Parece que foi ontem, mas já se vão quase 10 anos desde que eu, um jovem estudante de Direito, sem muita vergonha na cara, decidi escrever um email a Augusto de Campos, que hoje completa 80. Sem demora, ele me respondeu, em uma longa e atenciosa mensagem. Não contente, escrevi a ele novamente pra relatar uma discussão que eu tivera com um amigo sobre cultura nacional! À época, eu era um cabeça quadrada apaixonado pela idéia de poesia de exportação e comprava tudo que os Concretos haviam dito de si nos anos 1950 e 1960, aquela espécie de nacional-cosmopolitismo que eles pregavam e praticavam. Eu havia tomado contado com o plano-piloto para poesia concreta no final do ensino médio, através de um professor de literatura (a quem dediquei minha dissertação de mestrado), que possuía um peculiar método de dar aula: tirando uma ou outra aula "padrão", em geral, ele dava a nós alunos um texto literário pra ler (Baudelaire, Cruz e Sousa, Voltaire, etc.) e pedia que comentássemos por escrito o texto - e o comentário não era avaliado, bastava fazê-lo. O plano-piloto me marcou. Quando ingressei no curso de graduação em Direito, o primeiro livro que peguei emprestado na biblioteca da universidade foi o poesia, antipoesia, antropofagia, do Augusto de Campos. Ali, me deparei com o texto "Revistas re-vistas", sobre a Revista de Antropofagia (o texto está incluído na versão facsimilar da mais grandiosa de nossas revistas político-culturais - e é preciso lembrar que os Concretos foram essenciais no resgate de Oswald de Andrade a partir dos anos 1950 - de 1930 até então, o antropófago era, quando muito, uma figura menor no panteão literário-cultural), e com duas idéias que não me abandonaram até hoje: 1) a de que a Antropofagia era a única filosofia brasileira original e; 2) a de que a Antropofagia produzira também um "Direito Antropofágico": a "teoria da posse contra a propriedade". Augusto de Campos já tinha seu site no UOL (e muitos de seus trabalhos já estavam disponíveis no UBUWeb), onde, creio, consegui seu endereço de email para escrever-lhe revelando toda minha admiração e a inspiração que as duas idéias me davam, etc. e tal. O carinho e a vitalidade de sua resposta foram fundamentais para que elas jamais morressem em mim. Meu primeiro trabalho universitário foi justamente uma tentativa de descrever as bases do que seria o sistema filosófico da Antropofagia - o trabalho era uma merda, sem dúvida, mas era, também sem dúvida, uma merda superior a dos outros colegas, ainda que, em um gesto revelador da tacanhez acadêmica, o professor da disciplina (Introdução à Filosofia), que se gabava de não ensinar história da filosofia, e de querer ensinar os alunos a pensarem, me conferiu uma das notas mais baixas (anos depois, um outro professor de filosofia me confidenciou que teve de abandonar sua idéia inicial de dissertação em uma universidade paulista, que seria sobre a filosofia de Oswald de Andrade, por recomendação do orientador, que lhe disse que Antropofagia não era filosofia). A idéia do Direito Antropofágico, por sua vez, acabou sendo o tema da minha dissertação de mestrado, que, inicialmente, seria na área de Direito, projeto que eu acabei abandonando, já que, meu orientador à época, após ler o projeto, no qual a expressão "Direito Antropofágico" comparecia pelo menos trinta vezes, me disse estar muito entusiasmado com a idéia desse tal "Direito Antropológico" - outra variante, mais perversa, da mesma história:ao presenciar a apresentação que fiz de uma versão preliminar do que seria o projeto da dissertação durante um evento, um hoje professor de Direito da UFSC disse não passar de "masturbação intelectual". Ali estava claro pra mim que não havia volta no divórcio entre humanidades, letras e cultura bacharelesca, de cujo casamento Augusto e Haroldo de Campos são provavelmente os últimos filhos legítimos, em uma árvore genealógica que abarca uma vasta gama de nossos escritores e intelectuais, os antropófagos incluídos. Seja como for, na dissertação eu já abandonara minha filiação irrestrita às idéias de Augusto de Campos - e eu até mesmo tentava desfazer a idéia de que a Antropofagia seria a "única filosofia brasileira original", ou melhor, eu tentava (e ainda tento) refazê-la: a Antropofagia não é uma filosofia brasileira, nem uma filosofia original, e talvez nem mesmo seja uma filosofia - antes, ela é uma prática, intuitivamente apreendida do canibalismo ameríndio, em que o próprio valor do Um, do Ser, da identidade, da propriedade (respectivamente: única, filosofia, original, brasileira) é posto em xeque, em nome de uma outra forma de relação, regida pela predação, pela devoração. Mas sem aquela breve troca de emails com Augusto de Campos, da qual ele provavelmente nem se lembra, eu nunca teria conseguido entender o sentido profundo daquela Mensagem ao Antropófago desconhecido de Oswald de Andrade: "Nada existe fora da Devoração. O ser é a Devoração pura e eterna". Foi ele que me ensinou o que é ser um antropófago, e me fez entender que a melhor forma de honrar alguém é devorá-lo. Nos meus trabalhos sobre Antropofagia, tento sempre deglutir a visão que Augusto de Campos tem de Oswald e da Antropofagia - mas isso quer dizer, também, que esta visão e, portanto, o seu portador vivem irremediavelmente dentro de mim.
Memórias sentimentais
1. Há 70 anos, o totalitarismo matava Walter Benjamin. Não foi só o nazismo, mas também o estalinismo, que fechou as portas para o pensamento do "corcunda" messiânico-marxista. As Teses sobre o conceito de história, verdadeiro testamento intelectual do maior filósofo de todos os tempos, foram escritas sob o choque do pacto de não-agressão entre a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stálin.
2. Devo à leitura dos textos de Walter Benjamin a guinada crucial na minha vida intelectual, política e pessoal, algo como uma conversão que me salvou de outra conversão. Não fossem por eles, provavelmente eu seria ou um marxista que acredita no progresso da história, ou um "melancólico de esquerda" (aquele que se põe numa posição que "não está à esquerda desta ou daquela tendência, mas simplesmente à esquerda de toda e qualquer possibilidade", uma "postura à qual não corresponde mais ação política nenhuma" ). Foi Walter Benjamin também que me salvou da cômoda postura de tratar a arte como uma esfera sagrada e incontaminada, pois "não há documento de cultura que não seja ao mesmo tempo documento da barbárie".
3. Como a memória humana não funciona do mesmo modo que a memória das máquinas, por anos repeti uma frase que, para mim, resumia a visão benjamiana, e que eu atribuía ao filósofo alemão. Só recentemente me dei conta de que a frase não era dele, mas de Kautsky, de quem Benjamin a apropriou na obra-sem-autor, de puras citações, que atende pelo nome de Passagens. E o pior: descobri que a frase que eu repetia - e continuo repetindo - era uma versão deturpada da original. Na minha versão simplista, verdadeira "traição da memória", a frase dizia e ainda diz: o marxismo é a possibilidade de pensar não dogmaticamente. Nos momentos de fraqueza, ela serve como um mantra contra as conversões que sempre insistem em se insinuar.
4. Durante os anos 1930, Walter Benjamin chegou a cogitar vir lecionar literatura alemã na USP. Infelizmente, ele não veio, e os convertidos ao progresso lhe forçaram a tirar a própria vida. Todavia, como insiste Giorgio Agamben, os autores que amamos não estão mortos, mas vivem dentro de nós. Um tanto pretensiosamente, gosto de acreditar que um pouco de Benjamin ainda vive em cada linha que escrevo.
P.S.: Ano passado, publicamos no Sopro a primeira tradução ao português (realizada por Pádua Fernandes) do fragmento Mickey Mouse de Walter Benjamin. Por mínimo que seja, o texto condensa muito de sua filosofia e mostra a atualidade de seu diagnóstico: ainda hoje, "a humanidade prepara-se para sobreviver à civilização".
2. Devo à leitura dos textos de Walter Benjamin a guinada crucial na minha vida intelectual, política e pessoal, algo como uma conversão que me salvou de outra conversão. Não fossem por eles, provavelmente eu seria ou um marxista que acredita no progresso da história, ou um "melancólico de esquerda" (aquele que se põe numa posição que "não está à esquerda desta ou daquela tendência, mas simplesmente à esquerda de toda e qualquer possibilidade", uma "postura à qual não corresponde mais ação política nenhuma" ). Foi Walter Benjamin também que me salvou da cômoda postura de tratar a arte como uma esfera sagrada e incontaminada, pois "não há documento de cultura que não seja ao mesmo tempo documento da barbárie".
3. Como a memória humana não funciona do mesmo modo que a memória das máquinas, por anos repeti uma frase que, para mim, resumia a visão benjamiana, e que eu atribuía ao filósofo alemão. Só recentemente me dei conta de que a frase não era dele, mas de Kautsky, de quem Benjamin a apropriou na obra-sem-autor, de puras citações, que atende pelo nome de Passagens. E o pior: descobri que a frase que eu repetia - e continuo repetindo - era uma versão deturpada da original. Na minha versão simplista, verdadeira "traição da memória", a frase dizia e ainda diz: o marxismo é a possibilidade de pensar não dogmaticamente. Nos momentos de fraqueza, ela serve como um mantra contra as conversões que sempre insistem em se insinuar.
4. Durante os anos 1930, Walter Benjamin chegou a cogitar vir lecionar literatura alemã na USP. Infelizmente, ele não veio, e os convertidos ao progresso lhe forçaram a tirar a própria vida. Todavia, como insiste Giorgio Agamben, os autores que amamos não estão mortos, mas vivem dentro de nós. Um tanto pretensiosamente, gosto de acreditar que um pouco de Benjamin ainda vive em cada linha que escrevo.
P.S.: Ano passado, publicamos no Sopro a primeira tradução ao português (realizada por Pádua Fernandes) do fragmento Mickey Mouse de Walter Benjamin. Por mínimo que seja, o texto condensa muito de sua filosofia e mostra a atualidade de seu diagnóstico: ainda hoje, "a humanidade prepara-se para sobreviver à civilização".


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