Pra fechar 2009...

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... já pensando em 2010, recomendo a leitura deste ótimo texto de André Singer, "Raízes sociais e ideológicas do lulismo", publicado na edição deste mês da Novos Estudos CEBRAP. É a melhor análise sobre o "sentido" (em todas as acepções do termo) do governo Lula.

4 Comentários

Obrigado, Alexandre, eu não tinha lido o artigo, com passagens como estas: "[..] os cerca de 30% de votos válidos que pareciam, então, constituir o teto do candidato, quando, na realidade, eram o teto da esquerda, socialmente limitada pela rejeição do subproletariado no extremo inferior de renda";
"[..] enquanto os atores políticos tinham a atenção voltada para a seqüência de denúncias do “mensalão”, o governo produzia em
silêncio o “Real do Lula” que, diferentemente do original, beneficiava, sobretudo, a camada da sociedade que não aparece nas revistas"
"Parece‑nos que o lulismo, ao executar o
programa de combate à desigualdade dentro da ordem, confeccionou nova via ideológica, com a união de bandeiras que não pareciam combinar."


Ótimo artigo. Mas a categoria do "populismo" não renascerá das cinzas, como conclui o autor, ela já renasceu. O artigo de Singer, mesmo evitando o uso do termo, é atravessado de cabo a rabo pela ótica do populismo. Por exemplo: quando mobiliza o 18 Brumário para pensar Lula (como Weffort fizera, antes, para interpretar Getúlio, Jânio etc). Subproletariado como "classe não-classe", como carente de consciência de classe, como sendo organizada por cima por uma liderança acima das classes etc etc.. não deixam de ecoar as antigas teses de Ianni e Weffort. Talvez não seja coincidência que o artigo tenha sido publicado pela revista do CEBRAP, uma das pátrias da sociologia do populismo brasileiro.
Feliz 2010 para todos nós.


Alexandre,

Farei um comentário em cima de alguns conceitos do texto, mas vou passar lateralmente por ele, se me permite.

No Brasil não existe, como na Europa, um eleitorado claramente de esquerda ou de direita. Existem, na verdade, dois grandes grupos, difusos e contraditórios, que apresentam comportamentos políticos - quase sempre restritos à esfera meramente eleitoral - que simulam algo parecido com isso. Poderíamos falar em uma esquerda à brasileira se fossemos pensar num grande grupo que envolve os militantes e defensores ativos das mais variadas correntes de socialismo e um grande número de pessoas simpáticas a essa ideia e o mesmo poderíamos falar em relação à direita, seus liberais e/ou fascistas ativos e uma massa de simpáticos, diretos ou não, a essas ideias.

Se pegarmos uma eleição emblemática como a de 89, na qual todos os partidos, sem coligações, indicaram candidatos à Presidência, vemos que os votos somados da esquerda girava em torno de 30% e é mais ou menos essa votação que, de fato, Lula terá em 94 e 98. Também não pensemos que o resto todo trata-se de um grande mar direitista, afinal, os votos dessa grande direita reunida - colocando aqui os votos de Covas e Ulysses Guimarães numa zona cinzenta centrista - não foram suficientes para dar a vitória a Collor em primeiro turno.

A teoria do teto para a esquerda, aliás, é duplamente questionável; podemos questiona-la por isso e também porque estaríamos falando de teto se isso fosse o máximo que a esquerda tivesse conseguido sozinha, quando, na verdade, falamos de uma proporção de votos em torno da qual a esquerda, sozinha, sempre girou em torno. Portanto, não é um teto, mas sim um patamar na qual ela se encontra, uma faixa - e, note, algo do gênero também vale para a direita.

O consenso em que Collor foi forjado teve um caráter meramente circunstancial, uma mistura do impacto midiático que o jovem caçador de marajás gerou somado a fatores como o conservadorismo tacanho de uma parte da sociedade brasileira, a política agressiva dos oligarcas do campo contra Lula e coisas do tipo. Tratava-se de algo tão instável que deu no que deu.

O consenso que deu a Presidência de FHC foi uma narrativa bem elaborada na qual ele, um "doutor" bem nascido e bonachão, vendeu ao mesmo tempo o plano miraculoso do mudar tudo sem mudar nada para a elite e a possibildade do paraíso do consumismo para as camadas inferiorizadas da sociedade. Deu errado, o país estagnou ao mesmo tempo em que os trabalhadores pagaram a conta pelo final da inflação. Se a eleição de 98 tivesse sido, por qualquer motivo, postergada em um ano, FHC não teria se reelegido.

O consenso em torno de Lula, já firmado em 2002 e não em 2006, gravita, por sua vez, no momento em que o PT assume publicamente uma posição social-democrata, reformista moderada e assim cria a condição para se aproximar da ala desenvolvimentista da política e em especial da economia - um casamento simbolizado pelo seu próprio vice.

A grande massa cinzenta centrista se une à faixa esquerdista que sempre votou em Lula e lhe garantiu duas vitórias - com uma votação sempre muito próxima dos 50% em Primeiro Turno. Ao PSDB, resta hoje o eleitorado consolidado de direita e uma parcela muito menor de centro - o que dariam esse 38% mesmo que já declaram intenção de voto em Serra e que não são suficientes para vencer a eleição e ele sabe disso.

Prometo escrever mais sobre isso nO Descurvo: Existe uma engenharia eleitoral muito complexa no Brasil de hoje - ela gira em torno de certos pactos tácitos em torno de objetivos não muito profundos e quase sempre de curto prazo, dentro do contexto contraditório a ordem jurídica social-democrata e o nosso sistema político atrasado, no entanto, eu considero que o acordo que levou Lula ao poder ainda não se desfez - nem se tornou desnecessário para as estruturas de poder que se beneficiam dele. Esse é o trunfo de Dilma.

abraços


Snif!
Não consigo abrir o link. Acho que está quebrado, pois tentei jogar no Google e não consegui também!


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

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Twitter:
@alexnodari


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O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

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