"[Tropa de Elite] Virou uma referência, o que é ótimo. Compreendo perfeitamente essa
idéia de o longa tentar ser neutro, de não se aliar ao protagonista, o
Capitão Nascimento, mas também de não o condenar. É o anti- Glauber
Rocha. O Glauber era um cara que opinava em cada diálogo, em cada
plano. E Tropa de Elite é o oposto. Essa estratégia tem muito mais
impacto na sociedade do que qualquer filme que o Glauber fez."
(Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus, em entrevista à Bravo!, onde ainda acrescentou a respeito de si e de José Padilha, diretor do Tropa de Elite, que "O que fazemos é totalmente anti-Hollywood").
LEGENDA
"(...) enquanto a América Latina lamenta suas misérias gerais, o interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria, não como sintoma trágico, mas apenas como dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino. Eis - fundamentalmente - a situação das Artes no Brasil diante do mundo: até hoje, somente mentiras elaboradas da verdade (os exotismos formais que vulgarizam problemas sociais) conseguiram se comunicar em termos quantitativos, provocando uma série de equívocos que não terminam nos limites da Arte mas contaminam o terreno geral do político. Para o observador europeu, os processos de criação artística do mundo subsesenvolvido só o interessam na medida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo, e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado, mal compreendidas porque impostas pelo condicinamento colonialista."
(Glauber Rocha, Eztetyka da Fome)
(Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus, em entrevista à Bravo!, onde ainda acrescentou a respeito de si e de José Padilha, diretor do Tropa de Elite, que "O que fazemos é totalmente anti-Hollywood").
LEGENDA
"(...) enquanto a América Latina lamenta suas misérias gerais, o interlocutor estrangeiro cultiva o sabor dessa miséria, não como sintoma trágico, mas apenas como dado formal em seu campo de interesse. Nem o latino comunica sua verdadeira miséria ao homem civilizado nem o homem civilizado compreende verdadeiramente a miséria do latino. Eis - fundamentalmente - a situação das Artes no Brasil diante do mundo: até hoje, somente mentiras elaboradas da verdade (os exotismos formais que vulgarizam problemas sociais) conseguiram se comunicar em termos quantitativos, provocando uma série de equívocos que não terminam nos limites da Arte mas contaminam o terreno geral do político. Para o observador europeu, os processos de criação artística do mundo subsesenvolvido só o interessam na medida que satisfazem sua nostalgia do primitivismo, e este primitivismo se apresenta híbrido, disfarçado sob tardias heranças do mundo civilizado, mal compreendidas porque impostas pelo condicinamento colonialista."
(Glauber Rocha, Eztetyka da Fome)

Bela contraposiçao de textos. Mesmo dando um credito de boa vontade quanto as intencoes do Padilha, mesmo assim, acho um equivoco terrivel essa ideia de que uma pretensa "neutralidade" resolva o problema do posicionamento do artista. Esse equivoco nao eh de hoje; produziu, por exemplo, filmes como "O que e isso, companheiro?" que se propunha ao absurdo de "humanizar" os torturadores em nome dessa mesma imparcialidade. Quando revejo a producao pos-ditadura, cheia de um desejo de comunicacao com o publico de uma natureza mercantilista ["quero me comunicar com o publico fabricando um produto que atenta as suas espectativas"], penso que talvez - apesar de todo o discurso triunfalista da volta da democracia - a ditadura nos legou uma herança bem mais insidiosa do que se pensava naquela epoca.
Paulo,
pois é, se seguirmos os argumentos de Meirelles/Padilha, então os filmes da Xuxa são mais importantes que todos os que os dois fizeram e virão fazer. Você tem razão quanto ao legado subreptício da ditadura, uma herança que não está necessariamente nas instituições, mas nas práticas culturais que incorporaram a lógica destas instituições de exceção. Em breve vou colocar um texto aqui em que analiso a relação entre a censura da peça O Rei da Vela pela ditadura, com dois filmes latino-americanos atuais, O dia em que meus pais saíram de férias e Kumtchaka, filmes que, a meu ver, pretendem falar da ditadura sem falar dela.
A propósito, belo blog você tem. Gostei muito das seções sobre os filósofos da república, sobre os gênios da crítica. Recomendo também o post sobre as cotas, quebrando o argumento "sou contra o racismo, mas a solução do problema é melhorar a educação básica" e enquanto isso não vem...
Alexandre,
Gostei tanto de sua mediação nesse debate que vou dialogar com ela em blog.
Por indicação do Idelber, já me tornei um seu leitor.
Um abraço.
Na última Bravo! - a que tem o Ney na capa, mas já vou avisando que não sou um leitor da Bravo! - há uma matéria pós-entrevista-com-Meirelles e pós-comentário-de-um-dos-atores-do-Casseta-e-Planeta que aponta para estes dois episódios, praticamente, como definitivos da história do cinema brasileiro: a revisão do cinema de Glauber!
"Glauber não é mais uma unanimidade no cinema brasileiro"
Dê uma olhada, é de chorar de rir!
Victor: obrigado pela indicação. Li a versão online da entrevista pra Bravo. Não sei se tenho coragem de ler o resto. Mas falando no Glauber, li na Folha Online que será lançado uma caixa com 4 filmes restaurados dele em DVD. Já era hora.