45 anos do Golpe: terrorismo e cordialidade

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O nono número do Sopro se dedica ao debate dos 45 anos do golpe militar-civil completados no primeiro de abril (não haveria data melhor) do mês passado. Militar-civil porque a tomada do poder, bem como o longo regime que se seguiu, teve amplo apoio da sociedade, direta e indiretamente, assim como dos meios de comunicação (sobre o caso da Folha, vale a pena ler Cães de Guarda, de Beatriz Kushnir). A participação de dois juristas, Francisco Campos e Miguel Reale, no processo de moldura (anti-)institucional do regime é o objeto de análise do artigo do professor e poeta Pádua Fernandes. Eu escrevo, a partir de uma ata da reunião do Conselho de Segurança Nacional sobre o Conceito Estratégico Nacional (trata-se da última reunião antes da que decidiu pelo AI-5) recentemente disponibilizada online pelo Arquivo Nacional, sobre a lógica da mediação (ou da harmonização) que dominou as cabeças do regimes. Esta lógica também não é puramente militar, mas incrustada na sociedade.

Peguemos um exemplo, o de Alceu Amoroso Lima, tido por Elio Gaspari (sinceramente, até hoje não entendi porque ele virou referência quando o assunto é a ditadura) como um baluarte anti-64 por ter cunhado a prática de cassações e defenestrações do regime com o nome de "terrorismo cultural" (título, posteriormente, de um dossiê da Revista Civilização Brasileira). Já em abril, Amoroso Lima (também conhecido como Tristão de Ataíde), depois de condenar em tese o golpe (condenando "todo" ato de ruptura institucional dado em "prevenção contra o possível" por criar um círculo vicioso de revanchismo), argumentava que a rápida vitória da "Revolução" que substituiu a "tensão" do governo Jango a colocava "na linha da nossa mais autêntica evolução histórica" e provava "uma vez mais, a lei fundamental de nossa historiografia política: a solução incruenta de nossas crises mais graves". É a harmonização que ele, como bom católico, ressalta: "Essa cordialidade, que Alfonso Reyes atribuía a toda a América Latina e Sérgio Buarque de Holanda considera tipicamente brasileira, não me parece sinal de mau caráter. Ou de falta de caráter. É a marca de um caráter eminentemente humano, lírico, compreensivo, racional, que faz da composição e não da oposição a lei de nossa psicologia nativa e da nossa conseqüente história política. (...) Se alguma coisa devemos cultivar em nosso caráter nacional (...) é precisamente essa tendência inata às soluções pacíficas das nossas mais graves crises políticas. Mesmo com os tanques nas ruas... É a marca da nossa gente, da nossa História, da nossa civilização. Cultivemo-la com carinho. E o 30 de março [sic] a confirmou uma vez mais". A referência a Sérgio Buarque por si só é criminosa, pois recai no erro comum (típico de quem não lê) de tomar cordial como sinônimo de afável. Nas Raízes do Brasil, porém, a cordialidade é remetida a sua etimologia, sua referência ao coração, isto é, ao âmbito privado: ela não designa a doçura, mas a disposição de tratar as relações sociais, mesmo as públicas, como se fossem privadas. O homem cordial pode ser (e é) também violento, mas esta violência se canaliza às pessoas e não às instituições (qualquer semelhança com a cultura dos "escândalos políticos" não é mera coincidência). Concorde-se ou não com a análise, o que Sérgio Buarque de Holanda quer nomear não é uma candura do povo brasileiro, mas, nas palavras sempre certeiras de Oswald de Andrade, um contraponto agressividade-cordialidade".  Em todo caso, não é isso que Alceu Amoroso Lima tem em mente; ele está se referendo a uma certa passividade mesmo. 

E é justamente isso que norteia a sua crítica ao "terrorismo cultural". O terrorismo, sendo  "tão antibrasileiro" como o "clima de radicalismo extremista", só tinha assumido, em maio de 1964, quando escreve o artigo, "os aspectos mais suaves e indiretos, como é por exemplo o terrorismo cultural, a guerra às idéias" - cândidos que somos, estávamos mais pra ditabranda que pra ditadura, diria um jornalão hoje (o mesmo para o qual Gaspari escreve - e devemos lembrar do seu silêncio quanto ao epíteto). A conclusão não deixa margem à dúvidas: o conflito produz conflito e todo conflito é negativo; assim, A.A.L. sentencia: "Até hoje nunca tive medo do comunismo no Brasil. Agora começo a ter". É este medo que guia a sua análise d´O silêncio do povo, feita no mesmo mês:  se "a camada do alto viu no movimento [de 64] a garantia da permanência dos seus privilégios, de sua vida farta, senão de sua dolce vita cosmopolita" e "As classes médias receberam o movimento com alívio e esperança", o povo "se conservou num mutismo terrível": "As poucas e raras expansões que ousou ter morreram à flor dos lábios ou por medo do terror policial. Ocorreu coisa semelhante em [18]89, quando a República foi proclamada perante um povo 'bestificado', segundo a expressão brutal de um político da época. Agora, porém, esse silêncio é muito mais grave, impressionante e simbólico. O povo esperara muito da situação passada. Talvez demais. (...) O povo viu apenas, nessa guinada à direita, a Revolução dos Ricos. Nada mais. E emudeceu. Emudeceu tragicamente. À espera de alguém ou de alguma coisa. Um Ditador? Um Demagogo? Um regime totalitário? A revolução sangrenta? (...) O povo espera mudo, amargo, ressentido, de cabeça baixa. Espera mesmo contra a esperança. De toda a Revolução de abril o que mais me impressiona é esse trágico silêncio do povo". O medo de Amoroso Lima não se concretizou. A ditadura e seu "espetáculo de separação, de desunião, de hostilidade recíproca, imposto por um moralismo puritano de 'Comité de Salut Public', que pretende dividir o Brasil em dois campos irreconciliáveis: de um lado os bons, isto é os que pensam conosco, de outro lado os maus, isto é, os que... não pensam como nós" (como definiria em junho, argutamente, o terrorismo do regime) manteve o silêncio trágico do povo - que só seria rompido quase quarenta anos depois, não por um golpe comunista, mas pela eleição de um líder popular orgânico formado no único partido de massas que o país já conheceu, produto de um longo processo de criação de espaços políticos. Com Lula, o povo voltou a falar. É uma pena, porém, que a harmonia (a cordialidade na acepção errada) ainda domine o ambiente. 

(Os artigos de Alceu Amoroso Lima citados neste post estão compilados em Revolução, Reação ou Reforma, RJ, Ed. Tempo Brasileiro, 1964).

14 Comentários

Elio Gáspari virou referência porque a mídia é extremamente corporativa e tem (ou tinha, quando da publicação da tetralogia sobre a ditadura) um poder inversamente proporcional à sua qualidade. Quanto à permanência da "cordialidade" no governo Lula, embora discorde da leitura que você faz de Sérgio Buarque (pois para mim a acepção que você enxerga como "errada" não deixa de estar também presente na leitura que Buarque faz do "homem cordial"), concordo que seja lamentável.


Olá Maurício. Concordo no tocante ao Gaspari, ainda que partilhe de algumas posições dele (pontuais) - mas sobre a ditadura, ele tem somente uma visão de senso comum (conservadora), recheada com informações dos arquivos que foram cedidos a ele (foi um "interlocutor" - eufemismo pra comparsa - do regime). É possível que "cordialidade" no sentido de "candura" esteja em Raízes do Brasil, mas não se pode negar que Sérgio Buarque tenha ,em nota para a 2ª edição da obra, se baseado na distinção de Carl Schmitt entre a inimizade cordial (inimicus) e a hostilidade pública (hostis) para caracterizá-la: o homem cordial pode ser violento, mas a sua violência se volta sempre contra pessoas. Em todo o caso, não é um livro que eu tenha em alta conta, especialmente pela sua tese central (que não é a da cordialidade): a de que português constitui a principal raiz do Brasil, em preponderância com relação ao negro e ao índio. Um abraço e obrigado pelo comentário


Ótimo texto, Alexandre, como sempre. As anotações de Alceu Amoroso Lima fazem sentido quando cruzadas - como você fez - com as pesquisas realizadas por Sérgio Buarque. A saída encontrada, de constituição de um partido de massas e a consequente vitória deste, não deixa de ser embasada na tese da sociedade do homem cordial (que é também da candura): apenas depois de 40 anos as coisas aconteceram. E mesmo assim, aconteceram? Neste sentido, uma parte da obra de Celso Furtado (dos anos 50, especificamente, pré-Jango) e o que escreveu e pensou Darcy Ribeiro ao longo de sua vida, ajudam a entender a eterna "preguiça", que se alia a um retardamento revolucionário, porque pouco organizado de baixo e facilmente desmantelado.
Parabéns pelo blog, um abraço


Grande post, Alexandre, aliás, dos pontos que ele trata, eu gostaria de destacar especificamente aquele que trata da participação dos juristas na Ditadura: Além de Francisco Campos e Reale, tivemos a participação também de um Buzaid, o aluno dileto de Liebman e pai do nosso confuso Código de Processo Civil.

No caso de Reale, é uma situação um tanto curiosa, conheço um pouco da obra dele e, como jurista, ele passa ao largo de ser o mais autoritário ou retrógrado teórico do Direito tupiniquim. No entanto, politicamente, sua posição sempre foi bizarra, da associação com os integralistas na juventude até o seu papel ativo durante a ditadura - onde podemos traçar um paralelo com um Carl Schmitt e a ditadura nazista.

Talvez ele tenha sido uma prova de como o idealismo pode se degenerar de forma perigosa em casos de crise ou, quem sabe, ter sido uma arquétipo do cinismo - ou, mais provavelmente, um criatura paradoxal que se espremia entre um jusnaturalismo que acusava uma decidida e distorcida visão cristã e um anti-comunismo cego e dogmático.

O que você pensa a respeito?


João: agradeço muito a visita e o comentário. Eu creio que a demora (ou mesmo a postergação) se deve, em grande parte, a estratégia de distensão da ditadura (a abertura da qual Gaspari foi um dos interlocutores): mantiveram o elefante no meio da sala e sabotaram a maior força política progressista pré-golpe (escrevi sobre isso aqui e aqui). Por isso, a meu ver, o PT (e Lula) é um bicho de duas (ou mais) cabeças: 1) prescinde da herança uma estrutura, de um ideário e de uma visão política anacrônica (coisa que não acontece na Argentina, com o peronismo, como argumenta o Idelber); isto implica, como conseqüência, uma espécie de tábula rasa, um começar do zero, uma prisão muito maior ao status quo ideológico atual (para continuar no paralelo, é impensável o governo propor uma lei de democratização da mídia como fez a Cristina Kirchner). Por isso concordo com v. que Darcy Ribeiro (e todo o debate pré-golpe) continua uma referência atual: muitas questões levantadas foram simplesmente esquecidas, quando deveriam ser retomadas e atualizadas.

Hugo: v. deve ser o melhor comentarista da blogosfera, e é sempre um prazer ter v. por aqui. Quanto ao Reale, meu conhecimento é limitado: sugiro que v. leia, caso não tenha feito ainda, o artigo de Pádua Fernandes para o Sopro. Mas aproveitando o gancho, já que v. levantou o Schmitt, vou me permitir fazer uma digressãozinha. Em 2004, a Marilena Chauí publicou um artigo chamado O retorno do teológico-político em que denunciava, em tom de crítica, o "fascínio pós-moderno por Schmitt". É mais uma prova cabal do quanto as fronteiras entre disciplinas do saber é nocivo. Nunca houve um "retorno" a Schmitt, mas uma permanência, ao menos entre a intelectualidade brasileira: 1) Sérgio Buarque se utiliza dele para amparar sua tese da cordialidade; 2) A revista A ordem, que congrevava intelectuais católicos tinha Schmitt como referência; 3) Francisco Campos, jurista que participou tanto do Estado Novo quanto da ditadura de 64, redigiu o AI (o primeiro) chupinhando a teoria schmittiana; 4) o caso mais grave e recente: um doutrinador de constitucional, dos mais progressistas até (não lembro exatamente quem, talvez o Paulo Bonavides) se utiliza de Schmitt como referência positiva quando discorre sobre a democracia - lembro de uma colega (do tempo de graduação em Direito) que leu esta doutrina e achava que Schmitt era um grande defensor da democracia: levou um susto quando eu relatei a ela o passado e o cerne das teorias do jurista alemão. Um abraço


Ho-ho-ho pare com isso Alexandre, assim o ego de velho Hugo infla e daqui a pouco ele começa a se referir a si próprio em terceira pessoa...

Brincadeiras de lado, acabei de ler o artigo do Pádua Fernandes e achei ele brilhante - de uma precisão cirúrgica, diga-se. Achei perfeita a passagem em que ele coloca "Contra eles, são inúteis posições que se pretendem de esquerda, mas se fundamentam numa concepção de direito assimilável a um positivismo jurídico dos mais rasteiros: a absurda redução antropológica que esquece a produção social do direito e limita o fenômeno jurídico à esfera estatal". Aliás, provincianismo constitucional foi impagável.

Enfim, coincido em minhas análises com uns 95% do que ele colocou. O pensamento jurídico brasileiro é insuficiente e estéril. Hoje, na Academia o que se vê é um clima de conformismo ignominioso diante dessa realidade - inclusive por parte de juristas progressistas que acham ser possível conciliar o neopositivismo kelseniano com o marxismo, a despeito do mestre Orlado Gomes ter desmontado esse embuste há mais de cinquenta anos com seu Marx & Kelsen e como, pelo seu lado, ilustra a fala de Pádua Fernandes que eu reproduzi.

Em suma, está ocorrendo uma redução de algo que se pretende como ciência a um tecnicismo burro e ao mesmo tempo profundamente dogmático, enquanto o pessoal fica vendo a banda passar - mesmo entre os meus colegas mais brilhantes na Faculdade, vejo a mesma imperdoável omissão na medida em que isso não acontece à toa.

Sobre o Paulo Bonavides, sim, ele usou uma série de referências do Schmitt em seu Curso de Direito Constitucional - que é uma das melhores obras nesse sentido no Brasil, o que, no entanto, não quer dizer muita coisa, posto que o Direito Constitucional brasileiro está limitado a um debate alienado e normativista.

abraços


Caro Alexandre, aproveitando o comentário de Hugo Albuquerque, digo viva a Orlando Gomes, um caso raro de jurista brasileiro inteligente. A Martins Fontes publicou, em "Raízes históricas e sociológicas do Código Civil brasileiro", o estudo "Marx e Kelsen" a que Hugo Albuquerque se refere. Creio que, nesse livro, o capítulo "Influência do privatismo doméstico", com influência profunda de Sérgio Buarque de Holanda, interessa a suas pesquisas.
Gastei algumas linhas com o ex-ministro da justiça, ex-ministro do STF e ex-diretor da faculdade de direito da USP Buzaid na minha tese, mas ele não produziu nenhum pensamento político próprio para ser analisado. Não valia um sopro. Recentemente escrevi sobre ele, mas por causa de sua ação ativa para garantir a repressão política; aqui, há uma breve indicação disso:

http://www.usp.br/proin/inventario/destaques.php?idDestaque=9

Não acho que Chauí esteja inteiramente errada: não ter sido esquecido é diferente de entrar em moda, e é hoje que Schmitt entrou em moda, ajudado por Agamben. Veja que só foi recentemente que ele virou jurisprudência do STF. Abraços, Pádua


Hugo: vai ficar igual ao Pelé então. Risos. Vou atrás do texto do Orlando Gomes que v. e o Pádua indicaram - confesso que li pouco dele. Quanto ao Schmitt, o problema não é o Agamben, mas os seus leitores, como o Eros Grau (com a patética decisão a que v. se refere). Em uma entrevista pra Flávia Costa, Agamben diz que "O encontro com Carl Schmitt se deu, por outro lado, relativamente tarde, e teve um caráter totalmente distinto. Era evidente (creio que é evidente para qualquer um que não seja estúpido nem tenha má-fé, ou, como acontece freqüentemente, as duas coisas juntas) que, se queria trabalhar com o direito e sobre a política, era com ele que eu deveria medir-me. Como com um inimigo, antes de tudo - mas a antinomia amigo-inimigo era precisamente uma das teses schmittianas que eu queria pôr em questão." E quando ele retoma Schmitt, este já estava na pauta; o problema é que por aqui (e os juristas são campeões nisso) traduz-se pouco, lê-se menos ainda e entende-se quase nada. Um abração


Só pra complementar: concordo que a moda Agamben entre os juristas é daninha. Lembro de um seminário aqui na UFSC sobre Direitos Humanos que tratava da crítica de Agamben - pera lá também né, se levarmos a sério a crítica de Agamben, os direitos humanos vão pro saco. Por isso concordo, apesar de talvez ser um partidário das críticas de Foucault e Agamben, com o texto do Pádua: que não há concepção de Direito possível a partir deles.


Alexandre, Pádua,

É exatamente esse livro do Orlando Gomes que eu tenho. Aliás, nele, Gomes segue a mesma tônica que caracteriza suas demais obras: Estilo sintético conjugado com análise lúcida de precisão cirúrgica. O Raízes históricas e sociológicas do Código Civil brasileiro traz um diagnóstico preciso de como e porquê o nosso primeiro Código Civil já nasceu, de certa forma, morto e como isso está conectado à tradição patrimonialista nacional. Muito esclarecedor. O estudo Marx & Kelsen, publicado, de início, separado do primeiro, data, no entanto, do mesmo ano(1958) e a Martins Fontes foi extremamente feliz em publica-los juntos na medida em que se complementam.



Caros amigos,

Essa discussão sobre o Agamben como autor da moda me fez relacionar o post a este outro, no qual a discussão recai sobre o Zizek, que também está "na moda": http://lisandronogueira.blogspot.com/2009/05/slavoj-zizek-e-esquerda-e-direita.html

É um debate importante, não? Alexandre mostrou a visão mais pessimista, acima: a fragilidade da nossa cultura intelectual nos torna reféns desses "paradigmas" tão voláteis. Não sei se é para tanto, Alexandre: temos bons leitores no Brasil, apesar de poucos. Mas concordo que o modismo é forte, e é sintoma ainda da modernidade que importamos, poucas vezes com ímpeto antropofágico. Lembro-me de Roberto Schwartz falando da nossa "cultura ornamental", marca da nossa singularidade de dependência do estrangeiro.

Será que em algum momento estes autores tão interessantes - Zizek, Agamben - passam a ser meros adornos dos letrados? E é isso que prejudica o bom debate?

Abraços!


Alexandre,
Acho que todo mundo se esqueceu do outro autor citado pelo Tristão: Alfonso Reyes. Será provincianismo ou falta de prestígio de um pensador latino-americano? Embaixador do México no Brasil de 1930 a 1936, Reyes teria no México um papel semelhante ao de Mário de Andrade no Brasil. reyes escreveu prosa e poesia sobre o Brasil e os textos dele, sempre num viés de comparação com o México, vão bem por esse caminho do Tristão [Reyes era um grande admirador de Vargas]. Minha tese é que o pensamento dele é muito resultado da convivência dele com meios intelectuais brasileiros nesse período - ele foi, por exemplo, o único estrangeiro na famosa festa de 50 anos do Manuel Bandeira, que aliás o cita em "Rondó dos cavalhinhos". No cerne do pensamento de Reyes está o contraste entre a sanguinolencia revolucionária da América hispana versus a cordialidade diplomática das transições brasileiras [sempre "lentas, graduais e seguras", para citar o velho mentor do Gaspari]. Estava terminando um artigo sobre Reyes e o Brasil e essa referência do Tristão vem bem a calhar, obrigado!


Caro Rodrigo: não sei se, de fato, os "modismos" são um problema tão grande, ou seja, se ele prejudica mesmo o debate; acho que, mais do que isso, eles interditam o debate (não há como discutir conceitos - a sua pertinência, validade, coesão, etc - quando eles são aplicados a tudo - Flávia Cera me disse, com argúcia, que o maior sintoma de que vivemos no estado de exceção é que este conceito do Agamben é usado pra tudo; até pra reclamar quando a empregada não vem, como afirmou ferinamente um amigo). E o efeito colateral dos modismos é que os seus críticos aproveitam para jogar fora o bebê com a água do banho: o problema seria dos autores e não de seus leitores apressados. Assim, o outro lado cai no extremismo oposto. Membros da "escola" a que Schwarcz pertence fazem justamente isso; se autocolocam uma camisa-de-força para evitar qualquer contágio (ou melhor, qualquer contato ou debate mesmo) e, com isso, acabam "datados" mesmo - para alguns deles, o teatro acabou depois de Brecht. Agradeço o link que v. passou, já li o post; aproveito pra mandar um também: o texto de Beatriz Sarlo chamado "Esquecer Benjamin", sobre a "moda" Walter Benjamin.

Caro Paulo: a omissão não se deve nem a uma coisa nem a outra - eu é que não me senti à vontade pra falar do Reyes, por conhecer muito pouco dele. O teu artigo está pronto? Tem como me enviar? Abraços


Alexandre, concordo muitíssimo com o trecho: "E o efeito colateral dos modismos é que os seus críticos aproveitam para jogar fora o bebê com a água do banho: o problema seria dos autores e não de seus leitores apressados."

Obrigado pelo texto de Beatriz Sarlo - Benjamin é um autor precioso. Vou ler com atenção, assim que puder. Abraços.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
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a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
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Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

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Arte, política e censura

Censura, arte e política

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