agosto 2010 Arquivo

Sopro 34

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O Sopro 34 apresenta:

"Repensando a trajetória de Oswald", texto de Luiz Costa Lima (um dos maiores teorizadores brasileiros da literatura), recém-publicado no livro Luiz Costa Lima. Uma obra em questão (Garamond, 2010), organizado por Dau Bastos (clique aqui para ver o índice e as páginas iniciais do livro);

"Misturar desejo com história", resenha de Uma fome (Record, 2010), livro de Leandro Sarmatz, escrita por Flávia Cera.

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"Raposa política"

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Eu não sei de onde os tucanos tiraram a idéia de que ouvir conselhos de Jorge Bornhausen é um bom negócio. Provavelmente, tem em mente o status de "raposa política" que Bornhausen adquiriu nos círculos políticos e na mídia. Mas se a fama fazia jus à sua atuação durante a ditadura, ela não tem, no período democrático, o menor apoio na realidade, por um simples fato: agora temos eleições. Os feitos dessa "raposa política" depois da redemocratização (antes não vale, porque ser governador biônico não conta), são notáveis.

A primeira jogada de exímio enxadrista político em tempos de democracia foi em 1992. Com o governo Collor quase morto, Bornhausen assume a pasta equivalente à Casa-Civil (secretaria de Governo, salvo engano) para "salvar" o governo. Que cálculo político! Que perícia! Que timing! E todos sabemos o sucesso que foi a operação salva-Collor. Depois, em 1999, só se elege senador por Santa Catarina s custas de Amin, outro filhote da ditadura - Amin era candidato a governo na mesma chapa, e a eleição parecia casada; como diz um amigo, parecia que Bornhausen era candidato à vice do Amin. Como presidente do PFL (vamos descontar os tempos áureos do governo FHC, porque aí as condições eram favoráveis, e o PFL ainda possuía outros "caciques" influentes nos bastidores, como Marco Maciel, e gente eleitoralmente densa, como ACM), teve o mérito de reduzir o número de governadores do partido a ZERO (governador do DF não conta; é governador distrital - e além do mais, era Arruda, que logo virou ex-governador). Bornhausen prometeu acabar com a raça "petista" e disse, em 2006 (não vou fazer link pra fonte, mas é aquela revista bem confiável tratando-se de temas de interesse dos demotucanos), que Lula jamais se reelegeria. E foi essa "raposa política" que conduziu a "reformulação" do PFL naquele processo desastrado que todos conhecemos em que a sigla mudou várias vezes (D25, DEM) até chegar ao atual Democratas, nome que porta um evidente contra-senso: só um idiota pode achar que um partido que passa a liderança de pais para filhos, de César Maia para Rodrigo Maia, de ACM para ACM Neto, de Jorge Bornhausen para Paulo Bornhausen, se "renovou" e é "democrata", e não - o que ele sempre foi - oligarca (como dizia um professor meu: "PFL jovem é uma contradição em termos"). E falando em família, em 2002 decidiu eleger seu filho senador. Como grande "raposa política", traçou uma estratégia de campanha infalível: limitar a campanha ao grande feito único de "Paulinho" Playboy: ser contra os pardais (aqueles radares fixos que medem a velocidade nas Rodovias). Preciso dizer que Paulinho não se elegeu senador? O motivo para tanta habilidade política é simples: Bornhausen não entende nada de democracia. É um político formado na mentalidade da ditadura e sem densidade eleitoral. Ele não entende direito o que é uma eleição. Simples. E se os tucanos já não tem mais um projeto, não são os conselhos eleitorais de Bornhausen que vão ajudar. Se os políticos fossem tão inteligentes quanto a mídia diz, já teriam se livrado dos conselhos dessa "raposa".

P.S.: a sobrevida eleitoral do DEM em SC não conta pros méritos de Bornhausen. Foi a postura do PT em 2003, abandonando o governo eleito PMDB (Luis Henrique Silveira rompera com Serra pra aderir à onda Lula em 2002, mas o PT não aceitou fazer parte do governo), que deu sobrevida ao ex-PFL. O resultado: em 2010, o PMDB não aceitou se coligar ao PT, aliando-se ao PFL. Hoje em dia, o aliado "natural" do PT local é o PP de Amin.




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O SOPRO 33 apresenta cinco fragmentos de Furio Jesi sobre a relação entre mito, imagem e linguagem, publicados pela primeira vez em 1999, na revista Cultura Tedesca (em organização de Giorgio Agamben e Andrea Cavalletti) e aqui traduzidos por Diego Cervelin.

Além disso, uma resenha de Del deporte y los hombres, de Roland Barthes, escrita por Victor da Rosa.

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UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), 2001 (ou 2002, não me lembro direito): estoura uma grande greve de servidores (e talvez também professores, também não lembro, mas a greve foi enorme, durou meses, e teve ocupação do Núcleo de Processamento de Dados da Universidade, o que gerou uma encrenca com o governo estadual, porque o tal NPD prestava um serviço indispensável à administração estadual), que imediatamente paralisa as atividades da Universidade, esvaziando-a. Os "estudantes", provavelmente por intermédio do CEB (Conselho de Entidades de Base, que reúne os dirigentes dos Centros Acadêmicos) decidem chamar uma assembléia pra decidir a sua "participação" ou "posicionamento" sobre a greve. Os vinte gatos pingados presentes (provavelmente um integrante de cada umas das 8 facções de esquerda, acompanhado de seu devido pupilo doutrinado, uns dois militantes pagos do PCdoB - fáceis de identificar, são uns caras cabeludos de 30 anos de idade que já fizeram milhões de cursos em universidades diferentes, e que você encontra a qualquer hora do dia em qualquer lugar da universidade, como se eles tivessem o poder de estar em vários lugares ao mesmo tempo -, mais uns dois integrantes do DCE - Diretório Central dos Estudantes - que, à época era dirigido por um grupo de anarco-artistas e "bichos-grilo"), decidem, então, que também entrariam em greve, não só em apoio às reivindicações salariais dos servidores, mas também com uma pauta própria de reivindicações (a maioria legítima e até hoje não atendidas). Em vez de aqueles vinte declararem que aqueles vintes apoiariam a greve (como, de fato, fizeram, participando dos protestos, do acampamento no NPD, etc.), coletivizaram a decisão, e, então - conseqüência lógica - os cerca de trinta mil estudantes da Universidade naquele dia entraram em greve por decisão da Assembléia Geral (sic) dos Estudantes.

Passam-se alguns meses, servidores entram em acordo com o governo e saem da greve. Um calendário de reposição de aulas é discutido e aprovado, e tudo volta à normalidade. Umas semanas depois de toda a Universidade estar funcionando regularmente, ocorre uma reunião do CEB, com mais ou menos os mesmos integrantes da  "Assembléia". Um dos "bichos-grilo" se "inscreve" para falar e decide usar seu tempo para ficar em silêncio. Vaias dos integrantes das facções e de seus pupilos (mais destes do que daqueles). Ninguém respeita a "fala" do bicho-grilo. Seguem-se algumas discussões (não lembro sobre o quê, mas com certeza foram muitos "informes" e provavelmente algum assunto que nunca falta nessas reuniões, como o apoio à Cuba, essas coisas), até que outro "bicho-grilo" se "inscreve" e decide falar. Argumenta que ele - como os estudantes em geral - ainda estava em greve, afinal nenhuma Assembléia - o órgão máximo dos estudantes - havia decidido pôr fim à paralisação. Vaias, gritos histéricos dos burocratas das facções; "Isso é piada!", diz um deles. 

De fato, tudo já estava normalizado e os estudantes assistiam todos às suas aulas. Mas é verdade também que, formalmente, aquela greve dos estudantes nunca terminou. Na verdade, ela nunca começou - só que isso, apesar de ser tão óbvio quanto a lógica da argumentação do "bicho-grilo", era mais complicado de fazer aqueles burocratas entenderem. A recusa dos burocratas ao silêncio era uma recusa do vazio de sua própria representação, da sua própria insignificância - uma recusa da sua falsidade ideológica.


Quem esperava que o casal 20 da Rede Globo deixasse de lado a postura PittBull que exibiu diante de Dilma e Marina pra entrevistar Serra, se enganou - e se esqueceu que tal postura já se revelou com todos os candidatos na série de entrevistas de 2002 e/ou 2006. Pode ser que tenha havido mais boa vontade com Serra, mas o tom inquisitivo, como se tivessem questionando um acusado, se mostrou também diante do candidato tucano. É uma forma de, supostamente, demonstrar independência, igualando "independência" à ferocidade de um inquérito policial (e uma tendência no "jornalismo" que se vê também em programas estúpidos como o Pânico ou o CQC). Mesmo assim, as entrevistas da Vênus Platinada trabalharam, de "forma" "independente", contra Lula. Para os dois candidatos não-petistas, foram feitas perguntas sobre o "mensalão petista", ainda que até hoje não se saiba o que foi aquilo que chamam de "mensalão". Pouco importam as respostas dos entrevistados. O que importa é recolocar em circulação um significante que, independente de seu significado concreto, possui uma carga negativa e produz uma associação imediata ("mensalão" = corrupção; mensalão aconteceu no governo Lula; Governo Lula é corrupto). A maior amenidade da Globo com Serra pouco importa quando a Vênus Platinada, mostrando "independência", recauchuta um significante vazio que só beneficia um dos lados da disputa. 

1. Alguns meses atrás, ouvi de um amigo que Marina Silva, ao não tocar nos problemas que São Paulo passou naquela época de fortes chuvas (já não lembro ao certo o mês, mas a entrevista de Marina a que se referia meu amigo foi dada no mesmo período), estava fazendo o que se esperava dela, afinal "como ela iria falar mal de seu chefe?". O "chefe", é claro, seria José Serra, e o que motivava a ligação Marina-Serra era o fato (ou a hipótese) de que a candidata do PV, roubando votos da candidatura petista, servia aos interesses de Serra.

2. Hoje, no Vi o Mundo, o Azenha sugere que tucanos e Globo decidiram inflar a candidatura de Plínio para, assim, tentar levar a eleição ao segundo turno. A conclusão, implícita - e explicitada pelos comentaristas do post -, é óbvia: Plínio está sendo usando para o jogo demo-tucano.

3. Objetivamente, os dois raciocínios são válidos - com a ressalva de que são válidos apenas se aceitarmos a premissa de que só existem dois pólos disputando. Todavia, Marina e Plínio, se acabam servindo à candidatura tucana, não estão alinhados com o pólo demo-tucano. São casos bem diferentes daqueles em que alguém supostamente fora da polaridade petucana adota um dos lados: o caso de Gabeira na eleição municipal, e, agora, novamente, na estadual; é o caso também de Heloísa Helena na eleição em 2006, na medida em que seu discurso praticamente se restringiu à moralização pós-mensalão; e seria o caso da candidatura de Ciro Gomes ao governo de São Paulo, impedindo a vitória de Alckmin no primeiro turno, e possibilitando a vitória de Mercadante no segundo - aliás, é incrível como o PT faz questão de não governar o estado paulista, rifando novamente Eduardo Suplicy.

4. É claro que a subida de Marina e Plínio agora servem à Serra (como poderiam servir à Dilma, se Serra estivesse a ponto de levar a eleição no primeiro turno). Agora, isso não autoriza alguém a chamar Serra de chefe de Marina, ou de vincular a candidatura de Plínio aos interesses petucanos sem mais. Antes de tudo, a subida Marina serve à Marina e a subida de Plínio serve à Plínio. E mais: a subida dos dois serve justamente para tentar quebrar a lógica dualista que rege as análises petucanas. Uma boa posição de Marina e Plínio força as suas plataformas a serem, se não ouvidas e acatadas, ao menos levadas em consideração no segundo turno (aliás, quando Marina lançou sua pré-candidatura, alguns dias depois, Dilma já estava por aí falando de meio-ambiente). Só um maniqueísmo tosco desconsidera isso.


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O Sopro 32, dedicado a Sergio Chejfec, está no ar com:

- entrevista com o escritor argentino, conduzida por Dianna Niebylski e

- Relatos da reflexão hesitante, o prólogo de Idelber Avelar para Boca de Lobo, único romance de Chejfec traduzido ao português (o texto já havia aparecido no Biscoito - que, segundo o mestre, voltará dentro de alguns dias - e no blog da editora que publicou a tradução, a Amauta).



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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
poetas, filósofos, censores






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