O governo FHC foi um verdadeiro desastre para a vida jurídica do país. Tá certo que ele nomeou a primeira mulher ao STF, mas sejamos honestos, ela é inodora. Seu Procurador Geral da República Geraldo Brindeiro, era apelidado de "O engavetador-geral da República", por sua atuação ímpar na arte de jogar pro arquivo as ações que afetassem o Príncipe da Moeda. Um dos ministros do STF nomeados por ele, Nelson Jobim (hoje ministro da Defesa de Lula), modificou ilegalmente o texto constitucional, enquanto era deputado constituinte, chegando, depois, a admitir publicamente a fraude - ou melhor, verdadeiro crime contra a Nação, se é que esta ainda existe. Mas o maior mal foi ter nomeado, já no fim do seu mandato, o seu advogado-geral da União, Gilmar Mendes pro cargo de ministro do STF.
Hoje, Gilmar Mendes não é presidente do Supremo, é o censor-geral da República. Na magistratura romana existia o cargo de Censor (eram dois), responsável por zelar pela vida política e moral. O mais famoso deles foi Catão, o Velho, implacável com a nomeação de juízes e senadores, crítico voraz da transplantação do helenismo, dos luxos e dos excessos. É preciso entender, porém, que a censura, como todo poder, não se exerce somente de modo negativo, ela é, também, produtiva. Etimologicamente, censura deriva do verbo latino "censere", indicando tanto determinação, fixação (daí a idéia de censo), quanto avaliação, julgamento. Por sua vez, censere teria sua raiz no indo-europeu "*kens": falar solenemente, anunciar. A censura reúne em si estes três elementos: determinação, avaliação, anúncio solene. A censura, forçando um pouco a etimologia, é uma ascensão da linguagem: ela é medida, julgada e, quando enfim proferida, se reveste de solenidade. Em certo sentido, ela está intimamente ligada à força-de-lei, e, neste sentido, à dupla acepção de "medida"- tanto aferimento, quanto ação. O Direito é medida, mas esta medição só passa ao ato através de uma medida. O problema é que a medida-ato não é limitada pela medida-Direito, ela mesmo cria uma nova medida. E mais: muitas vezes há zonas em que a medida-Direito não se aplica - e isto explica o interesse, nos princípios da Modernidade, pelo instituto da censura (Jean Bodin, por exemplo), que ocupava justamente este lugar na Roma antiga, uma zona indistinta entre medida-Direito e medida-ato. Voltando à Catão: o Censor, ao fim da vida, encerrava todos seus discursos, não importando o tema (a relação entre a censura e a frase feita não é por acaso e é preciso que se a investigue com esmero), com a frase: "Ceterum censeo Carthaginem esse delendam" - em tradução livre: "Outrossim, eu aconselho que Cartago seja destruída", onde "censeo" possui justamente esta acepção positiva (ou melhor, positivo-negativa), de sugerir, advertir, aconselhar sob pena de - para fazer jus à medida, é preciso tomar uma medida. É mais que notório que Gilmar Mendes não se cansa de opinar sobre casos que julgará. Porém, até aí o judiciário está apenas expondo a politização que lhe é inerente ao aplicar (tomando uma medida) a medida-Direito. O problema reside quando sua verborragia se estende a vida pública como um todo, quando os jornalões dedicam-lhe um página diária para que ele opine sobre tudo e todos, quando ele se torna o ombudsman da Nação. E a explicação que ele dá a sua verborragia não deixa dúvidas: "Procuro advertir para que não haja excessos. São advertências normais que devem ser feitas diante de práticas abusivas" (FSP, 25/03/2009). Gilmar Mendes encarnou Catão. O homem (esse homem) é, de fato, a medida de todas as coisas. Mas ele não busca preservar a grandeza de Roma, a sua cantilena é outra, a mesma dos Civita que Brizola tanto execreva, ainda que implícita: "Não tenho nenhuma intenção de ser oposição" (idem), Ceterum censeo Lula esse delendam.


Uma pequena objeção a seu texto, que é brilhante: Ellen Northfleet não é "inodora", e sim conservadora. Um exemplo foi sua atuação no processo que aposentou a lei de imprensa. Ela queria manter a censura por atentado a moral e aos bons costumes.
Abraços,
Pádua
Caro Pádua, bom ter v. por aqui. "Inodora" no sentido de que ela não tá nem aí pro STF (consequentemente, vice-versa); tá sempre com a cabeça em outro lugar, em algum cargo em organismo internacional. Preciso me informar melhor sobre o julgamento da constitucionalidade da Lei de Imprensa, mas não me assusta isso não; a nossa sociedade é conservadora demais mesmo: um deputado do PSOL (socialismo e liberdade, frise-se) liderou a campanha contra a baixaria na TV que resultou na inviabilização do programa de TV do João Kléber (tudo bem que era uma bosta mesmo), que acabou indo fazê-lo em Portugal. Não é nem preciso dizer que apoiavam a campanha os setores mais reacionários da Igreja Católica - e que, no fundo, no fundo, a campanha em si não passa(va - não sei se existe ainda) de uma repaginação das antigas cartas de senhoras de boa família aos ministros da Justiça e aos censores, insultadas diante de tanta degradação dos costumes que a TV exibia. Abração