Vaia de bêbado não vale

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Que Carlos Minc não é um décimo de sua antecessora no Ministério do Meio Ambiente, Marina Silva, não é novidade. Que talvez ele tenha sido indicado ao cargo para acelerar as licenças ambientais também não. Mas isso não significa que ele não possa, como cidadão - e mesmo como ministro - participar de uma marcha reivindicatória. Mesmo que seja a Marcha da Maconha. Eu, particularmente, acho esta marcha contra-producente, ainda que ela tenha levantado a discussão sobre o assunto, ao menos na blogosfera (do ponto de vista jurídico, a melhor argumentação é essa feita n'O Descurvo): a nossa sociedade é das mais autoritárias, tem pouco ou nada de branda - e, em certos campos, de tão viciados, o conflito aberto produz péssimos resultados: basta lembrar o referendo sobre o desarmamento, sobre o qual escrevi de outra perspectiva. É este autoritarismo que aparece em reações, travestidas de interesse pelas questões públicas, como essa de Régis Bonvicino, a começar pelo título "Fumando um em Ipanema". O poeta pergunta, depois de criticar a política ambiental, "O que fazia então o ministro Minc na tal passeata?". Trocando em miúdos, por que ele não tá fazendo o seu trabalho, em vez de lutar pelo direito de fumar um baseado? Enquanto o aquecimento global ameaça queimar a todos, o ministro só pensa em queimar um. É fácil retrucar uma argumentação esdrúxula como essa (o que poderia ser feita no formato das Frases Feitas): por que - retorcendo a famosa questão levantada por Adorno - Bonvincino continua escrevendo seus poemas (prum público leitor mínimo) enquanto milhares de pessoas morrem de fome todos os dias?

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P.S.: Auto-jabá: saiu, na revista italiana Confluenze, um artigo meu sobre a Antropofagia. O número está ótimo e é um orgulho ser publicado ao lado de Sandra Pesavento, Boaventura de Sousa Santos e de Raúl Antelo, meu orientador. O artigo de Flávia Cera, sobre a constelação corpo e favela em Hélio Oiticica e Cesar Aira, é outro belo texto da edição: aborda o tema espinhoso da inclusão, que sempre é excludente, da periferia no modelo da cidade.

6 Comentários

Alexandre,

Obrigado pela deferência e pelo link. Concordo em gênero número e grau sobre a análise de nossa sociedade. Aliás, peguemos como exemplo a São Paulo de hoje: É uma cidade altamente emburrecida e mesmo em seus meios supostamente mais intelectualizados, como nas universidades, você não encontra muita gente com quem possa dialogar. Não estou me queixando aqui de conhecer muito pouca gente para debater Heidegger, ia ser muita pretensão da minha parte, falta gente mesmo para debater as coisas do quotidiano mesmo, de saber comos e porquês; tudo orbita em torno de dois paradigmas que se enlaçam: A tecnificação brutal do pensar e a desumanização das relações pessoais. O debate político no Brasil, hoje, é um reflexo desse fenômeno mundial somado às nossas idiossincrasias. Tedioso.

abraços


Hugo: de nada, é teu post que tá bom mesmo. Teu comentário, idem: as "discussões" por aí são todas viciadas, os argumentos tão contaminados por petição de princípio. É o reino da doxa, pura e simples. Uma das coisas que tento analisar na minha tese - e este blog é uma espécie de extensão dela que criou vida própria - é como a linguagem sofre uma transformação histórica que permite que hoje cada um possa falar a maior asneira possível e se abrigar no manto do "é a minha opinião" (e sem que haja instrumentos válidos para infirmar tais asneiras - é o caso da Veja, com seu amontoado de mentiras, que não pára de crescer). Cada vez mais acredito que as Minima Moralia de Adorno (e olha que tenho um grande pé atrás com ele), junto com a Sociedade do espetáculo de Debord sejam o guia de sobrevivência da sociedade contemporânea.

P.S.: Heidegger não é discutido nem nas faculdades de filosofia, que param, a sua maioria, em Kant. Lembro de presenciar pós-graduandos de filosofia da USP rindo, do alto de sua empáfia, de Heidegger como um charlatão místico. Mas eles são apenas um espelho da "vida lesada" que domina a sociedade. Um abração


Caro Nodari, sobre o moralismo judicante de R. Bonvicino, há um artigo interessante de Fabio Weintraub no número 12 de K Jornal de Crítica:

http://www.weblivros.com.br/k-jornal-de-cr-tica/k-jornal-de-cr-tica-12-jun-07.html

O título: "Caos moralizado". Termina assim:

"[...] à diferença de outros momentos da nossa poesia em que o ímpeto participante vinha temperado por um forte sentimento de dúvida ("Posso, sem armas, revoltar-me?", pergunta Drummond em 1945), parece haver aqui uma crença nos poderes do poeta para se separar da barbárie, embora os expedientes formais de que se sirva - as invectivas antipublicitárias e os instantâneos de celular4, - não o habilitem senão a refletir o descalabro do tempo presente sem de fato contradizê-lo."

Abraços,

Pádua


Caro Nodari, sobre o moralismo judicante de R. Bonvicino, há um artigo interessante de Fabio Weintraub no número 12 de K Jornal de Crítica:

http://www.weblivros.com.br/k-jornal-de-cr-tica/k-jornal-de-cr-tica-12-jun-07.html

O título: "Caos moralizado". Termina assim:

"[...] à diferença de outros momentos da nossa poesia em que o ímpeto participante vinha temperado por um forte sentimento de dúvida ("Posso, sem armas, revoltar-me?", pergunta Drummond em 1945), parece haver aqui uma crença nos poderes do poeta para se separar da barbárie, embora os expedientes formais de que se sirva - as invectivas antipublicitárias e os instantâneos de celular4, - não o habilitem senão a refletir o descalabro do tempo presente sem de fato contradizê-lo."

Abraços,

Pádua


Caro Pádua, acabo de ler o artigo da K. sobre Bonvicino; muito bom, não sabia que a sua poesia também era contaminada pelo moralismo de boteco. Pensei inicialmente em escrever o post falando da miopia dos poetas quando se metem em política, mas preferi evitar a generalização, apesar de que, talvez, as exceções, como v. (aliás, parabéns por estar entre os finalistas do Portugal Telecom - se levar, v. me paga um chopp?), confirmem a regra. Um abraço


A poesia também... A análise de Fabio Weintraub é muito lúcida. Mas esse problema da participação política encontra contornos muito diferentes, que dependem das soluções e impasses que cada poeta pessoalmente encontra. É melhor não generalizar.
Se você vier aqui, pago-lhe um chopp (para a Flávia também) sem ganhar o tal prêmio.
Abraços, Pádua.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
poetas, filósofos, censores






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