Tiananmen

| | Comentários (4)
Eu que talvez esteja mais próximo que pareça vago num grão da vida 
Ou nas lembranças da beleza 
Não sei se virei fim ou me perdi em mim, 
Mas nessa expressão posso ser historia e recomeço. 
Psicografado, nunca esquecido ou requerido, não se preocupe comigo, 
Mas com a época que devora caminhos e destinos com tanta pressa, 
Apagando rastros que nos ensinam e nos permitem a voltar

(Não se preocupe comigo, Marcelo Yuka)

tiananmen.jpg

Ontem, dia 4 de junho, o massacre da Praça da Paz Celestial (Tiananmen) completou vinte anos. Ao contrário do fuzuê que tomou o ano passado por conta dos quarenta anos do Maio de 68, o "maio" chinês, como é também conhecido o movimento que durou de 15 de abril a 4 de junho de 1989, dia em que entre 200 a milhares (o número varia de acordo com as fontes, sendo que, obviamente, as mais comedidas são do governo chinês) foram mortos na Praça, em Pequim. As similaridades com 68 não se limitam ao principal mês dos acontecimentos/protestos: é impossível resumir tanto um "movimento" quanto o outro, a uma pauta de reivindicações. Em ambos os casos, tratava-se de reinventar a política, a cada dia,  afastando-se do aparato institucional reificador. A "única exigência concreta" do Maio chinês, lembra Agamben, "a reabilitação de Hu Yao-Bang, foi imediatamente concedida". Os estudantes, em Tiananmen, não tentavam comunicar algo, senão a própria comunicabilidade, o ser em comum da linguagem e da política que engloba os homens  - e esta não pode ser comunicada explicitamente (um movimento que se diz sem reivindicação é já uma captura, pelo espetáculo, da comunicabilidade sem conteúdo, uma fetichização do grau zero da linguagem e da política). Daí o recurso a demandas "demasiado genéricas e difusas pra constituírem o objecto real de um conflito", como a democracia e a liberdade. Mas o que levou os tanques às ruas foi o simples fato de que ali, como vinte e um anos antes, a política brotava de um simples estar-junto não regulado pelo Estado. O Estado pode suportar qualquer forma de pertencimento alheia a ele, desde que capturável (basta ver a recente abertura, "lenta e gradual", chinesa). O que ele não pode suportar é que homens se juntem sem uma identidade, sem comunicar algo que não a própria possibilidade de um comum.  "Onde quer que estas singularidades manifestem pacificamente o seu ser comum", arremata Agamben", haverá um Tiananmen e, tarde ou cedo, surgirão os tanques armados". Segundo os jornais, circulou pela internet, essa semana na China, a seguinte mensagem "Use branco em 4 de junho, em homenagem aos mortos da praça da Paz Celestial. O governo não pode proibir cor". O legado do maio chinês se reafirma no simples ser-comum de uma cor que nada reivindica, a não ser a memória do acontecimento da política. Assim como os tanques: relatos dão conta de que em Tiananmen, essa semana, havia mais policias que turistas, que sites onde a mensagem circulou foram tirados do ar, que um dos sobreviventes de 89 está em prisão domiciliar e que as "Mães de Tiananmen" estão em vigilância 24 horas por dia. Nas "Mães", sejam de Tiananmen, sejam as da Praça de Maio, sejam as de Acari, ou "outras tantas por aí", reside a memória não de uma causa, mas do conflito entre Estado e não-Estado, entre morte e nascimento, entre instituição e política; a memória das mães de "desaparecidos" deixa claro que o Estado não inclui, a não ser por um processo de exclusão. 1989 continua sendo lembrado pela queda do muro de Berlim, isto é, pelo fim da ideologia, pelo fim da política. As Mães de Tiananmen, bem como os que usaram branco hoje na China nos fazem ver que 1989 foi, na verdade, como tivera sido 1968, apenas o começo do longo caminho de uma humanidade redimida.

Atualização: o Na prática a teoria é outra escreveu dois posts sobre os vinte anos do Massacre. Um deles, com uma incrível foto tirada momentos antes da foto publicada acima. O outro em que ressalta os impasses do momento, ou a falta de pauta do movimento - que, antes de buscar algo, buscava a própria política: se, por lado, os estudantes "brandiam bandeiras americanas e estátuas da liberdade", por outro "também cantavam a Internacional".

4 Comentários

Belo texto, Alexandre. A leitura que desloca o sentido de uma multidão, por vezes lida como acéfala, faz renovar o conceito de povo e esta é uma tarefa urgente para aventar a possibilidade de um "novo corpo da humanidade". um beijo


Alexandre,

Nossa, cara, que texto espetacular! Pena que eu só vi ele agora. A China é o país profundamente complexo, a Revolução de 1949 foi necessária para salvar o país do caos em que se encontrava desde a queda da Dinastia Ming, lá atrás, em meados do século 17º, no entanto, o Estado que foi erguido em decorrência dela não conseguiu superar a lógica autoritária que sempre permeou aquele multifecetado país.

Sim, claro, a China pós-49 que trabalhou fortemente, apesar de suas idas e vindas, no sentido de modernizar um país que em pleno século 20º se encontrava na Idade Média. Em certa monta, conseguiu avanços precisos para ao que era, mas passou longe do que poderia - e deveria - conseguir.

Os comunistas chineses sempre fizeram um curioso e confuso recorte do marxismo - que já vinha consideravelmente distorcido pelo stalinismo. Se os primeiros anos da Revolução foram bem-sucedidos, o Grande Salto pôs os ganhos da revolução abaixo. Depois de um período de relativa bonança, veio a bizarrissíma Revolução Cultural do Proletariado.

A China pré-Grande Salto era um Capitalismo de Estado não muito diferente de muitos países em desenvolvimento; a do Grande Salto até 78 tivemos aquilo que eu denominaria de Capitalismo de Estado à soviética ou, como alguns preferem, socialismo soviético.

A superação do paradigma do maoísmo e sua esquizofrenia acontece de baixo para cima, em algumas provincias que em plena Revolução Cultural, fora do radar o Partido conseguem alguns avanços. É aí que aparece a figura do reformista Zhao Ziyang e a possibilidade de uma outra China.

As reformas de 78 capitaneadas por Deng Xiaoping que desenbocam na Constituição Chinesa de 82 ecoa muito disso; também reflete uma nova ordem que a China poderia construir dada a sua nova posição no cenário geopolítico - fruto de ser uma potência nuclear, de seu distanciamento com a URSS e sua reaproximação com os EUA.

O tal do "Socialismo de Mercado" é o mote para a retomada de um Capitalismo de Estado fundado na exportação e na parceria do Estado guiado por um partido único e central com empresas ocidentais.

Isso alivia o peso do Estado Policialesco ao mesmo tempo em que cria novas tensões, como o já visível aumento da desigualdade social e inflação. No clima da Perestroika, os jovens estudantes tentaram fazer aquilo que você descreveu muito bem: Não comunicar algo exatamente, mas sim a própria comunicabilidade mesmo.

Isso, claro, não é novo. Na União Soviética foi assim também. Os anos 80 na terra de Lenin foi de uma efervecência cultural e política como não se via desde os anos 20 por aquelas bandas. Mas não havia mensagem em si, a mensagem era própria existência da mensagem: Havia um movimento que queria retomar a Política de maneira desesperada - e até ingênua - refletindo a anomia em que se constituiam os regimes de inspiração stalinistas.

Algo que a teoria sociológca e economica teve - como ainda tem - de explicar, mas que deveria, na verdade, ser estudado perspectiva da antropologia e da psicologia; não havia recado em si e nem poderia have-lo: Não havia condições para ele ser formulado, havia, no entanto, uma grande vácuo a ser preenchido pelo que ou por quem assumisse o poder.

Na União Soviética, nós sabemos no que aconteceu; na China, Jiang Zemin e os líderes chineses conseguiram evitar essa fragmentação, indo em direção da criação de um Capitalismo de Estado cada vez mais efetivo, restando do maoísmo apenas o partido único e o autoritarismo. Ziyang foi derrotado e morreu em prisão domiciliar há alguns anos; muitas de suas reformas, no entanto, foram postas em prática - até porque, longe de serem revolucionárias, apenas apontavam para assertivas tangentes ao avanço técnico da administração estatal. Não olvidemos o fato de que Wen Jiabao, chefe de gabinete de Zhao, é, hoje, o primeiro-ministro da China.

Em um lugar, houve o caos extremo, no outro, a ordem elevada à enésima potência, em ambos houve um desastre; a região pós-soviética é uma área de tensão no qual muitos conflitos armados podem eclodir nos próximos anos, na China, há um regime cada vez mais parecido com o fascismo europeu dos anos 30.

Ziyang seria a solução? Creio que não. Há solução para a problemática chinesa? Talvez: O impacto da Crise Mundial pode transformar profundamente aquele país na medida em que terá, pela primeira vez em décadas, de investir na apliação de seu próprio Mercado Consumidor - e não mais na manutenção de mão-de-obra barata para produzir mercadorias para a exportação. Aí poderemos ter as condições materiais objetivas para que finalmente se crie mais do que uma mensagem em si, mas uma mensagem com um conteúdo democrático e realmente capaz de construir algo.


Caro Alexandre,

De fato, espetacular o seu texto. A propósito, os seus comentários políticos são sempre excelentes, como no outro post sobre o protesto anti-Gimar Mendes, que também me deixou impressionado. É possível perceber que você se apropria das suas leituras como algo que lhe modifica, que dá o tom da sua percepção do mundo. E isso é uma sinceridade difícil de se ver hoje em dia. Parabéns.

Um abraço


"Lembrar Tiananmen"

Quando passam 20 anos sobre o massacre de Tiananmen, a China ainda não se libertou dos grilhões maoístas. Pior do que isso, silencia todo e qualquer movimento que vise celebrar a Primavera de 1989, ao ponto de, gerações nascidas após essa data, não saberem o que realmente aconteceu em Pequim. Travestidos de socialistas modernos, o Governo controla minuciosamente a população através do Partido, aliando-se a políticas repressivas que vão desde campos de trabalho forçados a execuções públicas. Não existe liberdade de expressão nem liberdade sindical e os meios de comunicação social estão subjugados. Por mais operações de cosmética que protagonizem, onde os Jogos Olímpicos de 2008 foram o expoente máximo, jamais se libertarão do totalitarismo nacionalista instigador do medo que nem todos os países têm coragem de denunciar mas que um dia a História tratar-se-á de reparar.


Página Principal

"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
poetas, filósofos, censores






Bibliotecas livres:



Visito:



Comentários recentes

  • Dylan comentou no post Tiananmen: "Lembrar Tiananmen" Quando passam 20 anos sobre o massacre de Tiananmen, a China ainda não se libertou dos grilhões maoístas. Pior do que isso, silencia todo e qualquer movimento que vise celebrar a Primavera de 1989, ao ponto de, gerações nascidas após essa data, não saberem o que realmente aconteceu em Pequim. Travestidos de socialistas modernos
  • Rodrigo Cássio comentou no post Tiananmen: Caro Alexandre, De fato, espetacular o seu texto. A propósito, os seus comentários políticos são sempre excelentes, como no outro post sobre o protesto anti-Gimar Mendes, que também me deixou impressionado. É possível perceber que você se apropria das suas leituras como algo que lhe modifica, que dá o tom da sua percepção do mundo. E isso é uma s
  • Hugo Albuquerque comentou no post Tiananmen: Alexandre, Nossa, cara, que texto espetacular! Pena que eu só vi ele agora. A China é o país profundamente complexo, a Revolução de 1949 foi necessária para salvar o país do caos em que se encontrava desde a queda da Dinastia Ming, lá atrás, em meados do século 17º, no entanto, o Estado que foi erguido em decorrência dela não conseguiu superar a l
  • Flavia comentou no post Tiananmen: Belo texto, Alexandre. A leitura que desloca o sentido de uma multidão, por vezes lida como acéfala, faz renovar o conceito de povo e esta é uma tarefa urgente para aventar a possibilidade de um "novo corpo da humanidade". um beijo








Site Meter



Movable Type

Powered by Movable Type 4.1