(Inauguro, com este post, a nova seção deste blog, em
parceria com meu amigo e colega Christiano Balz, desenhista de primeira. A
idéia para esta primeira entrada da Enciclopédia partiu - isto é, foi roubada -
de uma fala de Carlito Azevedo, a quem vai dedicada).
Mercado: Bebê gigante que governa
os homens da Terra. Tem variações horríveis de humor, passando de calmo a
nervoso em
instantes. Quando seu nervosismo aflora, só é aplacado pela
ação de meia dúzia de engravatados que quebram meia dúzia de países
insignificantes, geralmente de população majoritariamente não branca, situados
no terceiro sub-solo global - o que se costuma chamar de Terceiro Mundo. A
calmaria, por sua vez, traz muitos benefícios para todos os bem-aventurados -
leia-se, as nações cultas e bem desenvolvidas, o Primeiro Mundo. Atualmente, é
objeto de culto de uma nova religião, o neoliberalismo, que tem como Dez
Mandamentos o Consenso de Washington, e como bispo representante no Brasil, o
Príncipe da Moeda, FHC, e a sua ideologia, o Petucanismo. Possui representantes
em todas as áreas, em especial na mídia, que adora divagar sobre as suas
alterações humorais e divulgar as benesses que produz. Mimado que é, quer toda
a atenção para si, e por isso não se importa em se alastrar para todos os
campos humanos, introduzindo seus métodos gerenciais no Estado, na cultura, na
resolução de conflitos sociais, e mesmo no amor. O Mercado é a verdadeira democracia, aquela que premia os mais
competentes. Não há vida fora do Mercado.
Champagne pelo Orelhudo A prisão do orelhudo Daniel Dantas, além de ser motivo de comemoração, revela uma das diferenças cruciais entre a Era FHC I, do Príncipe da Moeda, e a Era FHC II, do Sapo Barbudo: a atuação republicana da Polícia Federal. Os melhores veículos pra se entender este mafioso que fez fortuna com a privataria são o Conversa Afiada do Paulo Henrique Amorim - que se aliaria ao Diabo para derrotar DD, se estivessem no Inferno -, a Carta Capital, e a Terra Magazine, do Bob Fernandes. A grande mídia está toda nas mãos do Orelhudo, como sempre argumentam os veículos supra-citados e Luís Nassif - e como se pode ver no delicioso ranking de nervosismo feito pel'O Biscoito Fino.
Do Light ao Zero O amigo Leonardo D'Ávila, do Quarentena, escreveu um excelente post, a partir da nova "Lei Seca" pátria, sobre a passagem da sociedade Light à sociedade Zero. Este clima de assepsia, já visível na ostensividade do anti-tabagismo vigente, não é sem relação com o fascismo (vale a pena ler, neste sentido, uma coluna antiga de João Pereira Coutinho na Folha Online sobre as "patrulhas higiênicas, escrito a partir da leitura de The Nazi War on Cancer de Robert Proctor). Mercado Carlito Azevedo esteve aqui em Florianópolis duas semanas atrás. Da sua fala, gostaria de destacar a ótima sacada que teve em relação ao "nervosismo" ou o "bom humor" do Mercado: se uma catástrofe acontecesse extinguindo a humanidade e seres alienígenas viessem parar no Planeta, teriam a impressão, lendo nossos jornais, de que éramos governados por um Bebê gigante e superpoderoso, o "Mercado" que, de acordo com o seu humor, poderia acabar com o mundo. O poeta destacou também que, ao lado desta "humanização" do discurso econômico, há uma "economização" do discurso das relações humanas - "estou investindo nesta relação", por exemplo. O "Mercado" teria, assim, dominado todas as esferas humanas, causando uma despolitização nas discussões de todas as searas - na literária, o reflexo disso seria a idéia de que um bom soneto equivale a um bom poema concreto, pelo critério de "qualidade" -, uma espécie de consenso (que, fazendo uma ponte com a idéia da Sociedade Zero, é violentíssima, asséptica, uma forma de censura). E é contra este consenso que se voltaria a atividade editorial de Carlito: a Inimigo Rumor, que completa 10 anos com o seu vigésimo número, seria justamente isso: um pequeno balbucio, um murmúrio (como toda a poesia) contra o consenso.
Indicações O amigo Victor da Rosa, no seu Notícias de Três Linhas, publica, além de seus ensaios sempre muito bem escritos, posts maravilhosos e muito engraçados, como o Literatura de Morto e Três Aforismos na VAN. Vale a pena ler.
Raúl Antelo lançou, no último dia 9, em Buenos AIres, o Crítica Acéfala, pela Grumo. No lançamento, falaram Gonzalo Aguilar e Daniel Link - e o belíssimo texto deste último está reproduzido em versão curta e completa.
"Who he was who first,
without ever having gone out to the rude chase, told the wandering cavemen at
sunset how he had dragged the Megatherium from the purple darkness of its
jasper cave, or slain the Mammoth in single combat and brought back its
gilded tusks, we cannot tell, and not one of our modern anthropologists, for
all their much-boasted science, has had the ordinary courage to tell us. Whatever
was his name or race, he certainly was the true founder of social intercourse."
A recente operação de libertação
de Ingrid Betancourt (ou, ao menos, a versão oficial dela: militares se
infiltraram por um bom tempo entre as FARC e, aproveitando-se da acefalia e
falta de informação derivada da morte e prisão dos líderes - cabeças - da organização,
iludiram os guerrilheiros, dizendo estarem transferindo os reféns) é mais uma
prova do erro que há na idéia de considerar a literatura (em sentido amplo) inútil
- tese defendida não só por obreiristas de esquerda e direita, mas igualmente
por letrados da mais alta categoria. Ou melhor, uma prova dos efeitos
perniciosos que gera a inutilidade da literatura, entendida esta restritamente como
um campo autônomo - romances, contos, poesia, crônica, movimentos, em suma, o
que se aprende na escola sob a embalagem da disciplina "Literatura" (os "Clássicos",
o que se ensina nas classes). Se aceitamos como base comum da arte (fazendo uso
de uma definição grosseira, mas muito aproximada) a ficção, isto é, o (auto-)fingimento,
a (auto-) fabulação, o (auto-)mascaramento (daí a Autopsicografia muito conhecida de Pessoa: "O poeta é um
fingidor..."), teremos como conseqüência que ela não se limita aos campos
estritamente artísticos, mas dominam todas as esferas da vida cotidiana, a começar
pela política. Isto fica mais evidente na "sociedade do espetáculo" e na importância
que adquiriram os marketeiros nas campanhas eleitorais, mas é tão antigo quanto
a polis grega. Hannah Arendt, ao
comentar o "espanto" que se abateu sobre a sociedade norte-americana indignada
com as mentiras de seus dirigentes após a revelação dos "Pentagon Papers" (um
relatório-calhamaço que demonstrava que o serviço de inteligência estava bem
consciente do que se passava no Vietnã - ou seja, de que a vitória lá não só
era quase impossível, mas mesmo sem necessidade econômica ou estratégica), faz
questão de sublinhar, antes de mais nada, que o "uso da falsidade deliberada e da
mentira definitiva como meios legítimos para alcançar fins políticos estiveram
conosco desde o começo da história documentada": "Uma característica da ação
humana é que ela sempre inicia algo novo, e isto não significa que se pode começar
ab ovo, que se possa criar ex nihilo. Para abrir caminho para a ação,
algo que estava ali antes deve ser removido ou modificado. Uma tal mudança
seria impossível se não pudéssemos mentalmente nos remover de onde fisicamente
estamos localizados e imaginar que as
coisas possam também ser diferente do que elas de fato são. Em outras palavras,
a negação deliberada da verdade factual - a habilidade de mentir - e a
capacidade de mudar os fatos - a habilidade de agir - estão interconectados;
eles devem sua existência à mesma fonte: a imaginação". A grande contribuição
da análise da política grega por Arendt se centra neste ponto - para ela, a polis grega é uma espécie de espetáculo
público (que teria, na modernidade, se privatizado), regido pelo direito de ver
e ser visto pelos iguais (o Panóptico, por sua vez, cinde desigualmente esta
reciprocidade: permite ver sem ser visto, no caso dos vigias, e obriga os disciplinados
a serem vistos sem ter direito a ver quem os olha) (Maria Rita Kehl escreve sobre o assunto na coletânea - a quatro mãos com Eugênio Bucci -
Videologias). Não interessa tanto que se possa chegar a um acordo dialógico
(como a leitura habermasiana consensualista tão em voga hoje acredita) através
da fala, mas que esta se constitua enquanto agir no ato mesmo de sua manifestação
- ou seja, a fala é antes performance do que comunicação: "falar era
compreendido a priori como uma
espécie de agir. É verdade que o homem não pode proteger-se contra os golpes do
destino, contra os golpes dos deuses, mas pode opor-se a eles e retrucar-lhes
no falar e, se bem que esse retrucar não adianta nada, não mude a infelicidade
nem atraia a felicidade, essas palavras pertencem ao acontecer como tal". É
neste contexto que podemos propor ainda outra interpretação sobre o ato de
censura arquétipo para o Ocidente que é o banimento dos poetas da República de Platão (há uma tradução para o inglês disponível no Projeto Gutenberg). Se, por um lado, no
livro X, sob o argumento da efeminização que provoca a poesia, por esta se
limitar a um ponto de vista (o que pode ser remediado pelo cálculo, isto é, por
uma perspectiva asséptica - cisão que dura até hoje na prática acadêmica), ela
não deve ser admitida, a não ser na forma de hinos aos deuses e louvores aos
homens famosos, no livro III fica mais claro o que está em jogo: a poesia se
baseia na mentira e esta é um pharmakon,
uma droga (veneno-remédio) que, como tal, não deve ficar à disposição dos indivíduos
privados, mas sim dos governantes que, no trato com os inimigos, ou mesmo com
os cidadãos, podem mentir para o bem público. Carlos Astrada identificou aí a
invenção da "mentira patriótica" (link para o artigo no original em espanhol) - eu iria mais longe e diria que estamos
diante da invenção do monopólio da mentira. É o poder político que reside na
ficção - negar a realidade, imaginar outra - que está sendo seqüestrado pelo "Estado"
platônico. Que hoje o "capital-parlamentarismo" (expressão de Badiou) detenha,
nas palavras de Guy Debord, o "monopólio da aparência" é uma mera conseqüência deste
gesto inaugural. Por outro lado, que as FARC tenham nascido com um intuito
revolucionário, isto é, ficcional, e sejam enganadas por um truque barato, prova
a sua degeneração, a redução de seus integrantes a uma milícia incapaz de
literatura, adepta por demais da hierarquia, sem capacidade de identificar a
mentira (afinal, eles a deixaram ser monopilizadas pelos seus chefes). A
literatura, a ficção não é inútil. Nunca foi. Ela é, sempre, a priori, política, independente de seu
conteúdo (não se trata aqui de arte engajada ou não). Inútil é achar que só é
literatura o que se ensina nas disciplinas com este nome. Inútil é achar que
uma literatura em sentido estrito, inutilizada em seu isolamento, possa
contrapor qualquer coisa. Tal isolamento inútil coaduna com o monopólio da
mentira pelo Estado (ou pelo Capital): acostumados a vê-la em um canto específico
da biblioteca, somos incapazes de ver como ela governa o mundo.
é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura. Editor doSOPRO.
Benito Kutz comentou no post Anéis de serpente (Resenha): Nice post. I was checking constantly this blog and I'm impressed! Very helpful information specifically the last part :) I care for such info much. I was looking for this certain information for a very long time. Thank you and good luck.
Deena Buskirk comentou no post Anéis de serpente (Resenha): Hi there, just became aware of your blog through Google, and found that it is truly informative. I'm going to watch out for brussels. I'll appreciate if you continue this in future. Lots of people will be benefited from your writing. Cheers!
Comentários recentes