Dia do Juízo (II)

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Por que a terra aqui é tão vermelha? A sua primeira pergunta existencial foi uma pergunta a respeito da cor. Esse poderia ser o sentido da dúvida que o menino lançava ao tio, ainda que apenas em imaginação. Não tinha coragem de fazer a pergunta em viva voz. Como a reportagem que talvez viesse a ver muito tempo depois, falava em off.

A terra é vermelha de tão encharcada de sangue.

Mas isto não explicava tudo. A metáfora nunca explica tudo. Obviamente, o garoto não pensava nestes termos, mas poderia vir a pensar - ou, ao menos, intuía. O caminhão verde do exército passou pela estrada de chão, disseminando ainda mais a poeira rubra, disseminando ainda mais a dúvida. A criança entrou pra dentro de casa pra manter a sua camiseta branca, como mamãe ordenara. Não haveria de sujar-se. Desde então, não havia tempo para isso.

Sangue de quem? No colégio, algum tempo depois, as aulas de História lhe dariam a pista. Todavia, isto não explicava porque a terra onde seus avós moravam era vermelha, e somente como havia se tornado vermelha. Qual era, então, a cor primeira da terra?

***

(Dia do Juízo é uma ficção que publicarei, paulatinamente, aqui no blog, às sextas-feiras.)

I

2 Comentários

Alexandre,

Isso me lembra uma canção dos tempos da perestroika que em uma parte fazia referência à história da Rússia e se referia como a terra chupava o sangue das batalhas, mas lá ela voltava a ser o que era antes, aqui, ela permanece. Só tracei esse paralelo porque achei interessante essa coincidência do uso da metáfora do vermelho no solo enquanto marca - emocional - da violência em um certo espaço geográfico.


Muito interessante essa referência. Vou ver o link que v. passou e me informar mais. Brigadão.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
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Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
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O pensamento do fim
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O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

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Dia do Juízo

é uma ficção publicada aqui no blog às sextas-feiras.

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  • Hugo Albuquerque comentou no post Dia do Juízo (II): Alexandre, Isso me lembra uma canção dos tempos da perestroika que em uma parte fazia referência à história da Rússia e se referia como a terra chupava o sangue das batalhas, mas lá ela voltava a ser o que era antes, aqui, ela permanece. Só tracei esse paralelo porque achei interessante essa coincidência do uso da metáfora do vermelho no solo enq








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