Marina Silva e a reinvenção da linguagem política

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Não sou daqueles que acham que os petistas e/ou lulistas têm mania de perseguição. Eu mesmo acredito que o PSOL e Gabeira, por exemplo, fazem o jogo da direita, pelo foco estreito nos casos individuais de corrupção. Sou até mais realista que o rei em algumas situações: acho que o Protógenes, apesar de seu louvável trabalho na Polícia Federal, é, enquanto figura política, um perigo: alguém que tuita em terceira pessoa ("Protógenes escapa de emboscada...", etc.) e louva o "pai de família" (Hannah Arendt demonstrou há meio século atrás como o nazismo arregimentou justamente os "pais" preocupados com a segurança de sua família) me parece um risco, alguém que crê ser um novo Catão imbuído de uma missão moralizante - e um Gilmar Mendes já é o suficiente. Todavia, quanto à saída de Marina Silva do PT, não posso concordar com as análises simplistas que a reduzem ao curto prazo da questão eleitoral (aliás, a comparação da candidatura presidencial de Marina com os corredores quenianos é - não venham me dizer que não; por que não compararam Marina aos ciclistas, que fazem o mesmo? - uma referência de péssimo gosto a sua aparência física; a senadora, como todos sabem, possui uma saúde debilitada por intoxicação de metais pesados utilizados no tratamento de malária).  Se a candidatura de Marina à presidência serve à José Serra (fato de que não estou inteiramente convencido), então o responsável é Lula (ou seja, é Lula quem entregou essa de bandeja ao Serra; a fatura deve ser cobrada dele): basta lembrar que no caso da regularização fundiária de terras na Amazônia (o estopim da saída de Marina da pasta do meio-ambiente), o governo preferiu ficar ao lado da bancada ruralista (como quase sempre) e de um ministro que recentemente largou o cargo para não perder o emprego nos EUA...  A conversão de Marina Silva em uma força anti-petista ou anti-lulista, é uma construção midiática, que busca, também, capturá-la no discurso ambientalista em sentido estrito - a "agenda negativa" de que fala NPTO. A melhor ministra do meio-ambiente que já tivemos não nega as conquistas do governo Lula - pelo contrário, faz questão de ressaltá-las. Porém, acredita que, agora, a inflexão tem de ser outra: tem de ser na imaginação pública. Quem leu as diversas entrevistas que a senadora acreana deu nas últimas semanas, deve ter percebido o enfoque no longo prazo, e a presença recorrente de termos como "sonho" e "novo modelo civilizatório". Não estamos diante de termos vagos, mas de significantes vazios, isto é, políticos, que devem ser preenchidos pela ação humana, e que foram abandonados pelo PT. Trata-se, a meu ver, de sair da prisão gerencialista em que o "petucanismo" se enclausurou para buscar, ou melhor, para resgatar uma visão da política que a situe no terreno das possibilidades de reinvenção humana, ou se preferirem, de transformação do modelo sócio-econômico. Não há referências, nestas entrevistas, ao "problema ético" do PT - pois a senadora sabe que isto é um problema coletivo derivado da ausência da virtude, da ausência de projeto - a corrupção é sempre, antes de tudo,  corrupção da virtude, corrupção de um bem comum (só um projeto coletivo de bem comum freia a corrupção). Quem acredita que a saída de Marina do PT é meramente eleitoreira não acompanhou, por exemplo, as suas colunas na Folha de S. Paulo, em que destacava o momento histórico em que a recente crise econômica nos colocava, uma crise que possibilitava repensar os modos de produção e consumo. A crise "passou" (pela utilização do veneno como remédio) e continuamos a viver como se nada tivesse acontecido. A ida de Marina Silva ao PV se insere, portanto, no esforço de batalhar na imaginação pública pela necessidade desta transformação - e daí que ela situe o seu ingresso na fileira dos Verdes a uma reformulação programática do partido, que deixará o modelo europeu "negativista" para se tornar uma força que eu diria ser, usando as palavras de um amigo, verde por fora e vermelha por dentro. Por isso, tenho de discordar do Hugo Albuquerque: não se pode analisar a ida de Marina Silva ao Partido Verde pela composição atual deste - ela não vai sozinha, e, ainda que poucos políticos com mandato devam acompanhá-la, há diversos setores da sociedade civil que devem fazê-lo, incluindo empresários, ONGs e movimentos sociais. Não se assustem, por exemplo, se o MST apoiar a sua candidatura a presidência. Isto porque em pontos cruciais da agenda de Marina Silva se condensam problemas históricos do país a novidades do capitalismo (e vão no núcleo do conservadorismo desenvolvimentista de Lula) : basta mencionar os transgênicos, em que se reúnem patenteamento de DNA (biotecnologia), modelo fundiário, imperalismo não-produtivo (os royalties), ameaça a biodiversidade, padrões de consumo, desmatamento das reservas florestais, etc.  Isso para não falar em uma questão estratégica nacional que os militares ignoram: a soberania alimentar. É evidente que as dificuldades, mesmo as de pequena escala, são inúmeras: o fato de o PV ser uma sigla de aluguel na maioria dos Estados, o fato de Marina se reunir com figuras discutíveis como Pedro Simon e Fernando Gabeira, as posições de Marina quanto ao aborto, etc. Todavia, a figura de Marina Silva é, provavelmente, a única capaz de condensar as demandas polivalentes de uma esquerda ciente do momento histórico em que se encontra e da necessidade de transformação radical. Para se eleger, o PT escreveu uma carta-compromisso em que, como argumentei aqui, não pactuava com a ordem vigente, pois isso já havia feito, mas pactuava com a sua linguagem, a linguagem gerencialista petucana. A saída de Marina Silva do PT é uma tentativa de escapar desta linguagem, inventar uma nova - e a invenção de uma nova linguagem, de uma nova imaginação é o primeiro passo para a transformação política. Parafraseando Maiakovski, não há política revolucionária sem linguagem revolucionária. Marina Silva sabe disso.  

14 Comentários

Post excepcional que corrige a precipitação um tanto fanática com que Marina foi julgada por alguns. Concordo plenamente com o escrito.


Alexandre,

Belo post e obrigado pela discordância de alto nível, entretanto, a única vantagem que eu vejo na candidatura de Marina é manter o debate sobre o meio-ambiente vivo - não vejo possibilidades dela reinventar o PV brasileiro em tal escala, mas eu desejo honestamente que o amigo esteja certo: É duro ver o atual PT como a única força política capaz de tocar a agenda nacional... é duro ver o PSOL, que poderia fazer essa função, chafurdar na lama de um bolshevismo pós-moderno...é necessário mais, só que com Gabeira lá, o máximo que nos aguarda é uma candidatura tática.

abraços fraternais


Essa questão do foco na corrupção esteve em destaque no congresso. O pessoal da APS/CSOL criticou muito este "moralismo" e talvez as coisas mudem um pouco. Tem que ser um dos focos mas não o principal.

Mas não vejo o PSOL fazendo jogo da direita. ele faz o seu jogo, a direita concorda, aí o que se pode fazer?

concordo em parte com sua análise sobre a MArina. O grande problema não é ela ser anti-PT ou Anti-Lula, voluntariamente ou não e sim sua escolha de acabar em um partido de aluguel controlado pelos Sarney, um satélite de Serra.

A decisão de Marina de sair, e como saiu, é perfeita. Ela é uma figura honesta e por mais que seja contra o aborto - posição lamentável mas direito dela - a questão não é essa.

O defeito é o PV. Não é factível que um partido como o PV chegue à presidência. É legenda de aluguel, falsa, canalha. Marina merecia coisa melhor.


Essa questão do aborto - acho que li isso no NPTO - não pode ser um critério decisivo nas opiniões sobre um político. Não creio que seja uma questão tão fácil de resolver, não. Há excelentes razões dos dois lados, a questão é dificílima e, por isso, não pode ser tida como óbvia. Nem todo contrário à descrminalização do aborto é um fanático religioso.
E minha crítica a Protógenes - que fizeste em nível político geral - também iria contra certas posições político-criminais e os riscos que a esquerda brasileira está assumindo ao transformá-lo em "herói" na "cruzada" contra Dantas.


Moysés, a questão deve ser discutida e, se o partido decide, a liderança tem obrigação de acatar. Se até o Lula aceita a posição do PT, porque a Marina ou a HH deveriam ir contra seus respectivos?

Aliás, esta questão do Aborto quase rachou o PSOL no congresso desse fim de semana (http://tsavkko.blogspot.com/2009/08/psol-impressoes-do-congresso-parte1.html).

O assunto deve ser discutido e quem perder tem que aceitar a posição do partido. No mais, a questão do aborto transcende o pessoal, é saúde pública.


Eu não simpatizo com esses ideais de "fidelidade" e "disciplina" partidária.


Agradeço a todos pelos comentários - farei uma resposta geral tentando englobar todos os tópicos levantados. Como disse o Raphael Tsavkko no Twitter, o importante é discutir francamente. Eu tendo a concordar com ele também no que diz respeito à decisão partidária - e até acho que Marina é uma mulher de partido, mas acho também que, estrategicamente, o "abandono" de certas bandeiras clásssicas do "liberalismo Verde" (aborto, descriminalização da maconha, etc.) em prol de proposições "sócio-ambientais" pode ser uma decisão acertada (tendo em vista o poder da mídia de prender um candidato ou partido a um tópico).

Agora, não sei o quanto o PV é um satélite dos Sarney ou a casa do arauto Gabeira, acho que é as duas coisas - e muitas outras ao mesmo tempo. Pelo que fiquei sabendo, o partido será reoxigenado e haverá certas "limpezas" (o termo é horrível, mas o partido tá precisando disso mesmo). Haverá um congresso em breve e o PV deve mudar bastante. Como eu disse no post, não se assustem se, por exemplo, o MST apoiar Marina. Não é o mais provável (até pela possível mudança no discurso do PSOL, e seu enfoque na reforma agrária), mas está longe de ser impossível. Abraços a todos


Há argumentos consistentes na sua fala. Apenas gostaria de levantar duas questões que me parecem relevantes: 1 A saída do PT pode, sim ser creditada de alguma maneira ao pr´roprio PT. Porém isso não retira a responsabilidade da Marina quanto a sair "pela direita" ou "pela esquerda" (uso os velhos termos, imagino que você compreende o que quero dizer). Vai ser dificil transformar o PV numa saída pela esquerda, sinceramente duvido. 2 Ainda acho que a questão ambiental está subordinada à questão social, por isso creio que a alternativa ao PT terá de ser um partido que tenha inserção social. O PV não é isso em minha opinião. Portanto, a ver....


Há argumentos consistentes na sua fala. Apenas gostaria de levantar duas questões que me parecem relevantes: 1 A saída do PT pode, sim ser creditada de alguma maneira ao pr´roprio PT. Porém isso não retira a responsabilidade da Marina quanto a sair "pela direita" ou "pela esquerda" (uso os velhos termos, imagino que você compreende o que quero dizer). Vai ser dificil transformar o PV numa saída pela esquerda, sinceramente duvido. 2 Ainda acho que a questão ambiental está subordinada à questão social, por isso creio que a alternativa ao PT terá de ser um partido que tenha inserção social. O PV não é isso em minha opinião. Portanto, a ver....


Moyses: A questão não é gostar, simpatizar ou deixar de gostar. Entrou no partido então obedeça. Se quer fazer parte de um partido qual o sentido em desviar da posição deste?

Entrou, obedeça. É assim que funciona.

Alex: Decisão acertada para a mídia mas não para a saúde pública, movimentos sociais e etc. É um tiro nos movimentos. Defender criacionismo, proibição do aborto e etc é ir conta a decência.

MST? Duvido muito, o Chalita já está na mira do PV, duvido que haja tal "limpeza". Vão ter que limpar a direção inteira para se tornar um partido menos enojante.


"É assim que funciona."

Por quê? Por decisão do partido. E se um partido deixasse de exigir essa fidelidade "canina" (expressão de algumas lembranças).

Não vejo por que razão é "indecente" ser contra o aborto.


Juan L R Gonzalez: concordo com v. (e creio que Marina também) que não há saída ambiental sem saída social. Creio que a reformulação em curso do PV, tendo em vista os demais atores que participam -ONGs, movimentos sociais, alguns empresários ligados ao Fórum Social Mundial -, será mudar o programa de modo que ele se torne um partido "sócio-ambiental". Todavia, atualmente o PV não possui essa penetração, de fato, mas é questão de esperar pra ver. Minhas esperanças estão depositadas em uma mudança de longo prazo na imaginação pública.

Todavia, há os percalços, como essa possibilidade, aventada pelo Tsavkko, de filiação de gente como Chalita. Desculpem a repetição, mas é esperar pra ver. Esperar pelo menos o Congresso do partido. Concordo que é preciso ter cautela. Só não concordo com a via da condenação sumária - "Marina fará o jogo dos tucanos". O histórico político dela não permite que sejamos tão apressados.

Abraços


Moysés. TODO partido exige fidelidade.Se você entra em um tem que seguir a linha, senão fique de fora. Ninguém te obriga a entrar no partido mas, se entrar, tem que respeitar as diretrizes. É assim que a coisa funciona.

É indecente ser contra o aborto porque esta é uma questão de saúde pública. Proibir não impede que eles aconteçam, apenas permite que centenas morram por falta de higiene e boas condições.


Talvez com um pouco de atraso, mas não me custa comentar dos pontos.

1) A Lei de Biossegurança que aprovou o plantio e a pesquisa de transgênicos foi uma construção também do Ministério do Meio Ambiente de Marina Silva. Ela participou de todo o debate e sempre o apoiou. Tanto ela quanto o governo foram derrotados no Senado na composição da CTNBio, mas essa foi uma derrota de todos;

2) Na MP 458, eu discordo, o governo aceitou, não sem vetar dois pontos fundamentais, um acordo formulado na Câmara do Deputados, patrocinado pelo deputado Fernando Gabeira. Gabeira foi o grande formulador desse acordo. Ela e a bancada do PT pediram 4 vetos a esse acordo e o governo vetou dois pontos. Ou seja, a proposta originária do governo foi modificada no Congresso, com o aval de seu novo companheiro de partido e parcialmente reconstruído na sanção presidencial. Se ela tiver que reclamar de alguém, reclame de Gabeira.

A MP 453 se insere no programa Terra Legal que é fundamental para a preservação da Amazônia. Ela cria um Marco Regulatório para a região que precisa ser apoiado e fiscalizado por todos. Se a MP 453 oficializa algumas ações de grileiros no passado, cria condições para que esses sejam cobrados a respeitar as leis ambientais, inclusive obrigando a recomposição florestal. Pode até ser comparada a Lei de Anistia, mas fecha as portas para novas transgressões.

Já comentei muito sobre o tema em meu blog:

Bancada do PT vai pedir que Lula vete artigos da MP que regulamenta terras na Amazônia
http://www.aleporto.com.br/blog.php?tema=4&post=1829

Terra Legal vai combater grilagem e preservar a sociobiodiversidade
http://www.aleporto.com.br/blog.php?tema=4&post=1738

MP 458: Lula vetou o que tinha que vetar
http://www.aleporto.com.br/blog.php?tema=4&post=1895


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
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SOPRO.

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"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
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