Estados das Artes

"poesia e cinema pornô são as modalidades de arte onde o artista mais se expõe, por isso foram recentemente classificadas entre as ciências, e desumanas"
(Pádua Fernandes, O palco e o mundo)

O puro "dar a ver" da pornografia tem sido objeto de reflexão na filosofia contemporânea - Giorgio Agamben, por exemplo, tratou do assunto no seu "Elogio à profanação". Acredito que outro aspecto, relacionado a este, mereceria igual atenção: o enredo dos filmes pornográficos. O enredo padrão, típico do cinema pornô (o médio numa escala, na qual acima estão os "filmes dirigidos para casais e/ou mulheres", com enredo mais "elaborado", aproximando-se do gênero "erótico", e abaixo os filmes em que o enredo tende a desaparecer - ou, de fato, desaparece) é simples, beirando ao tosco: um acontecimento comum e banal do dia - a visita de um encanador, o pedido de ajuda de uma vizinha, etc - se converte em um acontecimento no sentido forte, um evento, rompendo com a banalidade. Aliás, a onipresença de "tipos" - o encanador, a vizinha - na pornografia tem a ver com isso: os tipos são desativados enquanto funções, papéis, mantendo-se como puras máscaras: a importância do encanador não é o de consertar vazamentos de fato. O bottom line filosófico de todo filme pornográfico típico é: a felicidade acontece - isto é, que pode acontecer a todo momento: qualquer instante, o mais banal que for, é uma porta para a felicidade. Cotidiano (rotina) e inesperado não se contradizem. É a previsibilidade - dos tipos, das situações - que vai pro buraco. O problema, contudo, reside na banalização, normalização da fórmula felicidade = sexo, e a conversão desta fórmula em fórmula de ganhar dinheiro. Ou seja, captura do acontecimento na esfera da produção. O acontecimento, igualado sem resto ao sexo, se rotiniza, e, portanto, cotidiano e evento se separam novamente. Na pornografia, não é o sexo isoladamente que se torna mercadoria: é a equação acontecimento banal = acontecimento = sexo que se converte em forma-mercadoria. Daí deriva o caráter paradoxal do cinema pornô, ao mesmo tempo progressista/libertário e conservador/aprisionador.


Há uma diferença fundamental entre os blogs e o Twitter, algo que transcende a limitação de caracteres: enquanto existe um número ilimitado de blogs (o blog é "só" uma forma, com plataformas infinitas), só existe um Twitter (forma e plataforma se confundem) - criar O blog seria algo como o projeto mallarmaico de escrever O livro. O sentido dessa diferença é algo a ser explorado (e para além da mera concentração econômica). Esta semana, Daniel Link identificou, na "decadência do blog" ocasionada pelo Twitter e pelo Facebook, um "limiar de transformação". Hoje, em artigo para o DC Cultura, Victor da Rosa reflete sobre "A invenção do Twitter" por parte de Félix Fénéon, crítico francês, que publicava "Notícias/Novelas de três linhas", em que fato e ficção, devido a forma em que eram enunciados, se tornavam indiscerníveis. Caberia notar que os pintores pontilhistas, aos quais Fénéon era próximo (como nota Victor), "nada mais faziam" que pintar em pixels. A história só se repete como farsa, isto é, como ficção. À "literatura" não cabe exclusividade alguma nesse papel. Falta só os críticos literários e professores de literatura - que, em sua maioria, preferem não saber o que são os blogs e o que é o Twitter - entenderem isso.

A análise do Politika etc. sobre o grande perdedor da crise do Senado, o PSDB, que conseguiu a proeza de unir o PMDB e afastá-lo de Serra, é mais um exemplo da burrice patológica que domina a classe política brasileira. Os exemplos são infnitos: os aloprados do PT, a tentativa de renovação do PFL colocando como novos bastiões jovens com velhos sobrenomes (Rodrigo Maia, ACM Neto), um ministro que se envolve diretamente na quebra de sigilo bancário de um caseiro, a Marta Suplicy que joga fora toda sua militância contra a homofobia na disputa quase perdida à prefeitura, um presidente da Câmara dos Deputados que cobra propina de restaurante, um ex-presidente da República que se dá ao trabalho de conseguir empregos para a família (como se no Maranhão, de que é dono, não houvesse lugar suficiente para alocá-la sem estardalhaço), o grande senso de estratégia de Jorge Bornhausen, que conseguiu reduzir o número de governadores estaduais do PFL a zero (DF é distrito, não estado), a insistência em acreditar que Lula sangraria até a morte com o mensalão, a insistência em acreditar que Lula, desta vez, sangraria até a morte com a crise econômica, etc. etc. etc. É um mito a suposta sagacidade dos políticos tupiniquins. Mas, como todo mito, a sua verdade se revela na sua própria enunciação: estamos acostumados com os termos "raposa", "macaco velho", "águia" em referência a membros da classe política: é isso de fato que são, seres dotados de uma inteligência puramente instintiva, reativa, dominadas por um ambiente de horizontes reduzidos. Mas, com certeza, a maior burrada da classe política é a estratégia da oposição de ridicularizar Lula por sua pouca escolaridade (isso pensando sem ética nenhum, mas estrategicamente mesmo: em um país onde a educação formal da população é precária, fazer esta crítica é suicídio político). As altíssimas taxas de popularidade do Presidente, sua capacidade de se descolar do próprio partido, a desenvoltura com que fala o que quer e como quer (isto para não falar dos avanços históricos do país) não deixam dúvidas: em terra de bacharéis, o analfabeto é rei.

Desenhar o Nome

| | Comentários (11)

(A discussão sobre O estado da arte da discussão cultural me rendeu dois posts extras: O Incomparável - que aborda parte da temática deste post de Idelber Avelar - e o que publico agora abaixo. Agradeço aos que comentaram e me fizeram pensar no tema).

"Nós acreditaríamos num progresso humano se a criança nascesse alfabetizada. Mas enquanto ela aparecer no mundo, como nesses últimos quarenta séculos de cronica conhecida, nasce naturalmente na idade da pedra. E aí ficaria, primitiva e nhambiquara, se não a deformasse imediatamente. Não há motivos para se ter saudades das idades líticas. Todos os dias nascem milhões de homens pré-historicos". (Oswald de Andrade)

Minha sobrinha de 4 anos não escreve o nome; ela desenha o nome. Toda vez que ela diz que vai fazê-lo, ou peça que alguém desenhe por ela, enuncia uma verdade só possível de ser capturada durante o momento da alfabetização - e que se "perde" assim que este se completa: a de que a escrita está intimamente vinculada ao desenho, mais especificamente ao referencial. Mas, à diferença deste, a escrita não tem como referência algo como a realidade - como as aranhas, que ela insistia tenazmente em tentar imitar no papel -; a escrita é a sua própria realidade, a sua própria referência (daí que a arte abstrata se "limita", no fundo, a desenhar nomes). Na alfabetização (e devemos tomar o termo em sentido amplo, o aprendizado do nosso alfabeto que minha sobrinha está empreendendo agora é apenas uma das inúmeras formas de alfabetizações, tão numerosas quanto os "alfabetos" que a linguagem humana e natural oferecem), o que se aprende é que tais desenhos auto-referenciais, a escrita, constituem cifras, fórmulas, que, todavia, não levam além da esfera das imagens, da esfera dos desenhos. Quando se "descobre" que as letras do alfabeto não são desenhos que representam a realidade, a expectativa de que elas levem a algo mais, que elas sejam desenhos que, decifrados pelo saber secreto que se aprende levariam a outro lugar, a outra realidade, esta expectativa é logo frustrada, ao mesmo tempo que o estatuto originário da escrita enquanto desenho é confirmada. O que se descobre é que a leitura, o saber destas cifras sem referência, não produz nenhum efeito mágico sobre a realidade, mas tão somente - e isso é tudo - sobre a imaginação. O que a decifração - o gesto de leitura - dos desenhos auto-referenciais produz são novas imagens (referenciais ou não) que só existem durante o gesto de deciframento/leitura, pois a memória não é um arquivo que contém papéis desenhados. O cinema, por sua vez, opera em sentido inverso, é uma leitura às avessas, uma "desalfabetização": aquilo que, na leitura, são os efeitos do deciframento (as imagens produzidas), no cinema se converte nas cifras. O cinema é a tentativa de construir um alfabeto por meio das imagens. O que a leitura de um filme (das imagens montadas) revela, portanto, é uma cifra (que, sendo lida, se reconverte em imagens). Giorgio Agamben certa vez definiu o homem como o animal que vai ao cinema; neste sentido, ele é tão "arcaico" quanto a escrita. Ambos não passam de meios que não levam à lugar algum, exceto aquele reino comum de felicidade que atende pelo nome de imaginação - e que na história da humanidade abreviada que é a vida de cada um costumamos esquecer, mas que minha sobrinha insiste em afirmar, a cada vez que desenha o nome. Ao fazê-lo, ela comete aquilo que, no monoteísmo, é, ao mesmo tempo, a maior heresia e a maior aspiração. Ao desenhar o nome, ela, na verdade, escreve o nome de Deus.

Maior universidade do país, na maior cidade da Nação. Um dos filósofos contemporâneos profere sua conferência. Lá pelas tantas, cita Aristóteles (como faz há pelo menos trinta anos, muitas vezes focando na questão de um intelecto comum à humanidade, o que, argumenta, daria na noção marxiana de general intellect, ou seja, de consciência histórica genérica, o home como produtor auto-consciente, etc.). No público, começam os sussurros: "Então quer dizer que ele não é de esquerda?". Pânico e horror na maior universidade do país que fica na maior cidade da Nação.

No final do ano passado, a Folha de S. Paulo organizou um debate sobre os 50 anos do caderno Ilustrada. Uma questão, atravessada pela melancolia, dominou: como fazer que o jornalismo cultural volte a "pautar" a cena e o debate artísticos? A explicação mais convincente para o declínio do suposto papel de protagonista da cultura do jornal, foi a de Marcos Nobre, que argumentou que este se voltou ao mercado para poder fugir à tensão entre academia e imprensa. Por mais que teoricamente o argumento pareça fazer sentido, uma olhadela rápida no Ilustrada dos últimos meses mostra que não há tanto distanciamento quanto parece. Dois exemplos. Quando da palestra de Antonio Candido, intelectual de referência para a esquerda brasileira durante a ditadura militar, para o lançamento de um volume de correspondências de Mário de Andrade, a Folha cobriu o evento. Mas Candido não disse nada de importante, se limitou a anedotas. E o jornal as reproduziu, dois dias depois, no dia 27 de maio desse ano, como se tratasse de algo monumental, com direito a narrar a dificuldade de subir ao palco do acadêmico. No mesmo Ilustrada, dois meses antes, quando do lançamento de Leite Derramado de Chico Buarque, foi publicada uma resenha de tamanho desproporcional para o caderno, de Roberto Schwarz em que ele analisa o romance com as mesmas categorias com que analisou Machado de Assis a partir da década de 1970 e 1980, justamente o auge do jornal. Os mesmos intelectuais de referência do jornalismo cultural paulista continuam tendo espaço. E talvez esse seja o problema. O problema não é que o jornalismo cultural não promova mais o debate, não produza mais efeitos; o problema é que a arte, entendida pelas categorias das décadas passadas, não produz mais efeitos. É evidente que a notícia da palestra de Antônio Cândido sobre um livro de Mário de Andrade ou uma resenha de Schwarz em que ele compara Chico a Machado não produzirão efeitos. É este sistema do grande autor, do grande intelectual, da grande obra que não funciona mais. Outro exemplo: o rodapé literário e as resenhas, que seguem o padrão do jornal e, portanto, devem  classificar a qualidade do livro, dificilmente dão alguma indicação diferente do bom ou ótimo. Sabendo do mercado editorial brasileiro pelo Ilustrada, tem se um panorama excelente, quando a verdade é outra; cada vez são publicadas mais porcarias. Provavelmente, nenhum dos livros classificados como ótimo mudará a vida de alguém ou pautará debate duradouro.

Sylvia Colombo tentou defender o caderno: argumentou que, entre outras coisas, o Ilustrada cunhou o termo Bienal do Vazio, liderando a discussão nesse ponto e "debate a prisão da jovem pichadora e, mais ainda, promove este amplo debate sobre si própria, sua história e perspectivas". Ora, ao debater a prisão da pichadora, isto é, ao centrar-se na polêmica, o jornal revela a sua incapacidade de compreender "novas" manifestações artísticas ("novas" com muitas aspas, porque elas datam da "era de ouro" do caderno), como as performances e os happenings: as categorias com que lêem a cena cultural são (e possivelmente sempre foram) obsoletas. Cobrir a prisão da pichadora e debatê-la não faz do Ilustrada uma frente no debate cultural. No máximo o credencia como o Cidade Alerta da cultura - aliás, outro exemplo da incapacidade conceitual do caderno de ler o país: para os ilustrados, é apenas lixo. E o lixo não interessa. Interessa o "crítico literário mais célebre do país", não importa o que diga.

P.S.:  Não há nada tão ruim que não possa piorar. A situação cá na província é muito pior: não são as categorias inadequadas que regem; vige o silenciamento mesmo. Silenciamento da imprensa (e dos atores culturais em geral) tão arraigado que impossibilita a publicação de um texto como este, que se "limita" a apontá-lo.


O Incomparável

| | Comentários (6)

Meu último post acabou criando uma pequena polêmica, que me fez pensar um bocado de coisas. A grande vantagem do debate é que ela força os interlocutores a repensar seus argumentos; no que o debate escrito é ainda mais proveitoso, pois eles tem tempo pra fazê-lo com certo tempo. Devido à extensão que minha resposta tomou e pelo caráter mais genérico de algumas coisas que argumento, me permito fazê-la aqui na forma de post e não na caixa de comentários. O debate suscitado me provocou ainda outra reflexão mais conceitual, que espero publicar aqui no blog em breve.

Antes de tudo, é preciso não esquecer da ambiguidade da máxima "Não se pode comparar" que se revela no Incomparável. Aquilo que não pode ser comparado, o Incomparável, o é justamente na medida em que superou, pela comparação a tudo ou a todos. Quando dizemos que tal obra ou pessoa é incomparável, estamos dizendo que ela está um patamar acima das demais, que ela é um monumento, que ela, em suma, é intocável (tem o "corpo fechado"). A máxima, portanto, pode ter como conseqüência a monumentalização, o fechamento de toda e qualquer coisa ou pessoa, o que corresponde, a meu ver, a atomização mais extremada. O sentido político disso fica claro pra mim numa propaganda: Coca-cola, Viva as diferenças.

Na "verdade verdadeira", eu não pretendi defender a comparação em si (ainda que não a condene - tendo briga, estou dentro: assim, não tenho problema algum em dizer que Macunaíma, de Mário de Andrade, é infinitamente melhor que Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, juntos - o que não implica, de modo algum que eu jogue os últimos na lata de lixo; escolhi fazer e fiz minha dissertação mais sobre Oswald que sobre Mário). O que eu "quis dizer" é que, por vezes, usa-se da máxima "Não se pode comparar" para negar o caráter hipertextual que o mundo possui (característica que fica mais explícita na cultura, ou melhor, no que entendemos por "artes"). A linguagem "não passa" de infinitas referências tanto ao "mundo" e/ou ao "real" quanto a si mesma. Isto sempre foi e sempre será desde a antropogênese. O "mundo" não vira uma grande rede a partir da internet - esta apenas explicita um dado intrínseco, o de que a linguagem (a cultura) é uma sucessão de comentários a um grande livro não escrito que chamamos de "mundo" (ou de "real"). 

Dito isso, eu entendo que o "Não se pode comparar", quando referido à diferença de linguagens entre o cinema e a literatura, possa ter uma função didática (ainda que acredite - e esse será o tema de outro post que a discussão me provocou - que desde o "momento" em que se percebe que a escrita é um desenho sui generis, pois auto-referencial, tal diferença fica clara, ainda que não seja expressa tão explicitamente), é preciso tomar cuidado para não atravessar a fronteira onde o didatismo se converte em autoritarismo: é preciso, antes de enunciar a "verdade", saber se o interlocutor não a conhece.

Para explicar, vamos aos fatos. O que motivou o post abaixo foram diversas discussões que se assemelham, não pelos conteúdos, mas pelo uso da máxima por parte de meus interlocutores. Tentei condensá-los no exemplo mais recente de conversas que tentei travar a partir de um filme. Sempre que dizia - e é importante notar que o poder dos significantes é sempre superior ao dos significados, daí o furo da teoria habermasiana da ação comunicativa - que os dois contos de Machado de Assis em que Júlio Bressane dizia (explicitamente) ter se inspirado para fazer o filme eram infinitamente melhores que este, ouvia como resposta a máxima. Ainda tive tempo de sugerir que o filme era uma banalização monotemática de um motivo, descontextualizado, tanto na forma, quanto no conteúdo, dos contos: o caráter obsessivo-compulsivo dos personagens. Fui censurado pela máxima e não pude desenvolver o raciocínio, o que faço aqui. Não só Bressane "entrega o jogo" logo de cara - em A causa secreta, um dos contos, ficamos o conto inteiro querendo saber o misterioso porquê do comportamente obsessivo-compulsivo de um dos personagens para nos frustarmos ao final, que não revela causa qualquer, pois ela é, de fato, secreta, o que quer dizer, infundada (o que Machado põe em cena é o modo como a autoridade, a aura, se fundamenta tão-somente no segredo sobre o seu (não)fundamento) -, já que fica óbvio, desde o começo do filme, que o comportamento obsessivo-compulsivo dos dois personagens não tem causa, sendo o objeto de desejo substituído a 3 por 4, como também, o diretor não extrai os efeitos dessa inversão formal (é o ritmo do filme, e não uma antecipação narrativa do conteúdo que deixa claro no início do filme o que só transparece no final do conto). Os dois personagens obsessivo-compulsivos de A erva do rato não tem, desde sempre, aura. Mas Bressane não trabalha em cima deste seu caráter profano. É pura rotina - ou seja, repetição. Nada "acontece", mas tampouco este não acontecer é explorado. Antes, resvala pro que o cinema brasileiro "tem de melhor": melhor pelada a torto e a direito. E também para o riso. Se, no conto de Machado, o que está em jogo é o processo de fetichização (ou reificação) - o comportamento obsessivo-compulsivo é mórbido e sádico, ele vai coisificando o objeto de desejo -, no filme de Bressane, estamos diante do fetiche pronto, acabado e embalado para o consumo (fica óbvio que, depois da morte da parceira que fotografava nua de todos os ângulos, o personagem interpretado por Selton Mello iria dar um jeito de continuar com seu comportamento, o que acaba fazendo fotografando o esqueleto da morta - obviedade ou explicitude que também não é explorada). A pura medialidade não alcança seu potencial crítico - não ultrapassa a esfera do entretenimento. 

Pra arrematar, uma curiosidade, que resume tudo: quando perguntei a meus interlocutores se haviam lido os contos do Machado (e não foi no mesmo dia da exibição do filme), a resposta foi negativa. Se se tratam de linguagens diferentes como argumentavam, a leitura dos contos só ressaltaria isso. É comparando que se pode chegar à conclusão de que não se pode comparar. Usar a máxima para escamotear uma referência hipertextual explícita do autor (no caso, direto) seria o mesmo (na verdade, seria pior) que eu me negar a ver o filme por já ter lido os contos - o que não fiz. Meus interlocutores viram o filme e se negaram (pois, para fazê-lo bastava vontade: com acesso a internet e quinze minutos de leitura, estaria tudo resolvido) a ler os contos. Se o que fiz (i.e., seguir uma referência) é uma com-paração, prefiro ser um comparatista doente a insistir, como um mantra que um produto cultural produz seu sentido sozinho.

Atualização (5/7/2009): Pra ter uma visão diferente (e fundamentada) de A erva do rato, vale ler os comentários de Jair Fonseca a este artigo (o artigo em si é um malabarismo só, consegue ver amor (?!?!) no filme, realmente uma proeza).


abobora.gif
"Não se pode comparar" - é a máxima quando o que se quer proteger é a autonomia de uma obra. Não é contra a comparação que este argumento se volta, é contra qualquer exterioridade: um mecanismo de imunização. Não se pode mencionar outra linguagem que não a do "suporte", não se pode trazer à tona outro momento histórico, mesmo quando é a obra que o requer, não se pode cruzar poetas, mesmo quando um deles cita o outro. Se você fala prum estudante de cinema - ou prum cinéfilo, dá na mesma - que o filme de certo diretor não passa de uma banalização monotemática dos contos de um escritor consagrado nos quais o próprio diretor diz que se inspirou (e mesmo que o próprio diretor ressalte isso em todas as exibições públicas e que a menção aos contos compareça em todas as sinopses, até nas mais curtas), o estudante/cinéfilo te responderá que "Não se pode comparar as duas linguagens" - um argumento que, inconscientemente ou não, é de uma autoridade brutal e visa a infantilização, pois desde pelo menos a alfabetização qualquer um percebe a diferença entre uma imagem de TV e a página de um livro. "Não se pode comparar" é, na verdade, de um eufemismo pra "cada macaco no seu galho", que, por sua vez, quer dizer: há mercado para todos e não venha mexer no meu peixe.

(Um exemplo contrário a esta lógica que a confirma por sua excepcionalidade é o Vistos e escritos, melhor blog "sobre cinema" que conheço. A sua leitura dos filmes de Tarantino é, também, a melhor que já vi. Arte e crítica não são competições olímpicas, mas também não são Jogos Abertos).


cachimbo.jpg
Há algumas imagens que vi na televisão que jamais consigo esquecer. Uma delas é a do militante chinês barrando o avanço dos tanques em 1989. Outras duas são das discussões parlamentares sobre as alterações na CLT no final de 2001. A primeira é de Paulo Paim rasgando a Constituição (na tentativa de deixar claro do que se tratava o projeto do governo FHC) e, em seguida, atirando-na em um deputado da base governista que o chamou de "moleque" pelo gesto. A outra é do deputado Babá, dias depois e ainda na discussão sobre o projeto, dizendo a Inocêncio de Oliveira (o Eterno - já condenado por trabalho escravo) que este estava de óculos escuros por "vergonha de aparecer diante da TV Câmara em defesa do projeto". Estas imagens não são marcantes em si, mas o que veio as seguiu: no primeiro caso, quiseram processar Paim por falta de decoro (como já se viu, rasgar a Carta Magna e usá-la como arma?); no segundo, uma série de desagravos a Inocêncio que não estava, de fato, com vergonha (isso ele jamais teve), mas com uma conjuntivite (no olho esquerdo, diga-se de passagem - acho que isso ele sempre teve, só consegue enxergar com o direito). O que essas imagens atestam é algo que, acredito, continua atual, e diz respeito à discussão política brasileira e sua repercussão pelos jornais: a total incapacidade (ou melhor, a total falta de disposição) de compreender imagens (ou metáforas) como imagens (ou metáforas). Basta ver o torcer de nariz a cada metáfora futebolística de Lula.



Página Principal

"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes

Twitter:
@alexnodari


Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa


Dia do Juízo

é uma ficção publicada aqui no blog às sextas-feiras.

I | II | III | IV | V | VI





Bibliotecas livres:



Visito:

Desobediência civil

Twitter



Comentários recentes









RSS/Feed



Site Meter



Movable Type

Powered by Movable Type 4.1