Corrupção de mão única

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Se um ser humano incauto desse o azar de conhecer o Brasil somente pela mídia, teria a convicção de que aqui a corrupção tem mão única: só existe o lado passivo, o do que recebe propina para liberar obra, facilitar licenças, fraudar licitações (devemos diferenciar corrupção de "mero" roubo: o caso daquele que utiliza dinheiro público para comprar um carro, por exemplo - o que a nossa imprensa adora denunciar). Todo mundo sabe que empreiteiras formam cartéis para disputar as licitações - e cadê o "jornalismo investigativo" para dar nomes aos bois? Corrupção é, nos lembra Badiou recorrendo aos jacobinos, antes de mais nada, corrupção da virtude, corrupção do bem público (a corrupção que gera dividendos é sua conseqüência. Lembro de uma matéria do Jornal Nacional à época da eleição de 2006 em que era abordado o superfaturamento de estradas e pontes e se afirmava a necessidade de maior controle por parte do Estado e nenhuma palavra sobre as empresas (e os empresários) que dela se beneficiam. Hoje, saiu na Folha de S. Paulo o resultado de uma pesquisa do Datafolha, encomendada pela ONG Amigos da Terra Amazônia Brasileira em que, além da pergunta sobre o que era mais interessante para o país (94% dos entrevistados responderam pela opção "Parar o desmatamento para evitar desastres ambientais como mudanças climáticas", contra 3% que preferiram "Permitir mais desmatamento para produzir mais produtos agrícolas" - o resultado é meio óbvio, pois o significante "desmatamento" é viciado; ninguém quer as "mudanças climáticas", assim como ninguém é contra a "democracia", mas há um meio de campo entre significante e significado, onde entra a ação humana, tanto política quanto ética, que é muito mais embolado), havia outra questão: "Qual é o principal responsável pelo desmatamento?" Entre as possíveis respostas, havia "Falta de controle por parte das instituições de governo" (que, obviamente, levou a maioria, 60%), "Leis muito permissivas" (ganhou a prata), os "Consumidores" (sic - terceiro lugar, com 9%), "Financiamento dos bancos a atividades que desmatam" e "Redes de varejo que não limitam a origem dos produtos" - além da categoria vale-tudo "Outros", que amargou 1%. Ou seja, não havia entre as respostas o agente direto do desmatamento, isto é, da corrupção ativa, do desvirtuamento do bem público: os agroempresários. Assim, a corrupção passiva, o Estado fraco, os intermediários (bancos e supermercados; tudo bem, eles tem sua boa parcela de culpa), bem como os consumidores (que não tem como saber se o produto agrícola comprado é produzido em área desmatada ou não) são culpados pela corrupção, não os corruptos. O histórico de nossa "burguesia", vendida e entreguista (para ficar no período mais recente, basta lembrar sua adesão ao golpe de 64 e ao financismo do petucanismo), já diz tudo. Mas, para a "opinião pública", os corruptos (não) são os "Outros".

Atualização: a pesquisa completa em .pdf aqui. A melhor ministra do meio-ambiente que já tivemos, Marina Silva, fez uma leitura completamente diferente dela.

13 Comentários

Alexandre,

Concordo plenamente. É desse tipo de concepção distorcida que decorre uma opiniões recorrente em nosso meio do naipe de um "isso deveria ser privatizado porque o governo é muito incompetente e corrupto" como se pudesse existir corrupção em um Estado capitalista sem a parceria de empresários.


Alexandre, já te escrevi uma vez reclamando do desenho do site. O problema continua. Não importa se uso Explorer ou Firebox, importa se o conteúdo é agradável ou não. Tenho te visitado frequentemente e NÃO lido os artigos por serem apresentados com desenho inamistoso. Realmente para mim ( e visito muitos blogs - enão tenho problema em nenhum ) não é fácil ler nestas cores. Hoje, voltei por indicação do Ildeber, mas..., desisto.


Alexandre, concordo com o Orlando. Vc precisa modificar sua programação visual urgentemente.

Mudar inclusive o tipo de fonte (sem serifa, por favor), a cor do fundo e o tamanho dos parágrafos, alguns gigantescos em espaço simples!

No meu caso é problema de visão mesmo. Leio muitíssimo e preciso preservar minha visão, pois tenho 56 anos e quero seguir lendo por muito tempo.

No mais, gosto muito do que vc escreve. Att,


Ana, Orlando. Fiz umas alterações gráficas; queria saber se ficou melhor pra vocês. Abraço


Olá Hugo. O pior da lógica da privataria é que você entrega, financiado pelo Estado (ou seja, por todos nós), as ovelhas (as empresas públicas) pros lobos (estes corruptos invisíveis e que se vendem a preço de banana pra fazer compras em Miami). Aliás, está muito bom o seu blog, já acrescentei na lista dos que visito sempre. Abraço


Olá, Alexandre,

Que bom que gostou d'O Descurvo! Apareça lá para comentar sempre que quiser. Ademais acrescentarei aqui também.

PS: Aproveitando o espaço, a mudança gráfica melhorou o blog mesmo.


Primeira vez no blog (gostei do visual ) , achei muito interessante o post , e para exemplificar o seu último comentário alexandre , é o sistema de metro no rio , o esquema é o seguinte : o ESTADO abre os túneis, gasta rios de dinheiro , depois de aparar tudo direitinho , entrega para a empresa privada , ela só gasta com os trens e com o sistema de venda , enfim tem algo erradíssimo nisso .


Olá Daniel: isso sem falar em todo o investimento para os elefantes brancos do PAN, a maioria dos quais não servirá para as (improváveis) Olimpíadas de 2016. Aliás, as obras do PAN são um caso ainda mais complicado porque nem a iniciativa privada quer (mas as empreiteiras mamaram nas tetas do governo para construí-las)... Abraço


só o nome de seu blog nos mostra a abertura básica para
qualquer troca de opiniões:liberdade de imprensa sempre!
além do conteúdo instigante vc nos informa sobre fontes,
o q nos motiva a (re)buscá-las.

as alterações gráficas já resolveram o q reclamavam com
razão. estava pesado mesmo. ficou ótimo. abraços!


Dolores: discussão sem fonte é guerra de "frases feitas". Que bom que v. gostou do blog.

P.S.: acho que vou mudar o visual toda semana, assim descubro quem são meus leitores.


via idelber cheguei aqui. n'o que é o terror fiquei horas e veio a calhar: divulguei pra ene espaços em
q se discutia a (não) vinda do iraniano. divulgar o
além do consenso foi muito bom.

P.S.: não mude mais o visual não. ficou ótimo. qto a
essa leitora, é uma cigana. do rio passando por bh e
estando, agora, em cuiabá. rs e brs


Dolores: agradeço a divulgação; v. pode me dizer onde meu post foi parar? Abraço


ah! fica tranquilo pq o enviei pra amigos q se preocupam
com bases firmes pra refletirem. e postei num blog anti-
lula pra machucar corações. não devem ter ignorado, mas
o silêncio foi sepulcral. e silêncio é discurso. vou ver
o nome- me esqueci, pois cheguei a ele por via indireta.
força!


Página Principal

"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

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Censura, arte e política

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