O post abaixo compila algumas observações de um bate-papo que tive com o Fabiano Camilo no Google Reader/Buzz a partir desse post de Paulo da Luz Moreira. Como nem toda a meia dúzia de leitores do blog acompanha o Reader ou Buzz, e como acho que é um tema interessante pra reflexão, me concedi a liberdade de reproduzi-las em forma de post.
Os setores da esquerda que reivindicavam Vargas eram minoritários depois dos anos 1980. PT e PSDB tinham em comum a idéia de fugir do modelo varguista de fazer política (em 2002/2003, o Idelber chegou a escrever um texto argumentando que a eleição de Lula era a vitória contra o populismo). A reivindicação de Vargas pelo PT é recente, e tem a ver com o alinhamento desenvolvimentista do partido no governo. Mas tal alinhamento se dá em um contexto específico: vem depois da crise do mensalão. O governo Lula antes da queda do Dirceu era o governo do PT "sociedade civil" - pacto social, Conselhão (lembram dele?), Fome Zero, etc.; pós-mensalão, virou estatalista-desenvolvimentista (Fome Zero da sociedade/Estado virou Bolsa-Família do Estado), e passou a depender não do capital simbólico do PT, mas exclusivamente da figura do Lula, que se descola do partido. As conseqüências dessa mudança são enormes. O André Singer, num artigo bastante discutido internet afora, salientou a mudança do eleitorado petista, ou, ao menos, lulista, que deixa de se concentrar na classe média intelectualizada - que "cansou" - e passa a abarcar o antigo lupemproletariado e a nova classe média ascendente. A mudança também explica um pouco da escolha de Dilma - ex-brizolista - como candidata à sucessão de Lula, e se explica pelo próprio Lula, como única figura capaz de dar "coerência" pela própria figura ao que é o governo petista (é o que Ernesto Laclau chama de "populismo" - sem (pre)juízo de valor quanto ao termo). A (re-)interpretação do passado atende a urgências específicas do tempo presente.
Atualização: O Idelber me passou o link ao seu texto, que já incorporei no post. Trata-se de "La experiencia del PT y la superación del populismo en Brasil", publicado no Bazar Americano, que até pouco tempo era pilotado por ninguém menos que Beatriz Sarlo.
Atualização 2: O Fabiano me passou o link para uma entrevista que Luiz Werneck Vianna deu ano passado ao Estadão. Nela, as duas fases do governo petista e o retorno de Vargas são abordados.
Os setores da esquerda que reivindicavam Vargas eram minoritários depois dos anos 1980. PT e PSDB tinham em comum a idéia de fugir do modelo varguista de fazer política (em 2002/2003, o Idelber chegou a escrever um texto argumentando que a eleição de Lula era a vitória contra o populismo). A reivindicação de Vargas pelo PT é recente, e tem a ver com o alinhamento desenvolvimentista do partido no governo. Mas tal alinhamento se dá em um contexto específico: vem depois da crise do mensalão. O governo Lula antes da queda do Dirceu era o governo do PT "sociedade civil" - pacto social, Conselhão (lembram dele?), Fome Zero, etc.; pós-mensalão, virou estatalista-desenvolvimentista (Fome Zero da sociedade/Estado virou Bolsa-Família do Estado), e passou a depender não do capital simbólico do PT, mas exclusivamente da figura do Lula, que se descola do partido. As conseqüências dessa mudança são enormes. O André Singer, num artigo bastante discutido internet afora, salientou a mudança do eleitorado petista, ou, ao menos, lulista, que deixa de se concentrar na classe média intelectualizada - que "cansou" - e passa a abarcar o antigo lupemproletariado e a nova classe média ascendente. A mudança também explica um pouco da escolha de Dilma - ex-brizolista - como candidata à sucessão de Lula, e se explica pelo próprio Lula, como única figura capaz de dar "coerência" pela própria figura ao que é o governo petista (é o que Ernesto Laclau chama de "populismo" - sem (pre)juízo de valor quanto ao termo). A (re-)interpretação do passado atende a urgências específicas do tempo presente.
Atualização: O Idelber me passou o link ao seu texto, que já incorporei no post. Trata-se de "La experiencia del PT y la superación del populismo en Brasil", publicado no Bazar Americano, que até pouco tempo era pilotado por ninguém menos que Beatriz Sarlo.
Atualização 2: O Fabiano me passou o link para uma entrevista que Luiz Werneck Vianna deu ano passado ao Estadão. Nela, as duas fases do governo petista e o retorno de Vargas são abordados.


Alexandre,
Eu acho que tem gente com uma visão exageradamente otimista do governo Lula do ponto de vista político e não sei até que ponto isso é fruto do clima de campanha política, quando qualquer reparo à situação política é interpretado como vontade de convencer as pessoas a votar em Serra ou em Marina.
A verdade é que não andamos quase nada no sentido de construir, por exemplo, partidos fortes e representativos. Nosso sistema continua elegendo governantes [melhores ou piores] que têm que lidar com um congresso extraordinariamente conservador e em muitos casos movido apenas por clientelismo de quinta categoria, sem partidos realmente fortes e minimamente coesos, sem uma maioria minimamente homogênea em torno de programas de ação.
E acho que estamos sendo cegos quando imaginamos que as ameaças de golpe e a instabilidade que têm aparecido na Argentina, na Venezuela e na Bolívia não podem aparecer no Brasil também. No dia em que alguém, por exemplo, enfrentar de frente a questão do monopólio que a Rede Globo tem da opinião pública, ou que a Rede Globo, por qualquer interesse, resolva jogar para valer um papel de desestabilizadora o bicho vai pegar. E quantos não serão os Filintos Müllers prontos para viabilizar uma solução autoritária.
Em outras palavras, montar no carisma de um "pai" e fazer esse jogo, por exemplo, de botar panos quentes nos ecologistas e no MST e deixar satisfeitos os barões do agronegócio é uma simulação do jogo de Getúlio Vargas cujos limites a crise que levou ao seu suicídio e o golpe de 1964 provaram eloquentemente.
É bom acrescentar que a esquerda que reivindicava Vargas sofreu um duro golpe quando a ditadura militar, num dos atos finais da "abertura", tomou a legenda PTB de Leonel Brizola, obrigando-o a fundar um novo partido e confirmando a ruptura histórica que o golpe de 64 fez. Na eleição presidencial de 89 deu-se o embate decisivo entre as duas correntes: por pequena margem Lula e o PT superaram Brizola e o PDT, foram para o segundo turno, e se credenciaram desde então a representar a esquerda brasileira. Talvez não seja exagero dizer que, no governo, o PT se parece mais com o PTB.