Cinqüenta Dias a Bordo de um Navio NegreiroPascoe Grenfell Hill
Tradução: Marisa Muray
Editora: José Olympio (Coleção Baú de História)
Ano: 2006
"A ruptura histórica com o mundo matriarcal produziu-se quando o homem deixou de devorar o homem para fazê-lo seu escravo".
(Oswald de Andrade, A Crise da Filosofia Messiânica)
*Esta resenha é uma parte modificada do texto " 'Todo camburão tem um pouco de Navio Negreiro' ", apresentado na mesa Perisféricas: limiares literatura-mundo, durante a II Semana de Letras da UFSC, maio de 2008.
(Os números entre parêntesis abaixo se referem à página do livro resenhado)
Antes de passar Cinqüenta dias a bordo de um Navio Negreiro em 1842, Pascoe Grenfell Hill observa que em Quelimane, no Moçambique, "O predomínio do tráfico de escravos (...) teve seu efeito costumeiro de impedir qualquer tipo de empreendimento" (49). O negócio se mostra tão rentável que não só o governador do distrito é "conivente no assunto" (48), como a própria Coroa inglesa que empreende a caçada aos Navios Negreiros, participa indiretamente de seu financiamento: assim, ficamos sabendo que Antônio Rodrigues Chaves, o capitão do navio que será capturado pela comitiva de que Hill faz parte, foge e retorna ao Rio de Janeiro "em uma brigue inglês, pois havia conseguido dinheiro em uma casa comercial inglesa na Cidade do Cabo, como vinha conseguindo sempre" (112). Não é por ironia nem por acaso que o barco do deposto Chaves se chame Progresso: o Navio Negreiro exige toda uma lógica de gerenciamento, um saber técnico, especializado, o mesmo que garante a predominância da potência britânica, o mesmo que permite a ela espraiar seus ideais liberais. Depois de capturado pelos ingleses, e com a tripulação do empreendimento presa, 175 dos 397 negros a bordo do Progresso morrem, 54 deles num único dia de tempestade, sobre o qual Hill afirma "sem exagero que os gritos, o calor, a 'fumaça dos corpos deles' que subia não podia ser comparada a nada do mundo" (67). "É bem evidente que", lemos ao fim do relato, "sob circunstâncias semelhantes às que relatei, a captura da 'presa' deve ser um evento muito mais desastroso para o escravo do que para o traficante de escravos. Não se pode supor que o acúmulo de calamidades que perseguiu esses pobres infelizes a bordo do Progresso ao serem transferidos para proteção dos seus libertadores, teria tido lugar se eles tivessem continuado nas mãos dos seus compradores" (113). "Bien arreglados, no mueren", na expressão de um dos tripulantes (71) . Este entrelaçamento entre cultura e barbárie é o mote do Das Sklavenshiff de Heine, onde o médico de bordo receita ao capitão do Navio Negreiro que faça os negros dançarem à força para evitar, assim, o banzo e reduzir a alta taxa de mortalidade (Heine, aliás, insistia que "Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas", lição que Rui Barbosa parece não ter atentado, ordenando a queima de todos os documentos brasileiros referentes à escravidão, na intenção de apagá-la de nossa história. Antes dele, encontramos o mesmo argumento em "Os negros e as marionetes" de Béranger tematiza uma dança de marionetes promovida pelo capitão de um Navio Negreiro, com o mesmo objetivo de "divertir" os escravos, diminuindo a mortalidade a bordo - esta "solução" reaparecerá no Navio Negreiro de Castro Alves, mas com um giro antropológico de 180 graus). O relato de Hill parece refletir, portanto, outra viagem, a de Ulisses segundo Adorno e Horkheimer, a Dialética do Esclarecimento. Se a razão instrumental termina por produzir o seu oposto, o mito, a solução é aumentar a dose do pharmokon, remédio e veneno: "No entanto o predomínio da escravidão nos países bárbaros onde ela funciona, existe antes do tráfico e mesmo que este acabe, lá vai continuar. A única medida que pode acabar com este mal é introduzindo entre as tribos selvagens os princípios da civilização e do cristianismo com cujas bênçãos suas terras seriam parcialmente compensadas pela supressão do tráfico de escravos. (...) Não há outra maneira de triunfar sobre a escravidão" (117, 118). Aqui se resume, a grosso modo, o esforço iluminista de que a Escola de Frankfurt é o "último instantâneo": não há nada de intrinsecamente viciado no projeto moderno, basta corrigi-lo. Mas o recalcado sempre retorna como sintoma. Em Terra e mar, proto-texto literário de O Nomos da Terra (grande tratado jurídico sobre a relação entre a tomada do Novo Mundo e o advento de um Direito Internacional pela primeira vez global) dedicado a sua filha Anima, e onde comparece, quase como protagonista, o Moby Dick de Melville, Carl Schmitt descreve a troca de acusações e xingamentos em que se envolveram as potências européias na disputa pelas terras do Novo Mundo: "Un solo reproche omitían,", nota o jurista e "que era empleado com singular predilección contra los indios: entre europeos-cristianos no se echaban en cara la antropofagia." Não é fortuito, assim, que Hill se espante com a apatia - ou o banzo - dos negros depois de "libertados" (Apesar da insensibilidade branca diante do "espetáculo mais chocante da desgraça humana" reduzir-se a uma mera constatação da "apatia em relação ao sofrimento dos outros que o próprio coração reluta em querer aceitar" (p. 70)). Ele não consegue entender "a apatia total para tudo ao redor" dos negros, e anota desapontado como era difícil "encontrar um olhar de prazer em algum deles" (100), vendo somente "poucos sinais de alegria na ocasião [do desembarque]. Dúvida e medo predominavam e seus semblantes pareciam aqueles das vítimas condenadas" (106). "[D]esembarcados no cais, para prosseguirem em vagões de carga para Cidade do Cabo"(105), libertados do Progresso para o trabalho, os negros sabem muito bem do que, em verdade, se trata: "A primeira impressão deles no começo", lemos ao final do relato de Hill, "foi a de que iam ser devorados pelos homens brancos e relutavam em comer achando que estavam sendo engordados para aquela finalidade"(107).


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