Tese(s) sobre política (revisado e ampliado)

| | Comentários (2)
1) A política é a disputa na imaginação pública

Antes de tudo, é preciso esclarecer que, para o bem ou para o mal, o homem é "o animal que vai ao cinema". A imaginação, como esclarecem os filósofos árabes medievais na sua releitura de Aristóteles, é aquilo que liga o indivíduo ao intelecto comum à humanidade. Imaginar, portanto, é sempre um ato coletivo, pois remete à potencialidade humana. O homem é aquele que pode ou não fazer - não tem nenhum destino, nenhuma vocação biológica, como assevera Agamben; antes, sofre de um "déficit essencial", como o caracterizou Oswald de Andrade. A humanidade não tem instintos, a humanidade produz instituições, aquilo que Marx chamou de trabalho - mas o que caracteriza este trabalho é que, antes de ser realizado ele é sempre imaginado. A autoconsciência não é nada mais que a consciência de que se imagina. Sendo uma esfera de saída comum e/ou coletiva, a imaginação sempre foi a trincheira por excelência da política. Representações do outro, auto-representações, projetos, Utopias, símbolos, cerimoniais, nomenclaturas, vocabulário - os exemplos são infinitos e em cada um deles se trava um embate.

2) O Estado sempre foi a hegemonia da mediação da imaginação pública

Se aceitamos tal premissa, isso não quer dizer que possamos concluir que a situação em que certa forma e/ou conteúdo da imaginação pública se torna hegemônica possa ser caracterizada como Estado. Antes, o mais correto seria dizer que o Estado é a concentração da mediação da imaginação pública. Ele não é uma situação da imaginação pública que se estabiliza, mas uma pura forma que permite que qualquer situação se estabilize. Nesse sentido, ele não nasce da concentração da força física e do aparato fiscal - mas do censo e da censura, da medida enquanto parâmetro e ação. Não se trata só de proibição, mas também de informação: o Estado esvazia as formas da imaginação coletiva, substituindo-as por uma pura forma em que garante, antes de tudo, o seu controle, inscrevendo a sua marca, a marca da mediação. Daí a profusão de noções literárias, como a representação, no aparato estatal. Que algo tão recente e an-árquico como o Estado tenha deixado a sua marca como imprescindível à reorganização (e isto quer dizer, re-imaginação) da coletividade fica patente no fato do marxismo prescrever a mediação de um Estado proletário no caminho da sociedade sem classes. Mas a evidência mais clara de que o Estado é a hegemonia da mediação da imaginação pública é a pretensão da imprensa, dos meios de comunicação de serem o "quarto poder".

3) O quarto poder é hoje o Estado

Se, por muito tempo, o que conhecemos usualmente como Estado possuía a hegemonia da mediação da imaginação pública, mas precisava disputá-la ou negociá-la com outros Estados e formas para-estatais ou quase-estatais como o "quarto poder", hoje ele não mais possui esta hegemonia - o que quer dizer, que ele não é mais Estado. Antes, o "quarto poder" - não só os mass media, mas o que Guy Debord chamou de "espetáculo integrado" - se independizaram e tomaram para si não só a hegemonia, mas o monopólio da mediação: se converteram no Estado. Das hegemonias, passamos a homogenia. Se o "tipo puro" do Estado não é a hegemonia da mediação da imaginação, mas o seu monopólio, e se a imaginação, sendo comum à humanidade, desconhece fronteiras, não podendo ser mediada territorialmente, então talvez só hoje tenhamos de fato um Estado.


2 Comentários

Ê, Alex, vc sempre escrevendo coisas provocantes aqui, hein?

Adorei esses dois aforismos sobre a política. Vc me permite algumas anotações à margem do seu texto - anotações que não têm outra pretensão que não provocar ainda mais reflexões? (Sinto-me sempre instigado pelos seus posts!)

1) "A autoconsciência não é nada mais que a consciência de que se imagina. Sendo uma esfera de saída comum e/ou coletiva, a imaginação sempre foi a trincheira por excelência da política."

"Antes, o mais correto seria dizer que o Estado é a concentração da mediação da imaginação pública. Ele não é uma situação da imaginação pública que se estabiliza, mas uma pura forma que permite que qualquer situação se estabilize."

Estes dois trechos me soam um pouco hegelianos: o Estado é uma espécie de "formatação" de um imaginário coletivo, uma estrutura subjacente à própria organização do trabalho, do pensamento, da filosofia, da arte, quase como uma instância sempre presente, agindo mesmo como um "espírito" por trás da materialidade da história (ainda que este espírito, enquanto forma pura, esteja em constante evolução).

2) "[...] o Estado esvazia as formas da imaginação coletiva, substituindo-as por uma pura forma em que garante, antes de tudo, o seu controle, inscrevendo a sua marca, a marca da mediação. Daí a profusão de noções literárias, como a representação, no aparato estatal."

Já este trecho me parece marxista: o controle das formas pelo Estado não só ajudou Marx a denunciar a ideologia subjacente ao capitalismo, mas também o fez romper com Hegel, no sentido de dizer que o homem faz o Estado numa constante relação dialética de poder e consenso que transforma, a todo o momento, a própria forma de organização coletiva. Não fosse assim e ele não poderia sequer imaginar o comunismo como forma alternativa ao capital. Com isso, fica evidente o fato de que o Estado é justamente o produto não da imaginação, do espírito, mas do trabalho e das relações de força no interior da sociedade de classes.

3) "Mas a evidência mais clara de que o Estado é a hegemonia da mediação da imaginação pública é a pretensão da imprensa, dos meios de comunicação de serem o 'quarto poder'."

"Antes, o 'quarto poder' - não só os mass media, mas o que Guy Debord chamou de 'espetáculo integrado' - se independizaram e tomaram para si não só a hegemonia, mas o monopólio da mediação: se converteram no Estado."

Aqui, parece-me que vc volta a Hegel: do modo como vc colocou, os mass media funcionam como um Estado, no sentido hegeliano, dentro do Estado, no sentido marxista. Quer dizer: a suposta independência dos mass media não explica porque o Estado é o que é, mas a existência do Estado tal como é explica a possibilidade de os mass media agirem como uma instância de poder e controle ideológico dentro do modo capitalista de produção. A mídia não pode querer nem ser o Estado, nem tampouco ser um Estado paralelo ao Estado, simplesmente porque ela se alimenta da ilusão hegeliana de que pode determinar o que viria a ser o Estado, ilusão que foi explicada por Marx.

Então, eu pergunto: por que partir e voltar a Hegel, se vc tem a faca e o queijo na mão com Marx?

Um abraço.


Caro Antonio: provocantes são seus comentários, que me fazem pensar demais, ainda que seja difícil conseguir respondê-los. O que eu tentei com a tese foi deslocar a noção de Estado do aparato estatal em si que, em momentos de crise, rui como um castelo de cartas (pensemos, por exemplo, na Argentina da crise de 2001), para uma forma de "controle" do imaginário (ou melhor, de hegemonia da mediação da imaginação pública), algo que pré-existe e pós-existe ao aparato estatal em si. Nesse sentido, sim, posso concordar que a tese é hegeliana. Os mass media, o que Debord chama de "espetáculo integrado" é o Estado nessa acepção: ele faz o papel de mediador, com uma homogenia quase total a nível global, da imaginação pública. Toda e qualquer aspiração política tem de passar pelo seu crivo, digamos assim, pelos seus códigos. Agora, isso é péssimo, mas também oferece uma chance. Enquanto tínhamos Estados territoriais, a imaginação tinha que se contradizer, cortando suas aspirações comuns (ou universalistas). Hoje o inimigo é total, mas "também" é só um. Um abraço


Página Principal

"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
poetas, filósofos, censores






Bibliotecas livres:



Visito:



Comentários recentes

  • Alexandre Nodari comentou no post Tese(s) sobre política (revisado e ampliado): Caro Antonio: provocantes são seus comentários, que me fazem pensar demais, ainda que seja difícil conseguir respondê-los. O que eu tentei com a tese foi deslocar a noção de Estado do aparato estatal em si que, em momentos de crise, rui como um castelo de cartas (pensemos, por exemplo, na Argentina da crise de 2001), para uma forma de "controle" do
  • Antonio Barros comentou no post Tese(s) sobre política (revisado e ampliado): Ê, Alex, vc sempre escrevendo coisas provocantes aqui, hein? Adorei esses dois aforismos sobre a política. Vc me permite algumas anotações à margem do seu texto - anotações que não têm outra pretensão que não provocar ainda mais reflexões? (Sinto-me sempre instigado pelos seus posts!) 1) "A autoconsciência não é nada mais que a consciência de que








Site Meter



Movable Type

Powered by Movable Type 4.1