
Há algumas imagens que vi na televisão que jamais consigo esquecer. Uma delas é a do militante chinês barrando o avanço dos tanques em 1989. Outras duas são das discussões parlamentares sobre as alterações na CLT no final de 2001. A primeira é de Paulo Paim rasgando a Constituição (na tentativa de deixar claro do que se tratava o projeto do governo FHC) e, em seguida, atirando-na em um deputado da base governista que o chamou de "moleque" pelo gesto. A outra é do deputado Babá, dias depois e ainda na discussão sobre o projeto, dizendo a Inocêncio de Oliveira (o Eterno - já condenado por trabalho escravo) que este estava de óculos escuros por "vergonha de aparecer diante da TV Câmara em defesa do projeto". Estas imagens não são marcantes em si, mas o que veio as seguiu: no primeiro caso, quiseram processar Paim por falta de decoro (como já se viu, rasgar a Carta Magna e usá-la como arma?); no segundo, uma série de desagravos a Inocêncio que não estava, de fato, com vergonha (isso ele jamais teve), mas com uma conjuntivite (no olho esquerdo, diga-se de passagem - acho que isso ele sempre teve, só consegue enxergar com o direito). O que essas imagens atestam é algo que, acredito, continua atual, e diz respeito à discussão política brasileira e sua repercussão pelos jornais: a total incapacidade (ou melhor, a total falta de disposição) de compreender imagens (ou metáforas) como imagens (ou metáforas). Basta ver o torcer de nariz a cada metáfora futebolística de Lula.

