... e não é preciso nenhum olho pra ver isso. A decisão de Adriano de parar de jogar não pode ser entendida de modo simplista como sintoma de uma patologia (isso para não falar da violenta grosseria de quem vê como mimado ou covarde o Imperador - a tão progressista Soninha acaba de dizer, no Bate-Bola da ESPN, que um trabalhador comum não pode abandonar o emprego sem dar satisfação). Isto é tentar normalizar a sua atitude, sem questionar o sistema contra a qual ela é dirigida. Adriano não deixa de jogar futebol. Ele continua jogando ao não jogar, driblando o rapto que capturara toda a sua potencialidade. É preciso tomar as suas declarações a sério e literalmente: a indústria do futebol seqüestrou o que lhe prometera, a felicidade. Só os verdadeiros jogadores podem parar de jogar e nisso manter toda a sua potência de jogar: "Só uma potência que tanto pode a potência como a impotência é, então, a potência suprema. (...) Face à habilidade, que simplesmente nega e abandona a própria potência de não tocar [jogar], a maestria conserva e exerce no ato não a sua potência de tocar [jogar] (é esta a posição da ironia, que afirma a superioridade da potência positiva sobre o ato), mas a de não tocar [jogar]" (G. Agamben). O gesto de Adriano (não importa que inconscientemente) de preferir não continuar a jogar é uma tentativa crítica de sustar a maníaca e incessante conversão de sua maestria em espetáculo ordenado, de acertar as contas com a sua própria potência de jogar (de lidar com o acaso, espaço, por excelência, da ética) - i.e., de tornar possível o acontecimento, sempre casual, da felicidade.
Há algo de podre no reino do futebol ...
... e não é preciso nenhum olho pra ver isso. A decisão de Adriano de parar de jogar não pode ser entendida de modo simplista como sintoma de uma patologia (isso para não falar da violenta grosseria de quem vê como mimado ou covarde o Imperador - a tão progressista Soninha acaba de dizer, no Bate-Bola da ESPN, que um trabalhador comum não pode abandonar o emprego sem dar satisfação). Isto é tentar normalizar a sua atitude, sem questionar o sistema contra a qual ela é dirigida. Adriano não deixa de jogar futebol. Ele continua jogando ao não jogar, driblando o rapto que capturara toda a sua potencialidade. É preciso tomar as suas declarações a sério e literalmente: a indústria do futebol seqüestrou o que lhe prometera, a felicidade. Só os verdadeiros jogadores podem parar de jogar e nisso manter toda a sua potência de jogar: "Só uma potência que tanto pode a potência como a impotência é, então, a potência suprema. (...) Face à habilidade, que simplesmente nega e abandona a própria potência de não tocar [jogar], a maestria conserva e exerce no ato não a sua potência de tocar [jogar] (é esta a posição da ironia, que afirma a superioridade da potência positiva sobre o ato), mas a de não tocar [jogar]" (G. Agamben). O gesto de Adriano (não importa que inconscientemente) de preferir não continuar a jogar é uma tentativa crítica de sustar a maníaca e incessante conversão de sua maestria em espetáculo ordenado, de acertar as contas com a sua própria potência de jogar (de lidar com o acaso, espaço, por excelência, da ética) - i.e., de tornar possível o acontecimento, sempre casual, da felicidade.


Nodari, você está querendo dizer que o Adriano foi "tragado" pela indústria do futebol? Esse parece ser o meu entendimento...Como um esporte-espetáculo que gera cada vez mais e mais dinheiro, ele deixa um espaço pequenininho para uma dita espontaneidade, devendo todos os seus jogadores, técnicos e todos os outros seguir um roteirinho programado, ainda mais aqueles que saem do Brasil, que para boa parte da imprensa devem "europeizar-se", nun sentido de trajetória robótica (surgem no Brasil, ganham uns bons trocados aqui, vão pra Europa, viram "bacanas", juntam uma grana boa e encerram a carreira no auge - da bola ou do dinheiro). É aquela frase meio piegas: "Dinheiro não compra felicidade". Adriano bem que gostaria poder aliar a grana que ele ganha e a convivência com os seus, com a sua realidade e com as coisas que realmente gosta de fazer. Claro que não tem nada a ver com coisas que eu venho lendo por aí: "Ele não sabe o que fazer com tanto dinheiro" - ou a pior delas: "por ser da favela, não teve estrutura para lidar com isso" (como se as pessoas da favela tivessem "alergia" a riqueza). Entendo simplesmente a vontade de Adriano de parar como uma vontade de estar perto de quem gosta e aonde gosta de ir e ficar. Espero que ele fique no Rio de Janeiro e vá jogar no Flamengo...Nunca antes neste país um jogador se sentirá tão feliz!!! Abraços!
Olá, Alexandre. Que belo post. Eu pensei os mesmos problemas desde o momento em que soube da desistência de Adriano. Bom ter lido aqui uma opinião semelhante à minha, pois não a tinha encontrado, até agora. Um abraço.