No dia 31 de outubro, elegemos (o povo brasileiro como um todo, pois, ao que eu saiba, nossa democracia não possui colégios eleitorais ou outros mecanismos aristocráticos que uma certa "democracia" quer espalhar à força mundo afora) a primeira presidenta desse país. Pode não ser o/a presidente dos nossos sonhos, mas é - desculpem a repetição - a primeira presidenta desse país, o que já é muito. Além disso, deixamos de eleger o presidente de nossos pesadelos, o presidente dos Bornhausen, dos ruralistas, dos escravocratas. No primeiro turno, votei na Marina Silva, e até preferia ter votado em outra/o candidata/o petista no segundo (Marta Suplicy e Tarso Genro, por exemplo). E estou ciente de que Dilma será a presidenta de alguns pseudo-Bornhausen, de ruralistas e mesmo de escravocratas (vide a aliança de Mercadante com setores canavieiros de São Paulo). O discurso da vitória de Dilma já deixou bem claro qual será a tônica e a prioridade do governo: indicadores econômicos e distribuição de renda, sendo que educação e meio-ambiente continuarão a ser semi-perfurmaria, ainda que em um eventual governo serrista se limitassem a cores de gravatas. Todavia, ontem dissemos, para usar a expressão de Brizola, um "não rotundo" ao seqüestro da cidadania que o demo-tucanismo promove, dissemos um "não rotundo" ao que há de pior no país e ao que impede a efetivação da política. No dia 31 de outubro, optamos por continuar expandindo nossa democracia. No dia 31 de outubro, votamos pra que o discurso conservador que dominou o segundo turno pudesse sofrer um efeito bumerangue. No dia 31 de outubro, elegemos Dilma para que no dia primeiro de novembro - hoje - pudessemos continuar fazendo o que devemos fazer todos os dias: criticar, pressionar, imaginar, em suma, fazer política.
Eleitoreiras
No primeiro turno, votei em Marina Silva. A votação expressiva que ela obteve mostra que o recado foi dado, quebrando a forma-plebiscito que a eleição ameaçava adquirir e colocando na mesa a necessidade de se pensar o país e de se repensar as estratégias políticas. As avaliações que surgiram no primeiro debate (a de que Plínio disputaria o terceiro lugar com ela), e que mesmo desmentidas dia após dia reapareceram ao se subestimar a chamada "onda verde", ridicularizando-a como "marola verde", são sintomáticas de uma miopia na análise política. Essa miopia continua em certa desvalorização do eleitorado da Marina, tão eclético quanto o eleitorado de Dilma (só o eleitorado do Serra é homogêneo: corresponde ao universo de pessoas que habitam o imaginário produzido pela pior revista semanal do mundo). A política funciona assim mesmo: um significante (no caso, Marina ou Dilma) agrupa em torno de si demandas diferentes, através da produção de uma cadeia equivalencial (isto é, unindo-as em uma base ou discurso mais ou menos comum). Basta, reorganizando a cadeira equivalencial, conseguir um quarto desse eleitorado eclético da Marina pra liquidar a fatura no segundo turno. Eu estou nessa fatia.
Na minha declaração de voto à Marina, já estava sinalizado que eu votaria em Dilma no segundo turno: meu post se abre com um balanço das conquistas do governo Lula (as quais eu considerava motivo suficiente para os que votariam em Dilma já no primeiro turno). Não há nenhuma linha sobre o Serra. Jamais votaria naquele que quer fazer voltar, nas palavras certeiras de Plínio, o governo do "pessoal que tem nome e sobrenome" sobre os "que não têm nome". Não voltar ao regime político-econômico tucano que sequestra a cidadania, como o regime militar antes sequestrava os corpos, é motivo mais do que suficiente para mim votar em Dilma no dia 31 de outubro.
Na minha declaração de voto à Marina, já estava sinalizado que eu votaria em Dilma no segundo turno: meu post se abre com um balanço das conquistas do governo Lula (as quais eu considerava motivo suficiente para os que votariam em Dilma já no primeiro turno). Não há nenhuma linha sobre o Serra. Jamais votaria naquele que quer fazer voltar, nas palavras certeiras de Plínio, o governo do "pessoal que tem nome e sobrenome" sobre os "que não têm nome". Não voltar ao regime político-econômico tucano que sequestra a cidadania, como o regime militar antes sequestrava os corpos, é motivo mais do que suficiente para mim votar em Dilma no dia 31 de outubro.
Quando Lula venceu as eleições de 2002, parecia que, passados longo quarenta anos de tecnocracia militar e civil, a imaginação chegava ao poder. As forças vivas da sociedade ameaçavam tornar-se de fato vivas, e, apesar da Carta ao Povo Brasileiro (de certo modo uma capitulação), a esperança de pensar o país vencia o medo de fazê-lo, o conforto de seguir a cartilha neoliberal. Era a própria política, as próprias instituições que estavam a ponto de saírem da inércia em que os militares a haviam adormecido. Uma verdadeira revolução democrática se desenhava. A turma de Plínio apresentava um audacioso programa de reforma agrária; o esporte, até então tratado pela lógica do espetáculo, iria se converter em ferramenta de inclusão social, por intermédio de um plano bolado por gente da estirpe de Juca Kfouri; Marina Silva, no Fórum Social Mundial de 2003, falava na transversalidade da política ambiental, em que a preocupação pela sustentabilidade não ficaria restrita a um ministério, mas faria parte do planejamento econômico e social; criava-se o chamado Conselhão, composto de representantes de toda a sociedade (empresários, sindicalistas, gente das Igrejas, dos órgãos de classe, dos movimentos sociais), que pensaria o novo "pacto social" e daria as bases para as reformas política e tributária; a necessidade de acabar com a perversa mazela da fome se cristalizava na adesão total da sociedade ao Fome Zero. À mera gestão da ordem, a eleição de Lula, e do PT, contrapunha o retorno da política.
Por uma série de motivos, esse movimento de pensar o país, de refundar as instituições, de realinhar historicamente o Brasil foi arrefecendo. No primeiro ano de mandato, o governo optou (ou necessitou) por não aproveitar a "Onda Lula" e fazer as reformas que dariam as bases para essas transformações, preferindo (ou tendo que) evitar a crise econômica gestada pelo neoliberalismo tucano. Pouco a pouco, as mudanças de base institucionais foram dando lugar à conciliações em que se perdia mais do que se ganhava - o Conselhão foi perdendo sua força, a reforma agrária não pautou a política agrícola, bem como a preocupação ambiental voltou a ser um mero entrave ao desenvolvimento econômico (os dois maiores erros do governo, a meu ver), os mesmos "comunistas" que lideraram a CPI contra a CBF, alçados ao poder tornaram-se aliados dela. O fim simbólico desse momento transformador foi o chamado mensalão. A partir dele, Lula se descolou do PT, e o governo adotou a postura desenvolvimentista que Dilma encarna tão bem. Nesse movimento, o PT deixou de ser o partido que aglutinava simbolicamente os setores que pensavam o país para se tornar a brigada da transformação econômica e social promovida por Lula. Essa mudança, porém, trouxe inúmeros benefícios, como o fortalecimento do consumo interno, uma ascensão social nunca antes vista nesse país (com a política de valorização do salário mínimo, com a conversão do Fome Zero em Bolsa Família, etc.), com o reaparalhamento das universidades federais, com a política externa ativa adotada, etc. Todos esses seriam motivos suficientes pra votar em Dilma. Todavia, eu quero mais.
Os ganhos inegáveis do governo Lula, talvez o melhor da história do país na questão social e um dos melhores da questão econômica, provavelmente possibilitaram a base objetiva para a transformação política e institucional que o país tanto precisa. É provável que só agora - e não em 2002 - se possa, de fato, colocar a imaginação no poder, e pensar os rumos que queremos dar, para evitar que a diversidade social e ambiental se converta em homogenia. Acredito, com Viveiros de Castro, que Marina Silva simbolize essa diversidade e a necessidade de pensá-la estrategicamente como pólo norteador de nossa política. Confesso que quando no começo da campanha Marina decidiu pautar a sua plataforma na educação, e não na necessidade de rever o modelo produtivo e de consumo, ainda devastatórios e concentracionários, fiquei decepcionado. Aos poucos, porém, vi que o discurso de Marina sobre a educação encarnava a aliança entre o sonho e a possibilidade de que fala Viveiros de Castro: investir 7% do PIB em educação, fomentar pesadamente (e não só com meia dúzia de editais do CNPq) pesquisas ligadas à tecnologia verde, apoiar de verdade iniciativas de conversão da nossa matriz energética, tudo isso aponta para uma mudança estratégica do papel do nosso país. A partir de investimentos estratégicos em educação é possível ao mesmo tempo colocar o pensamento na agenda política e mudar os rumos sócio-econômicos de nosso "desenvolvimento".
Considero que Lula mudou os parâmetros da gestão econômica e social a que o governo foi reduzido na segunda metade do século XX. Todavia, acredito que é preciso mais do que apenas gerir o Brasil, é preciso repensar as bases da gestão, é preciso uma mudança política, de olhar. Precisamos passar da economia (a administração da casa) à ecologia (o pensar sobre a casa) e é isso que o socioambientalismo encampado por Marina Silva, herdeira de Chico Mendes, põe na ordem do dia: não se trata apenas de preservar as "reservas ecólogicas", mas de pensar "o próprio problema da possibilidade material de existência do mundo". O modelo capitalista não provoca apenas uma cisão entre proprietários e proletários; na sua base está uma concepção progressista mais difundida na inesgotabilidade das condições materiais de existência da Terra (concepção partilhada pelo socialismo real e pelo desenvolvimentismo nacionalista). O tempo urge. É preciso unir a crítica ao capitalismo à crítica ao progresso infinito.
Guy Debord, em O planeta doente, argumentava que o problema ambiental, já grave em 1972, fazia com que o lema "A revolução ou a morte" deixasse de ser "a expressão lírica da consciência revoltada", para se tornar a única verdade política: "Nesta sociedade em que o suicídio progride como se sabe, os especialistas tiveram que reconhecer, com um certo despeito, que ele caíra a quase nada em maio de 1968. Essa primavera obteve assim, sem precisamente subi-lo em assalto, um bom céu, porque alguns carros queimaram e porque a todos os outros faltou combustível para poluir. Quando chove, quando há nuvens sobre Paris, não esqueçam nunca que isso é responsabilidade do governo. A produção industrial alienada faz chover. A revolução faz o bom tempo." É evidente que Marina Silva está longe da revolução de que falava Debord. Mas é provável que esteja mais próxima dela do que os outros candidatos. Ao menos, porém, nos faz pensar na sua necessidade. Verde por fora, vermelho por dentro, ou vermelho por fora e verde por dentro - tanto faz, o que importa é a indissociabilidade de ambos, o fato de que um não pode existir sem o outro. Essa é a mensagem de Marina Silva, e é por isso que, depois de votar por 10 anos no PT, votarei nela, ainda mais esperançoso do que votei em Lula em 2002.
Por uma série de motivos, esse movimento de pensar o país, de refundar as instituições, de realinhar historicamente o Brasil foi arrefecendo. No primeiro ano de mandato, o governo optou (ou necessitou) por não aproveitar a "Onda Lula" e fazer as reformas que dariam as bases para essas transformações, preferindo (ou tendo que) evitar a crise econômica gestada pelo neoliberalismo tucano. Pouco a pouco, as mudanças de base institucionais foram dando lugar à conciliações em que se perdia mais do que se ganhava - o Conselhão foi perdendo sua força, a reforma agrária não pautou a política agrícola, bem como a preocupação ambiental voltou a ser um mero entrave ao desenvolvimento econômico (os dois maiores erros do governo, a meu ver), os mesmos "comunistas" que lideraram a CPI contra a CBF, alçados ao poder tornaram-se aliados dela. O fim simbólico desse momento transformador foi o chamado mensalão. A partir dele, Lula se descolou do PT, e o governo adotou a postura desenvolvimentista que Dilma encarna tão bem. Nesse movimento, o PT deixou de ser o partido que aglutinava simbolicamente os setores que pensavam o país para se tornar a brigada da transformação econômica e social promovida por Lula. Essa mudança, porém, trouxe inúmeros benefícios, como o fortalecimento do consumo interno, uma ascensão social nunca antes vista nesse país (com a política de valorização do salário mínimo, com a conversão do Fome Zero em Bolsa Família, etc.), com o reaparalhamento das universidades federais, com a política externa ativa adotada, etc. Todos esses seriam motivos suficientes pra votar em Dilma. Todavia, eu quero mais.
Os ganhos inegáveis do governo Lula, talvez o melhor da história do país na questão social e um dos melhores da questão econômica, provavelmente possibilitaram a base objetiva para a transformação política e institucional que o país tanto precisa. É provável que só agora - e não em 2002 - se possa, de fato, colocar a imaginação no poder, e pensar os rumos que queremos dar, para evitar que a diversidade social e ambiental se converta em homogenia. Acredito, com Viveiros de Castro, que Marina Silva simbolize essa diversidade e a necessidade de pensá-la estrategicamente como pólo norteador de nossa política. Confesso que quando no começo da campanha Marina decidiu pautar a sua plataforma na educação, e não na necessidade de rever o modelo produtivo e de consumo, ainda devastatórios e concentracionários, fiquei decepcionado. Aos poucos, porém, vi que o discurso de Marina sobre a educação encarnava a aliança entre o sonho e a possibilidade de que fala Viveiros de Castro: investir 7% do PIB em educação, fomentar pesadamente (e não só com meia dúzia de editais do CNPq) pesquisas ligadas à tecnologia verde, apoiar de verdade iniciativas de conversão da nossa matriz energética, tudo isso aponta para uma mudança estratégica do papel do nosso país. A partir de investimentos estratégicos em educação é possível ao mesmo tempo colocar o pensamento na agenda política e mudar os rumos sócio-econômicos de nosso "desenvolvimento".
Considero que Lula mudou os parâmetros da gestão econômica e social a que o governo foi reduzido na segunda metade do século XX. Todavia, acredito que é preciso mais do que apenas gerir o Brasil, é preciso repensar as bases da gestão, é preciso uma mudança política, de olhar. Precisamos passar da economia (a administração da casa) à ecologia (o pensar sobre a casa) e é isso que o socioambientalismo encampado por Marina Silva, herdeira de Chico Mendes, põe na ordem do dia: não se trata apenas de preservar as "reservas ecólogicas", mas de pensar "o próprio problema da possibilidade material de existência do mundo". O modelo capitalista não provoca apenas uma cisão entre proprietários e proletários; na sua base está uma concepção progressista mais difundida na inesgotabilidade das condições materiais de existência da Terra (concepção partilhada pelo socialismo real e pelo desenvolvimentismo nacionalista). O tempo urge. É preciso unir a crítica ao capitalismo à crítica ao progresso infinito.
Guy Debord, em O planeta doente, argumentava que o problema ambiental, já grave em 1972, fazia com que o lema "A revolução ou a morte" deixasse de ser "a expressão lírica da consciência revoltada", para se tornar a única verdade política: "Nesta sociedade em que o suicídio progride como se sabe, os especialistas tiveram que reconhecer, com um certo despeito, que ele caíra a quase nada em maio de 1968. Essa primavera obteve assim, sem precisamente subi-lo em assalto, um bom céu, porque alguns carros queimaram e porque a todos os outros faltou combustível para poluir. Quando chove, quando há nuvens sobre Paris, não esqueçam nunca que isso é responsabilidade do governo. A produção industrial alienada faz chover. A revolução faz o bom tempo." É evidente que Marina Silva está longe da revolução de que falava Debord. Mas é provável que esteja mais próxima dela do que os outros candidatos. Ao menos, porém, nos faz pensar na sua necessidade. Verde por fora, vermelho por dentro, ou vermelho por fora e verde por dentro - tanto faz, o que importa é a indissociabilidade de ambos, o fato de que um não pode existir sem o outro. Essa é a mensagem de Marina Silva, e é por isso que, depois de votar por 10 anos no PT, votarei nela, ainda mais esperançoso do que votei em Lula em 2002.
No final do post anterior, eu tentei ressaltar o funcionamento de armadilha que a linguagem pode adquirir no terreno do debate: definir os termos de uma discussão é ganhá-la de antemão - a surra histórica que Dilma deu em Agripino Maia no Senado se explica um tanto por isso: o demo-arenista levou o debate pra relação entre democracia e ditadura, e aí levou pau. Defender, mesmo que veladamente, a tortura, é algo que só as "raposas políticas" do PFL são capazes de achar que funciona.
O #DilmaFactsbyFolha (aos que não acompanharam, este post do Idelber explica o que foi o movimento) correu esse risco de dar munição ao "inimigo", usando a linguagem que ele queria. Em "essência", o #DilmaFactsbyFolha não visava apoiar Dilma, mas apontar a desmoralização da Folha de S. Paulo, mostrando o quão longe - às raias do absurdo, ou além dele - o jornal era capaz de ir para tentar derrubar aquele que não é seu candidato. Eleitores do Plínio, da Marina, eleitores não muito entusiasmados da Dilma participaram do "movimento", que não era expressão de uma estratégia organizada de campanha, tudo que a Folha queria que fosse pra poder desmoralizar o movimento, e taxá-lo de obra de "zumbis petistas incitados por lideranças". Pois bem, e não é que alguma grande "inteligência" ligada ao PT decidiu dar isso de bandeja? O responsável pelo twitter @ptnacional incitava as pessoas a usarem a tag #ondavermelha em todos os tweets relacionados ao #DilmaFactsbyFolha. Além disso, o sujeito se apropriava de tweets alheios sem dar crédito, como se ele (o @ptnacional, que não é um twitter oficial do partido, mas dá a impressão de que seja) fosse o autor, como se o #DilmaFactsbyFolha fosse estratégia de campanha. Por sorte, a força do movimento foi mais forte do que a tentativa (contraproducente) de apropriação, a ponto de ser o assunto da coluna de hoje do Ombudsman da Folha de S. Paulo. Mas é uma pena que se tenha dado margem para que o movimento fosse mitigado:
O #DilmaFactsbyFolha (aos que não acompanharam, este post do Idelber explica o que foi o movimento) correu esse risco de dar munição ao "inimigo", usando a linguagem que ele queria. Em "essência", o #DilmaFactsbyFolha não visava apoiar Dilma, mas apontar a desmoralização da Folha de S. Paulo, mostrando o quão longe - às raias do absurdo, ou além dele - o jornal era capaz de ir para tentar derrubar aquele que não é seu candidato. Eleitores do Plínio, da Marina, eleitores não muito entusiasmados da Dilma participaram do "movimento", que não era expressão de uma estratégia organizada de campanha, tudo que a Folha queria que fosse pra poder desmoralizar o movimento, e taxá-lo de obra de "zumbis petistas incitados por lideranças". Pois bem, e não é que alguma grande "inteligência" ligada ao PT decidiu dar isso de bandeja? O responsável pelo twitter @ptnacional incitava as pessoas a usarem a tag #ondavermelha em todos os tweets relacionados ao #DilmaFactsbyFolha. Além disso, o sujeito se apropriava de tweets alheios sem dar crédito, como se ele (o @ptnacional, que não é um twitter oficial do partido, mas dá a impressão de que seja) fosse o autor, como se o #DilmaFactsbyFolha fosse estratégia de campanha. Por sorte, a força do movimento foi mais forte do que a tentativa (contraproducente) de apropriação, a ponto de ser o assunto da coluna de hoje do Ombudsman da Folha de S. Paulo. Mas é uma pena que se tenha dado margem para que o movimento fosse mitigado:
"O movimento batizado de #Dilmafactsbyfolha virou um dos assuntos mais populares ("trending topics") do Twitter em todo o mundo, impulsionado, em parte, pela militância política -segundo levantamento da Bites, empresa de consultoria de planejamento estratégico em redes sociais, 11 mil tuítes usaram um #ondavermelha, respondendo a um chamamento da campanha do PT na rede. Até o candidato a governador Aloizio Mercadante elogiou quem engrossou o coro contra o jornal.
Mas é um erro pensar que apenas zumbis petistas incitados por lideranças botaram fogo no Twitter. O partido não chegou a esse nível de competência computacional.
Na manada anti-Folha, havia muito leitor indignado, gente que não queria perder a piada, além de velhos ressentidos com o jornal."
Já que tem cientista político fazendo ficção por aí, não estaria na hora do pessoal da teoria literária, ou da análise do discurso, olhar de mais perto o blá-blá-blá eleitoral?
A primeira missão seria determinar se o eleitorado quer "renovação" ou "experiência". Vendo o horário político gratuito não dá pra entender direito. Um candidato a deputado quase grita "chega dos mesmos!", e o candidato seguinte, da mesma coligação, elenca suas realizações durante seus 16 anos de mandato. Isso cria um cenário esquisito, não só pela esquizofrenia, mas pelo fato de que o eleitor que votar querendo renovação ajuda a eleger a experiência - ou a "mesmice". Por falar nisso, tem um carro de som que passa aqui perto de casa todo dia reproduzindo o jingle da campanha de um candidato a deputado. O final da musiquinha é algo como "Fulano de tal 66666, o meu voto é só dele". Trata-se de uma falácia - e não só porque eu jamais votaria nesse Fulano, e se tivesse pensado em votar, teria desistido pela incomodação que é o carro de som. Pois o voto no Fulano não é só dele (pra ele), mas de toda a coligação. Esses dias a Folha fez uma "matéria" dizendo que os votos em Tiririca poderiam eleger outros deputados do seu partido, e mesmo do PT, com quem estão coligados (confere?). A recíproca é verdadeira: o voto a um dos muitos bons candidatos petistas a deputado em São Paulo pode ajudar a eleger o Tiririca; o voto mais "consciente" pode ser também um voto que naquele que representa o "grau zero do discurso eleitoral".
Ontem, li um tweet assim: "Aos tucanos que acusam @dilmabr de fugir. RT @ptbrasil: Dilma e Serra se enfrentam em debate Folha/RedeTV! neste domingo" (copiei o tweet, mas perdi o nome de seu autor). O curioso é que, ao defender a Dilma, o tweet acaba dando razão a quem a chamava de fujona por não ter ido no debate da Gazeta, porque a premissa é a mesma tanto para os "tucanos" que o tweet ataca, quanto para o autor do tweet: não ir ao debate é fugir. Como ela vai no debate da RedeTV!, os tucanos não podem acusar ela de fugir - essa é a conseqüência expressa da premissa. Como Dilma não foi ao debate da Gazeta, ela "fugiu" - essa é a conseqüência implícita da premissa. Não estou querendo aqui discutir se ela deve ou não ir aos debates - que perderam sua razão de ser, na medida em que o que aparece de fato nos debates não são partidos ou candidatos, mas quem as realiza e os mediadores dos candidatos (marqueteiros, assessores, toda essa parafernália viva). Só estou apontando para o fato de que o jogo político se joga, antes de tudo, na linguagem. Deixar o inimigo dominá-la equivale a perder mesmo ganhando.
A primeira missão seria determinar se o eleitorado quer "renovação" ou "experiência". Vendo o horário político gratuito não dá pra entender direito. Um candidato a deputado quase grita "chega dos mesmos!", e o candidato seguinte, da mesma coligação, elenca suas realizações durante seus 16 anos de mandato. Isso cria um cenário esquisito, não só pela esquizofrenia, mas pelo fato de que o eleitor que votar querendo renovação ajuda a eleger a experiência - ou a "mesmice". Por falar nisso, tem um carro de som que passa aqui perto de casa todo dia reproduzindo o jingle da campanha de um candidato a deputado. O final da musiquinha é algo como "Fulano de tal 66666, o meu voto é só dele". Trata-se de uma falácia - e não só porque eu jamais votaria nesse Fulano, e se tivesse pensado em votar, teria desistido pela incomodação que é o carro de som. Pois o voto no Fulano não é só dele (pra ele), mas de toda a coligação. Esses dias a Folha fez uma "matéria" dizendo que os votos em Tiririca poderiam eleger outros deputados do seu partido, e mesmo do PT, com quem estão coligados (confere?). A recíproca é verdadeira: o voto a um dos muitos bons candidatos petistas a deputado em São Paulo pode ajudar a eleger o Tiririca; o voto mais "consciente" pode ser também um voto que naquele que representa o "grau zero do discurso eleitoral".
Ontem, li um tweet assim: "Aos tucanos que acusam @dilmabr de fugir. RT @ptbrasil: Dilma e Serra se enfrentam em debate Folha/RedeTV! neste domingo" (copiei o tweet, mas perdi o nome de seu autor). O curioso é que, ao defender a Dilma, o tweet acaba dando razão a quem a chamava de fujona por não ter ido no debate da Gazeta, porque a premissa é a mesma tanto para os "tucanos" que o tweet ataca, quanto para o autor do tweet: não ir ao debate é fugir. Como ela vai no debate da RedeTV!, os tucanos não podem acusar ela de fugir - essa é a conseqüência expressa da premissa. Como Dilma não foi ao debate da Gazeta, ela "fugiu" - essa é a conseqüência implícita da premissa. Não estou querendo aqui discutir se ela deve ou não ir aos debates - que perderam sua razão de ser, na medida em que o que aparece de fato nos debates não são partidos ou candidatos, mas quem as realiza e os mediadores dos candidatos (marqueteiros, assessores, toda essa parafernália viva). Só estou apontando para o fato de que o jogo político se joga, antes de tudo, na linguagem. Deixar o inimigo dominá-la equivale a perder mesmo ganhando.


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