1. Ontem, circulou pela última vez a versão impressa do Jornal do Brasil. Por incrível que pareça, a única cobertura decente não só do fato, mas do papel histórico daquele jornal nos anos 1950 e 1960, foi feita por um canal esportivo, além do mais, pertencente a uma multinacional de entretenimento, a ESPN Brasil, talvez o único veículo no qual seja possível encontrar mais de uma dezena de bons jornalistas (velhos e novos) juntos.
2. Caso Verônica Serra: a declaração de renda dela foi entregue a terceiros porque havia um documento, com a assinatura dela autenticada em cartório, autorizando. Caso "goleiro Bruno": o ex-policial acusado de envolvimento na morte de Elisa, ex-namorada do Bruno, emprestava para a polícia um terreno que servia para o treinamento de uma força de elite; detalhe que pode parecer tautológico: o empréstimo do terreno aconteceu depois dele ter sido expulso da própria polícia para quem emprestava o terreno.
3. A inutilidade dos cartórios (forma embrionária das "parcerias público-privadas", eufemismo para algo simples: o Estado dá a um cidadão/empresa privado/a o direito de lucrar por um serviço público sem ganhar nada em troca) e a desorganização estrutural da polícia: eram esses os temas que deveriam emergir (não digo nem que devessem ser tratados no calor da hora) dos dois acontecimentos. Mas talvez seja pedir demais dos jornais e da mídia; afinal, a maioria dos jornalistas que poderiam fazê-lo agora estão ocupados fazendo a cobertura esportiva.


Benjamin dizia num comentário não me lembro em que texto que o jornal justapõe tantas notícias completamente díspares numa página porque ele dedica-se acima de tudo a expor "fatos" que são devidamente esquecidos no virar para a próxima página.
A imprensa, em outras palavras, serve tipicamente mais ao esquecimento que reflexão crítica à memória. Ela meramente dá a pauta para uma conversa vazia, um simulacro de pensamento crítico, de quem quer viver a vida no piloto automático.
Felizmente para quem não quer esse piloto automático em direção ao abismo a internet existe, e eu acho que o seu papel potencial importante, mesmo que mínimo em relação à simples reprodução do circo de desmemória que já existia no noticiário do jornal, depois no rádio e mais tarde na televisão.
Muito bom texto! Alguns desses escândalos deveriam trazer à tona as falhas sistêmicas que os fazem possíveis. Mas o povo só quer saber dos detalhes sórdidos envolvidos.
Convido-o a ler um texto que escrevi a respeito:
http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2010/07/publicando-o-joio.html
Espero que goste. Um abraço, Rodolfo.
Well, and it's a delight to discover you declare so, announces the stranger. A warmer latitude having been passed, I might dispense with one blanket, and this I had offered to my very own kind host, who had objected to recognize payment for his hospitality.