Moral e ordem do tempo (Theodor Adorno)

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Abaixo um fragmento, o de número 49, de Minima Moralia - reflexões a partir da vida lesada, de Theodor Adorno, na recente tradução de Gabriel Cohn. Considero as mínimas morais de Adorno uma espécie de reescritura do Rua de mão única do Walter Benjamin - enquanto neste se prenuncia a catástrofe, naquele ela já ocorreu. "Moral e ordem do tempo" oferece uma boa chave de leitura aos contos que estão sendo discutidos no Clube de Leitura d'O Biscoito  

Enquanto a literatura tratou de todos os tipos psicológicos de conflitos eróticos, a mais simples matéria externa de conflito ficou à parte pela sua obviedade. Trata-se do fenômeno do compromisso prévio: que uma pessoa querida se nos nega, não por antagonismos e inibições internas, por frieza demais ou demasiado calor reprimido, mas porque já existe uma relação que exclui uma nova. A ordem abstrata do tempo desempenha na verdade o papel que gostaríamos de atribuir à hierarquia dos sentimentos. Estar disponível significa, além da liberdade de escolha e decisão também algo de inteiramente acidental, que parece contestar de ponta a ponta a reivindicação à liberdade. Mesmo e precisamente numa sociedade curada da anarquia da produção de mercadorias dificilmente vigorariam regras sobre a seqüência na qual se conhecessem pessoas. Se fosse diferente, tal arranjo configuraria a mais intolerável intervenção na liberdade. Daí as poderosas razões para a prioridade do acidental: se uma pessoa é preterida por uma nova, então o mal é sempre feito àquela ao se anular o passado da vida em comum, e a própria experiência é como que riscada. A irreversibilidade do tempo propicia um critério moral objetivo. No entanto, assim como o tempo abstrato, ele é aparentado ao mito. A exclusividade inerente ao tempo abstrato desenvolve-se conforme seu próprio conceito na dominação exclusiva de grupos hermeticamente fechados, desembocando na grande indústria. Nada mais comovente do que o temor da mulher amorosa de que a nova pudesse atrair para si o amor e o carinho, sua melhor propriedade justamente porque não se deixam possuir, por força exatamente dessa novidade suscitada pelo privilégio do antigo. Dessa coisa comovente, sem a qual de pronto se dissolveria todo calor e todo aconchego, passa-se contudo de modo inexorável à rejeição pelo irmãozinho àquele que veio depois, ao desprezo do estudante veterano pelo seu calouro, às leis de imigração que na social-democrata Austrália excluem todos os não-caucasianos, até a aniquilação fascista da minoria racial, quando de fato o calor e o aconchego explodem no nada. Não só que, como sabia Nietzsche, todas as coisas boas algum dia foram coisas más: os mais delicados, se abandonados à sua própria gravidade, têm a tendência a culminar na mais inconcebível crueza.

Seria ocioso tentar mostrar a saída desse enredamento. É possível, no entanto, designar o infausto momento que põe em jogo toda aquela dialética. Reside ele no caráter exclusivo do primeiro. A relação original já pressupõe na sua pura e simples imediação precisamente essa ordem do tempo. Historicamente o próprio conceito de tempo se forma com base na ordem da propriedade. Mas o querer possuir reflete o tempo como temor da perda, do irrecuperável. Experimenta-se aquilo que é relativamente ao seu possível não ser. É assim que de fato se torna propriedade e precisamente nessa rigidez torna-se algo funcional, permutável por outra propriedade equivalente. Uma vez convertida plenamente em propriedade, a pessoa querida na realidade nem mais é olhada. A abstração no amor é o complemento da exclusão, que enganadoramente se apresenta como o contrário, no seu agarrar-se neste existente específico. Esse agarrar é que deixa escapar seu objeto na medida mesma em que é convertido em objeto e passa ao largo da pessoa, que degrada em "minha pessoa". Se as pessoas não mais fossem propriedades também não poderiam ser permutadas. A verdadeira afeição seria aquela que se dirige especificamente ao outro, se liga a traços amados e não ao fascínio da personalidade, essa reflexão da propriedade. O específico não é exclusivo: falta-lhe o impulso para a totalidade. Mas em outro sentido é sim exclusivo: quando não proíbe propriamente, mas consoante seu próprio conceito nem mesmo permite que se apresente a substituição da experiência que a ele adere de modo inseparável. A proteção do inteiramente específico consiste em que ele não pode [ser] repetido, e por isso mesmo tolera o outro. Aplica-se certeiramente à relação de propriedade da pessoa, ao direito exclusivo de prioridade, o dito: são todos eles simples seres humanos afinal, e não importa tanto quem é quem. A afeição que ignorasse essa sabedoria não precisaria temer a infidelidade, porque estaria livre da falta de fidelidade.

Theodor Adorno

2 Comentários

Alexandre, desculpe-me pela aporinhação, mas a tradução é do Gabriel Cohn. De resto, muito obrigado pelo trecho


Nossa, tem razão. Dei bobeira. Obrigado, já corrigi no post. Abraço


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
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