Pequena nota sobre a pornografia

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"poesia e cinema pornô são as modalidades de arte onde o artista mais se expõe, por isso foram recentemente classificadas entre as ciências, e desumanas"
(Pádua Fernandes, O palco e o mundo)

O puro "dar a ver" da pornografia tem sido objeto de reflexão na filosofia contemporânea - Giorgio Agamben, por exemplo, tratou do assunto no seu "Elogio à profanação". Acredito que outro aspecto, relacionado a este, mereceria igual atenção: o enredo dos filmes pornográficos. O enredo padrão, típico do cinema pornô (o médio numa escala, na qual acima estão os "filmes dirigidos para casais e/ou mulheres", com enredo mais "elaborado", aproximando-se do gênero "erótico", e abaixo os filmes em que o enredo tende a desaparecer - ou, de fato, desaparece) é simples, beirando ao tosco: um acontecimento comum e banal do dia - a visita de um encanador, o pedido de ajuda de uma vizinha, etc - se converte em um acontecimento no sentido forte, um evento, rompendo com a banalidade. Aliás, a onipresença de "tipos" - o encanador, a vizinha - na pornografia tem a ver com isso: os tipos são desativados enquanto funções, papéis, mantendo-se como puras máscaras: a importância do encanador não é o de consertar vazamentos de fato. O bottom line filosófico de todo filme pornográfico típico é: a felicidade acontece - isto é, que pode acontecer a todo momento: qualquer instante, o mais banal que for, é uma porta para a felicidade. Cotidiano (rotina) e inesperado não se contradizem. É a previsibilidade - dos tipos, das situações - que vai pro buraco. O problema, contudo, reside na banalização, normalização da fórmula felicidade = sexo, e a conversão desta fórmula em fórmula de ganhar dinheiro. Ou seja, captura do acontecimento na esfera da produção. O acontecimento, igualado sem resto ao sexo, se rotiniza, e, portanto, cotidiano e evento se separam novamente. Na pornografia, não é o sexo isoladamente que se torna mercadoria: é a equação acontecimento banal = acontecimento = sexo que se converte em forma-mercadoria. Daí deriva o caráter paradoxal do cinema pornô, ao mesmo tempo progressista/libertário e conservador/aprisionador.

1 Comentários

Alexandre,

De fato é verdade o que você disse. Em pornografia, o que impera é o FORMATO, a linguagem audiovisual utilizada para atrair de qualquer forma o espectador.

Os pequenos 'causos' que suscitam em contato sexual são baseados em estereótipos, apesar de já ter visto muito filme meio 'thrash' do gênero.

De qualquer forma, o enredo é parte secundária em um filme pornô, pois é no contato sexual do filme que está a magia. Se a transa é ruim, ofuscam-se os argumentos para comentar que o roteiro é bom, por exemplo. Mas mesmo em questão de formatos diferentes para audiovisuais pornôs, já vi muitas experiências, principalmente com a crescente receita do gênero na internet.

Todavia, o clímax destes vídeos estão nas mesmas cenas.

Abs!


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

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