"Nós acreditaríamos num progresso humano se a criança nascesse alfabetizada. Mas enquanto ela aparecer no mundo, como nesses últimos quarenta séculos de cronica conhecida, nasce naturalmente na idade da pedra. E aí ficaria, primitiva e nhambiquara, se não a deformasse imediatamente. Não há motivos para se ter saudades das idades líticas. Todos os dias nascem milhões de homens pré-historicos". (Oswald de Andrade)
Minha sobrinha de 4 anos não
escreve o nome; ela
desenha o nome. Toda vez que ela diz que vai fazê-lo, ou peça que alguém desenhe por ela, enuncia uma verdade só possível de ser capturada durante o momento da alfabetização - e que se "perde" assim que este se completa: a de que a escrita está intimamente vinculada ao desenho, mais especificamente ao referencial. Mas, à diferença deste, a escrita não tem como referência algo como a realidade - como as aranhas, que ela insistia tenazmente em tentar imitar no papel -; a escrita é a sua própria realidade, a sua própria referência (daí que a arte abstrata se "limita", no fundo, a desenhar nomes). Na alfabetização (e devemos tomar o termo em sentido amplo, o aprendizado do nosso alfabeto que minha sobrinha está empreendendo agora é apenas uma das inúmeras formas de alfabetizações, tão numerosas quanto os "alfabetos" que a linguagem humana e natural oferecem), o que se aprende é que tais desenhos auto-referenciais, a escrita, constituem cifras, fórmulas, que, todavia, não levam além da esfera das imagens, da esfera dos desenhos. Quando se "descobre" que as letras do alfabeto não são desenhos que representam a realidade, a expectativa de que elas levem a algo mais, que elas sejam desenhos que, decifrados pelo saber secreto que se aprende levariam a outro lugar, a outra realidade, esta expectativa é logo frustrada, ao mesmo tempo que o estatuto originário da escrita enquanto desenho é confirmada. O que se descobre é que a leitura, o saber destas cifras sem referência, não produz nenhum efeito mágico sobre a realidade, mas tão somente - e isso é tudo - sobre a imaginação. O que a decifração - o gesto de leitura - dos desenhos auto-referenciais produz são novas imagens (referenciais ou não) que
só existem durante o gesto de deciframento/leitura, pois a memória não é um arquivo que contém papéis desenhados. O cinema, por sua vez, opera em sentido inverso, é uma leitura às avessas, uma "desalfabetização": aquilo que, na leitura, são os efeitos do deciframento (as imagens produzidas), no cinema se converte nas cifras. O cinema é a tentativa de construir um alfabeto por meio das imagens. O que a leitura de um filme (das imagens montadas) revela, portanto, é uma cifra (que, sendo lida, se reconverte em imagens). Giorgio Agamben certa vez definiu o homem como o animal que vai ao cinema; neste sentido, ele é tão "arcaico" quanto a escrita. Ambos não passam de meios que não levam à lugar algum, exceto aquele reino comum de felicidade que atende pelo nome de imaginação - e que na história da humanidade abreviada que é a vida de cada um costumamos esquecer, mas que minha sobrinha insiste em afirmar, a cada vez que
desenha o nome. Ao fazê-lo, ela comete aquilo que, no monoteísmo, é, ao mesmo tempo, a maior heresia e a maior aspiração. Ao
desenhar o nome, ela, na verdade,
escreve o nome de Deus.
Belo texto. Houve teóricos que tentaram elaborar uma gramática do cinema, equiparando a escrita com as palavras à "escrita" com as imagens. Tentativas que se esgotaram na medida em que o acesso do cinema a um universo imaginário mostrou ser diferente do que oferece a literatura. Diferente não apenas pelo precesso de recepção, ou pela maneira como penetramos nas "cifras", mas também pelo realismo inerente à imagem em movimento.
Não se você concorda, mas eu diria que o cinema transformou-se em uma linguagem - "linguagem sem língua", como diria Christian Metz - com tanta complexidade quanto a que caracteriza a literatura. No entanto, assim como esta, a sua riqueza é reprimida pelo uso comum; apesar disso, a nossa imersão nas imagens, hoje, é muito maior que nas palavras escritas. Estamos quase naufragados em imagens, que brotam de todos os lados, de cada "avanço" tecnológico das comunicações. Contexto que exige, urgentemente, uma alfabetização para o cinema, para as imagens - devidamente acrescida à alfabetização que prepara a sua sobrinha para lidar com os livros.
Um abraço!
ah, que bom. lembrei do conto do borges, em que o nome de deus era escrito com um alfabeto de imagens (manchas). vou reler chegando em casa.
oi nodari
teu texto me faz pensar em várias coisas. primeira delas é na leitura feita através das entranhas dos animais pelos povos primitivos dos quais escreve Lucien Levy-Bruhl (leitura aliás, efetiva de muitos latinoamericanos, cortázar, oswald, mario... O nome das coisas, as coisas mesmo eram vistas pelos primitivos, buscavam a 'escrita' nas configurações destes corpos,nos humores do corpo. De outra maneira, os quiromantes que viam nas semelhanças com as configurações astrológicas, a escrita do mundo(e aí desdobamos novamente à baudelaire e benjamin)e o destino dos donos das mãos. A quiromancia é leitura de duração bergsoniana e um dos mais puros procedimentos anacrônicos na medida em que em um plano tem-se uma configuração espaço-temporal de uma vida. Importante assim, uma leitura sem referência a leitura sensível da mágica e da infância (infans) de que tratam tanto benjamin quanto agamben.
grande abraço
Belo texto, Alexandre, o post me remeteu a uma coisa bastante curiosa que envolve a escrita: A diferente relação entre os povos que usam sistema de escrita alfabético e os que usam sistemas ideogramáticos - ou melhor, logográficos - no que toca ao desenho. Nosso sistema usa símbolos que equivalem a fonemas e o qual podemos recombinar de inúmeras maneiras possíveis para expressar certos sons que equivalem a coisas concretas ou abstratas. Por outro lado, os chineses - com seu hanji e os seus morfemas monossilábicos - expressam uma ideia mediante um desenho que corresponde a uma coisa concreta ou abstrata e que, por sua vez, encontra a representação fonética em alguma(s) sílabas tonais. Se as crianças de povos alfabéticos superam o desenho na medida em que se apropriam da escrita, as crianças de povos ideogramáticos não são alienadas do desenhar ao longo da vida. Já parou para pensar como isso deve alterar o modo de se enxergar a vida?
Salve "seu" Nodari!!!
Muito bom o texto! "Postei" o texto "gestos e infância" no Flanagens. Em alguns aspectos podemos armar uma diagramação de idéias muito próximas...
Todo traço deixado pela crinça ao desenhar o nome está repleto da graça das primeiras vezes. A ditosa saudade que sentimos do aprender, diria Benjamin, é o que talvez nos remeta ao divino e, portanto, ao demasiadamente humano...
Abraço
Muito bons os comentários. De fato, a relação entre escrita e imagem dá muito o que pensar. Agradeço as referências levantadas. Queria acrescentar duas coisas:
1) Hugo: de fato, muda toda a forma de se relacionar com o mundo; é interessante lembrar, nesse sentido, a tentativa da Poesia Concreta de construir algo como uma escrita ideogramática (caso v. não conheça, vale a pena ler o Plano-piloto para Poesia Concreta e poesia concreta: um manifesto;
2) uma coisa que acabei deixando de fora do texto é a contrapartida deste caráter de cifra que a escrita possui, isto é, a aura de autoridade que a acompanha. Uma das passagens mais melancólicas de Tristes Trópicos do Lévi-Strauss é justamente o capítulo chamado "Lição de escrita" em que ele vincula a invenção da escrita à grande parte dos males do Ocidente, um instrumento da dominação fetichista. Talvez renda outro post. Abraços
Alexandre,
Sem dúvida, a relação com a Poesia Concreta faz sentido - ainda que ela tem se estruture num sistema alfabético.
abraços
no caso da arquitetura há dificuldade da parte dos arquitetos e do público em geral em entendê-la como linguagem, em parte pela confusão que existe entre lingua e linguagem. um desenho ou uma imagem de uma casa não é uma casa, mas se refere à uma casa, como no cinema e no caso do cachimbo de magritte. Já uma casa é uma casa em si, nessa visão preguiçosa, embora existam milhares de variáveis envolvidas, e é o sistema de moda que supre essa necessidade de linguagem, como terceirizando o pensamento não-verbal e dominando os termos da discussão. Entre outras coisas há uma semiótica da técnica (quem construiu? como construiu? com que materiais?) que fica escondida e apaziguada pelas camadas de argamassa. Acho que essa semiótica da técnica é possível para outros tipos de expressão baseados na divisão avançada do trabalho, como o cinema.
j,
Levando em consideração que a Gramática significa técnica das letras temos de ter em vista que ela de fato não só já se aplica às técnicas - e à Técnica no sentido lato - como também, ela mesma, a Semiótica, é uma técnica: a da extração do conteúdo significativo das coisas.
a idéia da semiótica da técnica se refere a tentar pensar a técnica como linguagem. penso que tem a ver com a idéia do adorno na dialética do esclarecimento, que se refere a uma técnica que passou a ser maior do que os homens, como uma religião, incontestável. a própria semiótica, quando tenta se colocar como ciência, como na afirmação do concretismo, escorrega para uma atitude iluminadora definitiva, e acho que o concretismo no brasil teve um caráter desenvolvimentista, cheio de manifestos e confiança na máquina, do tipo construtivista, fruto do projeto iluminista que já era meio estranho na época, por isso toda aquela treta com o ferreira gullar, que ele passou a vida inteira falando. então, talvez, fosse mesmo uma técnica da técnica, uma meta-linguagem da técnica. porque se a gramática é a técnica das letras, não significa necessariamente que ela leve em consideração a técnica. seria pensar a gramática de forma crítica, tipo deixa disso meu camarada, me dá um cigarro.
j,
A Semiótica é uma técnica que se refere ao conteúdo de significação de outras técnicas porque de um modo ou de outro elas fazem uso de linguagens, logo de signos - conceitos mutuamente inteligíveis. Com efeitos, Não se trata de uma ciência. Mas isso aquele velho debate entre Semiótica x Semiologia, onde em vez de uma técnica de extração e compreensão do significado das coisas, teríamos uma ciência. Seria possível? Eu também creio que não.
Quanto a Gramática, sua importância foi elevada dentro pelo projeto iluminista e depois a tradição positivista - que moldou nosso pensar desde os primórdios da República - vai criar uma verdadeira paranóia educacional quanto a ela - como se reflete no nosso sistema educacional.
Na antiguidade, os gramáticos eram vistos como uma classe inferior aos filólogos, pois é a Filologia quem de fato se ocupa dos fenômenos linguísticos, históricos, geográficos e etimológicos fundamentais para a compreensão do fenômeno da palavra.