A política (como ela é) é relacional, isto é, uma guerra de posições. Ou seja, diante de um campo dividido em dois pólos, um deles tendo como núcleo a bandeira da moralidade, se adoto esta (a idéia de que o governo é corrupto, não sabe administrar, aparelha o Estado, só quer saber de fazer aliança com a calhordice), então, querendo ou não, me coloco do lado daqueles que partilham desta bandeira, que fazem parte deste pólo (que dentro destes, há os que o fazem cinicamente, não importa). Foi o que fizeram Gabeira e o PSOL, que jogam o jogo da oposição demo-tucana. Agora, isso não quer dizer que não é possível tentar reorganizar o cenário, recriar os pólos que organizam o cenário. É o que há tempos alguns tucanos mais inteligentes e menos egóicos que FHC estão tentando dizer ao seu partido, pois sabem a farsa que é se organizar em torno a um núcleo tão frágil politicamente quanto a moralidade (UDN e Collor o comprovam). É também o que, recentemente, se esboçou no congresso do PSOL, com o aceno à centralidade que a crítica do modelo econômico atual deve ter no partido. E, por fim, é o que Marina Silva tenta com a sua saída do PT. Em nenhum momento desta transição ao PV, Marina Silva focou na temática da corrupção do governo Lula, porque sabe que, ao fazê-lo, iria desembocar na arena demo-tucana, o que ela não quer, na medida em que busca, justamente, criar um outro pólo. Assim como "nunca antes na história" dessa transição, Marina Silva se afirmou como candidata ambientalista (pois um pólo político meramente "ecológico" é igualmente frágil): antes, a sua insistência de que a crise atual do capitalismo, combinada às mudanças climáticas, implica a necessidade de mudança dos modelos de produção e consumo, revela que o que está agregado na sua bandeira do "desenvolvimento sustentável" é muito maior do que mera defesa das "araras azuis", como se ironiza por aí. O apelo ao "sonho", à possibilidade de recriar um projeto de desenvolvimento, por mais vago que seja, adquire força no atual cenário onde os dois pólos fortes se debatem pra ver quem é mais eficiente e pragmático na administração. Por isso, não podemos ficar pensando só na análise de curto prazo (a possibilidade de Marina ganhar a eleição presidencial), pois o que talvez esteja em jogo seja a reestruturação do cenário a médio ou longo prazo. Por isso, Marina tem insistido que não valia a pena fazer a luta dentro do PT, isto é, dentro de um dos pólos. As dificuldades de tamanha empreitada são enormes, mas foi justamente o que o PT (e em menor medida, o PSDB) fez, modificando o desenho do jogo (dominado, na década de 1980, pela arquitetura política da ditadura, bem como pelas forças pré-64). Marina Silva não se opõe ao pólo-PT, como não se opõe ao pólo-demotucano, ela se opõe a esta polarização. Agora, se os petistas (e me refiro também aos não-filiados, às vezes muito mais histéricos que os filiados) continuarem com essa cruzada de dizer que Marina joga o jogo da oposição (ainda que, em 2010, acredito que, a princípio, ela tire mais votos de uma candidatura tucana do que de Dilma), com direito as maiores baixarias (comparações com corredores quenianos, a chamando de "musa do verão da República Morumbi-Leblon", e outras frases feitas que só revelam a esterilização do discurso que dará o tom ano que vem) conseguirão, de fato, fazer com que ela o jogue. Se não derem espaço para que ela crie este novo pólo, e fecharem o próprio, definitivamente a empurrarão ao outro. "Não inventes o que não queres que aconteça", pra repetir uma fala que ouvi recentemente numa peça de teatro. Ano passado, o senador demo Agripino Maia lançou a candidatura de Dilma ao "acusá-la" de mentir sob tortura durante a ditadura. Os petistas estão inventando o que não querem que aconteça ao insistirem, como é tradicional na esquerda, que Marina Silva é traidora, só para não ter de fazer a auto-crítica que a sua saída do partido impõe. Mas de um partido com histórico de "fogo amigo" e capaz, como nenhum outro, de fomentar a oposição, já era de se esperar.
P.S.: Escrever este post foi um tanto doloroso - e era algo que eu preferiria não ter de fazer. Mas o alto grau de violência da reação dos blogueiros lulistas à saída de Marina Silva revela um grau de esterilização discursiva petista que me recuso a compartilhar. De certa forma, o próprio fato de eu escrever este post é um sintoma do que argumento nele.
P.S.2: Meu computador pessoal está pifado, então está um tanto mais complicado para responder os comentários, escrever mais posts, bem como fazer as devidas linkagens.


Ótimo post. Já era hora de ler uma avaliação um pouquinho diferente das que andam por aí sobre a saída da Marina Silva e os seus movimentos políticos — sejam avaliações contrárias ou favoráveis. Alguém precisava jogar um pouco de luz sobre o movimento dos que supostamente estão na plateia, mas que são tão atores quanto.
Não me parece, também, que Marina esteja seguindo os passos do Gabeira ou da Soninha. Mas não se pode deixar de lado o que é o PV e seus compromissos para lá de flutuantes. Atada a esse partido, como construir alguma alternativa, como seria possível reinventar a política? Seria a política do "eu sozinho"? Refundação do PV parece mais estratégia de marketing que utopia verde.
Ótimo post. Procurei escrever tb sobre o tema, uma vez que me choca a reação de petistas que considerava de uma linha mais pluralista à pura e simples desfiliação de Marina. Sem saber (ninguém sabe ainda) exatamente por onde caminha a candidatura, já trabalham com hipóteses altamente depreciativas (e completamente em desacordo com o histórico e as manifestação da ministra). Isso é fanatismo e assusta.
Moysés, estou em pleno acordo com você. Eles acabam sendo mais evangélicos do que a "evangélica Marina Silva".
Alexandre,
Não creio que a Política, mesmo como ela é, dispense a Moral - ou a Ética, tanto faz -, mas ela não pode ser feita com moralismos - isto é, padrões morais falsos. É o que faz o bloco demo-tucano: Ele faz uso de uma falsa indignação fundamentada num padrão moral reconhecidamente falso com o intuito de justificar a "Ordem das Coisas" - que insiste em não morrer.
O PSOL, no entanto, não incorre exatamente no mesmo erro, mas sim, às vezes, personifica problemas de ordem sistêmica, um erro de avaliação residual na sua busca por apontar as contradições do reformismo petista - e nem sempre ele está errado, algumas vezes, o partido põe bem o dedo nas feridas petistas, apesar de que na maior parte do tempo ele se perca em devaneios paranóides, errando a mão ao mirar demais (e com a mão muito pesada) apenas no PT.
A candidatura de Marina, até agora, não me convenceu muito como eu já coloquei aqui - e isso tem muito ao ver ao modo como eu vejo o PV e o quanto ele pode render enquanto parte dentro do sistema político-partidário mesmo que melhore muito; no fim das contas, suas próprias alianças conduzem muito mais para uma direção onde ele não passará de um peão do DEM/PSDB em 2010.
Alexandre,
Não vejo toda essa violência da reação petista à saída de Marina do partido. Aliás acho que a cúpula do partido, Lula e Dilma - que são quem interessam afinal - tiveram reações bastante adequadas, maduras, até por um cálculo político: não permitir que Marina seja vendida como vítima da "carrasca" Dilma. O que se vê é uma reação mais exaltada aqui, outra acolá, principalmente na blogosfera, o terreno mais propício a essas exasperaçôes. Nada mais do que isso, e nada mais que o esperado.
E também não consigo enxergar esse "terceiro pólo", esse "balaio de gato", como tão inovador assim, como capaz de estimular uma mudança no nosso modelo de produção e consumo (veja, não estou falando de Marina especificamente. Estou falando do "balaio de gato". Quem conhece o PV minimamente sabe do que eu estou falando). Ademais, acho que a agenda que se impõe agora, depois de 8 anos de Lula, é outra.
Quanto aos outros pontos, eu comentei lá no ótimo post do mundo-abrigo (http://www.culturaebarbarie.org/mundoabrigo/2009/08/marina-silva-e-a-pressa-que-te.html)...
Henrique e Hugo: o que tentei argumentar é que devemos dar tempo ao tempo (aliás, foi o que a Flávia sugeriu aqui) - é possível que o partido se refunde e se reconstrua, e como salientei no post estou ciente das dificuldades; mas devemos ter em conta esta dimensão de médio e longo prazo e não ficarmos tão focados na eleição presidencial do ano que vem. O que me incomoda é que, de tanto insistirem que, do jeito que as coisas estão no PV, Marina irá fazer o jogo dos demo-tucanos, talvez ela acabe empurrada a isso mesmo, por falta de opção. É evidente que o PT formalmente reagiu de forma moderada (a não ser Zé Dirceu, que reivindicou pro partido o mandato de senadora da Marina), mas a reação dos simpatizantes petistas da blogosfera é sintomático. Neste sentido, Bruno, não concordo que a blogosfera seja o espaço para esta simplificação e/ou virulência, pelo contrário - deveria ser um espaço de reflexão mais aprofundada e distanciada, e não uma extensão histericizada do jogo político. Afinal, não é isso que reivindicamos como distância da grande mídia?
Moysés, Ricardo: obrigado. Como eu disse no comentário acima, acho que a blogosfera propicia um espaço de reflexão distanciada tanto do jogo político quanto do jogo da mídia (que muitas vezes se confundem). Querer entrar com muita gana nesse jogo pode esterilizar a blogosfera ano que vem. Abraços
Alexandre,
Eu não disse que é desejável que a blogosfera seja palco de "simplificação e/ou virulência", o que eu acho é que na internet, esse território livre, era esperada uma reação mais exaltada, diferente da "isenção" da grande mídia. Só isso. Concordo com você que a blogosfera deveria fazer uma "reflexão mais aprofundada e distanciada"- e os melhores blogs têm feito. O que eu discordei é que haja uma virulência generalizada contra a candidatura Marina. Acho que, dentro do contexto radicalização da política brasileira atual e da blogosfera, a reação tem sido bastante razoável.
Um abraço
Sim, sim, mas continuo vendo, nessa aliança Marina e PV, o mesmo argumento tucano ou petista de que só é possível avançar em aliança com o atraso. FHC dizia isso para justificar, em 94, seu acordo com o PFL; José Dirceu caminha nessa direção quando justifica a aliança do PT com o PMDB. Onde, pois, a novidade dos passo da Marina?
Henrique: onde está a aliança com o atraso? Não creio que a refundação do PV seja apenas uma "estratégia de marketing". Aliás, foi uma das contrapartidas que Marina Silva exigiu e que está, de fato, ocorrendo. O problema é que julgamentos a priori estão sendo feitos tendo como pano de fundo o "contexto radicalização da política brasileira atual e da blogosfera", de que fala o Bruno - mas é este contexto em si que Marina Silva pode (tentar) mudar. Abraços