Dia do Juízo (III)

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O telefone tocava novamente. O exercício militar parara - só para ser retomado no dia seguinte. As pastas de processos continuavam intocadas - mas lhe reavivaram o sonho de um amigo.

Trancafiado no último andar do Fórum, como represália de algum superior - cuja motivação  se desconhecia -, J. estava confinando a ser arquivista. Rodeavam-no pilhas e pilhas de processos, estantes e mais estantes abarrotadas deles. A mesa, idem. Somente a cadeira permanecia vazia. Não ousava sentar nela, com medo de encarar aquela infinidade de processos, todos antigos. Não lhe haviam dado nenhuma incumbência. Parecia estar ali para guardar a memória da lei. Veio a noite - ou melhor, o sono, já que a quantidade de pastas, papéis e poeira tapava todas as janelas, tornando impossível saber as horas. Entediado, decidiu tentar cochilar na cadeira. Foi seu erro. Os processos começaram a se abrir e se fechar, como se fossem bocas ameaçadoras. Os pés das estantes ganharam vida, elas começaram a andar na direção de J., cercando-o. 

O sonho se interrompia com um telefonema da secretária do desembargador.

*** 

(Dia do Juízo é uma ficção que publicarei, paulatinamente, aqui no blog, às sextas-feiras.)

I * II

***

P.S.: Estou tendo alguns problemas com SPAM nos comentários. Na busca de soluções, talvez algum comentário seja retido. Caso isso aconteça, peço que me enviem email para alexandre[ponto]nodari[arroba]gmail[ponto]com

3 Comentários

Falando em militares e processos, dia desses vi um daqueles processos relacionados ao Massacre da Lapa. Coisa horrível, anos e anos de dor somado a um Judiciário lento e inepto...


já leste do sergio sant'anna
o despertar de gregório barata ?

vale a pena.

abraço


Não li não Cristiano, vou atrás. Brigadão pela dica.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

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(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
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