Qualquer um que tenha acompanhado minimamente (lendo esporadicamente um suplemente cultural dos jornalões já é o suficiente) os debates das ciências humanas da segunda metade do século XX, sabe que tão (ou mais) importante que o "fato em si" é a construção discursiva que se faz dele, o seu relato. Mais perigoso que o revisionismo do passado (e intimamente ligado a ele), é o revisionismo do presente: a narração do presente é que irá pros arquivos, físicos e virtuais, contando nossa história (ou a história dos nossos discursos, melhor dizendo). Nesse sentido, tão (ou mais) importante que o enunciado (o que é dito, o que é comunicado), é a forma da enunciação (como se comunica o que se comunica). "O meio é a mensagem", para usar a frase célebre de Marshall McLuhan.

Dois exemplos recentes, extraídos do jornalão que leio até expirar minha assinatura, a Folha de S. Paulo:
1) Hugo Albuquerque cantou bem a bola ao argumentar que, diante da assimetria dos confrontos entre estudantes e PM na USP, falar em "pancadaria" ou "confronto" é, no mínimo, de um cinismo atroz. E, de fato, a FSP teve como manchete do dia 10 desse mês: "Policiais e alunos entram em confronto na USP". Mas, mesmo ali onde a assimetria é narrada, a forma com que é narrada transmite simetria: o primeiro parágrafo da reportagem diz: "Uma manifestação de funcionários e estudantes de USP, Unesp e Unicamp acabou em confronto com a Polícia Militar ontem à tarde, no campus Butantã da USP (zona oeste). PMs usaram bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes. Os alunos, pedras e tijolos." Do jeito que o texto está construído, com o uso do contraponto (Os policias, isso; os estudantes, aquilo) cria-se a aparência de uma equivalência. Ou seja, os policiais usaram suas armas no confronto, e os estudantes, as suas - como se fossem equivalentes. O correto seria não expor o tal "confronto" na forma deste contraponto; mas daí seria pedir mais. Todavia, não seria desrespeito a esse tal de "pluralismo" que os jornalões pregam colocar no texto, ali depois de "Os alunos," um "apenas". No dia seguinte, o mesmo discurso: no texto que tinha como título "Após confronto, cresce oposição à reitoria", encontramos a mesma forma de narrar como simétrica a assimetria: "Segundo os professores, Vilela é responsável pelo que chamaram de 'ação violenta da PM no campus', que incluiu o uso de bombas de efeito moral, balas de borracha e cassetetes. Do lado dos manifestantes, registraram-se agressões aos PMs com pedras e xingamentos." Aqui, a perversidade com que o discurso construído é ainda maior: a PM usa suas armas, os estudantes agridem a PM com as suas, entre elas o grito. É evidente que, numa situação como a dos protestos na USP, a agressão verbal não está no mesmo nível que um cassetete. Contudo, narrada desse modo, é como se estivesse.

2) No editorial desta terça, 16, "Mérito comprovado", a FSP rasga elogios ao ProUni, de fato um bom programa. Fala do bom desempenho dos estudantes do programa e - aqui que entra a charada - do seu baixo custo: no meio do texto, entre as suas duas colunas, um gráfico compara o custo anual por aluno do ProUni e das Universidades Públicas. O texto não faz nenhuma menção a tal comparação, mas nessa omissão diz tudo: os R$1800,00 do aluno do ProUni comparados, de modo "neutro", aos 13mil e poucos reais do estudante das universidades públicas dizem, sem dizer (i.e., pela forma em que não é dito) que estas jogam dinheiro do contribuinte no esgoto. O que o editorial não diz faz toda a diferença: grana em pesquisa, extensão, bibliotecas, diferença dos salários dos professores e servidos, etc etc etc.




Alexandre,
A recente invasão da tropa de choque na USP foi narrada pela Folha da mesma maneira como é feita, habitualmente, a cobertura da questão agrária brasileira pela mídia nacional, onde sem-terras massacrados por jagunços se torna confronto de sem-terras com seguranças de fazenda - no título daquele calhamaço de papel que serve para embrulhar peixe ou na chamada daqueles enlatados televisóides
Esse só é um exemplo dentre muitos possíveis. A verdade é que a Narrativa adotada pela Dominação nos dias atuais se funda no uso intensivo e paranóico da falsa simetria como forma de equiparar a exceção à regra. Atente: Isso não é - nem nunca foi - prática estranha ao pensamento liberal.
Olá Alexandre!
É a primeira vez que visito seu blog, entrei através do blog do Idelber, gostei do post!
Nossa concordo totalmente com o que vc colocou, esta assimetria narrada como simetria..e vejo isso em tantos lugares que as vezes nem tenho muita experança..é triste, mas sim existe casos que beira o absurdo, e uns tantos que este revisionismo do presente, como vc muito bem colocou, aparece de forma sutil.
Uma aceitação do pluralismo não quer dizer que os poderes da sociedade estão igualmente dividos né, fragmentados, sem hierarquia. Mas estes textos dão a entender que os poderes estão igualmente distribuidos. Mata qualquer visão de totalidade, afusca a contradição, neste caso a total disparidade de poder da PM com os alunos, colocando-os no mesmo plano. Assim esquecemos do contexto mais geral para colocar este episódio apenas no detalhe, no momento do confronto e sua cena, apagando todo o por detrás dos bastidores, sua história e o contexto.
Acho que não há neutralidade nas narrativas sabe, mas isso não quer dizer que qualquer narrativa é valida né, que não existe verdade e que tudo pode ser narrado de qq ponto de vista né..
O problema é que isto vira um ciclo vicioso, e cada vez mais perdemos a capacidade de ver tais narrativas de maneira crítica né..
As vezes me pergunto, divago, será que há uns , sei lá, 50 anos atrás, uma narrativa desta colaria p os leitores, assim facilmente?
Bom , acho que é isso :)
Abraços!
Alexandre, você tocou no centro de uma crise mundial desse sistema que chamamos com tanto orgulho de democracia. Não há um país ocidental democrático que não esteja vivendo um esgotamento institucional que a mídia oculta ou manipula cuidadosamente - mesmo porque ela é parte central do problema.
É assim como você descreveu que a mídia vai dando a pauta aos debates políticos e culturais, armando um arcabouço retórico em que só há uma ilusão de debate - o "outro lado" só comparece depois que a cama está feita para receber a pancada final, o golpe de misericórdia. E vamos passando de assunto a assunto, de gripe suína a acidente de avião, "teleguiados", sempre com a ilusão de que recebemos "informação" e de que participamos de um "debate" quando o que recebemos são pistas falsas, cortinas de fumaça, histórias contadas pela metade e quando na melhor das hipóteses participamos como telespectadores que podem ligar agora para a emissora e "escolher" entre o 6 e a meia-dúzia.
Mas a crise institucional continua cada vez pior e é, repito, de escala mundial. Posso citar aqui de cabeça México, Argentina, Chile, Bolivia, Venezuela, Colombia, Estados Unidos, Islândia, Inglaterra, Itália, França, Espanha, Portugal, Austria, Alemanha, Holanda, Bélgica, Rússia, Israel, Zimbabwe, Uganda, Kênia, Etiópia, Sudão, Egito, Irã, Turquia, Paquistão, Indonésia, Japão. Sempre variações dentro do mesmo cardápio: eleições contestadas, corrupção, golpismo ao menor sinal de perturbação do status quo, políticas de extermínio, manipulação da informação, oposição e situação que repetem o mesmo discurso e as mesmas práticas quando estão no poder.
Assim como a crise financeira, a crise institucional é real, concreta. Não há "construto" que a resolva, não há "simulacro" que a possa prevenir.
Hugo e Paulo: agradeço muito os comentários sempre enriquecedores de vocês. Vou ter de adiar a resposta, devido à correria.
Má: seja bem vinda. Também não vou poder te responder como gostaria, mas não acho que as gerações anteriores tenham sido mais lúcidas, ou algo do gênero. Inclusive, pretendo escrever sobre isso a qualquer hora: em textos gregos antigos, de Aristóteles, por exemplo, já encontramos este discurso criticando as gerações mais novas. É o discurso legitimador das instituições (e, também, da censura), a manutenção de um status quo. Abraços
Muito bom!, Alexandre. Pena que não consigo convencer algumas pessoas próximas a mim sobre a leitura atenta e crítica da "imprensa livre". Mas continuo tentando...
Muito bem notado, Alexandre. Estou de acordo contigo em absolutamente tudo.
Porém, gostaria de destacar o fato de que não se trata apenas de uma equiparação dos assimétricos do ponto de vista do grau ou da proporção da violência. Quer dizer, ao colocar lado a lado as bombas e as balas de borracha dos policiais e as pedras, tijolos e xingamentos dos manifestantes, não se está apenas colocando no mesmo handcap dois tipos de "tecnologias" de destruição diametralmente opostas pela sua contundência, mas, também, está-se procurando uma estratégia de evasão que possa justificar uma reação qualquer (e, nesse contexto, a reflexão sobre a proporcionalidade é meramente secundária).
Não sei se fui claro, mas a entrelinha é mais ou menos esta: ainda que um leitor tão arguto quanto um Nodari seja capaz de perceber a desproporção das ações militares frente às ações dos manifestantes, resta ainda a ideia segundo a qual existe uma certa "legitimidade" na conduta policial, justamente porque houve uma violência do outro lado que justificara, em princípio, uma "violência preventiva". Ou seja, não é mais uma questão de "grau", mas sim uma questão absoluta: violência se paga com violência.
É claro que, neste caso, a violência "legítima" (se é que tal coisa existe), é sempre aquela que supostamente zela pela ordem. No fundo, de acordo com essa lógica evasiva do jornalão em questão, não se poderia esperar dos policiais nada além de uma repressão, dentro de um quadro de absoluta violência -- afinal, está é a natureza mesma da ação policial --, ao passo que, vinda dos manifestantes, qualquer violência é classificada sempre como "gratuita".
Espero ter sido claro. Abração!
(P.S.: Algo assim é muito recorrente, por exemplo, na cobertura dos conflitos entre Israel e Palestina, onde há, também, uma desproporção do "revide" israelense e uma conivência absurda por parte da mídia.)
Meu caro,
Fiz-lhe uma singela homenagem aqui: http://folhademacondo.blogspot.com/2009/06/frases-feitas-alexandre-nodari.html
a propósito da greve na USP.
Sobre esse seu post, bom, faço minhas suas brilhantes palavras.
Caro Antonio: acho que v. tocou no ponto nodal da questão. De fato, eu "quis dizer" algo que v., de fato, disse: a forma como o jornal põe a questão como se a violência policial fosse uma reação - legítima - a uma outra violência gratuita (o que eu "quis dizer" é que xingamentos ou mesmo pedras, no contexto assimétrico, não são, de fato, "violências", mas a forma com que se relata - como se fosse um "confronto" - não só equipara duas violências de graus diferentes, mas torna violento o que não é, justificando, assim, a violência repressora). E, de fato, a cobertura do "confronto" entre Israel e Palestina (bem como entre a PM e os sem-terra, como mencionado pelo Hugo) é outro exemplo do que v. está dizendo. Agradeço muito seu comentário - e, sim, v. foi claro, mais claro que o próprio post.
Beto: vou lá ver. Agradeço, desde já, a referência. Abraços.