Já que tem cientista político fazendo ficção por aí, não estaria na hora do pessoal da teoria literária, ou da análise do discurso, olhar de mais perto o blá-blá-blá eleitoral?
A primeira missão seria determinar se o eleitorado quer "renovação" ou "experiência". Vendo o horário político gratuito não dá pra entender direito. Um candidato a deputado quase grita "chega dos mesmos!", e o candidato seguinte, da mesma coligação, elenca suas realizações durante seus 16 anos de mandato. Isso cria um cenário esquisito, não só pela esquizofrenia, mas pelo fato de que o eleitor que votar querendo renovação ajuda a eleger a experiência - ou a "mesmice". Por falar nisso, tem um carro de som que passa aqui perto de casa todo dia reproduzindo o jingle da campanha de um candidato a deputado. O final da musiquinha é algo como "Fulano de tal 66666, o meu voto é só dele". Trata-se de uma falácia - e não só porque eu jamais votaria nesse Fulano, e se tivesse pensado em votar, teria desistido pela incomodação que é o carro de som. Pois o voto no Fulano não é só dele (pra ele), mas de toda a coligação. Esses dias a Folha fez uma "matéria" dizendo que os votos em Tiririca poderiam eleger outros deputados do seu partido, e mesmo do PT, com quem estão coligados (confere?). A recíproca é verdadeira: o voto a um dos muitos bons candidatos petistas a deputado em São Paulo pode ajudar a eleger o Tiririca; o voto mais "consciente" pode ser também um voto que naquele que representa o "grau zero do discurso eleitoral".
Ontem, li um tweet assim: "Aos tucanos que acusam @dilmabr de fugir. RT @ptbrasil: Dilma e Serra se enfrentam em debate Folha/RedeTV! neste domingo" (copiei o tweet, mas perdi o nome de seu autor). O curioso é que, ao defender a Dilma, o tweet acaba dando razão a quem a chamava de fujona por não ter ido no debate da Gazeta, porque a premissa é a mesma tanto para os "tucanos" que o tweet ataca, quanto para o autor do tweet: não ir ao debate é fugir. Como ela vai no debate da RedeTV!, os tucanos não podem acusar ela de fugir - essa é a conseqüência expressa da premissa. Como Dilma não foi ao debate da Gazeta, ela "fugiu" - essa é a conseqüência implícita da premissa. Não estou querendo aqui discutir se ela deve ou não ir aos debates - que perderam sua razão de ser, na medida em que o que aparece de fato nos debates não são partidos ou candidatos, mas quem as realiza e os mediadores dos candidatos (marqueteiros, assessores, toda essa parafernália viva). Só estou apontando para o fato de que o jogo político se joga, antes de tudo, na linguagem. Deixar o inimigo dominá-la equivale a perder mesmo ganhando.
A primeira missão seria determinar se o eleitorado quer "renovação" ou "experiência". Vendo o horário político gratuito não dá pra entender direito. Um candidato a deputado quase grita "chega dos mesmos!", e o candidato seguinte, da mesma coligação, elenca suas realizações durante seus 16 anos de mandato. Isso cria um cenário esquisito, não só pela esquizofrenia, mas pelo fato de que o eleitor que votar querendo renovação ajuda a eleger a experiência - ou a "mesmice". Por falar nisso, tem um carro de som que passa aqui perto de casa todo dia reproduzindo o jingle da campanha de um candidato a deputado. O final da musiquinha é algo como "Fulano de tal 66666, o meu voto é só dele". Trata-se de uma falácia - e não só porque eu jamais votaria nesse Fulano, e se tivesse pensado em votar, teria desistido pela incomodação que é o carro de som. Pois o voto no Fulano não é só dele (pra ele), mas de toda a coligação. Esses dias a Folha fez uma "matéria" dizendo que os votos em Tiririca poderiam eleger outros deputados do seu partido, e mesmo do PT, com quem estão coligados (confere?). A recíproca é verdadeira: o voto a um dos muitos bons candidatos petistas a deputado em São Paulo pode ajudar a eleger o Tiririca; o voto mais "consciente" pode ser também um voto que naquele que representa o "grau zero do discurso eleitoral".
Ontem, li um tweet assim: "Aos tucanos que acusam @dilmabr de fugir. RT @ptbrasil: Dilma e Serra se enfrentam em debate Folha/RedeTV! neste domingo" (copiei o tweet, mas perdi o nome de seu autor). O curioso é que, ao defender a Dilma, o tweet acaba dando razão a quem a chamava de fujona por não ter ido no debate da Gazeta, porque a premissa é a mesma tanto para os "tucanos" que o tweet ataca, quanto para o autor do tweet: não ir ao debate é fugir. Como ela vai no debate da RedeTV!, os tucanos não podem acusar ela de fugir - essa é a conseqüência expressa da premissa. Como Dilma não foi ao debate da Gazeta, ela "fugiu" - essa é a conseqüência implícita da premissa. Não estou querendo aqui discutir se ela deve ou não ir aos debates - que perderam sua razão de ser, na medida em que o que aparece de fato nos debates não são partidos ou candidatos, mas quem as realiza e os mediadores dos candidatos (marqueteiros, assessores, toda essa parafernália viva). Só estou apontando para o fato de que o jogo político se joga, antes de tudo, na linguagem. Deixar o inimigo dominá-la equivale a perder mesmo ganhando.


Nosso sistema eleitoral é um tanto esquizofrênico.
No sistema distrital ou em lista fechada o eleitor sabe exatamente quem está ajudando a eleger. No atual, não. A pessoa tem que torcer para o seu candidato chegar entre os primeiros, porque senão o seu voto vai para alguém que a pessoa não escolheu.