Sobre a inutilidade da literatura (ou, sobre o monopólio da mentira)

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"Who he was who first, without ever having gone out to the rude chase, told the wandering cavemen at sunset how he had dragged the Megatherium from the purple darkness of its jasper cave, or slain the Mammoth in single  combat and brought back its gilded tusks, we cannot tell, and not one of our modern anthropologists, for all their much-boasted science, has had the ordinary courage to tell us. Whatever was his name or race, he certainly was the true founder of social intercourse."

(Oscar Wilde, The Decay of Lying)


A recente operação de libertação de Ingrid Betancourt (ou, ao menos, a versão oficial dela: militares se infiltraram por um bom tempo entre as FARC e, aproveitando-se da acefalia e falta de informação derivada da morte e prisão dos líderes - cabeças - da organização, iludiram os guerrilheiros, dizendo estarem transferindo os reféns) é mais uma prova do erro que há na idéia de considerar a literatura (em sentido amplo) inútil - tese defendida não só por obreiristas de esquerda e direita, mas igualmente por letrados da mais alta categoria. Ou melhor, uma prova dos efeitos perniciosos que gera a inutilidade da literatura, entendida esta restritamente como um campo autônomo - romances, contos, poesia, crônica, movimentos, em suma, o que se aprende na escola sob a embalagem da disciplina "Literatura" (os "Clássicos", o que se ensina nas classes). Se aceitamos como base comum da arte (fazendo uso de uma definição grosseira, mas muito aproximada) a ficção, isto é, o (auto-)fingimento, a (auto-) fabulação, o (auto-)mascaramento (daí a Autopsicografia muito conhecida de Pessoa: "O poeta é um fingidor..."), teremos como conseqüência que ela não se limita aos campos estritamente artísticos, mas dominam todas as esferas da vida cotidiana, a começar pela política. Isto fica mais evidente na "sociedade do espetáculo" e na importância que adquiriram os marketeiros nas campanhas eleitorais, mas é tão antigo quanto a polis grega. Hannah Arendt, ao comentar o "espanto" que se abateu sobre a sociedade norte-americana indignada com as mentiras de seus dirigentes após a revelação dos "Pentagon Papers" (um relatório-calhamaço que demonstrava que o serviço de inteligência estava bem consciente do que se passava no Vietnã - ou seja, de que a vitória lá não só era quase impossível, mas mesmo sem necessidade econômica ou estratégica), faz questão de sublinhar, antes de mais nada, que o "uso da falsidade deliberada e da mentira definitiva como meios legítimos para alcançar fins políticos estiveram conosco desde o começo da história documentada": "Uma característica da ação humana é que ela sempre inicia algo novo, e isto não significa que se pode começar ab ovo, que se possa criar ex nihilo. Para abrir caminho para a ação, algo que estava ali antes deve ser removido ou modificado. Uma tal mudança seria impossível se não pudéssemos mentalmente nos remover de onde fisicamente estamos localizados e imaginar que as coisas possam também ser diferente do que elas de fato são. Em outras palavras, a negação deliberada da verdade factual - a habilidade de mentir - e a capacidade de mudar os fatos - a habilidade de agir - estão interconectados; eles devem sua existência à mesma fonte: a imaginação". A grande contribuição da análise da política grega por Arendt se centra neste ponto - para ela, a polis grega é uma espécie de espetáculo público (que teria, na modernidade, se privatizado), regido pelo direito de ver e ser visto pelos iguais (o Panóptico, por sua vez, cinde desigualmente esta reciprocidade: permite ver sem ser visto, no caso dos vigias, e obriga os disciplinados a serem vistos sem ter direito a ver quem os olha) (Maria Rita Kehl escreve sobre o assunto na coletânea - a quatro mãos com Eugênio Bucci - Videologias). Não interessa tanto que se possa chegar a um acordo dialógico (como a leitura habermasiana consensualista tão em voga hoje acredita) através da fala, mas que esta se constitua enquanto agir no ato mesmo de sua manifestação - ou seja, a fala é antes performance do que comunicação: "falar era compreendido a priori como uma espécie de agir. É verdade que o homem não pode proteger-se contra os golpes do destino, contra os golpes dos deuses, mas pode opor-se a eles e retrucar-lhes no falar e, se bem que esse retrucar não adianta nada, não mude a infelicidade nem atraia a felicidade, essas palavras pertencem ao acontecer como tal". É neste contexto que podemos propor ainda outra interpretação sobre o ato de censura arquétipo para o Ocidente que é o banimento dos poetas da República de Platão (há uma tradução para o inglês disponível no Projeto Gutenberg). Se, por um lado, no livro X, sob o argumento da efeminização que provoca a poesia, por esta se limitar a um ponto de vista (o que pode ser remediado pelo cálculo, isto é, por uma perspectiva asséptica - cisão que dura até hoje na prática acadêmica), ela não deve ser admitida, a não ser na forma de hinos aos deuses e louvores aos homens famosos, no livro III fica mais claro o que está em jogo: a poesia se baseia na mentira e esta é um pharmakon, uma droga (veneno-remédio) que, como tal, não deve ficar à disposição dos indivíduos privados, mas sim dos governantes que, no trato com os inimigos, ou mesmo com os cidadãos, podem mentir para o bem público. Carlos Astrada identificou aí a invenção da "mentira patriótica" (link para o artigo no original em espanhol) - eu iria mais longe e diria que estamos diante da invenção do monopólio da mentira. É o poder político que reside na ficção - negar a realidade, imaginar outra - que está sendo seqüestrado pelo "Estado" platônico. Que hoje o "capital-parlamentarismo" (expressão de Badiou) detenha, nas palavras de Guy Debord, o "monopólio da aparência" é uma mera conseqüência deste gesto inaugural. Por outro lado, que as FARC tenham nascido com um intuito revolucionário, isto é, ficcional, e sejam enganadas por um truque barato, prova a sua degeneração, a redução de seus integrantes a uma milícia incapaz de literatura, adepta por demais da hierarquia, sem capacidade de identificar a mentira (afinal, eles a deixaram ser monopilizadas pelos seus chefes). A literatura, a ficção não é inútil. Nunca foi. Ela é, sempre, a priori, política, independente de seu conteúdo (não se trata aqui de arte engajada ou não). Inútil é achar que só é literatura o que se ensina nas disciplinas com este nome. Inútil é achar que uma literatura em sentido estrito, inutilizada em seu isolamento, possa contrapor qualquer coisa. Tal isolamento inútil coaduna com o monopólio da mentira pelo Estado (ou pelo Capital): acostumados a vê-la em um canto específico da biblioteca, somos incapazes de ver como ela governa o mundo.


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Bravo! Bravo!


Beto, obrigado pela presença! Você estava colaborando em outro blog, além da Folha de Macondo né? Acabei perdendo o link, você poderia me passar? Abraço


Parabens pelo post noks. abração


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

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"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
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Grilar o improfanável:
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