Recentemente, foi lançado, pela Boitempo, O que resta da ditadura, organizado por Edson Telles e Vladimir Safatle. Os artigos dos livros apresentam várias faces da persistência do entulho autoritário. A meu ver, uma das principais - não sei se abordada no livro, já que não terminei a leitura ainda - é a lógica binária do Terror, que produz uma cisão no interior do povo (e, no limite, no interior do próprio sujeito) entre amigo e inimigo, e em que qualquer gesto que tenha a possibilidade mínima de ressoar como falta de engajamento é encarado como hostilidade e conivência. (Sobre o assunto, Ana Longoni escreveu um excelente livro, Traiciones, no qual mostra como sobreviver a um regime bárbaro e testemunhar contra ele pode ser lido como um sinal de traição pela resistência). Por isso, a ditadura permanece não só quando Agripino Maia vê uma imoralidade no fato da Dilma ter mentido sob tortura, mas também quando um "intelectual" petista compara o exílio do então presidente da União Nacional dos Estudantes José Serra a um "abandono" da resistência ou quando um blogueiro, que acha que auto-crítica é criticar os outros, afirma que Caetano Veloso foi preso pela ditadura porque quis aparecer (pois deveria ter se exilado antes). A lógica da ditadura, a lógica do Terror, faz ver ameaças por todo o lado. Diante do outro, só vê duas opções - amigo ou inimigo. Invocá-la para fins eleitorais não é só perversão. É, daí sim, conivência com um modo terrorista de pensar.
P.S.: Pra que fique claro: uma Comissão da Verdade (ou melhor, a punição dos torturadores e da cadeia de comando que vai deles até o alto escalão - basta ler as atas das reuniões do Conselho de Segurança Nacional pra que fique claro o quão ciente ele estava do que ocorria no país) NÃO segue uma lógica do Terror. Esta lógica é produzida intencionalmente, é fruto de uma decisão. A lógica do Terror se impõe aos sujeitos (e é internalizada neles) através de um imenso aparato, que vai do discursivo-censório ao policial-torturador. A identificação dos agentes instituidores e mantenedores desta lógica é essencial ao seu desmonte.


Exato, Alexandre! A chave é o binarismo amigo-inimigo mesmo - e o schmittianismo também se revela também na redução ao uno, ingrediente principal de muitas das disputas internas de muitas das organizações de resistência daqueles tempos. Um ponto chave que boa parte da esquerda brasileira - e mundial mesmo - não entendeu até hoje é que tentar desmontar a lógica da opressão não significa repetir a lógica do opressor contra ele (usando da mesma violência), mas sim invertendo-a. Isso não implica necessariamente na condenação de toda e qualquer ação armada que houve no período, mas sim do modo que muitas delas se deram. Fenômeno semelhante se vê na esquerda brasileira contemporânea, especialmente na oposição ao PT nesse campo que, ao invés de desenvolver um práxis que supere o petismo, simplesmente elegeu um inimigo ("Lula") e à partir daí traça sua ação.
um abraço
Esperança de receber alguma ajuda de você, se eu tiver alguma dúvida.