O que é o Terror?

| | Comentários (14)

(Dedico este primeiro post, adaptação de um trecho de monografia que desenvolvi para um curso de pós-graduação ministrado por Raúl Antelo, à Idelber Avelar, responsável pelo melhor blog do Brasil).

"La terreur n'est autre chose que la justice prompte, sévère, inflexible"
(Robespierre, 5 de fevereiro de 1794)

Uma pequena peça de teatro de Oswald de Andrade encena o discurso d'"O Chefe", na verdade um ditador pintado de forma clownesca (lembrando "O Grande Ditador" de Chaplin) para a "Multidão". Depois de propor "matar todos os desafetos" e ser ovacionado, o líder emenda: "Os indiferentes também!", sendo novamente aclamado: "Abaixo os indiferentes! Mataremos todos!". Este Panorama do fascismo parece estar muito menos relacionado a um fato histórico específico (que uma leitura apressada poderia sugerir) do que a uma força latente e sempre presente na política: ao retomar a peça em 1945, logo após o fim da Segunda Grande Guerra, Oswald argumentou que ela continuava "mais que oportuna, pois hoje o fascismo não anda às claras como em 37, quando a publiquei, mas parece oculto e camuflado nas roupagens mais inesperadas". Do mesmo modo, no seu discurso de encerramento ao I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado no mesmo ano, uma advertência similar é feita a respeito do perigo do travestimento do fascismo, este "conúbio do Capital, do Oportunismo e do Terror". De algum modo, se poderia dizer que a curta passagem que citamos parece conter a quintessência de um fenômeno que ultrapassa a mera circunstância histórica e que, aceitando a sugestão do autor, optamos por chamar de "Terror".

Ao discursar sobre a administração da República, Robespierre, integrante do Comitê de Saúde Pública (nome nada fortuito, pois evidencia a entrada, para o primeiro plano do dado biológico como um fator a ser gerido - o que Giorgio Agamben chama de biopolítica, a suspensão soberana que permite uma regulação gerencial, oikonomica, da vida) da França revolucionária, faz uso de uma fórmula dual e total: a "premissa máxima" que propõe é "conduzir o povo pela razão, e os inimigos do povo pelo terror". Não só não há contradição, mas complementaridade entre as duas medidas - "A virtude, sem a qual o terror é funesto; o terror sem o qual a virtude é impotente", ou também, "o terror (...) é, portanto, uma emanação da virtude; ele é menos que um princípio particular que uma conseqüência do princípio geral da democracia aplicado às mais prementes necessidades da pátria", diz ainda o líder jacobino -, como também não há meio termo ou termo excluído. Amigo ou inimigo, como na conhecida definição da política de Carl Schmitt. Esta divisão binária resulta do que Susan Buck-Morss chamou de "truque lógico": o amigo só se define a partir do inimigo, é o não-inimigo, e justo este poder de definir o inimigo é o que confere ao soberano uma zona cinza de atuação, antes e depois de toda legalidade, pois ele "cria" o povo que lhe legitima. Há, segundo Agamben, uma "tomada do fora", mas a formulação à brasileira de Jarbas Passarinho também serve: "às favas (...) todos os escrúpulos de consciência": "o governo da Revolução", continua Ropesbierre, "é o despotismo da liberdade contra a tirania". Esta exceção onde habita a soberania - o Terror - não captura somente o seu suposto Outro - a tirania que combate e que, internalizada se converte no paradoxal despotismo da liberdade - mas todo fora - "eu, o soberano, que estou fora da lei, declaro que não há um fora da lei" (Agamben) -, daí que não possa haver um terceiro termo, uma parte que não tome parte, algo que não pertença à lógica amigo-inimigo, virtude-terror. Deste modo, não espanta que a Lei dos Suspeitos, aprovada pela Convenção Nacional da recém instaurada República francesa em 1793, declare suspeitos e, portanto, sujeitos ao Terror e não à razão, não só aqueles que "nas assembléias do povo, capturam sua energia através de discursos astuciosos, de brados turbulentos e de ameaças" (1) ou aqueles "que assinaram petições contra-revolucionárias ou freqüentaram sociedades e clubes anti- cívicos" (11), mas também "Aqueles que receberam com indiferença a constituição republicana" (7; grifo nosso) e "Aqueles que, não tendo feito nada contra a liberdade, também não fizeram nada a seu favor" (8). Em outras palavras: o Terror visa eliminar toda indiferença, toda neutralidade, capturando-a no sistema binário amigo-inimigo, incluindo-a "unicamente através de sua exclusão" (Agamben): a indiferença torna-se hostilidade. Isto explica não somente a lógica jacobina, mas mesmo os atuais atentados terroristas; tanto os sem vítimas, como os atualmente praticados pelo ETA, como o seu extremo oposto, aqueles cujos alvos são somente civis, como os inúmeros resultantes de homens-bomba palestinos em Jerusalém (ou o seu reverso: a ação terrorista do Estado de Israel): em ambos os casos, se trata de manter e/ou reproduzir este sistema dual sem resto. Se no primeiro caso trata-se de chamar a atenção sobre uma causa, como que a conclamar a tomada de posição de uma população alheia ao assunto (nem que seja para assumir uma postura contra os terroristas - o que muitas vezes ocorre e não deixa de ser desejado, pois a vitimização é uma das suas armas prediletas); no segundo, o objetivo é mostrar que não há como não ser inimigo se não se é amigo. Não há, jamais, segundo a lógica do Terror, vítimas inocentes ou civis. Ali onde o senso comum e a "opinião que se publica" (a opinião pública da sociedade do espetáculo, onde, segundo Guy Debord, "o que aparece é bom, o que é bom aparece") diz "radicais", "extremistas", devemos ler dualizantes. Em última instância, poderíamos dizer que toda política moderna porta, ainda que mitigada, uma origem na exceção, toda política moderna é, assim, terrorista (as democracias parlamentares não passam de uma divisão governo/oposição e a existência de pluripartidarismo e "independentes" não passa de engodo) porque visa eliminar a indiferença - especialmente o marxismo e sua predileção pela dialética, a divisão da sociedade em burguesia e proletariado, a noção de tomada de consciência de classe - ou seu refinamento gramsciano na idéia de hegemonia. O recente alarme dos governos e partidos de países com a abstinência eleitoral onde o voto não é obrigatório (nos países onde há sanções a quem não vota, isto fica ainda mais evidente) parece atestar que também nossas democracias continuam, portanto, com uma espécie de ira à indiferença: a "culpa" da ida do direitista Le Pen ao segundo turno numa eleição francesa recente seria dos que não votaram. O Terror é a politização total, sem resíduos, da vida.

Se estamos corretos, o atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center não marca a entrada no novo século (ou numa nova era, a do "choque das civilizações"), como tanto a mídia nos quis fazer crer - até porque, se a Primeira Grande Guerra é o marco inaugural do século XX, devemos lembrar que seu estopim é, como foi o da atual "guerra infinita" dos falcões de Washington, um atentado terrorista, o assassinato de Francisco Ferdinando -, mas o retorno do recalcado, de uma cena originária, de uma arké - e neste sentido, sim, a Revolução Francesa funda a modernidade, pois momentaneamente a despe, colocando "o Terror na ordem do dia": "Arcaico significa: próximo à arké, isto é, à origem. Mas a origem não é situada somente em um passado cronológico: ela é contemporânea ao devir histórico e não cessa de operar nele. O hiato - e, ao mesmo tempo, a vizinhança - que definem a contemporaneidade tem o seu fundamento nesta proximidade com a origem, que em nenhum ponto pulsa mais forte que no presente. Quem viu pela primeira vez, chegando do mar na aurora, os arranha-céus de Nova Iorque, subitamente percebeu esta contigüidade com a ruína que as imagens atemporais do 11 de setembro  deixaram evidente para todos." (Agamben). Não foi à toa, portanto, que Roland Barthes, em seu curso sobre o Neutro, isto é, na sua tentativa de traçar linhas de fugas ao dualismo sufocante, questionou se a obrigação de participar não estaria presente já na cena arquétipa e inspiradora dos ideais democráticos modernos, a polis: a "Obrigação de politizar-se", perguntava-se, "seria, afinal de contas, uma herança grega?". Não é demais lembrar que também Pierre Clastres traçará como marco distintivo do pensamento ocidental derivado dos gregos a busca do Um em oposição ao múltiplo dos "primitivos" ameríndios. Que hoje, terrorismo seja uma expressão reservada aos inimigos e o Ocidente busque o que seria seu suposto oposto, o consenso, é mero jogo de palavras (ou sinônimo de sua derrocada: "Quando a consciência da presença latente da violência dentro de uma instituição jurídica se apaga, esta entra em decadência", nos diz Benjamin, em sua Crítica da violência, em referência ao parlamento alemão de Weimar, mas que cabe igualmente aos nossos): do mesmo modo o Terror jacobino não almejava nada além do consenso (o Um), sintetizando violentamente os dois termos da equação pela captura e eliminação da antítese, por sua "exclusão inclusiva". O consenso é a continuação do Terror por outros meios. O dispositivo fundamental que garante o seu funcionamento é algo que propomos chamar de censura e cuja definição precisa constitui uma das tarefas políticas mais urgentes, pois continua contemporânea a experiência que Walter Benjamin captou "A Caminho do Planetário", nesta "Rua de mão única" que foi o século XX, onde a potência destrutiva do Terror sobrepujou a criação, o Novo, o dissenso: "É embriaguez, decerto, a experiência na qual nos asseguramos unicamente do mais próximo e do mais distante, e nunca de um sem o outro. Isso quer dizer, porém, que somente na comunidade o homem pode comunicar em embriaguez com o cosmos. (...) Nas noites de aniquilamento da última guerra, sacudiu a estrutura dos membros da humanidade um sentimento que era semelhante à felicidade do epiléptico. E as revoltas que se seguiram eram o primeiro ensaio de colocar o novo corpo em seu poder. A potência do proletariado é o escalão da medida de seu processo de cura. Se a disciplina deste não o penetra até a medula, nenhum raciocínio pacifista o salvará. O vivente só sobrepuja a vertigem do aniquilamento na embriaguez da procriação".

14 Comentários

Ei, muito interessante sua discussão. Mas, tenho uma pergunta. Deixa ver se eu entendi direito. Se existe o problema da dualidade em que o problema do terror acaba se tornando uma herança amarga na nossa história e aqui acaba-se criando um estado de indiferença, então como podemos sair desta situação dual sem cairmos em uma outra dualidade ou até mesmo multiplicidade de posicionamentos?


Theo,

meu argumento é que o Terror é uma forma de capturar a indiferença, convertê-la em oposição: o indiferente vira um inimigo. Obviamente não existe uma indiferença pura, não se pode ser indiferente a tudo - sempre se é indiferente em relação a algo. No caso em questão da fase jacobina da Revolução Francesa, aquele que não era nem revolucionário nem contra-revolucionário (ou seja, indiferente em relação à revolução) era enquadrado como inimigo, como contra-revolucionário. A questão atual é atravessado por um desenvolvimento deste modelo, por meio da censura e do consenso, que espero expor aos poucos neste blog (é minha pesquisa em andamento). Mas acredito que a saída é, como na citação de Benjamin, a vertigem da pro-criação (reagindo contra a tentação da vertigem do aniquilamento, da unicidade ou da dualidade - o Dois é sempre espelho do Um, como Benveniste percebeu em relação aos pronomes pessoais: o "tu" sempre depende da presença de um "eu"). O que exatamente isto quer dizer, ainda tenho de desenvolver, mas não se trata de relativismo de uma criação desenfreada (ou de uma creatio ex nihilo), antes, como se trata de pro-criação, de uma reelaboração do material da tradição, desativando seu papel de autoridade (penso no que Benjamin desenvolve em "Experiência e Pobreza" e "A caminho do planetário" - ou o que Agamben desenvolve a partir deste fragmento do "Rua de Mão Única" em "O Aberto".

Um Abraço,

Alexandre Nodari


Belo texto e grande estréia na blogosfera, meu caro. E obrigado pela dedicatória. O texto me suscitou muita coisa mas, de imediato, deixo uma interrogante. A lógica do Terror como eliminação da indiferença e binarização do corpo social está claríssima, mas em algum momento do projeto, eu imagino, você se deparará com a pergunta: será que "reverso" ou "extremo oposto" descrevem adequadamente a relação entre o terrorismo de estado e o homem-bomba? Ou será que eles pertencem a lógicas que não são exatamente opostas ou inversas, mas de ordens distintas e irredutíveis? Pergunto porque conhecemos o argumento dos que apóiam (ou justificam) o terrorismo de estado em nome da manutenção da lei: as vítimas inocentes seriam "danos coleterais", figuras às quais não se desejou atingir. A justificativa do terrorismo de estado aponta, então, para um terreno moral -- ela quer instalar a discussão no campo da moral, e aí diferenciar-se do homem-bomba. Neste, por outro lado, opera, me parece, uma lógica na qual as vítimas são "proxies", substitutos, vítimas vicárias. É uma lógica que talvez não demonstre a mesma eliminação da indiferença que você bem identifica no Terror de 1789-93. Qual seria essa outra lógica é pano para manga, mas eu acho que haveria que se suspeitar dessa fácil categoria do "reverso" ou do "extremo oposto". Dica: há uma belíssima etnografia do homem-bomba palestino (etnografia mesmo, com entrevistas e tudo mais) publicada sob o título "'Comes a time when we are all enthusiasm': Understanding Palestinian Suicide Bombers in Times of Exighophobia", de Ghassan Hage, na revista Public Culture de 2003 (vol. 15.1). Acho que dá para ler a Public Culture online. Se não, avise e eu lhe envio o PDF, pois tenho acesso a ela via JSTOR. Abração e bem-vindo à blogosfera.


Nodari, seja bem-vindo à blogosfera.

Abraços!


Caro Nodari!

Gostei muito de sua explanação sobre o terror e suas diversas faces, que são ao mesmo tempo só uma, que seria o pavor do dissenso. Esta questão é muito importante, pois expõe o problema da busca do consenso em todos os sentidos hodiernamente. É um grande paradoxo quando lemos ou ouvimos de outros - ou de nós mesmos - que vivemos num mundo nunca tão livre quanto hoje. Isto soa engraçado para mim, já que sinto que esta liberdade vem acompanhada de vários rótulos, de várias verdades estabelecidas, meio que combinadas com o tão falado "fim da história" dos falcões neo-conservadores americanos, como se o homem não tivesse nada a acrescentar em pensamentos, filosofias ou ideologias. A sensação é de que vivemos num mundo acabado, como uma Capela Sistina, que só precisa de reparos quando um mofo incômodo ou uma umidade desnecessária vem atrapalhar a linda visão da humanidade. Tudo é repetitivo e acompanhado de Ahhhs e Ohhhs, quando algo sai dos trilhos do aceitável, em todos os sentidos. Tenho que concordar contigo quando afirmas que o terror está presente, mais do que nunca, nesta "sociedade democrática" de hoje. Não um terror de bombas e mortes - este também, mas o terror da intolerãncia pela diferença e - por que não dizer - pela indiferença.

Como sempre, vai minha grande admiração e minha garantia de assiduidade do seu blog!

Abraço!


Phi,

obrigado!

Idelber, agradeço o link e o comentário mais que pertinente. Você tem razão: fiz uso de uma "categoria fácil" - acrescentei de última hora a referência ao Estado terrorista de Israel. Ainda tenho de pensar a respeito de como se diferenciam (por ora, estou no aguardo para ler a pesquisa de um amigo, Rodrigo Lopes de Oliveira, onde ele aborda a face histérica do terrorismo atual). Posso adiantar que no tocante aos "collateral damages", eles fazem parte dos cálculos de governo. No mais recente livro da série Homo sacer, Il Regno e la Gloria, Agamben analisa a genealogia da governamentabilidade, demonstrando a existência, desde os primeiros séculos cristãos, de uma teologia econômica, de uma oikonomia, onde, para articular, na Trindade, Pai e Filho, os teólogos criaram o embrião dos danos colaterais - ao lado de uma Providência de caráter geral,onde Deus não se intromete no cotidiano), haveria uma Providência de caráter específico, os efeitos não esperados, o dia-a-dia, as "pequenas" conseqüências da Providência geral, mas que, dada a sua ligação com esta última, i.e., com um Plano total, poderiam ser previstas, reguladas, controladas, etc. Ou seja, e isto é sabido desde que se criou a idéia de um "governo do mundo", os efeitos colaterais, ou se quisermos, as margens, não são sem relação com o núcleo, com o objetivo, e só muita ingenuidade para acreditar que eles não eram previstos. Creio que, de certo modo, para os gerentes do Exército israelense, não há diferença entre os terroristas e os não-terroristas, mas como você bem disse e como toda esta resposta demonstra, exige uma análise mais detida. Vou atrás do texto que v. indicou; se não achar, te peço via email.

Um abraço,

Alexandre Nodari


Raphael,

você sumarizou - no melhor sentido do termo, isto é, de resgate e condensação sem perda de sentido - meu texto em uma frase: uma "explanação sobre o terror e suas diversas faces, que são ao mesmo tempo só uma, que seria o pavor do dissenso". De fato, a pesquisa que desenvolvo no doutorado (e que pretendo ir divulgando neste blog à medida em que for dando resultados) trata justamente de uma tentativa de reconceituar a censura: não mais somente como a proibição de discursos, mas como um dispositivo de desdiferenciação da linguagem, e, por isso, muito próxima da idéia hoje em dia tão em voga do consenso (mesmo na sua acepção teórica mais elaborada, a de Habermas - para ele o consenso deve ser buscado através da argumentação racional de sujeitos despidos da vida privada; isto envolve uma operação de homogeneização). A meu ver, a censura vista como desdiferenciação da linguagem permeia hoje quase todos os domínios da linguagem, não só o campo mais óbvio da mídia e da política, mas igualmente o das escolas, da academia, etc. Mesmo o "politicamente correto" envolve uma certa dose de censura; e nem toda proibição deve ser caracterizada como censura.

Abraço,

Alexandre Nodari


parabéns nodari. e se é uma estréia, ela foi de alto nível.excelentes reflexões.
e que padrinho, hein?
sucesso na caminhada.


Obrigado luzete. O padrinho fui eu que escolhi mesmo, ele não teve nem chance de dizer não. Um abraço


Muito interessante o seu blog. Sou estudante de Jornalismo da Univali e acompanho seu blog já faz um tempo, pois me interesso muito por política e temas complementares. Descobri agora que geograficamente estamos próximos (Florianópolis e Itajaí). Parabéns pelo seu trabalho aqui neste meio de comunicação.

Um abraço.


Legal... dá uma olhada no link q vc vai gostar...
é um texto sobre terrorismo usando a teoria de henri lefebvre (neomarxista) pros dias de hj...
http://www.anpur.org.br/publicacoes/Revistas/Anpur_v5n2.pdf


Uma pequena peça de teatro de Oswald de Andrade encena o discurso d'"O Chefe", na verdade um ditador pintado de forma clownesca (lembrando "O Grande Ditador" de Chaplin) para a "Multidão". Depois de propor "matar todos os desafetos" e ser ovacionado, o líder emenda: "Os indiferentes também!", sendo novamente aclamado: "Abaixo os indiferentes! Mataremos todos!". Este Panorama do fascismo parece estar muito menos relacionado a um fato histórico específico (que uma leitura apressada poderia sugerir) do que a uma força latente e sempre presente na política: ao retomar a peça em 1945, logo após o fim da Segunda Grande Guerra, Oswald argumentou que ela continuava "mais que oportuna, pois hoje o fascismo não anda às claras como em 37, quando a publiquei, mas parece oculto e camuflado nas roupagens mais inesperadas". Do mesmo modo, no seu discurso de encerramento ao I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado no mesmo ano, uma advertência similar é feita a respeito do perigo do travestimento do fascismo, este "conúbio do Capital, do Oportunismo e do Terror". De algum modo, se poderia dizer que a curta passagem que citamos parece conter a quintessência de um fenômeno que ultrapassa a mera circunstância histórica e que, aceitando a sugestão do autor, optamos por chamar de "Terror".

Ao discursar sobre a administração da República, Robespierre, integrante do Comitê de Saúde Pública (nome nada fortuito, pois evidencia a entrada, para o primeiro plano do dado biológico como um fator a ser gerido - o que Giorgio Agamben chama de biopolítica, a suspensão soberana que permite uma regulação gerencial, oikonomica, da vida) da França revolucionária, faz uso de uma fórmula dual e total: a "premissa máxima" que propõe é "conduzir o povo pela razão, e os inimigos do povo pelo terror". Não só não há contradição, mas complementaridade entre as duas medidas - "A virtude, sem a qual o terror é funesto; o terror sem o qual a virtude é impotente", ou também, "o terror (...) é, portanto, uma emanação da virtude; ele é menos que um princípio particular que uma conseqüência do princípio geral da democracia aplicado às mais prementes necessidades da pátria", diz ainda o líder jacobino -, como também não há meio termo ou termo excluído. Amigo ou inimigo, como na conhecida definição da política de Carl Schmitt. Esta divisão binária resulta do que Susan Buck-Morss chamou de "truque lógico": o amigo só se define a partir do inimigo, é o não-inimigo, e justo este poder de definir o inimigo é o que confere ao soberano uma zona cinza de atuação, antes e depois de toda legalidade, pois ele "cria" o povo que lhe legitima. Há, segundo Agamben, uma "tomada do fora", mas a formulação à brasileira de Jarbas Passarinho também serve: "às favas (...) todos os escrúpulos de consciência": "o governo da Revolução", continua Ropesbierre, "é o despotismo da liberdade contra a tirania". Esta exceção onde habita a soberania - o Terror - não captura somente o seu suposto Outro - a tirania que combate e que, internalizada se converte no paradoxal despotismo da liberdade - mas todo fora - "eu, o soberano, que estou fora da lei, declaro que não há um fora da lei" (Agamben) -, daí que não possa haver um terceiro termo, uma parte que não tome parte, algo que não pertença à lógica amigo-inimigo, virtude-terror. Deste modo, não espanta que a Lei dos Suspeitos, aprovada pela Convenção Nacional da recém instaurada República francesa em 1793, declare suspeitos e, portanto, sujeitos ao Terror e não à razão, não só aqueles que "nas assembléias do povo, capturam sua energia através de discursos astuciosos, de brados turbulentos e de ameaças" (1) ou aqueles "que assinaram petições contra-revolucionárias ou freqüentaram sociedades e clubes anti- cívicos" (11), mas também "Aqueles que receberam com indiferença a constituição republicana" (7; grifo nosso) e "Aqueles que, não tendo feito nada contra a liberdade, também não fizeram nada a seu favor" (8). Em outras palavras: o Terror visa eliminar toda indiferença, toda neutralidade, capturando-a no sistema binário amigo-inimigo, incluindo-a "unicamente através de sua exclusão" (Agamben): a indiferença torna-se hostilidade. Isto explica não somente a lógica jacobina, mas mesmo os atuais atentados terroristas; tanto os sem vítimas, como os atualmente praticados pelo ETA, como o seu extremo oposto, aqueles cujos alvos são somente civis, como os inúmeros resultantes de homens-bomba palestinos em Jerusalém (ou o seu reverso: a ação terrorista do Estado de Israel): em ambos os casos, se trata de manter e/ou reproduzir este sistema dual sem resto. Se no primeiro caso trata-se de chamar a atenção sobre uma causa, como que a conclamar a tomada de posição de uma população alheia ao assunto (nem que seja para assumir uma postura contra os terroristas - o que muitas vezes ocorre e não deixa de ser desejado, pois a vitimização é uma das suas armas prediletas); no segundo, o objetivo é mostrar que não há como não ser inimigo se não se é amigo. Não há, jamais, segundo a lógica do Terror, vítimas inocentes ou civis. Ali onde o senso comum e a "opinião que se publica" (a opinião pública da sociedade do espetáculo, onde, segundo Guy Debord, "o que aparece é bom, o que é bom aparece") diz "radicais", "extremistas", devemos ler dualizantes. Em última instância, poderíamos dizer que toda política moderna porta, ainda que mitigada, uma origem na exceção, toda política moderna é, assim, terrorista (as democracias parlamentares não passam de uma divisão governo/oposição e a existência de pluripartidarismo e "independentes" não passa de engodo) porque visa eliminar a indiferença - especialmente o marxismo e sua predileção pela dialética, a divisão da sociedade em burguesia e proletariado, a noção de tomada de consciência de classe - ou seu refinamento gramsciano na idéia de hegemonia. O recente alarme dos governos e partidos de países com a abstinência eleitoral onde o voto não é obrigatório (nos países onde há sanções a quem não vota, isto fica ainda mais evidente) parece atestar que também nossas democracias continuam, portanto, com uma espécie de ira à indiferença: a "culpa" da ida do direitista Le Pen ao segundo turno numa eleição francesa recente seria dos que não votaram. O Terror é a politização total, sem resíduos, da vida.

Se estamos corretos, o atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center não marca a entrada no novo século (ou numa nova era, a do "choque das civilizações"), como tanto a mídia nos quis fazer crer - até porque, se a Primeira Grande Guerra é o marco inaugural do século XX, devemos lembrar que seu estopim é, como foi o da atual "guerra infinita" dos falcões de Washington, um atentado terrorista, o assassinato de Francisco Ferdinando -, mas o retorno do recalcado, de uma cena originária, de uma arké - e neste sentido, sim, a Revolução Francesa funda a modernidade, pois momentaneamente a despe, colocando "o Terror na ordem do dia": "Arcaico significa: próximo à arké, isto é, à origem. Mas a origem não é situada somente em um passado cronológico: ela é contemporânea ao devir histórico e não cessa de operar nele. O hiato - e, ao mesmo tempo, a vizinhança - que definem a contemporaneidade tem o seu fundamento nesta proximidade com a origem, que em nenhum ponto pulsa mais forte que no presente. Quem viu pela primeira vez, chegando do mar na aurora, os arranha-céus de Nova Iorque, subitamente percebeu esta contigüidade com a ruína que as imagens atemporais do 11 de setembro deixaram evidente para todos." (Agamben). Não foi à toa, portanto, que Roland Barthes, em seu curso sobre o Neutro, isto é, na sua tentativa de traçar linhas de fugas ao dualismo sufocante, questionou se a obrigação de participar não estaria presente já na cena arquétipa e inspiradora dos ideais democráticos modernos, a polis: a "Obrigação de politizar-se", perguntava-se, "seria, afinal de contas, uma herança grega?". Não é demais lembrar que também Pierre Clastres traçará como marco distintivo do pensamento ocidental derivado dos gregos a busca do Um em oposição ao múltiplo dos "primitivos" ameríndios. Que hoje, terrorismo seja uma expressão reservada aos inimigos e o Ocidente busque o que seria seu suposto oposto, o consenso, é mero jogo de palavras (ou sinônimo de sua derrocada: "Quando a consciência da presença latente da violência dentro de uma instituição jurídica se apaga, esta entra em decadência", nos diz Benjamin, em sua Crítica da violência, em referência ao parlamento alemão de Weimar, mas que cabe igualmente aos nossos): do mesmo modo o Terror jacobino não almejava nada além do consenso (o Um), sintetizando violentamente os dois termos da equação pela captura e eliminação da antítese, por sua "exclusão inclusiva". O consenso é a continuação do Terror por outros meios. O dispositivo fundamental que garante o seu funcionamento é algo que propomos chamar de censura e cuja definição precisa constitui uma das tarefas políticas mais urgentes, pois continua contemporânea a experiência que Walter Benjamin captou "A Caminho do Planetário", nesta "Rua de mão única" que foi o século XX, onde a potência destrutiva do Terror sobrepujou a criação, o Novo, o dissenso: "É embriaguez, decerto, a experiência na qual nos asseguramos unicamente do mais próximo e do mais distante, e nunca de um sem o outro. Isso quer dizer, porém, que somente na comunidade o homem pode comunicar em embriaguez com o cosmos. (...) Nas noites de aniquilamento da última guerra, sacudiu a estrutura dos membros da humanidade um sentimento que era semelhante à felicidade do epiléptico. E as revoltas que se seguiram eram o primeiro ensaio de colocar o novo corpo em seu poder. A potência do proletariado é o escalão da medida de seu processo de cura. Se a disciplina deste não o penetra até a medula, nenhum raciocínio pacifista o salvará. O vivente só sobrepuja a vertigem do aniquilamento na embriaguez da procriação".
Categorias:Censura: um work-in-progress11 Comentários
Ei, muito interessante sua discussão. Mas, tenho uma pergunta. Deixa ver se eu entendi direito. Se existe o problema da dualidade em que o problema do terror acaba se tornando uma herança amarga na nossa história e aqui acaba-se criando um estado de indiferença, então como podemos sair desta situação dual sem cairmos em uma outra dualidade ou até mesmo multiplicidade de posicionamentos?

Por Theo em maio 5, 2008 7:32 PM
Theo,

meu argumento é que o Terror é uma forma de capturar a indiferença, convertê-la em oposição: o indiferente vira um inimigo. Obviamente não existe uma indiferença pura, não se pode ser indiferente a tudo - sempre se é indiferente em relação a algo. No caso em questão da fase jacobina da Revolução Francesa, aquele que não era nem revolucionário nem contra-revolucionário (ou seja, indiferente em relação à revolução) era enquadrado como inimigo, como contra-revolucionário. A questão atual é atravessado por um desenvolvimento deste modelo, por meio da censura e do consenso, que espero expor aos poucos neste blog (é minha pesquisa em andamento). Mas acredito que a saída é, como na citação de Benjamin, a vertigem da pro-criação (reagindo contra a tentação da vertigem do aniquilamento, da unicidade ou da dualidade - o Dois é sempre espelho do Um, como Benveniste percebeu em relação aos pronomes pessoais: o "tu" sempre depende da presença de um "eu"). O que exatamente isto quer dizer, ainda tenho de desenvolver, mas não se trata de relativismo de uma criação desenfreada (ou de uma creatio ex nihilo), antes, como se trata de pro-criação, de uma reelaboração do material da tradição, desativando seu papel de autoridade (penso no que Benjamin desenvolve em "Experiência e Pobreza" e "A caminho do planetário" - ou o que Agamben desenvolve a partir deste fragmento do "Rua de Mão Única" em "O Aberto".

Um Abraço,

Alexandre Nodari

Por Alexandre Nodari em maio 5, 2008 7:52 PM
Belo texto e grande estréia na blogosfera, meu caro. E obrigado pela dedicatória. O texto me suscitou muita coisa mas, de imediato, deixo uma interrogante. A lógica do Terror como eliminação da indiferença e binarização do corpo social está claríssima, mas em algum momento do projeto, eu imagino, você se deparará com a pergunta: será que "reverso" ou "extremo oposto" descrevem adequadamente a relação entre o terrorismo de estado e o homem-bomba? Ou será que eles pertencem a lógicas que não são exatamente opostas ou inversas, mas de ordens distintas e irredutíveis? Pergunto porque conhecemos o argumento dos que apóiam (ou justificam) o terrorismo de estado em nome da manutenção da lei: as vítimas inocentes seriam "danos coleterais", figuras às quais não se desejou atingir. A justificativa do terrorismo de estado aponta, então, para um terreno moral -- ela quer instalar a discussão no campo da moral, e aí diferenciar-se do homem-bomba. Neste, por outro lado, opera, me parece, uma lógica na qual as vítimas são "proxies", substitutos, vítimas vicárias. É uma lógica que talvez não demonstre a mesma eliminação da indiferença que você bem identifica no Terror de 1789-93. Qual seria essa outra lógica é pano para manga, mas eu acho que haveria que se suspeitar dessa fácil categoria do "reverso" ou do "extremo oposto". Dica: há uma belíssima etnografia do homem-bomba palestino (etnografia mesmo, com entrevistas e tudo mais) publicada sob o título "'Comes a time when we are all enthusiasm': Understanding Palestinian Suicide Bombers in Times of Exighophobia", de Ghassan Hage, na revista Public Culture de 2003 (vol. 15.1). Acho que dá para ler a Public Culture online. Se não, avise e eu lhe envio o PDF, pois tenho acesso a ela via JSTOR. Abração e bem-vindo à blogosfera.

Por Idelber em maio 5, 2008 10:19 PM
Nodari, seja bem-vindo à blogosfera.

Abraços!

Por Phi em maio 5, 2008 10:21 PM
Caro Nodari!

Gostei muito de sua explanação sobre o terror e suas diversas faces, que são ao mesmo tempo só uma, que seria o pavor do dissenso. Esta questão é muito importante, pois expõe o problema da busca do consenso em todos os sentidos hodiernamente. É um grande paradoxo quando lemos ou ouvimos de outros - ou de nós mesmos - que vivemos num mundo nunca tão livre quanto hoje. Isto soa engraçado para mim, já que sinto que esta liberdade vem acompanhada de vários rótulos, de várias verdades estabelecidas, meio que combinadas com o tão falado "fim da história" dos falcões neo-conservadores americanos, como se o homem não tivesse nada a acrescentar em pensamentos, filosofias ou ideologias. A sensação é de que vivemos num mundo acabado, como uma Capela Sistina, que só precisa de reparos quando um mofo incômodo ou uma umidade desnecessária vem atrapalhar a linda visão da humanidade. Tudo é repetitivo e acompanhado de Ahhhs e Ohhhs, quando algo sai dos trilhos do aceitável, em todos os sentidos. Tenho que concordar contigo quando afirmas que o terror está presente, mais do que nunca, nesta "sociedade democrática" de hoje. Não um terror de bombas e mortes - este também, mas o terror da intolerãncia pela diferença e - por que não dizer - pela indiferença.

Como sempre, vai minha grande admiração e minha garantia de assiduidade do seu blog!

Abraço!

Por Raphael em maio 5, 2008 10:31 PM
Phi,

obrigado!

Idelber, agradeço o link e o comentário mais que pertinente. Você tem razão: fiz uso de uma "categoria fácil" - acrescentei de última hora a referência ao Estado terrorista de Israel. Ainda tenho de pensar a respeito de como se diferenciam (por ora, estou no aguardo para ler a pesquisa de um amigo, Rodrigo Lopes de Oliveira, onde ele aborda a face histérica do terrorismo atual). Posso adiantar que no tocante aos "collateral damages", eles fazem parte dos cálculos de governo. No mais recente livro da série Homo sacer, Il Regno e la Gloria, Agamben analisa a genealogia da governamentabilidade, demonstrando a existência, desde os primeiros séculos cristãos, de uma teologia econômica, de uma oikonomia, onde, para articular, na Trindade, Pai e Filho, os teólogos criaram o embrião dos danos colaterais - ao lado de uma Providência de caráter geral,onde Deus não se intromete no cotidiano), haveria uma Providência de caráter específico, os efeitos não esperados, o dia-a-dia, as "pequenas" conseqüências da Providência geral, mas que, dada a sua ligação com esta última, i.e., com um Plano total, poderiam ser previstas, reguladas, controladas, etc. Ou seja, e isto é sabido desde que se criou a idéia de um "governo do mundo", os efeitos colaterais, ou se quisermos, as margens, não são sem relação com o núcleo, com o objetivo, e só muita ingenuidade para acreditar que eles não eram previstos. Creio que, de certo modo, para os gerentes do Exército israelense, não há diferença entre os terroristas e os não-terroristas, mas como você bem disse e como toda esta resposta demonstra, exige uma análise mais detida. Vou atrás do texto que v. indicou; se não achar, te peço via email.

Um abraço,

Alexandre Nodari

Por Alexandre Nodari em maio 5, 2008 10:44 PM
Raphael,

você sumarizou - no melhor sentido do termo, isto é, de resgate e condensação sem perda de sentido - meu texto em uma frase: uma "explanação sobre o terror e suas diversas faces, que são ao mesmo tempo só uma, que seria o pavor do dissenso". De fato, a pesquisa que desenvolvo no doutorado (e que pretendo ir divulgando neste blog à medida em que for dando resultados) trata justamente de uma tentativa de reconceituar a censura: não mais somente como a proibição de discursos, mas como um dispositivo de desdiferenciação da linguagem, e, por isso, muito próxima da idéia hoje em dia tão em voga do consenso (mesmo na sua acepção teórica mais elaborada, a de Habermas - para ele o consenso deve ser buscado através da argumentação racional de sujeitos despidos da vida privada; isto envolve uma operação de homogeneização). A meu ver, a censura vista como desdiferenciação da linguagem permeia hoje quase todos os domínios da linguagem, não só o campo mais óbvio da mídia e da política, mas igualmente o das escolas, da academia, etc. Mesmo o "politicamente correto" envolve uma certa dose de censura; e nem toda proibição deve ser caracterizada como censura.

Abraço,

Alexandre Nodari


Uma pequena peça de teatro de Oswald de Andrade encena o discurso d'"O Chefe", na verdade um ditador pintado de forma clownesca (lembrando "O Grande Ditador" de Chaplin) para a "Multidão". Depois de propor "matar todos os desafetos" e ser ovacionado, o líder emenda: "Os indiferentes também!", sendo novamente aclamado: "Abaixo os indiferentes! Mataremos todos!". Este Panorama do fascismo parece estar muito menos relacionado a um fato histórico específico (que uma leitura apressada poderia sugerir) do que a uma força latente e sempre presente na política: ao retomar a peça em 1945, logo após o fim da Segunda Grande Guerra, Oswald argumentou que ela continuava "mais que oportuna, pois hoje o fascismo não anda às claras como em 37, quando a publiquei, mas parece oculto e camuflado nas roupagens mais inesperadas". Do mesmo modo, no seu discurso de encerramento ao I Congresso Brasileiro de Escritores, realizado no mesmo ano, uma advertência similar é feita a respeito do perigo do travestimento do fascismo, este "conúbio do Capital, do Oportunismo e do Terror". De algum modo, se poderia dizer que a curta passagem que citamos parece conter a quintessência de um fenômeno que ultrapassa a mera circunstância histórica e que, aceitando a sugestão do autor, optamos por chamar de "Terror".

Ao discursar sobre a administração da República, Robespierre, integrante do Comitê de Saúde Pública (nome nada fortuito, pois evidencia a entrada, para o primeiro plano do dado biológico como um fator a ser gerido - o que Giorgio Agamben chama de biopolítica, a suspensão soberana que permite uma regulação gerencial, oikonomica, da vida) da França revolucionária, faz uso de uma fórmula dual e total: a "premissa máxima" que propõe é "conduzir o povo pela razão, e os inimigos do povo pelo terror". Não só não há contradição, mas complementaridade entre as duas medidas - "A virtude, sem a qual o terror é funesto; o terror sem o qual a virtude é impotente", ou também, "o terror (...) é, portanto, uma emanação da virtude; ele é menos que um princípio particular que uma conseqüência do princípio geral da democracia aplicado às mais prementes necessidades da pátria", diz ainda o líder jacobino -, como também não há meio termo ou termo excluído. Amigo ou inimigo, como na conhecida definição da política de Carl Schmitt. Esta divisão binária resulta do que Susan Buck-Morss chamou de "truque lógico": o amigo só se define a partir do inimigo, é o não-inimigo, e justo este poder de definir o inimigo é o que confere ao soberano uma zona cinza de atuação, antes e depois de toda legalidade, pois ele "cria" o povo que lhe legitima. Há, segundo Agamben, uma "tomada do fora", mas a formulação à brasileira de Jarbas Passarinho também serve: "às favas (...) todos os escrúpulos de consciência": "o governo da Revolução", continua Ropesbierre, "é o despotismo da liberdade contra a tirania". Esta exceção onde habita a soberania - o Terror - não captura somente o seu suposto Outro - a tirania que combate e que, internalizada se converte no paradoxal despotismo da liberdade - mas todo fora - "eu, o soberano, que estou fora da lei, declaro que não há um fora da lei" (Agamben) -, daí que não possa haver um terceiro termo, uma parte que não tome parte, algo que não pertença à lógica amigo-inimigo, virtude-terror. Deste modo, não espanta que a Lei dos Suspeitos, aprovada pela Convenção Nacional da recém instaurada República francesa em 1793, declare suspeitos e, portanto, sujeitos ao Terror e não à razão, não só aqueles que "nas assembléias do povo, capturam sua energia através de discursos astuciosos, de brados turbulentos e de ameaças" (1) ou aqueles "que assinaram petições contra-revolucionárias ou freqüentaram sociedades e clubes anti- cívicos" (11), mas também "Aqueles que receberam com indiferença a constituição republicana" (7; grifo nosso) e "Aqueles que, não tendo feito nada contra a liberdade, também não fizeram nada a seu favor" (8). Em outras palavras: o Terror visa eliminar toda indiferença, toda neutralidade, capturando-a no sistema binário amigo-inimigo, incluindo-a "unicamente através de sua exclusão" (Agamben): a indiferença torna-se hostilidade. Isto explica não somente a lógica jacobina, mas mesmo os atuais atentados terroristas; tanto os sem vítimas, como os atualmente praticados pelo ETA, como o seu extremo oposto, aqueles cujos alvos são somente civis, como os inúmeros resultantes de homens-bomba palestinos em Jerusalém (ou o seu reverso: a ação terrorista do Estado de Israel): em ambos os casos, se trata de manter e/ou reproduzir este sistema dual sem resto. Se no primeiro caso trata-se de chamar a atenção sobre uma causa, como que a conclamar a tomada de posição de uma população alheia ao assunto (nem que seja para assumir uma postura contra os terroristas - o que muitas vezes ocorre e não deixa de ser desejado, pois a vitimização é uma das suas armas prediletas); no segundo, o objetivo é mostrar que não há como não ser inimigo se não se é amigo. Não há, jamais, segundo a lógica do Terror, vítimas inocentes ou civis. Ali onde o senso comum e a "opinião que se publica" (a opinião pública da sociedade do espetáculo, onde, segundo Guy Debord, "o que aparece é bom, o que é bom aparece") diz "radicais", "extremistas", devemos ler dualizantes. Em última instância, poderíamos dizer que toda política moderna porta, ainda que mitigada, uma origem na exceção, toda política moderna é, assim, terrorista (as democracias parlamentares não passam de uma divisão governo/oposição e a existência de pluripartidarismo e "independentes" não passa de engodo) porque visa eliminar a indiferença - especialmente o marxismo e sua predileção pela dialética, a divisão da sociedade em burguesia e proletariado, a noção de tomada de consciência de classe - ou seu refinamento gramsciano na idéia de hegemonia. O recente alarme dos governos e partidos de países com a abstinência eleitoral onde o voto não é obrigatório (nos países onde há sanções a quem não vota, isto fica ainda mais evidente) parece atestar que também nossas democracias continuam, portanto, com uma espécie de ira à indiferença: a "culpa" da ida do direitista Le Pen ao segundo turno numa eleição francesa recente seria dos que não votaram. O Terror é a politização total, sem resíduos, da vida.

Se estamos corretos, o atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center não marca a entrada no novo século (ou numa nova era, a do "choque das civilizações"), como tanto a mídia nos quis fazer crer - até porque, se a Primeira Grande Guerra é o marco inaugural do século XX, devemos lembrar que seu estopim é, como foi o da atual "guerra infinita" dos falcões de Washington, um atentado terrorista, o assassinato de Francisco Ferdinando -, mas o retorno do recalcado, de uma cena originária, de uma arké - e neste sentido, sim, a Revolução Francesa funda a modernidade, pois momentaneamente a despe, colocando "o Terror na ordem do dia": "Arcaico significa: próximo à arké, isto é, à origem. Mas a origem não é situada somente em um passado cronológico: ela é contemporânea ao devir histórico e não cessa de operar nele. O hiato - e, ao mesmo tempo, a vizinhança - que definem a contemporaneidade tem o seu fundamento nesta proximidade com a origem, que em nenhum ponto pulsa mais forte que no presente. Quem viu pela primeira vez, chegando do mar na aurora, os arranha-céus de Nova Iorque, subitamente percebeu esta contigüidade com a ruína que as imagens atemporais do 11 de setembro deixaram evidente para todos." (Agamben). Não foi à toa, portanto, que Roland Barthes, em seu curso sobre o Neutro, isto é, na sua tentativa de traçar linhas de fugas ao dualismo sufocante, questionou se a obrigação de participar não estaria presente já na cena arquétipa e inspiradora dos ideais democráticos modernos, a polis: a "Obrigação de politizar-se", perguntava-se, "seria, afinal de contas, uma herança grega?". Não é demais lembrar que também Pierre Clastres traçará como marco distintivo do pensamento ocidental derivado dos gregos a busca do Um em oposição ao múltiplo dos "primitivos" ameríndios. Que hoje, terrorismo seja uma expressão reservada aos inimigos e o Ocidente busque o que seria seu suposto oposto, o consenso, é mero jogo de palavras (ou sinônimo de sua derrocada: "Quando a consciência da presença latente da violência dentro de uma instituição jurídica se apaga, esta entra em decadência", nos diz Benjamin, em sua Crítica da violência, em referência ao parlamento alemão de Weimar, mas que cabe igualmente aos nossos): do mesmo modo o Terror jacobino não almejava nada além do consenso (o Um), sintetizando violentamente os dois termos da equação pela captura e eliminação da antítese, por sua "exclusão inclusiva". O consenso é a continuação do Terror por outros meios. O dispositivo fundamental que garante o seu funcionamento é algo que propomos chamar de censura e cuja definição precisa constitui uma das tarefas políticas mais urgentes, pois continua contemporânea a experiência que Walter Benjamin captou "A Caminho do Planetário", nesta "Rua de mão única" que foi o século XX, onde a potência destrutiva do Terror sobrepujou a criação, o Novo, o dissenso: "É embriaguez, decerto, a experiência na qual nos asseguramos unicamente do mais próximo e do mais distante, e nunca de um sem o outro. Isso quer dizer, porém, que somente na comunidade o homem pode comunicar em embriaguez com o cosmos. (...) Nas noites de aniquilamento da última guerra, sacudiu a estrutura dos membros da humanidade um sentimento que era semelhante à felicidade do epiléptico. E as revoltas que se seguiram eram o primeiro ensaio de colocar o novo corpo em seu poder. A potência do proletariado é o escalão da medida de seu processo de cura. Se a disciplina deste não o penetra até a medula, nenhum raciocínio pacifista o salvará. O vivente só sobrepuja a vertigem do aniquilamento na embriaguez da procriação".
Categorias:Censura: um work-in-progress11 Comentários
Ei, muito interessante sua discussão. Mas, tenho uma pergunta. Deixa ver se eu entendi direito. Se existe o problema da dualidade em que o problema do terror acaba se tornando uma herança amarga na nossa história e aqui acaba-se criando um estado de indiferença, então como podemos sair desta situação dual sem cairmos em uma outra dualidade ou até mesmo multiplicidade de posicionamentos?

Por Theo em maio 5, 2008 7:32 PM
Theo,

meu argumento é que o Terror é uma forma de capturar a indiferença, convertê-la em oposição: o indiferente vira um inimigo. Obviamente não existe uma indiferença pura, não se pode ser indiferente a tudo - sempre se é indiferente em relação a algo. No caso em questão da fase jacobina da Revolução Francesa, aquele que não era nem revolucionário nem contra-revolucionário (ou seja, indiferente em relação à revolução) era enquadrado como inimigo, como contra-revolucionário. A questão atual é atravessado por um desenvolvimento deste modelo, por meio da censura e do consenso, que espero expor aos poucos neste blog (é minha pesquisa em andamento). Mas acredito que a saída é, como na citação de Benjamin, a vertigem da pro-criação (reagindo contra a tentação da vertigem do aniquilamento, da unicidade ou da dualidade - o Dois é sempre espelho do Um, como Benveniste percebeu em relação aos pronomes pessoais: o "tu" sempre depende da presença de um "eu"). O que exatamente isto quer dizer, ainda tenho de desenvolver, mas não se trata de relativismo de uma criação desenfreada (ou de uma creatio ex nihilo), antes, como se trata de pro-criação, de uma reelaboração do material da tradição, desativando seu papel de autoridade (penso no que Benjamin desenvolve em "Experiência e Pobreza" e "A caminho do planetário" - ou o que Agamben desenvolve a partir deste fragmento do "Rua de Mão Única" em "O Aberto".

Um Abraço,

Alexandre Nodari

Por Alexandre Nodari em maio 5, 2008 7:52 PM
Belo texto e grande estréia na blogosfera, meu caro. E obrigado pela dedicatória. O texto me suscitou muita coisa mas, de imediato, deixo uma interrogante. A lógica do Terror como eliminação da indiferença e binarização do corpo social está claríssima, mas em algum momento do projeto, eu imagino, você se deparará com a pergunta: será que "reverso" ou "extremo oposto" descrevem adequadamente a relação entre o terrorismo de estado e o homem-bomba? Ou será que eles pertencem a lógicas que não são exatamente opostas ou inversas, mas de ordens distintas e irredutíveis? Pergunto porque conhecemos o argumento dos que apóiam (ou justificam) o terrorismo de estado em nome da manutenção da lei: as vítimas inocentes seriam "danos coleterais", figuras às quais não se desejou atingir. A justificativa do terrorismo de estado aponta, então, para um terreno moral -- ela quer instalar a discussão no campo da moral, e aí diferenciar-se do homem-bomba. Neste, por outro lado, opera, me parece, uma lógica na qual as vítimas são "proxies", substitutos, vítimas vicárias. É uma lógica que talvez não demonstre a mesma eliminação da indiferença que você bem identifica no Terror de 1789-93. Qual seria essa outra lógica é pano para manga, mas eu acho que haveria que se suspeitar dessa fácil categoria do "reverso" ou do "extremo oposto". Dica: há uma belíssima etnografia do homem-bomba palestino (etnografia mesmo, com entrevistas e tudo mais) publicada sob o título "'Comes a time when we are all enthusiasm': Understanding Palestinian Suicide Bombers in Times of Exighophobia", de Ghassan Hage, na revista Public Culture de 2003 (vol. 15.1). Acho que dá para ler a Public Culture online. Se não, avise e eu lhe envio o PDF, pois tenho acesso a ela via JSTOR. Abração e bem-vindo à blogosfera.

Por Idelber em maio 5, 2008 10:19 PM
Nodari, seja bem-vindo à blogosfera.

Abraços!

Por Phi em maio 5, 2008 10:21 PM
Caro Nodari!

Gostei muito de sua explanação sobre o terror e suas diversas faces, que são ao mesmo tempo só uma, que seria o pavor do dissenso. Esta questão é muito importante, pois expõe o problema da busca do consenso em todos os sentidos hodiernamente. É um grande paradoxo quando lemos ou ouvimos de outros - ou de nós mesmos - que vivemos num mundo nunca tão livre quanto hoje. Isto soa engraçado para mim, já que sinto que esta liberdade vem acompanhada de vários rótulos, de várias verdades estabelecidas, meio que combinadas com o tão falado "fim da história" dos falcões neo-conservadores americanos, como se o homem não tivesse nada a acrescentar em pensamentos, filosofias ou ideologias. A sensação é de que vivemos num mundo acabado, como uma Capela Sistina, que só precisa de reparos quando um mofo incômodo ou uma umidade desnecessária vem atrapalhar a linda visão da humanidade. Tudo é repetitivo e acompanhado de Ahhhs e Ohhhs, quando algo sai dos trilhos do aceitável, em todos os sentidos. Tenho que concordar contigo quando afirmas que o terror está presente, mais do que nunca, nesta "sociedade democrática" de hoje. Não um terror de bombas e mortes - este também, mas o terror da intolerãncia pela diferença e - por que não dizer - pela indiferença.

Como sempre, vai minha grande admiração e minha garantia de assiduidade do seu blog!

Abraço!

Por Raphael em maio 5, 2008 10:31 PM
Phi,

obrigado!

Idelber, agradeço o link e o comentário mais que pertinente. Você tem razão: fiz uso de uma "categoria fácil" - acrescentei de última hora a referência ao Estado terrorista de Israel. Ainda tenho de pensar a respeito de como se diferenciam (por ora, estou no aguardo para ler a pesquisa de um amigo, Rodrigo Lopes de Oliveira, onde ele aborda a face histérica do terrorismo atual). Posso adiantar que no tocante aos "collateral damages", eles fazem parte dos cálculos de governo. No mais recente livro da série Homo sacer, Il Regno e la Gloria, Agamben analisa a genealogia da governamentabilidade, demonstrando a existência, desde os primeiros séculos cristãos, de uma teologia econômica, de uma oikonomia, onde, para articular, na Trindade, Pai e Filho, os teólogos criaram o embrião dos danos colaterais - ao lado de uma Providência de caráter geral,onde Deus não se intromete no cotidiano), haveria uma Providência de caráter específico, os efeitos não esperados, o dia-a-dia, as "pequenas" conseqüências da Providência geral, mas que, dada a sua ligação com esta última, i.e., com um Plano total, poderiam ser previstas, reguladas, controladas, etc. Ou seja, e isto é sabido desde que se criou a idéia de um "governo do mundo", os efeitos colaterais, ou se quisermos, as margens, não são sem relação com o núcleo, com o objetivo, e só muita ingenuidade para acreditar que eles não eram previstos. Creio que, de certo modo, para os gerentes do Exército israelense, não há diferença entre os terroristas e os não-terroristas, mas como você bem disse e como toda esta resposta demonstra, exige uma análise mais detida. Vou atrás do texto que v. indicou; se não achar, te peço via email.

Um abraço,

Alexandre Nodari

Por Alexandre Nodari em maio 5, 2008 10:44 PM
Raphael,

você sumarizou - no melhor sentido do termo, isto é, de resgate e condensação sem perda de sentido - meu texto em uma frase: uma "explanação sobre o terror e suas diversas faces, que são ao mesmo tempo só uma, que seria o pavor do dissenso". De fato, a pesquisa que desenvolvo no doutorado (e que pretendo ir divulgando neste blog à medida em que for dando resultados) trata justamente de uma tentativa de reconceituar a censura: não mais somente como a proibição de discursos, mas como um dispositivo de desdiferenciação da linguagem, e, por isso, muito próxima da idéia hoje em dia tão em voga do consenso (mesmo na sua acepção teórica mais elaborada, a de Habermas - para ele o consenso deve ser buscado através da argumentação racional de sujeitos despidos da vida privada; isto envolve uma operação de homogeneização). A meu ver, a censura vista como desdiferenciação da linguagem permeia hoje quase todos os domínios da linguagem, não só o campo mais óbvio da mídia e da política, mas igualmente o das escolas, da academia, etc. Mesmo o "politicamente correto" envolve uma certa dose de censura; e nem toda proibição deve ser caracterizada como censura.

Abraço,

Alexandre Nodari


Alexandre,

Já leste algum título da tetralogia "O Reino", do Gonçalo M. Tavares? Me refiro mais especificamente a um dos romances, o "Aprender a rezar na Era da Técnica", que foi lançado no Brasil no mesmo período de publicação deste seu texto. Há pouco tempo conclui um projeto de pesquisa sobre ele, no qual investiguei as ideias de indiferença, terror e barbárie de maneira similar às elaboradas por você. Seu argumento de que "o Terror é uma forma de capturar a indiferença, convertê-la em oposição", tornando o indiferente um inimigo, vai de encontro a alguns tópicos sobre os excessos do biopoder desenvolvidos em minhas considerações. Se ainda não tiveste contato com o romance, sugiro a leitura. Parabéns pelos textos sempre oportunos e pela atualidade das reflexões que promoves no blog.

Juliana.


Página Principal

"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
poetas, filósofos, censores






Bibliotecas livres:



Visito:



Comentários recentes

  • Juliana Sá comentou no post O que é o Terror?: Alexandre, Já leste algum título da tetralogia "O Reino", do Gonçalo M. Tavares? Me refiro mais especificamente a um dos romances, o "Aprender a rezar na Era da Técnica", que foi lançado no Brasil no mesmo período de publicação deste seu texto. Há pouco tempo conclui um projeto de pesquisa sobre ele, no qual investiguei as ideias de indiferença, t
  • gabirel comentou no post O que é o Terror?: Uma pequena peça de teatro de Oswald de Andrade encena o discurso d'"O Chefe", na verdade um ditador pintado de forma clownesca (lembrando "O Grande Ditador" de Chaplin) para a "Multidão". Depois de propor "matar todos os desafetos" e ser ovacionado, o líder emenda: "Os indiferentes também!", sendo novamente aclamado: "Abaixo os indiferentes! Matar
  • gabirel comentou no post O que é o Terror?: Uma pequena peça de teatro de Oswald de Andrade encena o discurso d'"O Chefe", na verdade um ditador pintado de forma clownesca (lembrando "O Grande Ditador" de Chaplin) para a "Multidão". Depois de propor "matar todos os desafetos" e ser ovacionado, o líder emenda: "Os indiferentes também!", sendo novamente aclamado: "Abaixo os indiferentes! Matar
  • Camilo comentou no post O que é o Terror?: Legal... dá uma olhada no link q vc vai gostar... é um texto sobre terrorismo usando a teoria de henri lefebvre (neomarxista) pros dias de hj... http://www.anpur.org.br/publicacoes/Revistas/Anpur_v5n2.pdf








Site Meter



Movable Type

Powered by Movable Type 4.1