos ideais" entrevistos por Lévi-Strauss em Tristes Trópicos. Pois já não se trata de optar por um ou outro, já que o pluralismo gueto-globalizante articula ambas estas "políticas canibais", cristalizando o que poderíamos chamar de abertura limitada ao Outro. Como definiu Debord, "O espetáculo reúne o separado, mas o reúne como separado". Por sua vez, a "ruptura (antropofágica) imanente (antropoemética)" propõe devorar aquilo que se costuma vomitar e vomitar o que se deveria devorar: se o limiar antropofágico "assinala o penúltimo, algo que estando prestes a se encerrar, torna-se a abrir incessantemente" e o limite antropoemético "imagina encontrar um termo de fixação e controle do diferendo", o horizonte de universalidade proposto se constrói pela desconstrução e apropriação "desse limite institucional para torná-lo um limiar  perspectivo a partir do qual se realiza a crítica retrospectiva de toda situação liminar". Observe-se a atenção dedicada ao duplo movimento da história: abertura ao futuro na conversão do limite em limiar, e rememoração do passado, pela crítica da decisão atualizadora de uma dentre muitas possibilidades históricas. Para usar outra expressão de Clarice Lispector, "saudade do futuro". O universal, o limite, deste modo, não é uma consciência relampejante das diferenças, o fim ou o Marco Zero da história, mas o que possibilita toda história, uma abertura não-originária, ainda que ontológica: "Uma tal aliança indissolúvel entre apropriação e expulsão designa, sem dúvida, a diferença ontológica como luta permanente, porém, ultrapassa esse círculo postulando que o elemento do mesmo, que é assim evocado como solo comum de todas as coisas diferentes ou inautênticas, nelas compreendidas as que se opõem entre si, nunca é uma dimensão originária, situada fora do ente, mas um traço que lhe é apenso." Ou seja, a história - a História universal da infâmia - não pode ser prevista porque ela é exterioridade de uma exterioridade (a ficção). A leitura não prevê porque não há o que ser previsto. Ou melhor, porque a linguagem não serve para prever. A história só se repete como farsa; a literatura, como paródia. Em ambos, nos encontramos diante de um novo gesto humano, de um novo gesto de linguagem. E cada novo gesto re-presenta um recomeço, um nascimento, como diria  Hannah Arendt  - e uma chance de felicidade, isto é, "aquilo que livra o homem afortunado do imbróglio dos Destinos e da rede de seu próprio destino" (Walter Benjamin). Por isso, ao tentar definir a ficção, Juan José Saer insistia que ela não era "una reivindicación de lo falso", que não era "una claudicación ante tal o cual ética de la verdad, sino la búsqueda de una un poco menos rudimentaria". Assim, diante "de la posición singular de su autor entre los imperativos de un saber objetivo y las turbulencias de la subjetividad, podemos definir de un modo global la ficción como una antropología especulativa". Dito de outro modo: a ficção investiga o gesto ético da linguagem, presente em cada ato de fala (e isto quer dizer: em cada instante histórico), pois, como argumenta Agamben em seu mais recente livro, "O elemento decisivo que confere à linguagem humana as suas virtudes peculiares não está no instrumento em si, mas na posição em que este deixa o falante, no seu predispor dentro de si uma forma vacante que o locutor deve a cada vez assumir para falar. Isto é: na relação ética que se estabelece entre o falante e sua língua. O homem é aquele vivente que, para falar, deve dizer 'eu', deve, isto é, 'apanhar a palavra', assumi-la e fazê-la própria". Vivemos em um momento histórico em que o capitalismo vídeo-financeiro objetificou a linguagem em espetáculo. Agora, não só o dinheiro replica a estrutura da linguagem - a linguagem também se tornou dinheiro. O dispositivo que permite ambas estas operações, que possibilita a relação-separação entre interno e externo, entre ficção e história, é a meta-noção de objeto.Em sua contribuição, não-publicada, para a Enciclopédia Soviética, Arte absoluta e política absoluta, Carl Einstein sustentava que "No objeto acumula-se a tradição; nele a imediaticidade é adiada, deslocada. (...) O homem está farto de objetos que o descrevem; ele experimenta uma Utopia do objeto que, sem respeito aos homens, lhes impõem o trabalho objetificado". Por isso, "A tarefa da Revolução" seria a "desrealização, destruição do objeto para a salvação dos homens." O pathos da Crítica Acéfala de Raúl Antelo se mostra quando descarregada toda a eletricidade acumulada para des-realizar o objeto autônomo: aquele habitus próprio da humanidade (o apossamento da linguagem e da história), onde, como lemos na Epístola do Vivente filho do Vigiante de Avicena, "Todos estão no deserto e não necessitam de abrigo".



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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
poetas, filósofos, censores






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