1. Há 70 anos, o totalitarismo matava Walter Benjamin. Não foi só o nazismo, mas também o estalinismo, que fechou as portas para o pensamento do "corcunda" messiânico-marxista. As Teses sobre o conceito de história, verdadeiro testamento intelectual do maior filósofo de todos os tempos, foram escritas sob o choque do pacto de não-agressão entre a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stálin.
2. Devo à leitura dos textos de Walter Benjamin a guinada crucial na minha vida intelectual, política e pessoal, algo como uma conversão que me salvou de outra conversão. Não fossem por eles, provavelmente eu seria ou um marxista que acredita no progresso da história, ou um "melancólico de esquerda" (aquele que se põe numa posição que "não está à esquerda desta ou daquela tendência, mas simplesmente à esquerda de toda e qualquer possibilidade", uma "postura à qual não corresponde mais ação política nenhuma" ). Foi Walter Benjamin também que me salvou da cômoda postura de tratar a arte como uma esfera sagrada e incontaminada, pois "não há documento de cultura que não seja ao mesmo tempo documento da barbárie".
3. Como a memória humana não funciona do mesmo modo que a memória das máquinas, por anos repeti uma frase que, para mim, resumia a visão benjamiana, e que eu atribuía ao filósofo alemão. Só recentemente me dei conta de que a frase não era dele, mas de Kautsky, de quem Benjamin a apropriou na obra-sem-autor, de puras citações, que atende pelo nome de Passagens. E o pior: descobri que a frase que eu repetia - e continuo repetindo - era uma versão deturpada da original. Na minha versão simplista, verdadeira "traição da memória", a frase dizia e ainda diz: o marxismo é a possibilidade de pensar não dogmaticamente. Nos momentos de fraqueza, ela serve como um mantra contra as conversões que sempre insistem em se insinuar.
4. Durante os anos 1930, Walter Benjamin chegou a cogitar vir lecionar literatura alemã na USP. Infelizmente, ele não veio, e os convertidos ao progresso lhe forçaram a tirar a própria vida. Todavia, como insiste Giorgio Agamben, os autores que amamos não estão mortos, mas vivem dentro de nós. Um tanto pretensiosamente, gosto de acreditar que um pouco de Benjamin ainda vive em cada linha que escrevo.
P.S.: Ano passado, publicamos no Sopro a primeira tradução ao português (realizada por Pádua Fernandes) do fragmento Mickey Mouse de Walter Benjamin. Por mínimo que seja, o texto condensa muito de sua filosofia e mostra a atualidade de seu diagnóstico: ainda hoje, "a humanidade prepara-se para sobreviver à civilização".
2. Devo à leitura dos textos de Walter Benjamin a guinada crucial na minha vida intelectual, política e pessoal, algo como uma conversão que me salvou de outra conversão. Não fossem por eles, provavelmente eu seria ou um marxista que acredita no progresso da história, ou um "melancólico de esquerda" (aquele que se põe numa posição que "não está à esquerda desta ou daquela tendência, mas simplesmente à esquerda de toda e qualquer possibilidade", uma "postura à qual não corresponde mais ação política nenhuma" ). Foi Walter Benjamin também que me salvou da cômoda postura de tratar a arte como uma esfera sagrada e incontaminada, pois "não há documento de cultura que não seja ao mesmo tempo documento da barbárie".
3. Como a memória humana não funciona do mesmo modo que a memória das máquinas, por anos repeti uma frase que, para mim, resumia a visão benjamiana, e que eu atribuía ao filósofo alemão. Só recentemente me dei conta de que a frase não era dele, mas de Kautsky, de quem Benjamin a apropriou na obra-sem-autor, de puras citações, que atende pelo nome de Passagens. E o pior: descobri que a frase que eu repetia - e continuo repetindo - era uma versão deturpada da original. Na minha versão simplista, verdadeira "traição da memória", a frase dizia e ainda diz: o marxismo é a possibilidade de pensar não dogmaticamente. Nos momentos de fraqueza, ela serve como um mantra contra as conversões que sempre insistem em se insinuar.
4. Durante os anos 1930, Walter Benjamin chegou a cogitar vir lecionar literatura alemã na USP. Infelizmente, ele não veio, e os convertidos ao progresso lhe forçaram a tirar a própria vida. Todavia, como insiste Giorgio Agamben, os autores que amamos não estão mortos, mas vivem dentro de nós. Um tanto pretensiosamente, gosto de acreditar que um pouco de Benjamin ainda vive em cada linha que escrevo.
P.S.: Ano passado, publicamos no Sopro a primeira tradução ao português (realizada por Pádua Fernandes) do fragmento Mickey Mouse de Walter Benjamin. Por mínimo que seja, o texto condensa muito de sua filosofia e mostra a atualidade de seu diagnóstico: ainda hoje, "a humanidade prepara-se para sobreviver à civilização".


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