O inferno é pouco

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Em uma série de discursos proferidos no final da década de 1970, o almirante Emilio Massera apontava os motivos que teriam levado ao golpe militar que depôs Isabelita Perón da presidência da Argentina: "Durante os últimos trinta anos vem se desenvolvendo uma verdadeira guerra mundial, uma guerra que tem como campo de batalha predileto o espírito do homem". Segundo esse integrante da Junta Militar ditatorial, um "ciclone quieto e sutil" havia se "deslizado pela emoção e pelo pensamento", destruindo primeiro a "nitidez": "Apodrecidos os limites das coisas, uma pesada neblina foi-se estendendo sobre os núcleos vitais de nosso universo". Devido à "força subversiva (...) [da] explosão comunicadora", o "homem" deixou o lugar de protagonista para a "projeção do homem": "as imagens começaram a dominar-nos e começaram a modificar-nos. (...) A imagem se independiza do modelo humano e paulatinamente começa a ser ela mesma o modelo social". Para Massera, Marx, Freud e Einstein teriam dado as bases teóricas para a perda do sentido de verdade e totalidade e para a passagem do "homem racional" ao "homem sensorial", passagem que se veria com mais nitidez nos jovens, que "se tornam indiferentes ao nosso mundo e começam a edificar seu universo privado (...), celebram seus ritos - a música, a roupa - com total indiferença, e buscam sempre identificações horizontais, desprezando toda relação vertical. Depois, alguns deles trocarão sua neutralidade, seu pacifismo abúlico, pelo estremecimento da fé terrorista, derivação previsível de uma escalada sensorial de itinerário nítido, que começa com uma concepção tão arbitrariamente sacralizadora do amor (...) [e] Prossegue com o amor promíscuo, se prolonga nas drogas alucinógenas e na ruptura dos últimos laços com a realidade objetiva comum e desemboca por fim na morte, (...) justificada pela redenção social que alguns manipuladores (...) lhes forneceram para que coroem com uma ideologia o que foi uma carreira enlouquecedora rumo a mais exasperada exaltação dos sentidos". Desse modo, a "guerra espiritual" não teria poupado nem as "palavras, [que] infiéis aos seus significados, perturbavam o raciocínio": "Quando se vive em um mundo como este", concluía Massera, "em que os inimigos se mimetizam reciprocamente até confundir suas identidades; quando o esquema selvagem impregna as consciências, quando o simples fato de existir é um ato de provocação, então chegou a hora de dizer basta a esta abjeta Torre de Babel". Instaurada para fazer voltar a "nitidez", a "Verdade" e o "homem racional", para fazer com que as palavras voltassem a ter sentido, a ditadura argentina terminou criando, nas palavras de Marguerite Feitlowitz, um "léxico do terror", do qual o vocábulo mais conhecido é o termo "desaparecido", eufemismo - essa figura de linguagem preferida do poder e dos burocratas - para os mortos e seqüestrados em campos de concentração pelo regime militar argentino. Como bem colocou a manchete de capa do jornal argentino Página 12, "O inferno é pouco" para esse sanguinário erudito, que faleceu há dias atrás. Tenho certeza que os milhares de desaparecidos, onde quer que estejam, e os que, aqui na Terra, fazem jus à memória deles, como o fazia o falecido Nestor Kirchner, formarão uma Torre de Babel barulhenta o suficiente para fazer com que esse carniceiro jamais descanse em paz. 

2 Comentários

Felizmente Massera morreu condenado na justiça, pelo menos pelo tráfico de bebês das suas vítimas.


Espero não ser mal interpretado, mas como era "bom" o texto dele. Rende diversas outras análises bem interessantes acerca dessa mentalidade boçal - e criminosa - que aqui no Brasil ainda continua livre e se impondo sem qualquer problema, seja na política ou nos MCM. Aliás, me chamava a atenção alguns adesivos da campanha PSDB/DEM, que diziam: "Serra é do bem". Viva o kaos!


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
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