Clube de Leituras: Extinção, de Paulo Arantes

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Com o visual novo, este blog inaugura seu Clube de Leituras.

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"Não estamos mais diante da guerra, mas agora sim, diante da política como mera continuação da guerra" (p.29). Com esta inversão da famosa definição de Clausewitz, Paulo Arantes dá o tom, já nas primeiras páginas, que dominará todo o Extinção, seu mais recente livro, publicado na coleção "Estado de sítio", que ele mesmo coordena, da editora Boitempo. A guerra a que o autor se refere é de tipo novo, a "guerra cosmopolita", modalidade que se torna possível com o fim da guerra fria e a eliminação do inimigo em sentido tradicional. Dentro desta lógica, o novo inimigo - o terrorismo - ameaça agora não um Estado-Nação (ou um agrupamento deles), mas a própria humanidade (neste sentido, ele é um meta-inimigo - para os interessados, já escrevi sobre isso). Para conter "tamanha" ameaça, vige um "estado de sítio mundial" e uma guerra que é, ao mesmo tempo, cirúrgica (teleguiada e televisionada, o que provoca à anestetização, à insensibilidade quanto aos seus efeitos - "colaterais") e sem limites (na medida em que uma guerra contra tão nefasto e difuso inimigo é mais do que justa, justifica qualquer medida). A palavra-chave aqui - e, acredito, de todo o livro - é "energia": não se trata mais de dizimar as linhas inimigas, mas de "provocar o colapso" das "condições de vida" (p.55) do inimigo, eliminar a "vitalidade energética do adversário" (p. 54), como diz Virilio. Daí a crueldade explícita da nova guerra, a "assimetria do sofrimento" inerente a ela. E é pela energia, pela reprodução das condições de existência do capitalismo - altamente dependente do combustível fóssil -, que se guerreia, como a Segunda Guerra do Golfo deixou mais do que evidente até mesmo para os mais do que crédulos. O problema é que o "programa suicida do capitalismo", levado a cabo agora pelo "governo da exceção" empurra o mundo para a "falência ecológica generalizada", que, por sua vez, implicará em mais guerra: "Um aquecimento global dramático pode levar países à guerra por acesso a água, terras agriculturáveis e localizações para assentamentos populacionais" (p.81).

O modelo de "guerra cosmpolita" vem acompanhado de uma mudança no modelo territorial dos Estados (e do sistema econômico em geral): agora se trata não de manter um aparato produtivo, mas de controlar o acesso, o que exige aparato militar. Por isso, a noção norte-americana de fronteira volta a ser a dos tempos de conquista do velho oeste: fronteira passa a ser sinônimo de fazer a fronteira, à diferença que, hoje, a nova fronteira abrange, como o inimigo difuso, o mundo. (É curioso que Paulo Arantes não extraia todas as conseqüências conceituais de tal noção de fronteira. A ambigüidade que ela carrega é comum às palavras que indicam medida ou limite, a começar por aquela: medida é tanto um padrão, quanto a criação de um padrão ou a aplicação do padrão - "tomar uma medida" pra resolver um assunto, por exemplo. Seria interessante pensar nessa ambigüidade para compreender o que podemos chamar de "ideologia bandeirante" - bandeira deriva de bando, termo que indica pertencimento e exclusão, tanto é que dá tanto em bandana, bandagem, quanto em bandido e banimento - que dominou o pensamento paulista do começo do século XX, como também a insistência desenvolvimentista de penetrar o "Brasil profundo", da qual Brasília é a prova viva). Com essa fronteira ampliada, fica fácil intervir em qualquer parte do mundo em que o inimigo - ou o recurso energético desejado - aparecer (Sloterdijk assinala que os primeiros globos, contemporâneos às descobertas, isto é, aos primórdios da globalização, já apontavam para esta disponbilização do mundo). O paradoxo do novo modelo é que, prescindindo de uma base territorial unívoca, ele, no mesmo gesto em que abrange todo o mundo, permite que o próprio centro global se periferize - o sinal evidente é a população abandonada quando da passagem do katrina -, desde que certos espaços vitais privilegiados sejam protegidos na forma de bunkers. Estamos diante, portanto, de uma "fratura brasileira do mundo": o novo capitalismo de acesso (a recursos, a dados) é, na verdade, uma "volta redonda do capitalismo": "Por mais assombroso que pareça, já vivemos tudo isso antes: na Colônia. Daí a forte impressão que se tem hoje em dia, no coração do sistema mundial, de que o deserto em expansão por estas terras de miséria e impotência, na verdade, parece anunciar uma dramática periferização do planeta. Por isso, numa hora limiar como a presente, vem mais do que ao caso insistir na atualidade da assim chamada Acumulação Primitiva, que de primitiva, obviamente, não tinha nada, como de resto o demonstra o caráter 'avançado' do experimento colonial que engendrou a horrenda sociedade brasileira de ontem e de hoje. Explico-me: enquanto a Europa ainda se arrastava no emaranhado do Antigo Regime, em sua franja colonial se encontrava em plena ebulição um verdadeiro laboratório de vanguarda do capitalismo total. Várias guerras bárbaras de limpeza étnica depois, a banalização de todo um território, por força de uma razão econômica de novo tipo, repovoado por assentamentos humanos exclusivamente empresariais e, por isso, voltados integralmente ao mister selvagem de extração de mais-valia com uma intensidade e crueldade jamais vistas na história do trabalho humano, pelo menos desde os tempos do trabalho escravo nas minas do Império. O que antes se apresentava como uma zona residual de comportamentos extremos, a exceção que prosperava nos subterrâneos da normalidade burguesa em formação, desde então ameaça tornar-se a regra nos momentos de colapso do sistema. Foi assim com o apocalipse nazi: nunca é demais lembrar que a principal mágoa dos bons europeus com os hierarcas do Terceiro Reich era o tratamento "colonial" que lhes estava sendo dispensado. Completava-se assim o sentido da colonização. Quando se diz que o imperialismo está de volta, impulsionado por novas rodadas de acumulação por espoliação - privatizações, ajustes fiscais, expropriações via patentes, guerras de pilhagem, etc. -, é novamente disso que se trata, da recaída em nossa condição originária de exploração aberta, desavergonhada, direta e seca. De volta portanto ao deserto colonial de vanguarda da mais rasa necessidade econômica. Pois que de necessidade se trata, não há mais nada a fazer a não ser aquilo que deve ser feito, governa-se cada vez mais por medidas administrativas - exatamente como nas colônias" (p.274-275).

Aqui reside, a meu ver, o grande mérito do livro: apontar como a história da periferia do mundo, longe de ser uma excrescência ou estágio a ser superado, aponta para a verdade ou essência do sistema global. A famosa tese de Walter Benjamin (epígrafe da coleção em que o livro se insere), que só se tornou clara pra ele com a ascensão do nazismo - "o estado de exceção em que vivemos é a regra" - já havia sido enunciada, cá nos trópicos por gente tão diferente como Rui Barbosa, Araripe Jr. e Oswald de Andrade (e seria repetida anos mais tarde por um autodidata como Antônio Fraga). Talvez justamente este negligenciamento da experiência periférica explique a outra modalidade de extinção apontada por Paulo Arantes: "a petrificação geral da linguagem" (p.77), "um arranjo mental destinado a tornar desnecessário o simples ato de pensar" (p. 160), em última instância, "a extinção pura e simples da capacidade de discernimento" (p. 161). Acompanhando o estado de sítio global e permanente, teríamos um "estado de sítio moral da inteligência globalitária" (p.160), um "grau zero alcançado pela vida ideológica, quando 'conceito' se tornou sinônimo de 'ameaça'" (p.52). A dependência da periferia global em relação ao centro não era superável - era condição do sistema, e não ter apontado suficientemente para isso tenha nos impedido de chegar ao "conceito de história que corresponda a verdade", para retomar a tese benjaminiana, da atual periferização do mundo.

Se, por um lado, ou melhor, por um plano, concordo com o panorama da extinção da inteligência - ele cabe à grande mídia, por exemplo - por outro, não sei se estamos próximos ao fim do discernimento ou do "grau zero da ideológica" - depende do que entendemos por "grau zero". Em vez de fim do discernimento, talvez seja melhor falar de cinismo (todo mundo sabe que a invasão do Iraque se deu por causa do petróleo e não pra combater o terrorismo, e os senhores da guerra sabem que não enganam ninguém, mas estão se lixando para isso - sobre o tema, fica já a proposta, podemos discutir, no próximo Clube de Leituras, Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle). Em vez de "grau zero da vida ideológica", prefiro falar de um "grau zero" da terminologia ideológica: no novo cenário global, a antiga terminologia que pautava o debate se esvaziou, ou melhor, se indeterminou, perdeu a referência aglutinadora que possuía: tanto comunismo-igualdade, quanto capitalismo-liberdade se esvaziaram, sobrando um único termo, a democracia, que, diante de uma paz que se confunde com a guerra infinita, também se indeterminou (basta lembrar o Patrioct Act, e as "reformas ortográficas" brasileira e argentina, com a inclusão, nos respectivos vocabulários, das palavras "ditabranda" e "intradictadura"). Mais do que extinção da inteligência, o que vemos é a extinção da imaginação - que Arantes sugere, mas não aprofunda - o que nos impede de aproveitar a chance que o "grau zero" oferece, a saber, o de determinar novos sentidos aos antigos termos ou - o que seria ainda melhor - inventar toda uma nova terminologia da política e das relações sociais (é esta ausência da imaginação que caracteriza, a meu ver, o que o autor chama de "ajuste intelectual tucano-petista" - isto foi tema de um dos meus primeiros posts -, ainda que eu discorde bastante da tábula rasa que ele faz nas entrevistas, pois acredito que teria de matizar mais o cenário político nacional). 

O antropólogo anarquista David Graeber lembra da importância que a imaginação possuía na concepção marxiana de humanidade: "Nós pressupomos o trabalho numa forma que o marca como exclusivamente humano (...)", lemos n'O Capital, "o que distingui o pior arquiteto da melhor das abelhas é (...) que o arquiteto ergue sua construção na imaginação antes de erguê-la na realidade". Por isso Graeber afirma que "o que nos torna humanos não é tanto a 'razão' (ao menos no sentido moderno de resolução de problema), mas a imaginação. (...) Os humanos vislumbramos o que queremos antes de fazê-lo; como conseqüência nós também podemos imaginar alternativas. A inteligência humana é assim inerentemente crítica, o que, por sua vez, é crucial à concepção marxiana de história porque abre esta à possibilidade da revolução". Se 1968 quis colocar a imaginação no poder, talvez hoje, diante da ameaça da extinção da humanidade e de seu pressuposto, a imaginação, o correto seja voltar esta contra o poder.

Em linhas gerais - e para não me alongar ainda mais - esta é a minha leitura do Extinção, que considero um baita livro, ainda que me incomode o pouco o plano panorâmico adotado por Paulo Arantes - não sobre até as considerações conceituais, nem faz leituras detidas dos acontecimentos, preferindo um tom intermediário que o leva, a meu ver, a tomar certas conclusões apressadas - como em arte, em relação ao governo Lula, aos ataques do PCC, todos temas que espero que sejam levantados no debate e que talvez guardem relação com o passado político do autor. Mas me agrada algo que é característico em todos os textos do Paulo Arantes: a virulência, a crítica ferina e desbocada, sinônimo, a meu ver, daquilo que até pouco tempo se chamava engajamento, mas que prefiro chamar de vida, para contrapor ao tom morto-vivo, modorrento que domina os debates atuais. Deixei um bocado de temas de fora, mas esta é a vantagem de uma discussão coletiva: ela se mantém sempre aberta.

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De saída, chama a atenção no livro o esforço em apontar o esgotamento de categorias tradicionais no tratamento de cenários diversos. A leitura de "Extinção" mostra o tamanho da tarefa das ciências humanas em geral, da crítica literária à filosofia, e funciona como um mapeamento dos problemas e a insuficiência dos diferentes sistemas conceituais que buscam tratar deles.

Tomemos a conversão do lulismo ao mercado no texto "beijando a cruz". Seria o texto palco de conclusões apressadas, como sugere o parágrafo final do Alexandre? Veja-se o espaço garantido ao agronegócio, às políticas de aliança ou o empenho em garantir mais metade de tudo o que se arrecada ao rentismo via fundos públicos. Usando a pista levantada por Arantes, o "lulismo de resultados" [cf. diariogauche.blogspot] não é só desfaçatez, resvala num cinismo de quem sabe que está errado, mas prossegue incorrendo no erro.

Quanto ao PCC, Arantes conecta sua análise a um fenômeno que retorna em diferentes chaves nas diversas periferias do mundo, o capítulo francês sendo o mais conhecido deles [de novo às voltas com carros queimados após um "suicídio" na cadeia]: o que se passa quando o capitalismo resolveu rifar parcelas dos habitantes dos territóriois nacionais sem mais delongas e às custas da idéia/ideologia da integração nacional.

Tudo somado, a leitura do livro mostra que o atual estágio dos conflitos entre capital e trabalho assumem configurações para as quais os discursos científicos, políticos ou os críticos não estão à altura. E o esforço do autor é sintetizar achados tendo como ponto de partida as pesquisas de ponta, um minucioso mapeamento das informações, os clássicos, os achados trazidos por jovens pesquisadores e as chaves de leitura postas em cena pelos apologistas do status quo.


Como o Alexandre Nodari, no texto introdutório, já resumiu com brilho algumas das principais questões abordadas no livro - que poderemos discutir de forma mais pontual e com mais profundidade ao longo do dia -, eu gostaria, inicialmente, de comentar alguns aspectos formais, estilísticos do texto de Paulo Arantes, porque estes podem ser determinantes para a relação do leitor (sobretudo o não-familiarizado) com o texto usualmente cáustico e irônico do filósofo uspiano.

Embora formado de ensaios avulsos, há – com exceção da parte final do livro - uma unidade estilística que os perpassa. Em sintonia com a temática "pesada", protofuturista que aborda em "Extinção", Arantes agrega à causticidade um tanto irônica, um niilismo dois tons acima do que usualmente adota, ao mesmo tempo em que “acelera” o ritmo do texto – em comparação, por exemplo, com aquele desenvolvido em Zero à Esquerda, na minha opinião o seu melhor livro. Essas características, somada à pletora de referências, acadêmicas ou não, pertencentes a linhagens filosóficas seculares ou ao mais up-to-date produto audiovisual - que ele elenca num ritmo equivalente ao da mais veloz das metralhadoras empregadas numa das guerras referidas no livro – criam um tipo particular de densidade textual, que exige do leitor disposição não apenas para acompanhar o ritmo e a reconhecidamente superlativa erudição do autor, mas as idiossincrasias desta vez exacerbadas de seu estilo pessoal.

Reside nessa última característica, ao meu ver, um primeiro aspecto problemático do livro, em termos estilísticos. Porque, ao contrário da densidade textual que usualmente encontramos, por exemplo, em muitas das obras de um Slavoj Žižek ou de uma Eve Kosofsky Sedgwick, em que o aspecto denso, que demanda uma dose extra de atenção por partedo leitor, se justifica pela complexidade da estrutura do texto em consonância com o dos argumentos nele desenvolvidos, no livro de Arantes tem-se, com frequência, a impressão de que a densidade excessivamente comprimida do texto deve-se mais a uma combinação de exibicionismo virtusosístico – na acepção negativa do termo – e de má dosagem da fórmula que combina acidez, niilismo, ironia e, subjacente, como se de um pequeno derrame espasmódico vindo das entranhas da alma do autor se tratasse, um quê de desolação.

Pode-se alegar, com razão, que tal densidade é amiúde relativizada pelas diferentes gradações de humor que Arantes imiscui no texto, às vezes de forma fluida, às vezes de forma abrupta (esta potencializando o efeito cômico pretendido); ora com sutileza extrema (“Quem por ventura ainda se lembrar de uma das obras-primas de Marx..” (p. 154), no ao meu ver melhor capítulo do livro, “Estado de Sítio”), ora com deboche explícito (como no capitulo em que se vale, para efeito de comparação, da peça “A resistível ascensão de Arturo Ui, de Bertold Brecht: “Nada mais parecido com o cenário da parábola original da fábula de Arturo Ui do que o Iraque ocupado e privatizado de hoje. Estão todos lá: um vice-rei, os negócios do cartel da couve-flor e as forças da ‘proteção’ contratadas para vigiar uns aos outros” (p. 196)). Tais recursos, que não deixam de estar perfeitamente inserido na temática em desenvoviento, permitem ao texto – e ao leitor - “respirar”.

Além do modo pontual e oportuno com que Arantes recorre à filologia, também a fluidez com que o autor passa do português ao inglês – sobretudo para se referir aos slogans que a mídia e o próprio governo norteamericano empregaram para designar as ações bélicas mais ou menos recentes - merece ser destacada, pois, para muito além de um mero recurso estilístico, ela situa a escrita, do ponto de vista formal, na mesma contemporaneidade globalizada que o texto tematiza, além de reforçar, desta vez com um humor que se depreende do mero contraste dos slogans apregoados com a concretitude da violência – física ou simbólica - empregada por uns e sofrida por outros, o grau de absurdo e de naturalização sistêmica do processo de “guerra cosmopolita”.

Desnecessário dizer que o que escrevi acima se aplica ao corpo do livro, mas não ao último ensaio e à entrevista que encerra o livro – dois enxertos a meu ver perfeitamente dispensáveis, sobretudo se se desejasse manter a unidade estético/estilística da obra.


Caro Gilberto: concordo e discordo. Que o governo Lula não representa nenhuma mudança estrutural, estamos de acordo, inclusive já escrevi sobre isso no blog. Mesmo assim, há nuances em relação ao tucanato que não podem passar em branco (bolsa-família, política cultural, investimentos nas universidades - investimentos em geral, etc.). Quanto à questão do esgotamento das categorias, estou de acordo. Inclusive um dos pontos altos do livro (são muitos) é "Pensando por fora", onde a categoria a ser repensada é justamente a de trabalho. Será que é no trabalho que nasce ainda o "poder de veto" dos proletários? Arantes teoriza sobre alguns movimentos piqueteiros e a sua disposição de não voltar a trabalhar (e/ou procurar trabalho) e vê que talvez o "poder de veto" dos proletários seja justamente retirar-se do jogo, deixando que a ideologia do capital não-produtivo tenha de se provar sozinha, o que sabemos que não acontecerá. Quanto às fontes do Arantes, ele trouxe fontes que eu não conhecia, mas não acredito que seja tão minucioso assim. Por exemplo: a leitura que ele faz de Carl Schmitt carece do livro essencial do pensador alemão no que diz respeito à relação entre exceção e periferia, O Nomos da Terra.


Eu acredito que os dois grandes pontos do livro são a investigação do conceito de fronteira norte-americano - ainda que eu considere que isso vá para além da cultura estadunidense, tendo a ver, antes mesmo do capitalismo, com a cultura do homem branco - e o próprio conceito da periferia do capitalismo como decorrência lógica do seu modelo de globalização - ainda que o autor também seja muito enfático em apontar essa globalização como o modelo.

De fato, os EUA são construídos em cima da lógica expansionista, eram colônias, mas mesmo quando deixam de sê-las, se unem e partem para além das suas borders - o que no início do século 19º só não inclui o Canadá por interferência militar britânica e depois inclui desde as compras da Louisiana e do Alasca até o roubo da Flórida dos espanhóis e de boa parte do território mexicano. Daí, como foi bem assinalado por Arantes, os EUA inovam na prática imperialista e partem para o controle militar dos acessos, abrindo mão do controle territorial propriamente dito, marca dos modelos de imperialismo anteriores. Pondo de lado as peculiaridades estadunidenses, há um padrão comum entre isso e as demais formas de imperialismo ao longo da História (coisa que o autor poderia ter se aprofundado mais): A existência de um sistema econômico explorador em seu interior que obriga o núcleo imperial a ter na expansão não uma faculdade, mas sim uma obrigatória e necessária válvula de escape para as tensões internas. Isso está tanto na pré-capitalista Roma quanto nos EUA pós-Guerra Civil - como bem lembrado no livro - onde o Leviatã nortista se afirmou sobre os demais estados e tocou o projeto adiante.

Cheguemos no capitalismo periférico. O imperialismo britânico é quem cria as condições mínimas para a sua existência, haja vista que ele já tinha em seu interior o embrião da lógica do controle do acesso que os americanos elevaram à potência. Mesmo que ele estabelecesse controle físico sobre vários territórios (Índia, África etc), seu modelo não dispensava a possibilidade de lidar com Estados formalmente soberanos que estariam sob suas ordens - como o jovem Brasil bragantino, por exemplo. É aí que começa a se desenhar o que veio resultar na atual periferia do capitalismo contemporâneo sob a batuta americana: Você passa a ter uma divisão internacional do trabalho onde cada Estado cumpre a sua "função produtiva" a despeito dos interesses da coletividade e aqueles que se encontram orbitando em torno do núcleo imperial e possuindo uma elite de administradores coloniais que deve manter certa ordem, por definição oblíqua, sobre as suas populações - aqui o sistema que existe também um sistema explorador, mas não há a válvula de escape, ao contrário, aqui é o espaço vital para onde o jato de vapor do núcleo imperial pode e precisa se expandir. Eis a regra geral a qual se referia Benjamin.

Ironia das ironias, enquanto líamos o Extinção, assistíamos ao bisonho evento do Golpe em Honduras que rompia com as cômodas ilusões da metafísica jurídica liberal. Uma exceção já prevista enquanto costume, possível de ser aplicada pela óbvia assimetria entre os agentes políticos internos - o que torna a ideia coisa pública uma ficção cínica e cruel - e que estava lá a despeito da legislação formal, destinada a reconduzir o país a um status quo, não reto, mas oblíquo por natureza e que é, justamente, o seu rumo na ordem imperial - da qual não somente o Império e potências auxiliares são construtores, mas a própria elite colonial também o é.

Enfim, creio que o Extinção é um livro interessante, tem uma narrativa veloz, intermitente, levanta várias bolas interessantes e deixa vários fios soltos que fazem o leitor refletir de maneira inquieta sobre a realidade.

P.S.: Gostei bastante do visual novo do blog, ficou bem melhor.


Maurício: gostei muito da tua análise do estilo. Conheço os outros livros do Arantes, mas não tinha reparado nessa mudança. Fica uma pergunta: de onde viria a desolação? Não acredito que se deva ao governo Lula, já que ele nunca foi próximo do PT. Quanto aos dois enxertos, concordo que seriam dispensáveis. Algo se quebra neles.

Hugo: bom levantar a bola da guerra como "válvula de escape" das pressões internas que não é trabalhada no Extinção. Por vezes, os marxistas são racionalistas (ou céticos) demais pra enxergar o elemento de "pão e circo" das guerras, o quanto elas incluem um cálculo de psicologia de massas. A ausência de um paralelo com outras formas de imperialismo talvez se explique pelo que falei quanto ao tom panorâmico do livro - ele não voa tão alto, nem se detém lá embaixo.

É bom lembrar que Carl Schmitt já havia escrito um texto prenunciando o novo modelo de imperalismo americano, que prescindia do domínio territorial, preferindo o domínio econômico. E mesmo citando bastante o jurista alemão, este texto também não aparece no livro de Arantes.


Alexandre,

Sim e é uma válvula de escape que diz respeito mais ao pão do que o circo - apesar de não também colaborar para esse. O fato é que qualquer unidade política que tenha um sistema explorador - capitalista ou não - está condenado a ir a guerra e o faz por questões materiais. Façamos o seguinte exercício de imaginação: De repente estamos diante de uma conjuntura que levaríamos o Brasil a ser uma nação imperialista. Basicamente, as FFAA seriam agigantadas e os recrutas, os pobres que habitam as periferias, adestrados pela doutrina militar e destinados a servir de bucha de canhão na Bolívia e no Paraguai. Uns morreriam, outros voltariam inutilizados demais e outros estariam suficientemente adestrados para não criarem "problemas" - não se tornando os assaltantes do semáforo mais adiante, mas sim canalisariam sua violência no estrangeiro a ser sobrepujado pelo interesse do Capital Nacional. A Guerra movimentaria a indústria nacional e os novos domínios permitiriam um avanço capitalista maior ainda aumentado a classe média e diminuindo as tensões internas. Teríamos, por via oblíqua, achado uma válvula de escape - tanto infra quanto superestrutural - para as tensões internas inerentes ao Capitalismo. O avanço desse hipótetico Brasil imperial seria, não uma faculdade, mas uma necessidade à luz do seu sistema econômico interno, mas se sua necessidade de se expandir é infinita, as próprias possibilidades lógicas da expansão não o são. Eis o motivo da ascensão e queda dos impérios.

Voltando aos fatos, foi isso que os EUA fizeram, mas agora chegaram no seu ocaso. Por um motivo primordial que foi a fusão do seu Capital nacional com os demais Capitais nacionais. Os EUA, em si, são apenas uma superestrutura poderosa, mas fantochesca que o Capital mundial se utiliza para a consecução de seus fins, nada mais. Tanto é que a economia americana cresce menos do que a média mundial desde o fim da Segunda Guerra. A culpa de fábricas deixarem o Michigan para se instalarem em Sichuan não é culpa da China, mas fruto de um movimento que trespassa a capacidade de controle da superestrutura americana em si. Ademais, como o próprio Arantes assevera, o mundo se tornou uma grande Fronteira global. Para onde a superestrutura americana poderá se expandir ainda mais? Todos nós sabemos que a causa dessa Crise Global nada é mais o fato de que os EUA, sol da capitalismo global, gastam mais em armas do que podem e armas só dão lucro se você vai a guerra e se sai bem sucedido. Mas para onde você vai? Travar a guerra do fim do mundo contra Rússia ou China agora? No momento em que o avanço bélico se torna inviável economicamente, armas deixam de sê-lo também, mas como largar isso se o seu Estado é refém de um complexo bélico-industrial?

Volto a questão do imperialismo: Se ele existe - nas mais variadas formas ao longo da história da humanidade - é porque o sistema econômico interno de uma determinada unidade política não consegue criar meios para dirimir de modo efetivo as pressões sociais internas e para não se esgarçar precisa se expandir, mas em vários momentos, as condições da expansão se tornam elas mesmas inviáveis economicamente. No Capitalismo nuclear que domina um planeta cercado de planetas inóspitos, a possibilidade de expansão acaba chegando ao seu limite - Arantes, justiça seja feita, aborda a questão da necessidade da criação do espaço pelo Capitalismo em dado momento, creio que em Cavalaria Global, mas ele faz uma leitura rasa nesse momento, ao esquecer que essa não é uma necessidade unicamente do Capitalismo e também não aborda o esgotamento no qual isso se encontra agora. Pelo menos, ele deixa os fios soltos e isso é fundamental. O grande debate agora é que cada vez mais nos aproximamos da bifurcação entre socialismo ou barbaríe, mas entre a Democracia (formal, material e substancial, o Comunismo) ou o nosso desaparecimento enquanto espécie, seja pelo inferno nuclear ou pelo lento e doloroso colapso ambiental.

P.S.: Quando eu abro a página, constam cinco comentários neste post, mas quando eu abro ele, só aparece um comentário - mas quando eu aperto em preview para ver como fica o meu comentário, eles aparecem embaixo(?!) e quando os remeto, volta à estaca zero (?!).


Questão de ordem (risos): Hugo, já tentou apertar F5 (dar reload ou recarregar)? Que browser v. tá usando? Aos demais: está acontecendo isso com vocês também?


Aham, apertei F5 depois de entrar e ficou normal. Mas antes, quando eu mandei e entrei em original entry depois de enviar, só aparecia o comentário do Gilberto (estou usando IE 7.0)

Aliás, no começo da minha primeira frase do último comentário é Sim e é uma válvula de escape que diz respeito mais ao pão do que ao circo - apesar de também colaborar para esse último.


Olá gente,
Alexandre, há algum tempo tenho acompanhado teu blog (creio que cheguei aqui via Idelber). Infelizmente, não dá pra entrar no debate porque, como estou na Alemanha, não tive acesso ao livro. Mas já li o Estado de Sítio e outros artigos mais ou menos recentes do Arantes. Por isso, tô aproveitando o que dá da conversa.
Bom, só passei aqui pra dizer que vocês estão sendo lidos por mais alguém, hehe..
Abraço
PS: Alexandre, parabéns pelo blog. É muito bem escrito.


Gilberto e Alexandre,

Embora fazendo votos de que este debate não se transforme em mais um fla-flu “Lula versus FHC”, gostaria de mencionar que as análises que Arantes faz do governo Lula no livro são, ao meu ver, não apenas em sua maioria equivocadas mas datadas, mesmo porque foram produzidas ainda sob o calor das chamas recém-escaldadas do “mensalão” – o que o leva a escrever bobagens como que o governo Lula teria acabado (ou, para ser exato, que dizer tal coisa seria um ato piedoso, já que o governo Lula nunca teria começado - o que, no caso, vem a dar no mesmo). Não só não acabou como conta, atualmente, com aprovação popular da ordem de 80%. Quem acompanha meu blog sabe que sou um crítico assíduo do governo Lula – se se tratasse de um filme de tribunal, esta seria a hora em que eu dirigiria ao juiz e diria: “A Defesa convoca Hugo Albuquerque ao banco das testeminuhas”. Mas não enxergar os avanços na política externa, na educação, na cultura e, sobretudo, no fato de que a bolsa-família está, pela primeira vez, realizando o objetivo histórico da esquerda de minimizar a pobreza, contemplando mais de 11 milhões de famílias, é se recusar a ver a realidade.

Além disso, incomoda-m, no livro, e que tais análises por vezes reproduzam a posição confortável, elitista e um tanto hipócrita – contra tudo e contra todos – de uma certa intelectualidade que habita as universidades brasileiras e que acaba, assim agindo como parte da mídia, que julga manter sua relevância a partir de uma apropriação mercantilista do lema anarquista “hay gobierno soy contra’. Mas vejam bem: não estou acusando Arantes de ser um desses acadêmicos – seu passado prova que ele não o é -, mas sim de soar como um deles através das idéias defendidas nos textos datados referidos acima.

Alexandre,
Isso que escrevi acima me serve como base para tentar, de maneira um tanto tateante, responder sua pergunta acerca do que teria levado Arantes – não sendo petista - ao tom desolado que, na minha opinião, por vezes seu texto transpira. Eu diria: justamente por ele não ser petista! E com isso quero dizer: porque além de toda a decepção por ele acumulada durante o período ditatorial e com os governos de centro-direita que se seguiram, vem a somar-se o acabrunhamento de constatar que não apenas o espaço que seria da esquerda foi ocupado por um partido prática e ideologicamente claudicante – o PT -, mas que, além, disso, esse partido, assim como o governo insatisfatório mas de alguma maneira situado mais à esquerda do que os anteriores – presidido por Lula – incorreu no que ele considera o maior desastre da esquerda nacional, com prováveis consequências danosas para os futuros projetos desta.

Isso transparece, por exemplo, no seguinte trecho: “Gostaria de estar enganado, mas não dá para fugir da evidência de que tão cedo não se apresentará uma força política em condições de ocupar o lugar vazio deixado pelo PT no campo popular e polarizar com a direita mais uma vez vitoriosa, desta vez porém com seu braço esquerdo lulista” (p. 271).

Hugo,
Concordo com a ilação que você faz a respeito da impossibilidade dos EUA controlarem a presente dinâmica do capitalismo global que leva as fábricas de Michigan para o interior da China. O tema central do livro - ou o mais importanted deles - diria respeito, portanto, como você mesmo coloca, ao debate sobre conceito de fronteira norte-americano e ao esgotamento da possibilidade de expandi-la. Mas me parece um tanto... eu não diria ingênuo, mas talvez um tanto anacrônico o foco excessivo nos EUA adotado por Arantes, sobretudo se levarmos em conta o estágio que a globalização já atingira quando os ensaios do livro foram escritos. O que você acha?

Uma outra questão que me ocorreu ao ler a sua intervanção é a referência ao “Golpe em Honduras que rompia com as cômodas ilusões da metafísica jurídica liberal”. Ocorreu-me que talvez um contra-movimento político regressivo dessa natureza, como parece ser o que acontece agora no páis latinoamericano, se futuramente se disseminar de alguma forma, pode vir a afetar precisamente a dinâmica que rege as tais fronteiras hoje exauridas para a expansão norteamericana. Você teria algo a comentar nesse sentido?


O Alexandre fez um belo resumo do livro. Agora eu acho que nós poderíamos falar um pouco mais dos conceitos mais interessantes abordados pelo livro, além do de “guerra cosmopolita”, sobre o qual o Hugo escreveu muito bem, o de “capitalismo de acesso” e “crony capitalism”.

No início do capítulo “A viagem redonda do capitalismo de acesso”, Paulo Arantes resvala no debate sobre software livre e propriedade intelectual - pena que não se aprofundou nesse tema – e faz uma afirmação instigante, citando “um estudioso dessa fronteira da acumulação baseada na tecnociência”: “ a ambição maior da nova economia é controlar o acesso à dimensão virtual da realidade, apropriar-se do futuro, em suma”. E faz um link interessante entre esse movimento de “antecipação que caracteriza a dinâmica da aceleração total da economia de acesso”- a apropriação do acesso à informação seria uma das novas formas de acumulação primitiva - e a estratégia americana de guerra preventiva, que, ao fim e ao cabo, nada mais é do que uma “questão de direito de acesso resolvida manu militari”. Acesso ao petróleo iraquiano, a novas oportunidades de negócio etc.

Essas oportunidades de negócios, obviamente, foram oferecidas aos velhos amigos da família Bush, no melhor estilo “capitalismo de compadres”. Uma perversão do livre mercado. Aqui, uns são mais livres que os outros. Os que têm acesso, os insiders, levaram a melhor parte do espólio iraquiano. São os “velhos amigos ajudando-se uns aos outros, como sempre, acionando a velha porta giratória do circuito público-privado”.

Isso me remeteu a uma cena do filme Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, em que o jovem Bush Jr fala a possíveis futuros clientes: “eu não tenho poder, mas tenho acesso a ele”. Estávamos sob administração Bush pai. O “capitalismo de compadres” com a “porta giratória público-privada” acionada não privilégio do império, na periferia ele também está mais do que presente. Veja o caso de Malan, ex-ministro da fazenda e agora alto executivo do Unibanco, só para ficar num exemplo.

Resumindo, e usando uma frase feliz do Paulo Arantes, “a viagem redonda do capitalismo de acesso vem a ser esse retorno da Acumulação Primitiva”

Como disso o Hugo aí em cima, esse livro “levanta várias bolas” e deixa alguns “fios soltos”. Eu tentei puxar um desses fios aí...



Hugo: Gostei demais do que vc escreveu. Chegou muito perto da minha impressão sobre o livro.

Tentando acrescentar um pouco à conversa, prefiro fazer uma leitura meio "isotópica", inclusive pela densidade do livro, já apontada pelo Hugo e pelo Maurício.

Eu enxergo três palavras-chaves neste livro do Arantes: a primeira, e mais óbvia, a que dá nome ao livro, "extinção"; a segunda, uma certa rememoração do termo cunhado por Stanislaw Ponte Preta, "Febeapá"; e a terceira, "fronteira". As três palavras emolduram o painel internacional e nacional pintado por Arantes e se entrecruzam o tempo todo, meio que formando um esboço de uma ideia.

Foi assim que compreendi a coisa toda: o "capitalismo de acesso" imprime a sua marca globalmente, expandindo a fronteira do Império para além do seu próprio núcleo. Em função disso, há um consequente enfraquecimento do Estado em prol do capital (na verdade, em prol dos "racketeers", do capitalismo gângster), que força ao limite a possibilidade de organização coletiva em torno do direito. Resultado: as instituições demcráticas apenas orbitam em torno do interesse majoritário do capital, o que consolida, por sua vez, o Leviatã (bravo, Hugo!) do Império. Ocorre, portanto, a submissão total e absoluta do cidadão, do Estado e do direito ao jugo desse Leviatã, que se mascara, no fundo, de democracia, enquanto usurpa (extingue?!) o fundamento mais sólido do estado de direito. A exceção consequentemente torna-se a extinção e vice-versa.

Por fim, vale o comentário feito pelo Gilberto: a falência da crítica -- inclusive a falência do discurso da esquerda, que entoou, durante a década de 1990, o perigoso mantra que apregoava como única alternativa socioeconômica o capitalismo neoliberal -- redunda num "Febeapá" que marca o "Fim de um clico mental", caracterizado sobejamente por aquilo que Francisco de Oliveira decretou como "tese da irrelevância política", à qual Arantes faz coro. "Não parece sobrar alternativa" é justamente o paradigma do que eu ousaria chamar de "capitalismo de extinção", cuja parolagem alimenta o sistema político nacional e internacional.

A extinção é o consenso...

P.S.: Gostaria ainda de dizer que um livro perpassou o tempo todo a minha leitura do Arantes: trata-se de The Shock Doctrine, de Naomi Klein, no qual a autora canadense investiga as políticas internacionais neoliberais e seus desdobramentos ao longo do globo. Eu diria que as informações de Klein dão base empírica ao estilo e à crítica mordaz de Arantes.


Vou aproveitar o tema da válvula de escape para colocar algo que atualmente chama a atenção no marasmo da intelectualidade de hoje. Em um mundo pós-histórico, que Paulo Arantes coloca até de forma engraçada como a continuação de uma Santa Aliança ou de um kantismo, um dos problemas enfrentados seria, na análise de Fukuyama, o que ele chama da isothymia, excesso de igualitarismo, não somente social, mas na repetição de eventos. Assim, a sociedade pós-histórica, para continuar viva e estável, dependeria da existência de canais de megalothymia, ou seja, competições pelo esporte, mas também por lutas, guerras, injustiça e pobreza. Para tal, existiriam os países de terceiro mundo para servir de válvula de escape para tais impulsos tipicamente humanos. Cito o Fukuyama:

"Um Régis Debray pôde encontrar um escoadouro para seus impulsos timóticos, escoadouro inexistente na classe média próspera da França, lutando nas selvas da Bolívia ao lado de Che Guevara. É provavelmente saudável para as democracias liberais que o Terceiro Mundo exista para absorver as energias e ambições desse tipo de homens; se é bom para o Terceiro Mundo é outra conversa."

Isso condiz com as conclusões tardias de Kojève em que diria que a consecução do Estado (hegeliano, consecução da Idéia, etc) não necessariamente retiraria a capacidade de se separar o conceito (revelador da Idéia) em forma e conteúdo. Aliás, diz ele após as provocações de Bataille, seria esta uma forma de se continuar humano.

Até aí tudo bem. Isto já estava tudo previsto. No entanto, o que não estava é que Fukuyama, que escrevera tudo aquilo em 1992, dez anos depois, portanto um ano após 11 de Setembro de 2001, descamba completamente para um neoconservadorismo em "Nosso futuro pós-humano" dizendo que as manipulações genéticas ameaçam o bem estar da humanidade e o próprio ser humano enquanto espécie. Tudo bem que a reflexão se dá sobre genética, mas se trata, antes de mais nada, de um medo tremendo. Medo de uma disfunção do orgânico, medo de desvio do gen, gênese, do início e até do corpo.
Apesar de Paulo Arantes analisar somente o primeiro Fukuyama de que falei, as suas análises sobre a "queda no deserto do real" podem ilustrar melhor esse tipo de atitude daqueles que outrora se gabaram em se encontrar seguros e entediados e, a partir de então, ter de se aventurar no terceiro mundo para comprovar a existência de indecências ou inimigos da humanidade. Agora a capacidade de diferenciar-se (thymia) bate à porta.
Curiosamente o que se assiste é a uma brasilização do mundo, mas em um sentido nada romantizado: é a informalidade, a empregada com celular, a interrupção de projeto de nação que se demonstra agora não só aqui. Também não é para dizer como diz o psicanalista belga Lebrun, no qual li que que a Europa caminha para se tornar um Brasil, mas no pior dos sentidos, uma zona perversa e sem referências. Ele diz isso como se não houvesse ligação de um mundo com outro, como mostra a recente notícia de que Bélgica e Inglaterra enviam lixo tóxico para o Brasil. O curioso é que agora ele está sendo mandado de volta para a Europa . Enfim, o que se vê é que se éramos angustiados aqui por não saber exatamente o que éramos, talvez isso esteja batendo à porta de quem não esperava. É claro que isso não necessariamente nos põe em vantagem, mas dá lugar para se pensar. Por outro lado, a mesma busca de projeto ou identidade que sempre existiu no Brasil talvez se espalhe por aí. Também essa suposta angústia que iria ao primeiro mundo não necessariamente terminaria em algo criativo, mas na tentativa feroz de reforçar as antigas certezas. Inclusive é bem capaz de provocar reações um tanto quanto modernistas pelo mundo, o que não é de forma alguma algo melhor principalmente porque não sobrou muita coisa para se apoiar também. Explico-me: o Hugo terminou dizendo que não é mais um jogo entre socialismo ou barbárie, mas entre democracia ou fim da espécie. Acho, pelo contrário, que é na espécie e sua defesa que haverá a última tentativa de manutenção de um Império Global, por isso que eu inventei de falar no medo do Fukuyama, o verdadeiro medo de quem havia assinado o fim da História. O especismo talvez seja a última fronteira da "defesa dos direitos humanos". Isso é completamente condizente com a queda do inimigo para dar lugar ao monstro. E também demonstra que o fim da História pregado pode estar no pensamento contemporâneo neoconservador ou neodireitista, mas Hegel não só não pode ser lido com um paralelo cronológico (identificar os conceitos axatamente no tempo, o que já era sabido), mas também não pode ser lido, como sempre foi, em um paralelo espacial, em que o primeiro mundo seria pós-histórico e o terceiro serviria para o gozo sem limites, ex: prostituição infantil no Brasil ou golpe em Honduras. Enfim, as válvulas de escape faziam com que os homens não voltassem a ser animais, mas elas não deram conta do recado. E isso, ao menos para mim, dá possibilidades inéditas de se rever o pensamento tradicional e procurar em lugares nada ortodoxos algumas faíscas de política. Só ontem 300 carros foram queimados na França. Tudo bem que essa minha análise seja um pouco pontual quando na verdade o livro é bastante panorâmico. Não se pode deixar de lembrar o que ele fala sobre o trabalho em pensando por fora, na minha opinião o ponto mais alto do livro. Mas acho que entrar na discussão seriam mais interessante do que explorar outro ponto. Espero ter me feito compreensível. Um abraço Nodari pela iniciativa.



Já que mencionamos a questão conceitual, tenho uma dúvida que talvez vocês possam sanar - o que Arantes entende por "império"? Evidentemente, não é o conceito de Negri. Não ficou claro pra mim. Talvez, porque, de fato, seja um "fio solto" a ser pensado.

O Bruno Pinheiro abordou outro "fio solto" interessante: o casamento entre produtos econômicos hiper-avançados e métodos de exploração "arcaicos". Me agradou muito, nesse sentido - e já mencionei num comentário acima - a defesa, ainda que reticente, que Arantes fez dos piqueteiros que se recusam a trabalhar: já que o discurso capitalista hoje é da flexibilização, do final do modelo de produção em fábrica, dos arranjos voláteis, em suma, se o trabalho é tão desnecessário assim, então vamos ver o que acontece se pararmos de trabalhar. É uma estratégia interessante de se apropriar do discurso hegemônico para colocá-lo a prova. Evidentemente, falta organizar isso de modo que se torne o novo "poder de veto" do proletariado.

Ainda no assunto do casamento entre hiper e pré-modernidade, gostaria de tocar num ponto que apenas mencionei: o saber crítico da periferia que foi ignorado. Não se trata de um saber sistêmico, é um saber difuso (e confuso), mas que foi sub-aproveitado. Acredito que Machado de Assis, por exemplo, no mesmo gesto em que era "realista" e trabalhava dialeticamente a sociedade brasileira do final do século XIX, está falando também da sociedade atual. Basta ver o papel preponderante que têm figuras mediadoras, aqueles agregados que não tem "nada" de poder, mas "acesso ao poder". Não vou me deter demais nisso pra não fugir do Extinção, mas gostaria só de exemplificar com Dom Casmurro: é o agregado José Dias, que articula os dois principais acontecimentos de Dom Casmurro: é ele quem lembra à D. Glória de sua promessa de colocar Bentinho no seminário e é ele que acende neste a primeira chama do ciúme, sempre, todavia, terminando seus adjetivos no superlativo e agindo em interesse próprio. Roberto Schwarz apontou pra isso, mas acho que teríamos que insistir ainda mais, pois talvez hoje, mais do que nunca, o "capitalismo de compadres", que achávamos ser tipicamente brasileiro e periférico, dominou o mundo. Ainda nesse ponto do saber da periferia, gostaria de citar rapidamente os autores que mencionei no post de abertura:

1) Araripe Jr.: "a cada derrota, [o espírito colonial] muda de acampamento, mascarando as
suas operações, e, no fim, é sempre ele que recolhe os despojos e, pelas
finanças, mantém em estado de sítio as consciências" (década de 1890);

2) Rui Barbosa: "Dir-se-ia que o que o júri tem sido para a Inglaterra, o município para a Suíça, a justiça federal para os Estados Unidos – a arca histórica das liberdades nacionais – é, para as repúblicas latinas daquele continente, a lei marcial" (idem, Rui está escrevendo na Inglaterra);

3) Oswald de Andrade: "O Brasil, desde a idade trevosa das capitanias, vive em estado de sítio. Somos feudais, somos fascistas, somos justiçadores. Época nenhuma da história foi mais propícia à nossa entrada no concêrto das nações, pois que estamos na época do desconcerto” (anos 1920);

4) Antônio Fraga: "O que se deve abolir é este estado de sítio permanente disfarçado de liberdade política" (1985)

Antônio: "A extinção é o consenso" - taí uma tese que endosso, e que move este blog.

Bruno (o primeiro): agradeço os elogios. Fica à vontade pra participar. As idéias gerais do livro já foram expostas, e você é familiarizado com o autor. Além disso, o propósito do debate é discutir problemas, conceitos, posições, que vão além do livro em si.


Questão de ordem 2: o blog tem recebido ultimamente um bocado de spams, por isso aumentei o filtro de segurança. Se alguém comentar e não aparecer, mande um email pra mim: alexandre.nodari [arroba] gmail [ponto] com.


Ops... Sofri do mesmo mal que o Hugo: quando escrevi meu comentário, havia apenas 5 posts. Agora eles se multiplicaram para além de minha opinião meramente introdutória. Sinto-me instigado a dizer um pouco mais, com a licença de todos.

Hugo: não sei se compreendi bem o seu ponto de vista, mas quando vc diz, pensando na hipotética guerra imperialista brasileira, "A Guerra movimentaria a indústria nacional e os novos domínios permitiriam um avanço capitalista maior ainda aumentado a classe média e diminuindo as tensões internas. Teríamos, por via oblíqua, achado uma válvula de escape - tanto infra quanto superestrutural - para as tensões internas inerentes ao Capitalismo."

Não seria a guerra, na opinião de Arantes, o modus operandi do capitalismo? Quer dizer: a guerra não poderia ser considerada uma válvula de escape, na medida em que, na natureza mesma do conflito, encontra-se a motivação para empurrar "goela abaixo" a injustiça inerente ao capital. Talvez seja essa a principal contribuição de Arantes ao debate, tentando associar aquela velha ideia benjaminiana às implicações recentes do capitalismo global.

Não creio que a expansão da cavalaria global norte-americana tenha de fato chegado ao seu fim. Tampouco penso que "Os EUA, em si, são apenas uma superestrutura poderosa, mas fantochesca que o Capital mundial se utiliza para a consecução de seus fins, nada mais". Talvez a pedra de toque do Arantes (e isso fica explícito na noção de "capitalismo gângster" ou de "capitalismo de compadres") seja essa mesma: o que parece ser um fluxo (ou refluxo) do capitalismo global não passa de um movimento coordenado de uma superpotência em expansão. (Mencionei o livro da Naomi Klein no meu primeiro post e insisto nele, como modo de apoiar a percepção cada vez mais clara de que o que chamamamos de "ideologia neoliberal", que parece estar suspensa num "entre-fronteiras", mas que na verdade se corporifica nos interesses coorporativistas de empresas que tem total acesso, como diria Arantes, às estruturas do Estado americano.)

A inviabilidade da expansão do Império para o limite da guerra nuclear é, exatamente, a contradição encontrada por Arantes no começo do livro -- e Hannah Arendt já chamava a atenção para isso. Na verdade, se há um refluxo da guerra imperialista, talvez isto se dê por conta da manutenção do status quo. A guerra é cada vez mais cirúrgica exatamente pela necessidade estratégica de convencionar as perdas, amplificando os ganhos. O que talvez seja o mais impressionante é que a alternância no poder não significa, em nenhum momento e de nenhuma forma, um abalo no consenso, ou seja, ela não coloca as forças antagônicas nos limites de uma guerra global. E isso Arantes nota no caso brasileiro, com certa mágoa.

Enfim, ficam aí algumas impressões meio que jogadas. (Talvez eu seja um leitor muito ortodoxo...)


Maurício,

Concordo plenamente com a sua leitura: Arantes focou excessivamente nos EUA, o que, aliás, era bem próprio das leituras imediatamente pós-URSS que oscilavam entre o otimismo idealista em relação a Nova Era ou o desespero em relação a isso. À época, esqueceram do óbvio entre os óbvios que era, justamente, analisar os gráficos; os EUA, mesmo sendo, a única dita superpotência dominante crescia menos do que a economia mundial e a queda da URSS não mudara esse panorama. Por detrás desse cenário só poderia haver mais coisa, mas não sei porquê a intelectualidade de esquerda não investigou isso. Hoje essa coisa veio à tona, mas antes mesmo, o próprio modo como os EUA se financiaram para ir à guerra no Afeganistão e no Iraque já havia dado boas pistas sobre esse momento em que vivemos hoje foram deixadas. Na raiz de tudo, creio que houve uma falha na avaliação do real poder que a emissão da moeda de reserva internacional deva aos EUA: poder gigantesco não é igual a poder infinito (isso, em economia, não existe). Bem, já tínhamos o histórico da Libra Esterlina e já haviam indícios da Crise Americana, então...

Há, inclusive, um livro de Joelmir Beting chamado Os Juros Subversivos, onde ele entrevista ninguém mais, ninguém menos do que Fídel Castro em plena crise da dívida dos meados dos anos 80. Lá, o chefe de Estado cubano fazia algumas avaliações bem interessantes sobre os rumos que a medida de Nixon ao romper com o padrão-ouro levaria o Capitalismo.

Já sobre a questão do Governo Lula, ele fez uma leitura muito rasa, mas muito rasa mesmo. Não ia nem comentar porque teria que me alongar muito; já debati contigo e no blog do Idelber várias vezes sobre o fato de como esse estabelecimento de simetria entre os governos FHC e Lula é falaciosa. Tentando sintetizar o que eu penso, o PSDB é uma agremiação que se nomeou com esse termo-caleidoscópico que é social-democracia e até hoje nunca chegou a sê-lo; ele chega ao poder e põe em prática uma série de ajustes que Collor, toscamente, tentou levar adiante, mas implicam no seguinte: O Brasil, graças ao nacional-desenvolvimentismo, em especial no período militar, criou um modelo anômalo, dependentista que desemboca num parasitismo financeiro descarado; quando o boi tá pra morrer de tão magro, os carrapatos se unem para dar um jeito de mudar tudo, sem mudar nada, inventam Collor e depois enfiam FHC e seus tecnocratas para resolver a parada da inflação sem lhes onerar. Dá em merda. Depois de oito anos de FHC, o próprio colapso do imperialismo americano e uma tensão fundida internamente o PT vence - e vence porque a Articulação se sentou à mesa com a FEBRABAN e com FIESP, talvez desnecessariamente, não sei, assumindo uma postura social-democrática e passa a querer corroer o Estado burguês por dentro, por meio de um idealismo histórico e um voluntarismo social próprio de um reformismo moderado, mas que implica na perda de certos privilégios para essa classe dominante e em certos avanços que, numa visão marxista radical seriam meras concessões do sistema diante de uma conjuntura desfavorável e na visão kautskyana, uma avanço civilizatório na superação do capitalismo por ele mesmo. No fim das contas, nivelar o fenômeno FHC e Lula, para além de um análise favorável ou não do atual governo é, por si só, um ponto de partida equivocado.


Antonio Barros,

Concordo integralmente com sua menção a "The Shock Doctrine" e à influência dos conceitos ali desenvolvidos por Naomi Klein no livro de Arantes, Isso ocorreu-me várias vezes durante a leitura deste, não só porque parece claro que, como você coloca, "as informações de Klein dão base empírica ao estilo e à crítica mordaz de Arantes", mas o próprio conceito-base de "extinção" sugere-se aparentado da acepção de "choque" tal como analisada pela canadense.

É bem verdade que o próprio Arantes vai por vezes tematizar o conceito de "choque" de forma metafórica - como nas analogias que desenvolve a partir do slogan bélico "choque e pavor" empregado pelos EUA na invasão do Iraque.


Alexandre,

Sem querer usar cores fortes ou soar agressivo em relação a Arantes, parece-me difícil negar que uma visão crítica abrangente de sua obra teria obrigatoriamente de examinar a impressão recorrente de elitismo que dela emana. Ocorre-me, por exemplo, a menção mordaz às "empregadinhas de celular" (o diminutivo é dele, Arantes) em "Zero à Esquerda". Talvez por aí seja um possível caminho para analisar a pouquíssima atenção ao que você chama de "pensamento de periferia".

Uma outra hipótese, ao meu ver, diz respeito aos próprios limites metodológicos do livro. Expandi-los a ponto de incorporar o(s) pensamento(s) periférico(s) significaria, por um lado, um aumento exponencial do objeto de estudo, o que demandaria não apenas um volume substancialmente maior de pesquisas, mas a necessidade de estabelecer uma série de filtros conceituais para lidar com todo esse material de forma padronizada e orgânica; por outro lado, a eventual incorporação dessas ideologias não-centrais tenderia a problematizar não apenas o pleno desenvolvimento do conceito de "Extinção" (tendo em vista que, via de regra, o pensamento periférico tende a representar uma teleologia anti-poder e, nos termos de Arantes, anti-Império) mas, como demonstra Spivak em “Can the Subaltern Speak”, da própria autoridade de Arantes para "ventrilocar" tais ideários diluídos em meio a uma reflexão que tem um forte parte pris conceitual.

Questão de ordem (não escutava essa expressão há séculos..rs!): Alexandre, o "Lembrar seus dados" também não está funcionando (ao menos comigo). Não que isso seja um recurso essencial, mas evita que tenhamos de digitar tudo de novo cada vez que comentamos. Quando tiver um tempo, seria bom que desse uma checada.


Antonio Barros,

Concordo integralmente com sua menção a "The Shock Doctrine" e à influência dos conceitos ali desenvolvidos por Naomi Klein no livro de Arantes, Isso ocorreu-me várias vezes durante a leitura deste, não só porque parece claro que, como você coloca, "as informações de Klein dão base empírica ao estilo e à crítica mordaz de Arantes", mas o próprio conceito-base de "extinção" sugere-se aparentado da acepção de "choque" tal como analisada pela canadense.

É bem verdade que o próprio Arantes vai por vezes tematizar o conceito de "choque" de forma metafórica - como nas analogias que desenvolve a partir do slogan bélico "choque e pavor" empregado pelos EUA na invasão do Iraque.


Alexandre,

Sem querer usar cores fortes ou soar agressivo em relação a Arantes, parece-me difícil negar que uma visão crítica abrangente de sua obra teria obrigatoriamente de examinar a impressão recorrente de elitismo que dela emana. Ocorre-me, por exemplo, a menção mordaz às "empregadinhas de celular" (o diminutivo é dele, Arantes) em "Zero à Esquerda". Talvez por aí seja um possível caminho para analisar a pouquíssima atenção ao que você chama de "pensamento de periferia".

Uma outra hipótese, ao meu ver, diz respeito aos próprios limites metodológicos do livro. Expandi-los a ponto de incorporar o(s) pensamento(s) periférico(s) significaria, por um lado, um aumento exponencial do objeto de estudo, o que demandaria não apenas um volume substancialmente maior de pesquisas, mas a necessidade de estabelecer uma série de filtros conceituais para lidar com todo esse material de forma padronizada e orgânica; por outro lado, a eventual incorporação dessas ideologias não-centrais tenderia a problematizar não apenas o pleno desenvolvimento do conceito de "Extinção" (tendo em vista que, via de regra, o pensamento periférico tende a representar uma teleologia anti-poder e, nos termos de Arantes, anti-Império) mas, como demonstra Spivak em “Can the Subaltern Speak”, da própria autoridade de Arantes para "ventrilocar" tais ideários diluídos em meio a uma reflexão que tem um forte parte pris conceitual.

Questão de ordem (não escutava essa expressão há séculos..rs!): Alexandre, o "Lembrar seus dados" também não está funcionando (ao menos comigo). Não que isso seja um recurso essencial, mas evita que tenhamos de digitar tudo de novo cada vez que comentamos. Quando tiver um tempo, seria bom que desse uma checada.


Não seria a guerra, na opinião de Arantes, o 'modus operandi' do capitalismo? Quer dizer: a guerra não poderia ser considerada uma válvula de escape, na medida em que, na natureza mesma do conflito, encontra-se a motivação para empurrar "goela abaixo" a injustiça inerente ao capital. Talvez seja essa a principal contribuição de Arantes ao debate, tentando associar aquela velha ideia benjaminiana às implicações recentes do capitalismo global.

Quase isso, Antonio. Apesar dele ter deixado a ponta solta, creio que ele não enfatizou com tanta força esse ponto, focando demais na história e no modelo americano em si. Sobre o que eu quis dizer sobre a hipótetica guerra imperialista brasileira, era apenas uma tentativa de exemplificar como funciona a relação entre a guerra e o imperialismo - se houvesse uma conjuntura, interna e externa, que permitisse isso, mas obviamente não há. Ademais, para além do capitalismo, Roma que não era capitalista, também sofria do mesmo mal. A cerne disso, mais do que as meras contradições do capital estão nas contradições de qualquer sistema que se estruture na exploração do homem pelo homem.

Hoje, a caminhada da Cavalaria Global não foi extinta, mas está muito, muito próxima disso. O país foi à Guerra contra o Iraque e com o Afeganistão, na verdade com dinheiro chinês e árabe via compra de títulos do tesouro - que o fizeram pela dependência que eles têm da economia americana, diga-se. O problema central é que mesmo árabes com barril de petróleo nas alturas e chineses com crescimento acima dos 10% e ambos com ímpeto de manter o déficits público não conseguiram "segurar" a moeda americana. Como? O gasto foi maior do que a capacidade de cobertura. Ou se abre mão do gasto bélico e se desenha uma nova ordem o dólar - ou isso ou uma guerra contra quem realmente importa, o que seria uma guerra fatal para o mundo e, por conseguinte, para eles mesmos.


Bem, eu nem vou me desculpar por ter, tão imperdoavelmente, perdido o prazo para a leitura do livro, porque já o fiz com o Alexandre por email. Mas registro que estou aqui chutando a própria canela de raiva por não estar em condições de entrar no debate.

Dito isso, com tremenda irresponsabilidade, já que não li o livro e, confesso, tenho certa birra com Paulo Arantes (a não leitura foi por perda de prazo mesmo), quero colocar algumas observações que talvez sirvam para estimular o debate, ou sanar dúvidas minhas, ou ambas coisas.

1. Interessou-me a referência a Virilio. Há um zumbido viriliano em algumas das referências que vocês fizeram ao livro. Ignoro se ele está realmente citado no texto, mas eu noto certa apropriação de Virilio hoje em dia na construção de, para usar uma expressão a que tenho recorrido com certa frequência, falsas simetrias. Explico-me: Virilio antecipa várias das características da nova máquina de guerra (fim do contato entre soldados inimigos, fim da simetria entre exércitos, domínio da telemática, desaparição do campo de batalha, fim da linha que separa o "law enforcement" da guerra pura e simples etc.). Mas, a partir disso, há uma leitura que "chapa" tudo como se as hierarquias entre as várias posições de poder dentro do globo tivessem desaparecido. Virilio não subscreve isso, mas há leituras dele que passam por aí.

2. Isso me leva à questão política brasileira, que o Hugo trata realmente com muita lucidez. Reitero: não li o livro e estou sendo irresponsável, mas realmente espanta-me uma citação como a da página 271, que Mauricio nos trouxe. O discurso da "desilusão" com o governo Lula, na verdade, cansa-me um pouco (Mauricio, não há nenhum perigo de que uma discussão tão refinada como esta se transforme em "Fla x Flu de Lula e FHC", inclusive porque eu não acredito que ninguém aqui defenda FHC). Mas cansa-me mais ainda o gesto de algumas figuras que jamais tiveram qualquer investimento libidinal no projeto petista, como Paulo Arantes. Oponho-me a qualquer palavra composta do tipo tucano-petista (é nessa área que eu e Alexandre temos uma divergência, embora eu entenda perfeitamente -- como demonstrado pelo comentário dele acima -- que ele faz várias das diferenciações que eu acredito serem essenciais). E a oposição minha a essa palavra composta não se dá pelo fato de que eu esteja disposto a defender o governo Lula em 100% dos casos (é verdade, sim, é fato, que eu ando cada vez mais lulista, até mais que petista: a significação epocal destes anos ainda está para ser compreendida). Mas é porque eu interrogo o estatuto desse hífen. O que realmente quer dizer esse hífen? O hífen é um singular recurso, porque ele junta no ato de separar. Essa junção/ separação, a meu ver, está na raiz da falácia da palavra composta que fundamenta (mesmo quando a palavra composta em si não aparece) muitos dos discursos "desiludidos" sobre o governo Lula.

Enfim, para quem não leu o livro, já falei demais! Abraço fraterno a todos.


Maurício: ainda uma pergunta quanto à desolação: já não estava claro que o PT havia "capitulado", alguns anos antes já da eleição? Os sinais para quem acompanha de fora estavam claros, na escolha do vice, na famosa Carta em que Lula assumia manter os compromissos e na negociação aberta, mencionada pelo Hugo com a FEBRABAN e com FIESP. Pros mais atentos à esquerda, isso já estava claro pelo menos uns anos antes disso. Ou seja, bater do jeito que Arantes bateu, no começo do governo, foi fazer o jogo de outro time (por que a FSP não vai ouvi-lo agora?). Quanto ao pensamento periférico, eu não estava exatamente cobrando do Paulo Arantes (até porque ele dedica mais de um livro ao pensamento periférico, tanto criticando-o - Um departamento francês de ultramar -, quanto investigando seus méritos - O sentido da formação e Sentimento da dialética -, ainda que eu ache estes livros bem mais problemáticos que o Zero à esquerda e o Extinção, talvez pela concepção de arte que ele tenha), mas da intelectualidade em geral. Mas é possível que só agora, com a periferização do mundo, que o pensamento periférico tenha se tornado legível ou inteligível.

Antônio: muito bem lembrado a Hannah Arendt: se não me engano ela dizia que a corrida espacial (a busca por outros mundos) revelava que a humanidade tinha pedido as contas daqui, tinha desistido do mundo. O que me leva à interessante análise feita pelo Leonardo D'Ávila, a respeito do especismo: quando eu li o livro pela primeira vez, pensei em, numa possível resenha que não levei a cabo, cunhá-lo de "Elementos para uma crítica da ecologia política". Mais ou menos insinuei isso quando disse que achava que "energia" era uma palavra-chave na leitura do livro. Quando humanitarismo, capitalismo, questões ambientais e genéticas se fundem, a crítica da economia política não basta. Esta fusão revela uma nova forma hegemônica não só de administrar o mundo como uma casa (oikonomia), mas de regulamentar discursiva e normativamente cada aspecto da vida nela (oikologia). O próprio discurso ambientalista cai nessa amarra especista-naturalista, ao insistir que devemos preservar o meio-ambiente para que possamos sobreviver. Por um lado, há o aspecto utilitarista (ainda que existam movimentos mais radicais que pregam a extinção humana voluntária), por outro, quando apelamos para a sobrevivência, é porque algo já se perdeu irremediavelmente: podemos só sobre-viver. Se v. pudesse, D'Ávila, gostaria que falasse um pouco mais sobre isso tudo.


É possível perceber, em todo o Estado de Sítio – me refiro, evidentemente, aos ensaios iniciais porque depois a coisa desanda para entrevistas recortadas que não se encaixam bem com o resto – um movimento dicotômico, a meu ver: ora Paulo Arantes “ataca” com a ideia de “guerra cosmopolita” (expressão de Danilo Zolo, em ótima citação e pesquisa de Arantes) que ajuda a explicar a conjuntura mundial pós-Guerra do Golfo (1991) de imperialismo do século XXI; ora reflete sobre esse movimento como causa (embora isso não esteja explícito no livro) para as manifestações populares que vingaram desde então.

Há grandes méritos na análise de Arantes, como a pesquisa sobre a teoria de Zolo e como ela se encaixa em sua ideia pré-concebida (porque unilateral, formal e antecedente ao livro como conjunto) de que vivemos num estado de sítio global. Sua argumentação, que fundamenta e justifica sua teoria, é eficiente: quando desce a lenha, com enorme virulência ao sistema norte-americano de “guerra preventiva” ou quando amansa e se faz de surdo com as indicações de jornalistas do Império – diversos, citados de diferentes publicações estrangeiras – que se forçam a entender e fazer mea-culpa diante da doutrina Bush.

Sua sagacidade (de Arantes) em apontar as entrelinhas das guerras contemporâneas reside em aliar teoria e contexto. “A guerra cosmopolita (...) nada mais é do que a manifestação mais contundente do regime de estado de sítio planetário no qual estamos desde então nos instalando” (p.40). Mas o estado de sítio planetário, embora estejamos inseridos nele neste momento, não é, de modo algum, um fenômeno novo, como em determinados momentos dos ensaios (no primeiro e no “Estado de Sítio”, o melhor) deixa transparecer. Aliás, a deixa de que “guerras cosmopolitas” – com diferenças de estilo e motivação, é claro – são verificadas no passado histórico foi dada pelo próprio Arantes, em determinado momento: “Niall Ferguson relembra que, durante o reinado da rainha Vitória, a Inglaterra empreendeu 72 campanhas militares, mais de uma por ano, ao longo da Pax Britannica e conclui que foi dinheiro bem gasto, pois na prática o livre-comércio nunca ocorre espontâneamente” (p.46). A citação a Ferguson, historiador pop (com seus erros e acertos), é precisa e poderia vir acompanhada de exemplos-mil.

Um pequeno diálogo com o livro de Arantes, portanto. Logo abaixo.


Vivemos um período de exceção?

Pode ser. Acho que essa análise, com muitos acertos, está absolutamente inserida num contexto histórico que, hoje, está mais restrito. Ao longo dos anos 80, especialmente a partir da segunda fase do governo Gorbatchev (com aquelas mudanças e discursos todos) que coincidiu com a perenização da doutrina Reagan-Thatcher (Reagan, afinal, fez seu sucessor: o vice, George Bush), iniciou-se um processo crescente de “fato novo”. Alguns boçais, como Fukuyama, chamaram de “fim da história”, outros, entenderam como fim de um ciclo (Hobsbawn) e outros, ainda, como processo histórico (Arrighi, por exemplo). Um parêntesis para esclarecimento: o único boçal aqui citado é Fukuyama, ok? Não vamos entender errado... Fecha parêntesis.

Essa mudança de rumo, exemplificada no eixo EUA-Inglaterra – que teve, perdoe por me alongar, um momento crucial que é pouco estudado: a inflexão, em pouco menos de 18 meses, do governo Miterrand, na França de 82-84 – se alongou pelos anos 90 (Clinton e as “guerras preventivas”) e eclodiu no biênio 2000-2001 quando os cowboys da direita mais isolacionista pertencente aos republicanos subiu ao poder, com George W. Bush. A partir dali, tendo como estigma e símbolo, o 11/09, seguiu-se um período sintomático de nossos tempos, que se estende de 2000-2001 a 2006, sendo 2002-2005 o núcleo forte de poder. Ali, há manipulação direta e indireta, intoxicação “nacionalista” – Arantes cita, com êxito, colunista da Newsweek defendendo a tortura (!!) no pós-11/09 (p. 162) – e até certo desejo por vingança e “justiça”, que seria (e foi, para muitos) alcançada por meio da intervenção militar contra os “terroristas” no Oriente Médio. Aí está a “guerra cosmopolita” (até porque abraçada por várias potências econômicas) e o estado de sítio planetário advogado por Paulo Arantes. O fecho disto está na citação de Martin Wolf, do Financial Times de 11/02/2004 (reproduzido na Folha do mesmo dia): se referindo às reservas internacionais das nações (avançadas e emergentes, tendo a China à frente), todas aplicadas em títulos públicos norte-americanos, Wolf diz que “esse deve ser o maior programa de ‘assistência’ de todos os tempos, em proporção do PIB mundial, permitindo que os EUA travassem guerras sem se privar das vantagens da paz, evitando a necessidade de escolher entre canhões e comida” (p. 184).

Este é a conjuntura que forjou a análise de Arantes – toda sua erudição em Estado de Sítio é de 2005, 2006 e início de 2007, ano em que o livro foi lançado.

Tivemos mudanças de lá pra cá. A mais forte delas sendo a eleição de Obama (um tema batido que quase chega a clichê, repeated to death), mas tendo o fracasso interno do governo Bush sendo jogado na cara da população americana (o Katrina sendo o gatilho e a falência econômica de julho/2007 alcançando o pânico de set. e out. do ano passado) como pano de fundo. (Tem muito mais, claro, como, por exemplo, a decadência de Tony Blair em 2007, pós-Estado de Sítio). Nada disso, embora sejam mudanças importantes, atrapalha a argumentação de Arantes, que, por estar inserida num contexto, conforme estou defendendo aqui, não precisa responder a mudanças posteriores, ainda que elas já estivessem presentes lá, no subterrâneo.

Estamos hoje, num período de transição. Há estado de sítio? Sim, há. Como vimos, sempre houve. Benjamin cunhou o estado de emergência e o estado de exceção (como Carl Schmitt também) antes até do nazismo. Antes dele, Marx tratou do período Napoleônico em termos semelhantes. Tivemos, no meio deles, o período “glorioso” da rainha Vitória, na Inglaterra. Outros exemplos no passado (histórico e/ou recente) não faltam. O período 2000-2001 até mais recentemente é um deles. O estado de sítio é mais global que se imagina: é humano. Conseguimos, sem forçar a barra, detectar ações e medidas em todos os contextos, com diferentes colorações partidárias e ideologias.

O exemplo atual, que denota um estado de sítio mais restrito que o período analisado e problematizado por Arantes, seria a situação de Israel e Palestina. Mas mesmo ela não é “atual”, embora esteja presente: suas raízes vêm de longe, desde quando os líderes árabes foram assassinados, um a um, ao longo dos anos 30, antes até da criação do Estado de Israel, nos idos de 1948.

Vivemos um período de transição simplesmente porque, diferentemente dos anos de doutrina Bush, não há um sintoma claro e evidente para aglutinar os diferentes movimentos globais. Podemos retomar para um período semelhante a todos estes citados aqui (e muitos outros, claro) e ingressarmos em novo estado de sítio planetário. Podemos também passar por uma sucessão de “mini-guerras cosmopolitas” que ensejam atenção de diferentes atores globais (já presentes e outras que surgirão).

A exceção, quando prolongada no tempo, se torna normal. Podemos estar, sem perceber, advogando tempos “normais” que, no fundo, não passam de uma grande exceção. Neste caso, o estado de sítio que surge – ou que deveria surgir – é o que rompe com ele mesmo, instituindo modelo novo.


Finalmente (porque cheguei atrasado, mas estou acompanhando a discussão na medida do impossível, fazendo coisas mil), rápidos comentários:

O post do Alexandre está primoroso. Destaco sua análise quanto à extinção da inteligência, que, na minha opinião, dá enorme pano pra manga. Espero, mais tarde, me alongar nisso, mas não estou prometendo 

A análise sobre fronteira e o novo imperialismo norte-americano que o Hugo desmembrou está ótima, bem como os comentários subsequentes.

Excelente o comentário (o primeiro) do Maurício Caleiro acerca da forma que Arantes dá a seu texto. Divido totalmente suas impressões.

Os comentários estão de muito alto nível. Acho que isso deve ser registrado aqui. Parabéns ao Alexandre pelo grau de análise atingido com o blog, que puxa excelentes leitores e comentaristas. Acho que todos, especialmente aqueles que estão acompanhando sem, necessariamente, escrever um comentário, estão aproveitando.

E por último, uma rapidinha. Bruno Pinheiro: acerca de sua lembrança quanto ao crony capitalism (expressão que o economista e professor Dani Rodrik usa recorrentemente), o “capitalismo de compadres”, aí está um grande debate: onde estão os estrategistas e cargos executivos do passado brasileiro? Pegue todos, por exemplo, que passaram pela Fazenda e Banco Central, do fim do governo Sarney ao começo do segundo mandato de Lula (quando houve a última mudança no BC). Onde estão os diretores, presidentes e ministros, um por um? Capitalismo de compadres na veia, meu amigo.

Abraços


Idelber,

O "zumbido" viriliano perpassa a primeira parte do livro toda, como se produzido não por uma abelha, mas por uma colméia. É uma referência difusa, não-específica, mas dois livros de Virilio me vinham de quando em quando à cabeça durante a leitura: "O espaço crítico" e, sobretudo, "Guerra e cinema". As referências a este são por vezes explícitas, sobretudo nas comparações e nas metáforas que Arantes utiliza (a diferença é que Virilio as aplica, evidentemente, em relação ao cinema, e Arantes o faz em relação ao, digamos, aspecto político-social da "guerra cosmopolita"). E, ao meu ver sem dúvida nenhuma, essa "leitura que 'chapa' tudo como se as hierarquias entre as várias posições de poder dentro do globo tivessem desaparecido" de que você fala é quase que uma metodologia que une Arantes e Virilio.

Alexandre,
Talvez estivesse claro um ano antes da eleição que o PT já tinha, digamos, guinado à direita, não sei lhe dizer ao certo. Para Arantes, como para tantas outras pessoas bem-informadas, certamente era essa a impressão. Mas não ficou claro para mim o que você quis dizer quando pergunta se ele não estaria então fazendo o jogo do outro time. A minha impressão estritamente pessoal - parcialmente baseada em reações semelhantes que presenciei de acadêmicos de esquerda e da mesma faixa etária de Arantes - é que o desencanto dele vem justamente desse momento, e que aquela primeira reação virulenta, embora fizesse o "jogo do inimigo", era a autêntica revolta de um esquerdista que acredita estar presenciando uma única (e para ele´possivelmente última) chance de ver um governo de esquerda "de fato" subir ao poder. (Não estou dizendo que corroboro essa visão - a bem da verdade, dela divirjo). Agora, por que a Folha parou de ouvi-lo? Creio que porque nas últimas intervenções dele no jornal (lembro-me especificamente de uma na seção Tendências/Debates) ia ficando cada vez mais claro que a crítica ao lulismo embutia uma crítica maior ainda ao fernandismo, ao neoliberalismo e a todos esses "ismos" apoiados pelo jornal dos Frias. Mas reforço: isso é minha opinião pessoal, posso estar enganado.

Quanto ao pensamento periférico, não quis dizer que o por mim alegado elitismo do Arantes se traduza em ignorar tal coisa. Mas mesmo o modo como ele investiga os méritos desse pensamento nos dois livros por você citados - e que me parecem extremamente problemáticos em diversos níveis (a concepção de arte que ele adota sendo sem dúvida o mais grave deles, ainda mais por afetar a metodologia empregada)-, ele o faz, na minha opinião, a partir de uma certa posição e de uma certa atitude - que eu sintetizaria provocadoramente como "uspianismo de casaca". E isso é realmente um problema, porque implica na adoção de certos parâmetros pouco ou nada compatíveis com o objeto de estudo o qual ele enfoca. É o resultado desse choque que a mim por vezes soa como elitista.

A tempo: perdão a todos pelo comentário repetido e por eu não "negritar" os nomes dos interlocutores, mas sou uma anta cibernética e é mesmo um milagre que eu consiga manter um blog...


Pôxa vida, tantos comentários refinados como esses, é preciso parar um pouco para ler e digerir as ideias. Bem, recomeço com a bola que o João levantou: Vivemos um período de Exceção?.

Vamos pensar que diabos é a ideia do Direito: Ele é aquilo próprio do que é reto, sua ideia já chega na questão de uma normatização, onde as coisas devem ser adequadas a um ideal. Seria o meio para se chegar à Justiça - e assim o é nas línguas do antigo Império Romano do Ocidente, onde nas línguas neo-latinas temos um derecho, droit, diritto e nas línguas de maior influência germânica o recht e o right(ainda que seja preciso ter um cuidado danado com traduções de expressões jurídicas inglesas por conta da forma como o seu sistema jurídico influenciou sua língua, onde law, por exemplo, tem um conteúdo semântico maior do que "lei" ou qualquer análogo latino).

Em Roma tínhamos jus e a justitia (meio e fim) e na Heláde o dikaíon e a dike (meio e fim). Pensemos então na Justiça como o princípio necessário para a funcionalidade da interação das coisas em sua forma e em seu movimento. Entre sujeitos, você precisa de um meio para chegar a tanto porque eles têm consciência e isso se deve a consciência de que um dia vão morrer. Eles saem da linha e precisam de algo que os organize.

Pois bem, você tem uma regra de Direito que põe as coisas de acordo com esse ideal para garantir essa Justiça, mas não raro você precisa de algo que os ponha na linha porque algum evento inesperado aconteceu. Eis a exceção, uma mudança na direção porque a direção antiga iria te fazer sair da estrada por conta de uma curva - mas a questão é: E se você resolveu simplesmente mudar de estrada? Ou: E se a estrada seguida for oblíqua e não reta? Daí você precisa de exceções seguidas de exceções para acompanhar sua tortuosidade.

O Capitalismo é essa estrada tortuosa e é por isso que a exceção vira regra geral, a estrada é curvilínea e não reta. Por detrás do verdadeiro embuste que é o chamado direito positivo do Estado burguês - que de direito tem muito pouco, sendo juridiforme e não jurídico - você tem uma ordem real que precisa ser garantida e a lei escrita é muito mais um exercício retórico, algo sofismático que pode ser derrubado na hora que for necessário para que esse ideal seja preservado - e ele, repito, não é reto. O x da questão é que os efeitos disso - das contradições do capitalismo - são projetados para fora pelos países ricos na forma de uma divisão internacional do trabalho onde administradores (americanos, japoneses e europeus ocidentais) mandam em produtores industriais (brasileiros, russos, chineses e indianos) enquanto o resto é surrupiado em seus bens naturais. Esse estado de sobrexceção é mantido nos países pobres via estrutura hierarquizada e policialesca de sociedade onde uma parcela desses administradores pós-coloniais deve ser devidamente remunerada para manter essa ordem que é, na verdade, global.

Há um proto-Estado global - afinal, os Estados nascem da necessidade dos agentes econômicos em criarem normas que organizem o sistema - que dita isso e o que vemos é o crescimento da opressão e da violência, mas por excelência esse oblíquo é uma contradição e tende a nunca se equilibrar.

Quais as formas de luta? O Leninismo foi a coisa certa feita do jeito errado e abriu espaço para o germe do Stalinismo progredir e crescer. O Stalinismo, em sua concepção, era uma forma de criar um capitalismo in vitro manipulável e controlado pela ditadura do proletariado destinada a realizar a acumulação de capital necessária - que a divisão internacional do trabalho negara e negaria para sempre à Rússia - para se chegar ao Comunismo. Foi a coisa certa feita do modo errado, pois sabemos que não apenas o fins justificam os meios como também é necessário que os meios estejam de acordo com os fins. Na maré do evidente fracasso stalinista, ainda havia, paralelamente a estranha ideia da social-democracia. O que é social-democracia? A ideologia que acredita ser possível através do aparelhamento do Estado Burguês, por meio de vitórias nas eleições burguesas, e a decorrente construção de um processo evolutivo civilizatório - mas quais os fundamentos materiais que permitiram a existência de tal sistema? O temor do espectro comunista na Europa ou será que essa evolução é possível? O desmonte do welfare state na Europa é uma anomalia ou algo previsível? Ademais, é verdade que "quanto pior, melhor" ou "quanto pior, pior"? O que fez a Revolução Russa: O fim da servidão em 1861 ou a Primeira Guerra?

Arantes reage contra o PT porque ele não considera a via petista, uma espécie de social-democracia - seja ela tática ou estratégica, isso é uma puta discussão - como algo sustentável. Teme que as conquistas do governo Lula sejam reversíveis por conta de bases que ele não considera sólidas - naquele momento, início do Governo Lula, muitas das conquistas sociais do Governo não eram tão visíveis ou não tinham se consolidado e ele também não as anteviu ou as considerou. No entanto, ele expressa isso de uma maneira simplória ao nivelar tucanos e petistas - por uma mistura de míopia com arrogância intelectual e desconsiderar milhares de coisas. Também é simplório ao não olhar em volta e analisar a conjuntura, o que é possível ou não. É um quê do desespero individualesco que o Maurício sente nele e eu também sinto.


Idelber: bom v. ter aparecido! Pode falar o quanto v. quiser, afinal, não estamos discutindo o livro em si, mas os problemas que ele levanta - e também o autor, que v., obviamente, conhece. Quanto ao Virilio, concordo com o Maurício, com uma ressalva: nem Arantes nem Virilio acreditam que essa nova configuração da máquina de guerra elimine a "assimetria do sofrimento" ou a sua crueldade, o que ela faz é anestesiar a percepção que temos deste (Arantes seguidamente repete o quanto a nova guerra é mais cruel quanto mais "cirúrgica").

Maurício: desculpa, não me expliquei direito quando à "desolação". Concordo quanto à ela, inclusive partilho dela, todavia, externar isso em entrevistas à Folha de S. Paulo é de uma ingenuidade quanto ao tabuleiro político (ele estava fazendo o jogo do neo-udenismo) - e, com certeza, Arantes não é ingênuo. Se a entrevista fosse na Caros Amigos, sem problemas. A Folha é a extinção da inteligência cristalizada. Quanto ao "uspianismo de casaca" e a inadequação do manancial teórico que usa para ler a arte, estou de pleno acordo. Inclusive, acredito que o Zero à esquerda marca certa inflexão quanto ao uspianismo, ainda que não no que se refere ao cenário cultural.

João Villaverde: já tava achando que v. não vinha mais! Sua contextualização do livro é interessante, ainda que possamos inferir que Arantes não partilharia dela. Por isso reclamei de certa falta de matização quanto à leitura do cenário político que ele faz. Lula é diferente de FHC, assim como Obama é diferente de Bush. Ainda que nenhum vá alterar as estruturas do capitalismo, presidentes operário e negro não são exatamente o status quo. Que o sistema os aceite, pode ser, mas aposto que o tal sistema preferiria os antigos. Acho que o golpe de Honduras, levantado no debate, vai por à prova essas diferenças: em certa medida, já pôs, afinal, houve condenação internacional unânime, mas ainda não ficou claro o que será feito de fato - e a situação se revela uma sinuca de bico: invadir, ou mesmo embargar economicamente são soluções da old school, mas os golpistas se recusam a qualquer acordo diplomático.


Pelamordedeus: "Arantes reage contra o PT porque ele não considera a via petista, uma espécie de social-democracia - seja ela tática ou estratégica, isso é uma puta discussão - como algo INsustentável"


Hugo: acho que a frase originalmente estava correta não? Arantes NÃO considera a via petista como algo sustentável.

Gostaria de reiterar uma pergunta a todos: o que Arantes entende por "império"? É uma coisa que não me ficou clara, ainda que ele discuta um bocado a noção.


De fato, eu me corrigi erradamente :)


Pois é Alexandre, estive acompanhando desde o início, mas a pauleira da rotina não permitiu uma interação logo cedo. Mas cá estou, meio aos trancos e barrancos, para dar meus dois centavos nesta discussão, que está, como disse anteriormente, muito rica. Parabéns mais uma vez.

Vamos a algumas questões (aos poucos vamos acompanhando tudo)

Concordo: Lula é diferente de FHC, assim como Obama é diferente de Bush. Ainda que nenhum vá alterar as estruturas do capitalismo, presidentes operário e negro não são exatamente o status quo.
É exatamente isto. Embora Arantes não tinha como prever Obama em 2007 -- ninguém poderia -- ele certamente carrega demais na tinta quando analisa o governo Lula naquelas entrevistas que são publicadas no final.

Sobre isso, dois pontos:
1) o Maurício Caleiro acerta quando diz que Arantes era muito usado na mídia para criticar Lula e que sumiu quando sacaram que suas críticas tinha como fundo o governo FHC. Aí é que está o bicho! Arantes criticou (e critica) o governo petista ao mesmo tempo que criticava FHC, mas não parou para pensar que, ao fazer isso, estava colocando um como igual ao outro.

Eles não são e não é preciso ser petista, tucano, peemedebista, "democrata" (refiro-me ao DEM-PFL), ou que quer que seja. Muita coisa da política econômica de FHC permaneceu no governo Lula, especialmente durante seu primeiro mandato. As taxas de juros explosivas estavam lá, o baixo crescimento estava lá, o superávit primário também (e maior que durante FHC), a CPMF, etc. Mas as diferenças também são enormes (estes pontos são mais corriqueiros, então não vou me alongar), mas basicamente: Bolsa Família, PAC (programa de investimentos do Estado com participação ativa de estados e municípios) e o fortalecimento do Estado em áreas estratégicas, como extração (falta melhorar o refino!) de petróleo e agências de investigação (PF, Ministério Público e Abin) e justiça.

Não deixa de ser curiosa sua (de Lula) ligação com Sarney e com Collor. As justificativas apresentadas -- de que FHC também o fez -- são verdadeiras, mas tem um limite óbvio: se for considerado OK fazer qualquer coisa simplesmente porque FHC abriu o precedente, o governo fica numa sinuca curiosa.

2) Há, ao menos para mim, um rancor do Paulo Arantes que permeia suas análises do governo Lula. E não me refiro apenas às que estão presentes no Estado de Sítio, mas em suas intervenções no debate político-eleitoral-ideológico posteriores a 2006-2007.

Sobre isso, aliás, cabe uma reflexão sobre um ponto que você, Alexandre, levantou no post: a questão do "grau zero" da terminologia ideológica. Ainda que na Europa, muito recentemente, isso tenha sido colocado em prática (com as eleições para o Parlamento Europeu, com campanhas ideológicas, ainda que claramente atendo para os interesses individuais), há um derretimento -- não vou falar em extinção, embora o termo não esteja errado diante do quadro geral -- das cores ideológicas muito profundo.

Há um debate muito interessante que se coloca aí.
Abraços


Eu não diria que Paulo Arantes é "simplório" ou tem má vontade com o governo Lula ou o PT. O ponto é que a plataforma dele não é exatamente essa, a da crítica pontual a um determinado governo. O livro integra a crítica ao contexto brasileiro a um pensamento mais orgânico em torno da sociedade capitalista recente. A proposição de Arantes é exatamente esta: equilibrar-se na crítica isenta, na palavra empenhada, naquele âmbito "insituável" (perdoe-me o neologismo) em que Edward Said se mantinha, qual seja, o "intelectual no exílio". A plataforma de Arantes não é produzir uma teoria política e enquadrar os agentes sociais, salvando os justos e condenando os ímpios; na verdade, o próprio estilo do Arantes de antemão já pressupõe um certo distanciamento desse matiz mais empírico (já ressaltei isso, anteriormente).

É, de certo modo, "injusto" manter com este livro de Arantes um diálogo que tente absolver o PT ou o Lula como se ele não representasse o que Arantes diz que ele representa. No frigir dos ovos, onde é que Arantes não tem razão? (Talvez apenas no momento em que ele acena que a política do bolsa família é "migalha" e "eleitoreira"...) Acho justo, por outro lado (que é o que alguns têm tentado fazer aqui), afirmar que essa crítica não basta e precisamos fazer um enfrentamento mais empírico dos vícios e êxitos do Governo Lula. Se há algum problema na postura de Arantes, isso talvez se deva a um anacronismo tipicamente "marxizante" que se refugia na pureza imaculada d'O Capital (não é tanto o caso, falo isso apenas para estereotipar mesmo), que, como bem lembrou alguém aqui, joga nas mãos da oposição irresponsável um trunfo -- trunfo que, no fundo, só é possível porque, na mídia, não há espaço para uma crítica responsável do governo atual.

Nas entrelinhas: não me importa tanto perguntar "Arantes tem razão quanto ao que ele diz sobre o governo Lula (ou qualquer outro)?"; importa, antes, perguntar: "Supondo que ele tenha razão, e agora?". E, para questionarmos se Arantes tem ou não razão, precisamos sobretudo averiguar os princípios teóricos de que Arantes lança mão. O panorama é outro: na proposta de Arantes não cabe nenhum parti pris que não seja a própria causa defendida. Nesse sentido, a sua contribuição é menos analítica do que filosófica...

Agora, se quisermos debater o quanto infinitamente melhor é o governo Lula comparado à tucanagem (coisa com que todos aqui, aparentemente, concordamos), então o paradigma não pode ser a tese de Arantes -- que, por princípio, nivela mesmo as coisas (afinal, o foco dele é o capitalismo, a estrutura subjacente, e não tal ou tal agente, como eu disse há pouco). Para isso, apoiando no que acabou de dizer o Alexandre, o livro é um bom pretexto.

[mode autocrítica on] Imagino que este meu comentário não será muito popular aqui... [mode autocrítica off]


Alexandre,

Eu concordo inteiramente contigo quanto ao Arantes ter agido de modo a beneficiar o neo-udenismo por ocasião das entrevistas à Folha. Acho, inclusive, que ele fez isso de caso pensado, e talvez até com vontade de intervenção efetiva no cenário político tal como ele o via. Uma vitória de Lula, naquelas condições, se lhe apresentava como uma derrota do projeto histórico da esquerda. Cansei de ver esse tipo de reação à época, de pessoas que prefiriam que Lula perdesse porque pressentiam que ele não faria um governo obediente aos preceitos esquerdistas canônicos (como de fato não o fez). Ele age, portanto, de acordo com uma lógica marxista tradicional: colaborar para que se abortasse aquele projeto - ainda que se aliando temporariamente ao neo-udenismo - equivaleria a manter acessa a possibilidade de um embate futuro entre as forças de direita e de esquerda com a vitória de uma aliança fiel aos preceitos canônicos da última, particularmente no que concerne à economia. Além de várias outras passagens no livro - inclusive a que citei no segundo comentário (p. 217) - a seção "Um intelectual destrutivo" permite vislumbrar o quanto há de marxismo tradicional por trás da máscara de intelectual contemporâneo que Arantes veste.

Quanto ao conceito de Império:
Penso que é propositadamente fluida a noção de império desenvolvida ao longo do livro. Com todo o respeito a quem já afirmou discordar dessa posição, eu não descartaria, a priori, a noção de "Império" tal como desenvolvida por Negri e Hardt como uma das fontes às quais Arantes recorre para conferir sentido o vocábulo em seu livro. Duas das idéias mais caras à definição produzida por Negri e Hardt - a de império como expressão jurídica de uma economia globalizada e a de este não se basear em limites físicos ou territoriais - estão presentes na obra de Arantes. No entanto, como genuíno marxista, ele recusa um aspecto essencial da obra do italiano, herdada do pós-estruturalismo, que é a avaliação, matizada e relativizada, mas efetiva, dos aspectos contra-hegemônicos, "positivos" - ou passíveis de o serem a médio prazo -da globalização. Ele substitui esse aspecto, em "Extinção", por um quase seu contrário: uma crítica esquerdista mais tradicional ao imperialismo, que não denuncia seu caráter potencialmente anacrõnico pois aparece matizada tanto pelos aspectos que Arantes aproveita do conceito de Império de Negri e Hardt quanto por um terceiro elemento, que associa-se, por exemplo, à influência de Paul Virilio e que eu denominaria de "ultrametaforização", por meio do qual a tríade militarização-mídia-economia informatizada passa a operar, discursivamente, como um ente autônomo que não apenas representa, mas constitui o império.


Antônio: "Imagino que este meu comentário não será muito popular aqui... " - pelo contrário: eu concordo com tudo o que v. diz - e mesmo sobre o que Arantes diz, quando ele se mantém no plano geral. Só não entendo porque descer ao plano específico. "Estruturalmente o governo Lula não modificará o capitalismo". Bastava dizer isso. Estou de pleno acordo. Só não entendo porque entrar nas "minúcias" que Arantes entra - e ao fazê-lo para a Folha, ele, querendo ou não, se mete num jogo partidário que ele renega. Por isso, acho a parte final do livro dispensável. Ou seja, a questão PT X PSDB - que creio, de fato, ser ponto pacífico entre os que tão participando aqui - tá sendo levantada não como um valor em si, mas para entender o procedimento do Arantes. Por exemplo: eu não vi no Estado de exceção nenhum anexo em que o Agamben reproduzia entrevistas malhando Berlusconi em específico. Até porque o Agamben quando é entrevistado e/ou se posiciona quanto a casos específicos, sempre faz o movimento de levar a reflexão a esse plano mais geral, evitando cair no jogo partidário. E para provar que o seu comentário não desagradou, ao menos a mim:

João: acho que uma prova do "grau zero da terminologia ideológica" é a "Carta ao povo brasileiro" da campanha lulista de 2002: já era claro ali que o PT cumpriria os contratos, mas ele teve de redigir um documento que, no fim das contas, atestava que estava abrindo mão do discurso antigo.


Antônio,

Eu não disse que o Paulo Arantes é um pensador simplório, mas sim que o ponto equivocado do qual ele parte para a comparação entre Lula e FHC - a falsa simetria - torna a análise dele simplória. A questão não é absolver ou não ao PT, mas fazer uma crítica mais profunda - e a Crítica, nada mais é que técnica do distinguir para decidir, se se distingue errado, se decide errado, eis a questão.


Maurício: não tinha pensado nesta incorporação dos elementos do Negri e Hardt. Como Arantes faz uma crítica forte aos dois - aqui, por exemplo -, não achei que isso era possível. Mas também notei que a dominante na idéia de Império é a concepção marxista clássica - o que enfraquece, a meu ver, o "Pensando por fora", um dos pontos altos do livro, como já foi dito aqui. O curioso é que o primeiro comentário do debate foi justamente alguém comentando que o mérito do livro consiste "em apontar o esgotamento de categorias tradicionais no tratamento de cenários diversos". Mas são basicamente categorias tradicionais que Arantes mobiliza, tentando incorporar aqui e ali achados mais recentes. Todavia, é um esforço louvável considerando a endogenia uspiana.

Quanto ao que fazer a partir do cenário traçado pelo Extinção - é o que Antônio nos propõe a debater, há um pequeno problema: se, aqui e ali, como no "Pensando por fora" que acabei de mencionar, o Arantes aponta para estratégias de combate ao capitalismo, como a dos piqueteiros que resistem a trabalhar (o autor faz a ressalva de que falta organizar este movimento a ponto de se tornar um poder de veto), a camisa-de-força de certas categorias marxistas clássicas que prende o livro parece nos fazer crer que não há saída. Por um lado isso é positivo, pois nada ingênuo, mas por outro restringe ou quase anula o campo de ação (e não estou falando de governo Lula como campo de ação, penso em novas modalidades de política, espontâneas ou geradas pela internet - que, se seguíssemos o Extinção, teríamos de descartar como irmanadas com o Império).


Alexandre,

Bom, se é assim que o Arantes se pronuncia em relação ao Negri e ao Hardt então eu não resisto a uma ironia (que vai escancarar minha posição, mas tudo bem): alguns conceitos desenvolvidos no livro "Império" são tão rebarbativos - império como expressão jurídica de uma economia globalizada e o de não se basear em limites físicos ou territoriais são exemplos acabados disso - que mais exato seria dizer que Arantes faz uso, em seu próprio conceito de império, além de das duas outras fontes que apontei, de conceitos que são praticamente de domínio público no debate sobre globalização, tanto foram repisados nos últimos 20 e tantos anos. Só que como "Império" virou, até fora da academia, "A" referência no assunto (na minha opinião justamente por seu conservadorismo travestido de análise contemporânea), então tende-se a atribuir a Negri e Hardt a paternidade de tais e de outros conceitos...


Alexandre,

Bom, se é assim que o Arantes se pronuncia em relação ao Negri e ao Hardt então eu não resisto a uma ironia (que vai escancarar minha posição, mas tudo bem): alguns conceitos desenvolvidos no livro "Império" são tão rebarbativos - império como expressão jurídica de uma economia globalizada e o de não se basear em limites físicos ou territoriais são exemplos acabados disso - que mais exato seria dizer que Arantes faz uso, em seu próprio conceito de império, além de das duas outras fontes que apontei, de conceitos que são praticamente de domínio público no debate sobre globalização, tanto foram repisados nos últimos 20 e tantos anos. Só que como "Império" virou, até fora da academia, "A" referência no assunto (na minha opinião justamente por seu conservadorismo travestido de análise contemporânea), então tende-se a atribuir a Negri e Hardt a paternidade de tais e de outros conceitos...


Well, it's not my fault... o sistema avisa que o comentário não foi enviado, mas ele o foi...


Alou, sinto muito por chegar atrasada, porque a coisa está quente. Quantos meninos inteligentes, minha nossa!
Então, queria complementar o comentário do Idelber porque me encaixo na situação dele, ou quase: li alguns ensaios do Extinção há um tempo atrás. E, além disso, queria falar do Virilio. De fato PA está embebido em Virilio, sobretudo no seu livro, A insegurança do território, acho que não está traduzido ao português. O livro de Virilio é uma radiografia forte e contundente da sociedade contemporânea, mais profunda e lúcida, creio eu, que a do PA. Deleuze o cita abundantemente nos Mil Platôs. É nele que Virilio aponta para inversão da máxima de Clausewitz (pouco antes já tinha feito Foucault para falar, justamente, da biopolítica). Em 1973 Virilio já detectava que a guerra civil seria o maior problema do fim do século e também apontava para uma sociedade para-civil. Um texto emblemático que compõe esse livro é A ideologia sanitária (lembrei do post no seu blog, Hugo)em que ele propõe um social associal. Uma alternativa muito mais interessante para ler o PCC do que a proposta de Arantes, que no seu texto sobre o PCC falha, a meu ver, na seguinte frase: "importa pouco a essa altura saber quem está extorquindo quem". Bom, para mim, se tem alguma coisa que importa é esclarecer isso. Entendo que é uma zona cinza e que é muito difícil diferenciar vítima e carrasco, mas ou enfrentamos isso ou estaremos dando as costas ao problema.


Hugo:

Plenamente de acordo... Plenamente de acordo... Realmente é simplório o ponto de partida para uma comparação/crítica. Mas insisto: a comparação/crítica não é o fundamento do livro (pensando holisticamente); em outras palavras, o livro não pretende concluir com a ideia "PT e PSDB são irmãos". A rigor, nem comparação existe em Extinção, pelo menos não nos termos em que vc brilhantemente a definiu, como uma "técnica para distinguir"; que ambos os partidos são iguais, está é uma ideia que já está bem prenunciada na primeira metade do livro (talvez eu esteja enxergando demais -- concedo a crítica).

Para ir dormir, fecho com a Flávia: precisamos desesperadamente saber quem é quem nesse eterno jogo político e econômico do "deserto (brasileiro) do real". O problema é que, no nível da crítica, determinar quem é quem pode ser arriscado... Faltou ao Arantes correr esse risco, pois ele nos deixou sem nada. Corramos, nós, portanto, tal risco, mantendo-nos vigilantes para fazer valer, na mínima ação cotidiana, o estado democrático de direito (e canto loas ao Idelber e ao Alexandre por constantemente levanterem, em seus blogs, episódios que merecem uma análise mais contida). Mas corramos o risco sem deixar jamais de habitar a morada da suspeita, onde Arantes parece estar sempre muito à vontade...


P.S.: Vcs são os melhores interlocutores. Sinto que o que eu lhes digo faz sentido. Vcs são muito generosos, hehe! Boa noite a todos!


Flávia,

Obrigado pela lembrança e concordo plenamente com esse ponto em relação ao texto sobre o PCC. Aliás, se me permite uma adento, uma dos pontos pelos quais eu considero que essa ideologia sanitária, um dos sustentáculos do Nazismo, como anti-iluminista é justamente esse: Se a Sociedade Civil, filha querida do Iluminismo, é a forma de organização coletiva formada por um ato de vontade e mediante a qual o associado, considerado enquanto indivíduo, se vincula solidariamente - e que fique claro que eu me refiro aqui a solidariedade enquanto modalidade de obrigação jurídica - aos demais, devendo proteger a vida de cada um dos demais integrantes podendo exigir, como contrapartida, que qualquer um proteja sua vida caso ela esteja em perigo, então esse sanitarismo marca a ruptura desse paradigma.

Antônio,

A Crítica é a técnica não apenas do distinguir, mas do distinguir para decidir, o sufixo "tica" designa uma techné, o morfema "cri" - o mesmo de crise - indica distinção para decisão. Mesmo não sendo fundamento de todo livro - porque de uma parte, ele é -, ele faz isso ao nivelar o PT como um Partido da Ordem. Ora essa, o PT não é partido da ordem coisa nenhuma. Pode se considerar que a forma pela qual o PT se opõe a ordem dominante é a melhor ou a pior, mas não negar isso, do contrário, a campanha intensa contra o partido que há na mídia corporativa seria inexistente - e Arantes, sendo entrevistado pela Folha, me parece alheio a esse detalhe.


Flávia e Antônio: para linkar o que vocês falaram com a minha implicância em relação às críticas de Arantes ao PT: justamente por ele achar que não importa saber "quem está extorquindo quem" que as entrevistas à Folha se tornam mais confusas. Pois, se existem relações de poder, ou relações de conflito entre forças políticas, e ele se posiciona sobre uma delas, ainda que ele faça generalizações, o momento da entrevista e onde ela foi veiculada, o insere nestas relações - ao se dispor a isso, ele entra no jogo e, por exclusão, o tucanato (ou a sociedade brasileira) aparece como sendo "extorquido" pelo PT. Veja bem, não estou dizendo que o PT é inocente - "Ninguém é inocente em São Paulo", como diria Ferréz -, mas ele não pode levar toda a culpa.

Me interessa, como vocês, saber quem é quem. Acredito que é por isso que estamos aqui discutindo. Só não sei se o arsenal teórico do Arantes - ainda que muito bom para uma vista panorâmica da sociedade contemporânea - serve para isso.


Antonio, Hugo, Alexandre:
é a velha história de tirar o corpo fora e não se comprometer recorrente na crítica brasileira. Isso é tão bisonho e tão primário que temos que repetir toda vez: ao não assumir uma posição você está assumindo uma posição. Ao dizer que não se compromete, você está se comprometendo. Meio cansativo. Pegando um gancho no Ninguém é Inocente em São Paulo: Ferréz é muito mais sagaz que PA, por exemplo, com o título deste livro ele nos diz que está na hora de repensar a ética, de nomear vítimas e carrascos.


Maurício,
acabo de ler seus comentários. Concordo plenamente com a sua ponderação em relação ao Imperio do Negri e do Hardt. Se não sabe do que chamar chama de Império que desce. Tem uma formulação do Badiou em que ele diz que "o Império aceita tudo", é interessante analisar da perspectiva que você coloca porque esta frase mostra que o Império, mais do que um censor, é um significante vazio (Alexandre, me corrija se eu estiver errada).
PS: O Joca arrasa!! Vou apresentar o Jango, meu cachorro. para ele.
Um abraço.


Flávia,

Penso que, sem dúvida, a aparência é de que se trata de tirar o corpo fora, como tantos acadêmicos que se dizem de esquerda fizeram e fazem em relação a Lula e o PT.

Por outro lado, no caso específico do Arantes, talvez trate-se exatamente do oposto disso, ou seja, de "pôr o corpo dentro" intencionalmente, ele finge não querer se comprometer sabendo que está se comprometendo. Por que ele age assim? Eu desenvolvo melhor essa teoria uns comentários acima, mas basicamente porque interessa a ele, como marxista "autêntico", fazer de tudo ao seu alcance para bloquear a chegada ao poder de uma força que se apresenta como de esquerda mas que, na percepção dele (e não só dele), está rendida ao ideário neoliberal. Ele sabe que se essa força chegar ao poder, a tendência será de um deslocamento do eixo político para o centro, minimizando ainda mais o espaço para os que estão à esquerda do projeto lulista (como de fato ocorreu).

É quase palpável, em "Extinção", o sentimento de desolação profunda de Arantes com o petismo, justamente por, na visão dele, o partido ter deixado de representar a esquerda.

É uma posição com a qual eu concorde? Não, de forma alguma. É confortável e soa elitista? Sem dúvida. Mas faz sentido para quem vem de uma tradição marxista e ainda tem no horizonte um esquerdismo "autêntico" no poder.


Flavia,

Você tá falando do meu Joca??? Ah, ele é o máximo. Tá tosado agora, mais feio do que o dono (rsss). Ele ia adorar conhecer o Jango (desde que ele não entregasse o poder pros milicos pela 2a vez, é claro...).

Um abraço.


Maurício,
concordo com você. Mas, tratando especificamente do texto sobre o PCC, no qual ele diz que pouco importa quem extorque quem, acho que fica um pouco mais complicado porque desestrutura toda a crítica que ele faz no livro inteiro. Se ele não se furta, então, em criticar o governo Lula, como é que ele se furta a denominar quem pratica as extorsões? Acho que aí ele não assume de que lado ele está. É claro que não acho que ele esteja defendendo a polícia, mas enfim, um pouquinho mais de contundência, talvez a mesma do Virilio, seria interessante. Quando a catástrofe é tão gritante não se pode deixar passar.

PS: Sim, o seu Joca. O Jango aqui não vai decepcionar. Ele é criado nos mais rígidos padrões comunistas para não cometer o mesmo erro. hehe. um abraço


Ah, entendi. Não me liguei que vcs tavam falando do PCC.

Bom, pessoal, adorei ter participado desse debate! Parabéns, Alexandre, pela iniciativa e hospedagem!

Eu quase não vinha, mas na última hora mudei de idéia e foi a melhor coisa que eu fiz. Achei a discussão de alto nível e foi realmente um prazer trocar idéias com vcs todos.

Espero que a gente se veja com mais frequência, se visite mutualmente e que vengan los toros, digo, que venham outros debates como esse.

Um abração a todos,
Maurício.


Amigos, vou para a cama. Queria agradecer a todos pelo dia de debate denso. Se não concordamos em tudo, concordamos ao menos que discordamos. Superou as minhas expectativas, que já eram altíssimas. De fato, temos que repetir mais vezes. Amanhã, postarei uma sugestão de livro para o próximo (data a ser definida de acordo com os interessados). Evidentemente, o debate não precisa parar por aqui. A caixa de comentários está aberta para que continue. Se comentei demais, peço desculpas, mas é que eu não resisto. Um abraço a todos e novamente obrigado pela excelente discussão que vocês proporcionaram.


Olá! O material tá longo e muito interessante para só dar uma olhadinha rápida (isso não serve de desculpa para o meu atraso). Mas antes tarde do que nunca (pensando do que diz a Flávia sobre a retranca chata do "prefiro não comentar"). Bem, também me pareceu que um dos pontos altos do livro é quando fala da fronteira. Aliás, falando da mobilidade da fronteira, Arantes expõe que a soberania é já questão governamental. Leia-se: tentativa estratégica de controle das catástrofes, ou melhor, tentativa de controle das "catástrofes" que não aconteceram - de tal modo que funciona (e o golpe de Honduras é um exemplo bem quente) como criação efetiva da catástrofe. Mas poderíamos dizer - na esteira do que o Agamben fala e desdobra desde Homo sacer ou do que Roberto Esposito fala em "Bios" - que a soberania, como conceito jurídico criado especialmente por Bodin e Hobbes (duas almas amadas pelo Schmitt), já é desde sempre governamental. E isso porque tem como veículo e destinatário a própria vida humana, ou seja, o conceito de soberania surge no momento em que ambos os teóricos tinham o maior pânico da morte violenta. Acontece que, como o soberano pode dizer que qualquer coisa é ameaça, a soberania se desbordela com ato de governo, como medida. E o Alexandre dá um bom exemplo disso ao dizer sobre a medida “que é preciso tomar”. Mais algumas coisas que me chamaram a atenção durante a leitura do livro. 1. O Arantes, falando da fronteira, muito menciona o caso da expansão norte-americana em direção ao oeste. Mas não fala que isso também aconteceu no Brasil e também em direção ao oeste, que, durante a colônia e antes de se saber do ouro, era tão somente "sertão". Bom, mas quero me referir especialmente ao caso da Guerra do Contestado, que, não sei se por algum pendor colonizado e politicamente engajado com a civilidade de sabonete, se prefere chamar de movimento de "fanáticos religiosos". Quem toma a tal guerra simplesmente como um movimento messiânico-monarquista esquece que as pessoas que viviam ali no meio-oeste de Santa Catarina desde épocas anteriores à monarquia brasileira foram utilizadas como mão de obra para a construção de uma estrada de ferro (alguma semelhança com o velho oeste norte-americano não deve ser fortuita) cuja obra era capitaneada pela Lumber, que, inclusive, recebeu direitos de exploração sobre essas terras. Além disso, fincar uma estrada de ferro ali era uma boa maneira de dar um fim na querela fronteiriça com a Argentina - assinalada, não por acaso, pelo presidente dos EUA, Cleveland, que mediava "diplomaticamente" o conflito. Podemos pensar que o conflito, no caso, para o Brasil podia muito bem funcionar como o velho esquema do aumento de território. Mas para os americanos, não tenho dúvida, de que também serviu de laboratório para esse pensamento da fronteira que pode estar em qualquer lugar. Uma fronteira que se faz inclusive pela implantação de conglomerados empresariais (a Lumber permaneceu na região por uns bons anos depois da década de 10). 2. O termo "império" me incomoda e fiquei bem entusiasmado em saber que não sou o único. Bom, quando o Maurício Caleiro nos diz "império como expressão jurídica de uma economia globalizada", remetendo-nos aos textos do Negri e do Hardt, só posso pensar que, tal qual a fronteira, essa expressão jurídica é móvel e calcada na velha exceção, uma vez que é mais expressão de governo (infinito) do que de meio para um fim ("justo"). Tenho a impressão de que "império" é muito mais "globalização" e, nesse sentido, o que se torna global é um conjunto enorme de elementos metafisicamente ocidentais que não precisaria com concretude (Hugo Albuquerque ao falar do homem branco acho que expressou melhor o que eu quis dizer) - mas não descarto disso, de modo nenhum, a noção de que vivemos num mundo de teologias secularizadas. São elementos sempre políticos, porque efetivamente afetam o viver junto das pessoas, mesmo quando dizem que não estão agindo politicamente. Para além disso, também tenho a impressão de que o Arantes se limita a fazer reverberar a noção de "império" já desgastada e, nisso, temo que de uma maneira ou outra, em última instância, ainda subescreva a noção de que há um caminho de salvação contraposto a um caminho de perdição na "ordem política" - cada vez mais intercambiável, "governamental" também (não digo que não se deva tomar decisões, entretanto).
Para finalizar, por enquanto, remeto a um texto de Ricardo Forster (www.rayandolosconfines.ar/variacion_frontera.html), sobre a fronteira do Marrocos com a Espanha, escrito mais ou menos na mesma época em que Arantes apresentava suas análises sobre a cavalaria global: "La frontera es el rostro de la globalización, su alter ego, la verdad de sus promesas, el punto exacto en el que pasan las mercancías y los flujos de dinero y se quedan las personas. La frontera es una línea en la que la pobreza y la oscuridad de la piel constituyen el límite, la marca de la sospecha. Aquello que la ideología del libre mercado propaga a través de todo el planeta, aquello que habla de la libertad, de la apertura de fronteras, de la libre circulación de productos, se cierra brutalmente sobre el cuerpo del extranjero, del inmigrante ilegal, del desesperado que intenta huir de la miseria y va en pos de una promesa que encuentra su paredón en esos muros que cierran el paso, en esas alambradas de púas que recuerdan otro tiempo europeo y que destacan el otro rostro de la civilización que se autocomplace en hu herencia ilustrada y democrática. En la frontera se desnudan las promesas, se muestran en su dura dimensión las limitaciones que el munundo rico le impone a los habitantes de esas otras regiones del planeta arrojadas a la intemperie y a la desesperanza". Bom, não se trata de pensar o lado de cá da fronteira como desesperança, nem de esperança. Os termos mais interessantes não são esses, mas sim "imaginação".


Citando Christophe Dejour, embora em outro contexto, Paulo Arantes conclui que um dos esteios do capitalismo é a “banalização da injustiça social”. Há que suportar o sofrimento social do qual padecem, afinal este sofrimento também aflige os “seus concorrentes” aos mesmos postos de trabalho, que, aliás, estão cada vez mais precarizados e escassos, podendo ainda ser “suprimidos na próxima rodada das demissões ‘sociais’”. Esse “treinamento” para suportar o sofrimento gera uma familiaridade com a violência e um endurecimento pessoal. Ao fim deste “treinamento” estamos já a um passo de justificá-lo. “Ora, as coisas são assim mesmo. Temos que lutar para manter o nosso emprego, pois poderíamos estar ainda numa pior”...

Tudo isso culmina em um exemplo que Paulo Arantes deu em “Pensando por fora”, o de trabalhadores brasileiros em uma marcha contra a ALCA e a OMC empunhando cartazes escritos “O Brasil quer trabalhar”. E arremata: “... que sociedade esquizofrênica é essa que, em sua imensa maioria composta de miseráveis e pobres, subempregados, que disciplinadamente enquadrada por aparelhos políticos e movimentos aparentados, clama pelo único produto que o capital hoje deliberadamente oferece a conta-gotas e em quantidades microscópicas...”. O emprego, por causa de sua escassez, se tornou “o mais draconiano instrumento de controle social”.

Ora, o trabalhador está vivendo sob o signo do medo e do embotamento. Será que essa classe tem condições - e vontade – de, hoje, impor o seu “poder de veto”?


Citando Christophe Dejour, embora em outro contexto, Paulo Arantes conclui que um dos esteios do capitalismo é a “banalização da injustiça social”. Há que suportar o sofrimento social do qual padecem, afinal este sofrimento também aflige os “seus concorrentes” aos mesmos postos de trabalho, que, aliás, estão cada vez mais precarizados e escassos, podendo ainda ser “suprimidos na próxima rodada das demissões ‘sociais’”. Esse “treinamento” para suportar o sofrimento gera uma familiaridade com a violência e um endurecimento pessoal. Ao fim deste “treinamento” estamos já a um passo de justificá-lo. “Ora, as coisas são assim mesmo. Temos que lutar para manter o nosso emprego, pois poderíamos estar ainda numa pior”...

Tudo isso culmina em um exemplo que Paulo Arantes deu em “Pensando por fora”, o de trabalhadores brasileiros em uma marcha contra a ALCA e a OMC empunhando cartazes escritos “O Brasil quer trabalhar”. E arremata: “... que sociedade esquizofrênica é essa que, em sua imensa maioria composta de miseráveis e pobres, subempregados, que disciplinadamente enquadrada por aparelhos políticos e movimentos aparentados, clama pelo único produto que o capital hoje deliberadamente oferece a conta-gotas e em quantidades microscópicas...”. O emprego, por causa de sua escassez, se tornou “o mais draconiano instrumento de controle social”.

Ora, o trabalhador está vivendo sob o signo do medo e do embotamento. Será que essa classe tem condições - e vontade – de, hoje, impor o seu “poder de veto”?


Diego: de fato, se o conceito de Império é um dos pontos baixos do livro, a discussão sobre a fronteira é um dos pontos altos. Fazendo uma relação com a citação de Forster, podemos dizer que a fronteira norte-americana, que hoje inclui o mundo todo, está, ao mesmo tempo o excluindo.

Bruno: boa pergunta. V. tocou num dos pontos-cegos dos marxistas da velha escola. Acham bolsa-família "migalha" e "eleitoreira"... Traduzindo: não entendem o proletariado de que tanto falam.


Alexandre: talvez "migalha" e "eleitoreira" queiram dizer simplesmente o seguinte: "migalha" por tratar-se de uma quantidade ínfima de recursos se comparada, por exemplo, àquela alocada para o circuito dívida pública/sistema financeiro. E "eleitoreira" na medida em que, se o programa bolsa-família se tornasse uma lei (uma "obrigação do Estado" e não apenas um programa de governo), é provável que a associação entre esse programa, por um lado, e o presidente e seu partido, por outro, ficasse enfraquecida. Talvez seja apenas isso.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

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Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


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O que é o terror?

A invenção do inimigo:
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Censura, um paradigma

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