"O TURISTA - Vivem juntos? Vivos e mortos?
O POLÍCIA - O mundo é um dicionário. Palavras vivas e vocábulos mortos. Não se atracam porque somos severos vigilantes. Fechamo-los em regras indiscutíveis e fixas. Fazemos mesmo que estes que são a serenidade tomem o lugar daqueles que são a raiva e o fermento. Fundamos para isso as academias... os museus... os códigos...
O TURISTA - E os vivos reclamam?
O POLÍCIA - Mais do que isso. Querem que os outros desapareçam para sempre. Mas se isso acontecesse não haveria mais os céus da literatura, as águas paradas da poesia, os lagos imóveis do sonho. Tudo que é clássico, isto é, o que se ensina nas classes.
O TURISTA - Com quem tenho a honra de falar?
O POLÍCIA - Com a polícia poliglota
O TURISTA - Oh! que prazer! O senhor sou eu mesmo na voz passiva. Na minha qualidade de turista falo sete línguas, nesta idade! E não tenho mais governante!
O POLÍCIA - Também falo sete línguas, todas mortas. A minha função é essa mesma, matá-las. Todo o meu glossário é de frases feitas...
O TURISTA - As mesmas que eu emprego. Nós dois, só conseguimos catalogar o mundo, esfriá-lo, pô-lo em vitrine!
O POLÍCIA - Somos os guardiões de uma terra sem surpresas."
(Oswald de Andrade, A morta, peça escrita em 1937)

