O começo do fim

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O renascimento da onda de filmes hollywoodianos de zumbis que começou com Resident Evil, em 2002 (dirigido por Paul Anderson; adaptação de um jogo de videogame japonês de 1989 - por sua vez baseado em um filme, também japonês), e se alastrou com uma série de títulos, de A madrugada dos mortos (2004, direção de Zack Snyder, remake de um filme homônimo do final dos 1970) até Eu sou a lenda (2007; direção de Francis Lawrence; terceira adaptação - as duas outras são dos anos 1960-1970 - do livro homônimo de Richard Matheson) é sintomática. O enredo dos filmes é quase sempre o mesmo: um vírus ou infecção, geralmente causado por intervenção humana direta (uma tentativa de vacina, ou outro experimento médico, que deu errado) contamina, em pouco tempo, grande parte da humanidade, que se converte em zumbis, mortos-vivos que perseguem os poucos não contaminados para contagiá-los ou comê-los. A história humana ameaça se acabar devido ao progresso. Todavia, três aspectos comuns a esse tipo de filme devem ser salientados: 1) a catástrofe (infecção ou o que quer que seja) acontece de uma vez, como um evento súbito e arrebatador; 2) sempre existe a esperança ou de bolsões de sobreviventes (algum lugar militarmente fortificado, ou uma região onde o vírus não chegou ou onde ele não consegue se espalhar), pessoas imunes e/ou a possibilidade de achar, pelo saber médico (o mesmo causador da infecção), a cura; 3) temporariamente, é possível resistir ao contágio militarmente, com um arsenal de armas - basta fuzilar todos os zumbis que aparecerem à frente. Por isso, este tipo de filme, ao mesmo tempo, cristaliza o pavor de que um evento único como a gripe suína (como alguns anos atrás a aviária) ameace a sobrevivência humana, e nos tranquiliza quanto a ele: o perigo só tem uma face, a guerra se combate em frente única. Os efeitos maléficos da dominação da natureza, ou melhor, de sua destruição podem ser revertidos pois eles se manifestam de forma evental. Nisto consiste a sua carga ideológica. Mas a humanidade não se extinguirá de uma vez por todas, a natureza não cobrará a fatura de um só golpe. A cobrança será (está sendo) paulatina e o saber médico, bem como o militar (muitas vezes embrenhados) só pode amenizá-la. Sem mudanças estruturais no modo de produção, entendido em sentido amplo, como sugere David Graeber, como modo de produção de pessoas e de relações com a natureza, a conta só vai aumentar. A gripe suína não ameaça a humanidade, ela é o começo do fim.

6 Comentários

Alexandre,

Interessante esse seu post. Eu nunca tinha analisado os filmes de mortos-vivos por essa perspectiva. Aliás, ando assistindo cada vez menos filmes americanos - pelo menos os do cinemão. Incomoda-me o vazio de significância cada vez mais recorrente nas películas desse país - o que, ao meu pensar, não é fruto do momento, mas sim de um doloroso processo que vem se arrastando dos anos 80 para cá. Mais do que filmes de zumbis, vemos filmes feitos por zumbis para zumbis.


Meu caro,

Há tempos não acessava seu blog e, portanto, vou ter que gastar um tempo para pôr a leitura em dia. O que faço desde já e bastante estimulado a partir da leitura desses comentários sobre a gripe suína.
E com que lisonja deparei-me com a minha FOLHA DE MACONDO (enfim reativada a todo vapor) no seu blogroll! Retribuí fazendo o mesmo.
Abraços,


Vixe, Beto, fazia mesmo tempo que v. não aparecia. A Folha de Macondo tá na lista de blogs que eu visito quase desde quando comecei o blog. É ótimo ter v. de volta por aqui. Um abraço


Oi Alexandre,
Muito boa a sua leitura desse filão da Hollywood atual. Será que não poderíamos acrescentar nessa lista o "Ensaio sobre a Cegueira" do Fernando Meirelles? Quando assisti ao filme do brasileiro lembrei-me muito de "Eu sou a Lenda". A linguagem usada pelo Meirelles, a meu ver, despotencializou a crítica da história de Saramago. O que você acha?


Alexandre, é uma análise coerente, mas não acho que pode ser aplicada a todos os casos que citou. No caso de Resident Evil, não é a natureza que causa a catástrofe, é a própria humanidade: o vírus é uma arma biológica desenvolvida por uma empresa. Em Eu Sou a Lenda, o mesmo.

Não há exatamente uma solução final simplória para a catástrofe como você afirma; no primeiro, o vírus se espalha no âmbito de uma cidade, e garota não vence, ela foge, e a cidade é explodida (penso principalmente no jogo; posso estar um pouco enganado em relação ao filme). Você diz: "a natureza cobrará ou não cobrará" — mas o temor aqui não vem de uma resposta da natureza, como haverá certamente em Fim dos Tempos, vem do próprio desenvolvimento humano, sendo, de uma certa forma, a própria defesa da ideia que você expôs.


Rodrigo, ainda não vi o filme do Meirelles; tenho um baita pé atrás porque acho que seria necessário um experimentalismo a que ele não está disposto (e talvez não seja nem capaz) para traduzir para o cinema a prosa de Saramago (as frases intermináveis, etc.). Mas pela "boa recepção" do filme, v. deve estar certo: a carga crítica deve ter se diluído.

Duanne: sim, concordo que generalizei pra tentar abordar o gênero como um todo. Em todo caso, eu não argumentei que é a natureza diretamente que causa a catástrofe, mas a tentativa humana de interferir nela: "A história humana ameaça se acabar devido ao progresso." A "resposta" da natureza vem na forma dos efeitos colaterais causados pela experimentação humana com a técnica; a mensagem - positiva - destes filmes é que a auto-suficiência humana em relação a natureza é uma farsa. Já o componente "ideológico" dos filmes ameniza esta mensagem: a catástrofe vem de uma vez e pode ser revertida tão "facilmente" como veio (e da mesma forma que veio: médico-militarmente). Para ficar no caso do Eu sou a Lenda: uma tentativa de cura pro câncer (salvo engano) produz a zumbificação - mas nem se discute a possibilidade da "cura" produzir também seus efeitos danosos. Toda relação humana com a natureza mediada pela técnica (em sentido amplo) produz efeitos colaterais. É por uma série de pequenas intervenções recheadas de efeitos colaterais que o fim "se aproxima", um fim lento, paulatino e não abrupto. Mas enfim, v. deve ter razão quanto ao Resident Evil, faz um bom tempo que assisti ao filme e tomei contato com o jogo. A referência direta do post foi mesmo Eu sou a Lenda, que vi recentemente; mas tentei unir à leitura de outros filmes do gênero que assisti, incluindo A Madrugada dos Mortos e outros piores. Um abraço e obrigado pela visita e pela discussão suscitada.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

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