Estados das Artes

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Essa semana aconteceu o Antropologia de Raposa, aqui na UFSC, organizado pelo multinatural José Kelly. O coiote, nas mitologias ameríndias - especialmente nas norte-americanas - é uma espécie de trickster, deceptor, malandro, Exu, o vulgar sacana que fode as ações do seu "gêmeo" "invertido", o demiurgo (um Oswald de Andrade mitológico) - e imagino que "raposa" no título do evento se refira ao coiote (ou um equivalente seu), ainda que, aqui no sul do país, chamemos de raposa o que seria o gambá (o trickster absoluto); no que eu possa estar totalmente enganado (é outra possibilidade), o que seria apenas uma prova de que estou certo (o engano me leva ao engano). Seja como for, no evento tomei algumas anotações que deixo aqui como impressões de um leigo, ou melhor, de um amador, de alguém que não entende nada do assunto, mas o ama:

1. A estrela do evento foi Roy Wagner, "inventor" - pra usar um termo caro ao antropólogo - da idéia de "Antropologia de coiote". Sem contar a vivacidade exuberante que exibe aos 75 anos, Wagner, cujas contribuições para a disciplina algum antropólogo (no sentido estrito do termo) pode explicar melhor que eu, é igualmente um antropólogo no sentido forte do termo (isto é, alguém que tem uma teoria sobre o que é um homem, como ele vê o mundo, como se relaciona com esse mundo, como se relaciona com os não-humanos, o que concebe como não-humanos, em suma, uma teoria sobre o homem que não necessariamente é antropomórfica, como era a antropologia kantiana). Sublinhei três entre muitíssimas coisas dignas de nota ditas por Wagner. A primeira foi na abertura do evento, uma exibição de fotos tiradas pelo próprio em 1964 e 1968 na Papua Nova Guiné: a linguagem corporal dos "nativos", "selvagens", "primitivos" - habitantes de uma região colonizada pelos ocidentais só no século XX - era algo por si só indicial (e que já não seria visível alguns anos depois, após as doenças - inclusive o missionarismo - trazidos pelo Ocidente dizimarem esses povos) de uma autonomia (entendida em sentido político e ontológico), que, com a conlonização, acabou. Tal autonomia recebeu de Wagner uma definição precisa e lapidar: é a capacidade de fazer guerra - tirando isso de um povo, mesmo sua linguagem corporal (isto é, a relação que o corpo trava com o mundo, a relação entre os corpos) se perderá, ou seja, se homogenizará com o corpo do modelo dominante. A segunda diz respeito à conferência de Wagner, que apresentou um capítulo do seu novo livro, O Lugar da Invenção: "O xadrez do parentesco e o parentesco do xadrez". Ali ele postulou uma espécie de deslocamento do enfoque das regras de parentesco em si para as três modalidades de relação com essas regras: 1) a relação de respeito; 2) a de evitação; e 3) a jocosa. Creio que se poderia generalizar a hipótese de Wagner e dizer que se tratam de três modos de relação com a Lei (em sentido amplo). É evidente que, nessa generalização, seriam algo como tipos puros que não existem senão mesclados entre si na realidade, mas, mesmo assim, poderiam gerar frutos interessantes nos estudos jurídicos, deslocando o problema da teoria do Direito (o que é a Lei) para uma verdadeira antropologia jurídica (os diversos modos de se relacionar com a Lei - incluindo a questão de porque se obedece a ela). Por fim, a ênfase que Wagner dá ao humor é genial. Em algum livro, baseado em um insight de um aluno de graduação, ele postula que o humor é a melhor forma de compreender qualquer coisa (cito de cabeça uma auto-referência que Wagner fez também de cabeça). E, além disso, que a explicação da piada destrói o saber contido na piada. Imediatamente, pensei em Machado de Assis, cujas ficções (todas humorísticas) parecem conter uma espécie de saber oculto (não à toa, Machado era chamado de "Bruxo") que "pegamos" ao ler, mas que se perde sempre que se tenta explicá-lo (como, por exemplo, na idéia - fora de lugar - das "idéias fora do lugar").

2. Além de Wagner, Eduardo Viveiros de Castro também fez uma belíssima conferência (como disse o Kelly, que também apresentou um trabalho sensacional, mas que eu precisaria ler com cuidado para comentar sem deslizes, só faltou mesmo o Lévi-Strauss), em torno do tema da flecha perdida (a flecha que não chega, a que chega por acaso, a flecha do paradoxo de Zenão que nunca chega ao alvo, etc.) - publicaremos uma variante do texto pela Cultura e Barbárie. Acredito que se fizêssemos uma transposição do tema da flecha à mitologia ocidental moderna, seu equivalente não seria a bala ou o revólver, mas a carta extraviada. A ênfase na linguagem que tomou conta da filosofia (especialmente a partir do século XX) prova isso: por que a linguagem não comunica, por que ela falha, como fazemos para que ela chegue ao seu destinatário, etc, etc? A carta - a escrita - é a flecha, o instrumento bélico ocidental por excelência (Carl Schmitt argumenta que o Novo Mundo pôde ser tomado pelas potências européias pela sua "superioridade espiritual", isto é, pela capacidade de cartografar o mundo em uma totalidade fechada, tornando-o disponível - o que os "primitivos" não poderiam fazer; além disso, cabe lembrar a relação que Lévi-Strauss traça, em "Lição de escrita", entre escrita e hierarquia, escrita e sociedade de classes, etc.). Mas, nem sempre a carta, como a flecha, atinge o alvo. E devemos prestar atenção a esse erro, a esse acidente de percurso - como o faz a literatura (que é, como pretendo adiantar a título provisório num verbete para o Sopro, a continuação da guerra civil por outros meios). Bartleby, o copista do conto de Melville, seria a figura mitológica dessas cartas que se perdem: funcionário exemplar, após ser-lhe pedido que revisasse uma cópia que fez, responde "I would prefer not to", uma fórmula que passará a usar toda vez que lhe solicitem algo. O narrador oferece uma possível explicação para o comportamento do protagonista: ele teria trabalhado na seção de Cartas Extraviadas de uma empresa postal. Ali, se deparou com a contingência, com o fato de que a mensagem (a flecha) se perde, de que uma cópia só por acaso corresponde ao original (como o Quixote que o Pierre Menard borgeano queria escrever, que deveria corresponder totalmente ao de Cervantes, sem ser uma cópia). Uma vasta gama da literatura poderia ser lida sob um enfoque semelhante: "A cartomante" de Machado de Assis, "A carta roubada", de Poe, "O processo" de Kafka (a Lei, essa Carta Magna, só chega a seu destinatário se esse se nomeia como tal). Isso nos leva de volta à tripartição, feita por Wagner, entre as três formas de relação com a Lei, a qual poderíamos acrescentar uma quarta: a relação de desvio, de erro, de acidente. A carta só chega por contingência, o que significa, também, que ela não possui essência, e pode ser - em um gesto político - desviada. O Manifesto da Poesia Pau-Brasil de Oswald de Andrade postula tal desvio (obra de um "primitivo"): "Uma sugestão de Blaise Cendrars : - Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na direção oposta ao vosso destino."


1. Ontem, circulou pela última vez a versão impressa do Jornal do Brasil. Por incrível que pareça, a única cobertura decente não só do fato, mas do papel histórico daquele jornal nos anos 1950 e 1960, foi feita por um canal esportivo, além do mais, pertencente a uma multinacional de entretenimento, a ESPN Brasil, talvez o único veículo no qual seja possível encontrar mais de uma dezena de bons jornalistas (velhos e novos) juntos.

2. Caso Verônica Serra: a declaração de renda dela foi entregue a terceiros porque havia um documento, com a assinatura dela autenticada em cartório, autorizando. Caso "goleiro Bruno": o ex-policial acusado de envolvimento na morte de Elisa, ex-namorada do Bruno, emprestava para a polícia um terreno que servia para o treinamento de uma força de elite; detalhe que pode parecer tautológico: o empréstimo do terreno aconteceu depois dele ter sido expulso da própria polícia para quem emprestava o terreno. 

3. A inutilidade dos cartórios (forma embrionária das "parcerias público-privadas", eufemismo para algo simples: o Estado dá a um cidadão/empresa privado/a o direito de lucrar por um serviço público sem ganhar nada em troca) e a desorganização estrutural da polícia: eram esses os temas que deveriam emergir (não digo nem que devessem ser tratados no calor da hora) dos dois acontecimentos. Mas talvez seja pedir demais dos jornais e da mídia; afinal, a maioria dos jornalistas que poderiam fazê-lo agora estão ocupados fazendo a cobertura esportiva.


"poesia e cinema pornô são as modalidades de arte onde o artista mais se expõe, por isso foram recentemente classificadas entre as ciências, e desumanas"
(Pádua Fernandes, O palco e o mundo)

O puro "dar a ver" da pornografia tem sido objeto de reflexão na filosofia contemporânea - Giorgio Agamben, por exemplo, tratou do assunto no seu "Elogio à profanação". Acredito que outro aspecto, relacionado a este, mereceria igual atenção: o enredo dos filmes pornográficos. O enredo padrão, típico do cinema pornô (o médio numa escala, na qual acima estão os "filmes dirigidos para casais e/ou mulheres", com enredo mais "elaborado", aproximando-se do gênero "erótico", e abaixo os filmes em que o enredo tende a desaparecer - ou, de fato, desaparece) é simples, beirando ao tosco: um acontecimento comum e banal do dia - a visita de um encanador, o pedido de ajuda de uma vizinha, etc - se converte em um acontecimento no sentido forte, um evento, rompendo com a banalidade. Aliás, a onipresença de "tipos" - o encanador, a vizinha - na pornografia tem a ver com isso: os tipos são desativados enquanto funções, papéis, mantendo-se como puras máscaras: a importância do encanador não é o de consertar vazamentos de fato. O bottom line filosófico de todo filme pornográfico típico é: a felicidade acontece - isto é, que pode acontecer a todo momento: qualquer instante, o mais banal que for, é uma porta para a felicidade. Cotidiano (rotina) e inesperado não se contradizem. É a previsibilidade - dos tipos, das situações - que vai pro buraco. O problema, contudo, reside na banalização, normalização da fórmula felicidade = sexo, e a conversão desta fórmula em fórmula de ganhar dinheiro. Ou seja, captura do acontecimento na esfera da produção. O acontecimento, igualado sem resto ao sexo, se rotiniza, e, portanto, cotidiano e evento se separam novamente. Na pornografia, não é o sexo isoladamente que se torna mercadoria: é a equação acontecimento banal = acontecimento = sexo que se converte em forma-mercadoria. Daí deriva o caráter paradoxal do cinema pornô, ao mesmo tempo progressista/libertário e conservador/aprisionador.


Há uma diferença fundamental entre os blogs e o Twitter, algo que transcende a limitação de caracteres: enquanto existe um número ilimitado de blogs (o blog é "só" uma forma, com plataformas infinitas), só existe um Twitter (forma e plataforma se confundem) - criar O blog seria algo como o projeto mallarmaico de escrever O livro. O sentido dessa diferença é algo a ser explorado (e para além da mera concentração econômica). Esta semana, Daniel Link identificou, na "decadência do blog" ocasionada pelo Twitter e pelo Facebook, um "limiar de transformação". Hoje, em artigo para o DC Cultura, Victor da Rosa reflete sobre "A invenção do Twitter" por parte de Félix Fénéon, crítico francês, que publicava "Notícias/Novelas de três linhas", em que fato e ficção, devido a forma em que eram enunciados, se tornavam indiscerníveis. Caberia notar que os pintores pontilhistas, aos quais Fénéon era próximo (como nota Victor), "nada mais faziam" que pintar em pixels. A história só se repete como farsa, isto é, como ficção. À "literatura" não cabe exclusividade alguma nesse papel. Falta só os críticos literários e professores de literatura - que, em sua maioria, preferem não saber o que são os blogs e o que é o Twitter - entenderem isso.

A análise do Politika etc. sobre o grande perdedor da crise do Senado, o PSDB, que conseguiu a proeza de unir o PMDB e afastá-lo de Serra, é mais um exemplo da burrice patológica que domina a classe política brasileira. Os exemplos são infnitos: os aloprados do PT, a tentativa de renovação do PFL colocando como novos bastiões jovens com velhos sobrenomes (Rodrigo Maia, ACM Neto), um ministro que se envolve diretamente na quebra de sigilo bancário de um caseiro, a Marta Suplicy que joga fora toda sua militância contra a homofobia na disputa quase perdida à prefeitura, um presidente da Câmara dos Deputados que cobra propina de restaurante, um ex-presidente da República que se dá ao trabalho de conseguir empregos para a família (como se no Maranhão, de que é dono, não houvesse lugar suficiente para alocá-la sem estardalhaço), o grande senso de estratégia de Jorge Bornhausen, que conseguiu reduzir o número de governadores estaduais do PFL a zero (DF é distrito, não estado), a insistência em acreditar que Lula sangraria até a morte com o mensalão, a insistência em acreditar que Lula, desta vez, sangraria até a morte com a crise econômica, etc. etc. etc. É um mito a suposta sagacidade dos políticos tupiniquins. Mas, como todo mito, a sua verdade se revela na sua própria enunciação: estamos acostumados com os termos "raposa", "macaco velho", "águia" em referência a membros da classe política: é isso de fato que são, seres dotados de uma inteligência puramente instintiva, reativa, dominadas por um ambiente de horizontes reduzidos. Mas, com certeza, a maior burrada da classe política é a estratégia da oposição de ridicularizar Lula por sua pouca escolaridade (isso pensando sem ética nenhum, mas estrategicamente mesmo: em um país onde a educação formal da população é precária, fazer esta crítica é suicídio político). As altíssimas taxas de popularidade do Presidente, sua capacidade de se descolar do próprio partido, a desenvoltura com que fala o que quer e como quer (isto para não falar dos avanços históricos do país) não deixam dúvidas: em terra de bacharéis, o analfabeto é rei.

Desenhar o Nome

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(A discussão sobre O estado da arte da discussão cultural me rendeu dois posts extras: O Incomparável - que aborda parte da temática deste post de Idelber Avelar - e o que publico agora abaixo. Agradeço aos que comentaram e me fizeram pensar no tema).

"Nós acreditaríamos num progresso humano se a criança nascesse alfabetizada. Mas enquanto ela aparecer no mundo, como nesses últimos quarenta séculos de cronica conhecida, nasce naturalmente na idade da pedra. E aí ficaria, primitiva e nhambiquara, se não a deformasse imediatamente. Não há motivos para se ter saudades das idades líticas. Todos os dias nascem milhões de homens pré-historicos". (Oswald de Andrade)

Minha sobrinha de 4 anos não escreve o nome; ela desenha o nome. Toda vez que ela diz que vai fazê-lo, ou peça que alguém desenhe por ela, enuncia uma verdade só possível de ser capturada durante o momento da alfabetização - e que se "perde" assim que este se completa: a de que a escrita está intimamente vinculada ao desenho, mais especificamente ao referencial. Mas, à diferença deste, a escrita não tem como referência algo como a realidade - como as aranhas, que ela insistia tenazmente em tentar imitar no papel -; a escrita é a sua própria realidade, a sua própria referência (daí que a arte abstrata se "limita", no fundo, a desenhar nomes). Na alfabetização (e devemos tomar o termo em sentido amplo, o aprendizado do nosso alfabeto que minha sobrinha está empreendendo agora é apenas uma das inúmeras formas de alfabetizações, tão numerosas quanto os "alfabetos" que a linguagem humana e natural oferecem), o que se aprende é que tais desenhos auto-referenciais, a escrita, constituem cifras, fórmulas, que, todavia, não levam além da esfera das imagens, da esfera dos desenhos. Quando se "descobre" que as letras do alfabeto não são desenhos que representam a realidade, a expectativa de que elas levem a algo mais, que elas sejam desenhos que, decifrados pelo saber secreto que se aprende levariam a outro lugar, a outra realidade, esta expectativa é logo frustrada, ao mesmo tempo que o estatuto originário da escrita enquanto desenho é confirmada. O que se descobre é que a leitura, o saber destas cifras sem referência, não produz nenhum efeito mágico sobre a realidade, mas tão somente - e isso é tudo - sobre a imaginação. O que a decifração - o gesto de leitura - dos desenhos auto-referenciais produz são novas imagens (referenciais ou não) que só existem durante o gesto de deciframento/leitura, pois a memória não é um arquivo que contém papéis desenhados. O cinema, por sua vez, opera em sentido inverso, é uma leitura às avessas, uma "desalfabetização": aquilo que, na leitura, são os efeitos do deciframento (as imagens produzidas), no cinema se converte nas cifras. O cinema é a tentativa de construir um alfabeto por meio das imagens. O que a leitura de um filme (das imagens montadas) revela, portanto, é uma cifra (que, sendo lida, se reconverte em imagens). Giorgio Agamben certa vez definiu o homem como o animal que vai ao cinema; neste sentido, ele é tão "arcaico" quanto a escrita. Ambos não passam de meios que não levam à lugar algum, exceto aquele reino comum de felicidade que atende pelo nome de imaginação - e que na história da humanidade abreviada que é a vida de cada um costumamos esquecer, mas que minha sobrinha insiste em afirmar, a cada vez que desenha o nome. Ao fazê-lo, ela comete aquilo que, no monoteísmo, é, ao mesmo tempo, a maior heresia e a maior aspiração. Ao desenhar o nome, ela, na verdade, escreve o nome de Deus.

Maior universidade do país, na maior cidade da Nação. Um dos filósofos contemporâneos profere sua conferência. Lá pelas tantas, cita Aristóteles (como faz há pelo menos trinta anos, muitas vezes focando na questão de um intelecto comum à humanidade, o que, argumenta, daria na noção marxiana de general intellect, ou seja, de consciência histórica genérica, o home como produtor auto-consciente, etc.). No público, começam os sussurros: "Então quer dizer que ele não é de esquerda?". Pânico e horror na maior universidade do país que fica na maior cidade da Nação.

No final do ano passado, a Folha de S. Paulo organizou um debate sobre os 50 anos do caderno Ilustrada. Uma questão, atravessada pela melancolia, dominou: como fazer que o jornalismo cultural volte a "pautar" a cena e o debate artísticos? A explicação mais convincente para o declínio do suposto papel de protagonista da cultura do jornal, foi a de Marcos Nobre, que argumentou que este se voltou ao mercado para poder fugir à tensão entre academia e imprensa. Por mais que teoricamente o argumento pareça fazer sentido, uma olhadela rápida no Ilustrada dos últimos meses mostra que não há tanto distanciamento quanto parece. Dois exemplos. Quando da palestra de Antonio Candido, intelectual de referência para a esquerda brasileira durante a ditadura militar, para o lançamento de um volume de correspondências de Mário de Andrade, a Folha cobriu o evento. Mas Candido não disse nada de importante, se limitou a anedotas. E o jornal as reproduziu, dois dias depois, no dia 27 de maio desse ano, como se tratasse de algo monumental, com direito a narrar a dificuldade de subir ao palco do acadêmico. No mesmo Ilustrada, dois meses antes, quando do lançamento de Leite Derramado de Chico Buarque, foi publicada uma resenha de tamanho desproporcional para o caderno, de Roberto Schwarz em que ele analisa o romance com as mesmas categorias com que analisou Machado de Assis a partir da década de 1970 e 1980, justamente o auge do jornal. Os mesmos intelectuais de referência do jornalismo cultural paulista continuam tendo espaço. E talvez esse seja o problema. O problema não é que o jornalismo cultural não promova mais o debate, não produza mais efeitos; o problema é que a arte, entendida pelas categorias das décadas passadas, não produz mais efeitos. É evidente que a notícia da palestra de Antônio Cândido sobre um livro de Mário de Andrade ou uma resenha de Schwarz em que ele compara Chico a Machado não produzirão efeitos. É este sistema do grande autor, do grande intelectual, da grande obra que não funciona mais. Outro exemplo: o rodapé literário e as resenhas, que seguem o padrão do jornal e, portanto, devem  classificar a qualidade do livro, dificilmente dão alguma indicação diferente do bom ou ótimo. Sabendo do mercado editorial brasileiro pelo Ilustrada, tem se um panorama excelente, quando a verdade é outra; cada vez são publicadas mais porcarias. Provavelmente, nenhum dos livros classificados como ótimo mudará a vida de alguém ou pautará debate duradouro.

Sylvia Colombo tentou defender o caderno: argumentou que, entre outras coisas, o Ilustrada cunhou o termo Bienal do Vazio, liderando a discussão nesse ponto e "debate a prisão da jovem pichadora e, mais ainda, promove este amplo debate sobre si própria, sua história e perspectivas". Ora, ao debater a prisão da pichadora, isto é, ao centrar-se na polêmica, o jornal revela a sua incapacidade de compreender "novas" manifestações artísticas ("novas" com muitas aspas, porque elas datam da "era de ouro" do caderno), como as performances e os happenings: as categorias com que lêem a cena cultural são (e possivelmente sempre foram) obsoletas. Cobrir a prisão da pichadora e debatê-la não faz do Ilustrada uma frente no debate cultural. No máximo o credencia como o Cidade Alerta da cultura - aliás, outro exemplo da incapacidade conceitual do caderno de ler o país: para os ilustrados, é apenas lixo. E o lixo não interessa. Interessa o "crítico literário mais célebre do país", não importa o que diga.

P.S.:  Não há nada tão ruim que não possa piorar. A situação cá na província é muito pior: não são as categorias inadequadas que regem; vige o silenciamento mesmo. Silenciamento da imprensa (e dos atores culturais em geral) tão arraigado que impossibilita a publicação de um texto como este, que se "limita" a apontá-lo.


O Incomparável

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Meu último post acabou criando uma pequena polêmica, que me fez pensar um bocado de coisas. A grande vantagem do debate é que ela força os interlocutores a repensar seus argumentos; no que o debate escrito é ainda mais proveitoso, pois eles tem tempo pra fazê-lo com certo tempo. Devido à extensão que minha resposta tomou e pelo caráter mais genérico de algumas coisas que argumento, me permito fazê-la aqui na forma de post e não na caixa de comentários. O debate suscitado me provocou ainda outra reflexão mais conceitual, que espero publicar aqui no blog em breve.

Antes de tudo, é preciso não esquecer da ambiguidade da máxima "Não se pode comparar" que se revela no Incomparável. Aquilo que não pode ser comparado, o Incomparável, o é justamente na medida em que superou, pela comparação a tudo ou a todos. Quando dizemos que tal obra ou pessoa é incomparável, estamos dizendo que ela está um patamar acima das demais, que ela é um monumento, que ela, em suma, é intocável (tem o "corpo fechado"). A máxima, portanto, pode ter como conseqüência a monumentalização, o fechamento de toda e qualquer coisa ou pessoa, o que corresponde, a meu ver, a atomização mais extremada. O sentido político disso fica claro pra mim numa propaganda: Coca-cola, Viva as diferenças.

Na "verdade verdadeira", eu não pretendi defender a comparação em si (ainda que não a condene - tendo briga, estou dentro: assim, não tenho problema algum em dizer que Macunaíma, de Mário de Andrade, é infinitamente melhor que Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, juntos - o que não implica, de modo algum que eu jogue os últimos na lata de lixo; escolhi fazer e fiz minha dissertação mais sobre Oswald que sobre Mário). O que eu "quis dizer" é que, por vezes, usa-se da máxima "Não se pode comparar" para negar o caráter hipertextual que o mundo possui (característica que fica mais explícita na cultura, ou melhor, no que entendemos por "artes"). A linguagem "não passa" de infinitas referências tanto ao "mundo" e/ou ao "real" quanto a si mesma. Isto sempre foi e sempre será desde a antropogênese. O "mundo" não vira uma grande rede a partir da internet - esta apenas explicita um dado intrínseco, o de que a linguagem (a cultura) é uma sucessão de comentários a um grande livro não escrito que chamamos de "mundo" (ou de "real"). 

Dito isso, eu entendo que o "Não se pode comparar", quando referido à diferença de linguagens entre o cinema e a literatura, possa ter uma função didática (ainda que acredite - e esse será o tema de outro post que a discussão me provocou - que desde o "momento" em que se percebe que a escrita é um desenho sui generis, pois auto-referencial, tal diferença fica clara, ainda que não seja expressa tão explicitamente), é preciso tomar cuidado para não atravessar a fronteira onde o didatismo se converte em autoritarismo: é preciso, antes de enunciar a "verdade", saber se o interlocutor não a conhece.

Para explicar, vamos aos fatos. O que motivou o post abaixo foram diversas discussões que se assemelham, não pelos conteúdos, mas pelo uso da máxima por parte de meus interlocutores. Tentei condensá-los no exemplo mais recente de conversas que tentei travar a partir de um filme. Sempre que dizia - e é importante notar que o poder dos significantes é sempre superior ao dos significados, daí o furo da teoria habermasiana da ação comunicativa - que os dois contos de Machado de Assis em que Júlio Bressane dizia (explicitamente) ter se inspirado para fazer o filme eram infinitamente melhores que este, ouvia como resposta a máxima. Ainda tive tempo de sugerir que o filme era uma banalização monotemática de um motivo, descontextualizado, tanto na forma, quanto no conteúdo, dos contos: o caráter obsessivo-compulsivo dos personagens. Fui censurado pela máxima e não pude desenvolver o raciocínio, o que faço aqui. Não só Bressane "entrega o jogo" logo de cara - em A causa secreta, um dos contos, ficamos o conto inteiro querendo saber o misterioso porquê do comportamente obsessivo-compulsivo de um dos personagens para nos frustarmos ao final, que não revela causa qualquer, pois ela é, de fato, secreta, o que quer dizer, infundada (o que Machado põe em cena é o modo como a autoridade, a aura, se fundamenta tão-somente no segredo sobre o seu (não)fundamento) -, já que fica óbvio, desde o começo do filme, que o comportamento obsessivo-compulsivo dos dois personagens não tem causa, sendo o objeto de desejo substituído a 3 por 4, como também, o diretor não extrai os efeitos dessa inversão formal (é o ritmo do filme, e não uma antecipação narrativa do conteúdo que deixa claro no início do filme o que só transparece no final do conto). Os dois personagens obsessivo-compulsivos de A erva do rato não tem, desde sempre, aura. Mas Bressane não trabalha em cima deste seu caráter profano. É pura rotina - ou seja, repetição. Nada "acontece", mas tampouco este não acontecer é explorado. Antes, resvala pro que o cinema brasileiro "tem de melhor": melhor pelada a torto e a direito. E também para o riso. Se, no conto de Machado, o que está em jogo é o processo de fetichização (ou reificação) - o comportamento obsessivo-compulsivo é mórbido e sádico, ele vai coisificando o objeto de desejo -, no filme de Bressane, estamos diante do fetiche pronto, acabado e embalado para o consumo (fica óbvio que, depois da morte da parceira que fotografava nua de todos os ângulos, o personagem interpretado por Selton Mello iria dar um jeito de continuar com seu comportamento, o que acaba fazendo fotografando o esqueleto da morta - obviedade ou explicitude que também não é explorada). A pura medialidade não alcança seu potencial crítico - não ultrapassa a esfera do entretenimento. 

Pra arrematar, uma curiosidade, que resume tudo: quando perguntei a meus interlocutores se haviam lido os contos do Machado (e não foi no mesmo dia da exibição do filme), a resposta foi negativa. Se se tratam de linguagens diferentes como argumentavam, a leitura dos contos só ressaltaria isso. É comparando que se pode chegar à conclusão de que não se pode comparar. Usar a máxima para escamotear uma referência hipertextual explícita do autor (no caso, direto) seria o mesmo (na verdade, seria pior) que eu me negar a ver o filme por já ter lido os contos - o que não fiz. Meus interlocutores viram o filme e se negaram (pois, para fazê-lo bastava vontade: com acesso a internet e quinze minutos de leitura, estaria tudo resolvido) a ler os contos. Se o que fiz (i.e., seguir uma referência) é uma com-paração, prefiro ser um comparatista doente a insistir, como um mantra que um produto cultural produz seu sentido sozinho.

Atualização (5/7/2009): Pra ter uma visão diferente (e fundamentada) de A erva do rato, vale ler os comentários de Jair Fonseca a este artigo (o artigo em si é um malabarismo só, consegue ver amor (?!?!) no filme, realmente uma proeza).


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"Não se pode comparar" - é a máxima quando o que se quer proteger é a autonomia de uma obra. Não é contra a comparação que este argumento se volta, é contra qualquer exterioridade: um mecanismo de imunização. Não se pode mencionar outra linguagem que não a do "suporte", não se pode trazer à tona outro momento histórico, mesmo quando é a obra que o requer, não se pode cruzar poetas, mesmo quando um deles cita o outro. Se você fala prum estudante de cinema - ou prum cinéfilo, dá na mesma - que o filme de certo diretor não passa de uma banalização monotemática dos contos de um escritor consagrado nos quais o próprio diretor diz que se inspirou (e mesmo que o próprio diretor ressalte isso em todas as exibições públicas e que a menção aos contos compareça em todas as sinopses, até nas mais curtas), o estudante/cinéfilo te responderá que "Não se pode comparar as duas linguagens" - um argumento que, inconscientemente ou não, é de uma autoridade brutal e visa a infantilização, pois desde pelo menos a alfabetização qualquer um percebe a diferença entre uma imagem de TV e a página de um livro. "Não se pode comparar" é, na verdade, de um eufemismo pra "cada macaco no seu galho", que, por sua vez, quer dizer: há mercado para todos e não venha mexer no meu peixe.

(Um exemplo contrário a esta lógica que a confirma por sua excepcionalidade é o Vistos e escritos, melhor blog "sobre cinema" que conheço. A sua leitura dos filmes de Tarantino é, também, a melhor que já vi. Arte e crítica não são competições olímpicas, mas também não são Jogos Abertos).


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

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