Já disse aqui que considero O biscoito fino e a massa um espaço publico plural democrático e o seu chefe, Idelber Avelar, o primeiro intelectual público brasileiro da internet. O problema é que a hibernação d'O biscoito não teve como resultado a fragmentação do espaço do debate de esquerda na blogosfera, mas a transferência do pólo agregador da discussão da esquerda na blogosfera de alguém do calibre de Idelber (assumidamente de esquerda, mas sem medo de argumentar, nunca afobado, sempre ponderado, sem se furtar a uma discussão) para os "que-só-agora-descobriram-que-a-mídia-é-golpista-e-que-Lula-é-o-cara" (podem dar nomes aos bois). E não é só que eles não saibam escrever a partir da internet, entender as especificidades do meio, as potencialidades que a web oferece, sem jamais perder o rigor por escrever em um ambiente mais "efêmero". Eles não sabem o que fazem mesmo. Perderam toda e qualquer capacidade de reflexão crítica, e argumentação.
Um exemplo só: anteontem (dia 9), Paulo Henrique Amorim postou a análise "do amigo navegante Sartori" sobre a pesquisa CNI/IBOPE divulgada dois dias antes. A análise da metodologia (de sua discrepância com os dados do IBGE pra formular os porcentuais da amostragem) em si é excelente. O problema é a chamada "GLOBOPE manipula idade e escolaridade para eleger Zé Pedágio" e a frase que abre a análise: "A Pesquisa CNI /IBOPE divulgada ontem, dia 07 de Dezembro de 2009 vai na contra mão dos resultados divulgados pelas pesquisas anteriores realizadas em Novembro, do Vox Populi com com Serra com 36%, Dilma com 19% e Ciro Gomes com 13% e do CNT/Sensus com Serra com 31,8%, Dilma Roussef com 21,7% e Ciro Gomes com 17,5%, que divulgaram números com os candidatos das forças de apoio ao Governo Lula mais próximos de José Serra do que os números divulgados ontem pelo IBOPE.". Apressado come cru: ontem (10), foi divulgada a mais recente pesquisa do VoxPopuli: Serra com 39%, Dilma com 17%, Ciro com 13%. Os números tão discrepantes do IBOPE: Serra 38%, Dilma 17%, Ciro 13%.
Não me importo, evidentemente, com as pesquisas em si, mas com certa atitude, cada vez mais freqüente na blogosfera de esquerda, de substituir o raciocínio e a argumentação por um selo, uma marca, um bordão, fazendo uso dos silogismos mais toscos (outra do PHA: Juca Kfouri trabalha na CBN, que é da Globo, portanto é golpista), atitude que, n'O Biscoito costumava a ser exclusiva dos filhotes de Reinaldinho Azevedo.


Grande Alexandre! Pois é, meu caro, você voltou com a corda toda mesmo, pondo o dedo nas feridas - é sempre bom ter alguém provocando com inteligência por essa blogosfera de my god.
Pois bem, quanto ao camarada Avelar, eu concordo plenamente: Ele tá fazendo uma falta danada, seja por sua capacidade de fazer uma crítica altamente qualificada ou pelo seu conhecimento brutal da blogosfera - o que levava a conseguir responder as questões que se desenhavam no horizonte de uma maneira tecnicamente precisa.
Obviamente, o que a blogosfera perdeu com a hibernação do Biscoito pode, quem sabe, ser recuperado com a construção de outra coisa - até melhor, o que eu acho improvável, mas não impossível -, mas não isso não deixa de ser uma perda, é fato consolidado - mesmo se a hibernação for temporária e principalmente se for definitiva. Um blog é um ponto construtor e construível de uma imensa rede de trabalho que se assemelha a uma teia de aranha; se um desses pontos some ou pára de funcionar temporariamente, existe um espaço de tempo para a teia se recuperar e determinadas condições para que isso acontecer - portanto, não é apenas uma questão de "quando", mas também de "se".
Claro, as condições são mais importantes do que o tempo, afinal ele depende delas. O duro é a produção disso, de algum instrumento que venha a suprimir a função d'O Biscoito, até pela conjuntura atual do debate de ideias no plano nacional. A Academia está falida, presa a um hermetismo necrosante e refém de um dogmatismo esclerosado.
Na blogosfera, há tempos, tenho sido crítico do debate que se estabelece: Ou Lula é santo ou é demônio - e, inclusive, já escrevi sobre isso. O termo PIG também me incomoda, é um bordão que acaba desviando o debate propagandisticamente e não colabora para uma reflexão verdadeira sobre o problema da mída. Há um pendularismo que nada nada é fruto de um debate que cada vez mais está se afastando da sociedade e se fecha nos ambientes burgueses das univeridades e dos meios da elite - mesmo daquela que se presta a pensar -; trata-se de uma espécie de vanguardismo - muitas vezes não mal-intencionado - que leva a um binarismo irritante, causador, por sua vez, da impossibilidade do debate.
Parece-me, sobretudo, um problema de forma. PHA faz jornalismo, escreve como jornalista. Idelber, por sua vez, escrevia para além do jornalismo. E isso significa que os textos do Biscoito são mais densos, evidenciam argumentos e ressalvas, apresentando demonstrações e conclusões que exigem um empenho reflexivo maior.
Naturalmente, mesmo o Biscoito Fino não esteve a salvo do empobrecimento do debate, na caixa de comentários. Mas os bons textos eram uma abertura de possibilidades. A partir deles, concebia-se o bom e a o mau diálogo, o crescimento no plano das ideias ou o retraimento infecundo em posições absolutizantes de direita ou de esquerda, ao modo de Olavos e Reinaldinhos.
Em blogs como o do PHA, entre outros, a militância supera a reflexão. É puro combate, enfrentamento. Por isso é “mais jornalismo”: apresenta-se rapidamente a tese, identifica-se o contrário, e daí pra frente é só brigar com palavras. Isso está nos próprios textos que originam o debate.
Assim como o Hugo, também acho que esse rótulo PIG é prejudicial, simplificador.
Rodrigo: concordo com sua análise. Até tinha pensado em focar o texto nesse ponto: a passagem do blogueiro aos jornalistas (no que diz respeito ao pólo norteador do debate político de esquerda na blogosfera). Isso muda tudo. É claro, meu velho Hugo, que é possível construir um espaço em rede sem este pólo, mas não me parece ser o que está acontecendo. Percebo um recrudescimento, um clima de torcida. Por que não analisar a rejeição da Dilma, por que não discutir a postura de enfrentamento que ela sempre adota, por que não discutir a dependência do PT para com Lula? Fazê-lo é o mesmo que sair do blogroll dos lulistas e, no limite, ser rotulado como ponta-de-lança do PIG. Prefiro, como Oswald de Andrade, "ser, ao menos, casaca de ferro da revolução proletária" - de verdade, e não de um partido que tem vergonha de dizer em público que não basta crescimento e distribuição de renda, mas mudança nos modos de produção e consumo. Abraços
Hugo/Rodrigo/Alexandre
PHA e Idelber têm propostas diferentes com suas páginas. Concordo plenamente com vocês quando dizem que a reflexão dos acontecimentos enlevada pelo pensamento de esquerda era muito valorizada no Biscoito Fino. Só que, por mais que PHA seja jornalista, se blog acaba se tornando uma válvula de escape por ser empregado de uma grande mídia, algo que a Record vem se tornando cada vez mais.
Não é nenhuma crítica à PHA: visito seu blog de vez em quando, mas às vezes fica evidente o caráter militante de seus argumentos, o que acaba comprometendo um pouco seu conteúdo. Por vezes, soa meio que fundamentalista demais. Por mais que não goste da Globo, ainda assisto alguns programas de sua grade sem a culpa nas costas de estar sendo alienado ou algo do tipo.
Outro ponto, que vocês tocaram: não é que o blog de Idelber supera as características do jornalismo. Na verdade, o jornalismo está defasado no momento por ser dependente de alguns linguarudos que veem na polêmica a única maneira de angariar leitores/espectadores/ouvintes.
Ainda há ótimos exemplos de jornalismo, que fazem por onde, mas, ainda são poucos que transferiram a aura de sua linguagem para os blogs.
Abraços a todos!!
Tiago: acho que o PHA é apenas a ponta mais visível do iceberg. Não sei se a explicação "a polêmica vende" é a melhor. Acho que há um recrudescimento do debate político, ou melhor, a conversão do debate em guerra de slogans, de bordões, de frases feitas (vale a pena ler este exemplo dado pelo Inagaki). A internet poderia ser um espaço independente e de reflexão, pelo seu próprio formato. Mas está tudo cada vez mais apressado, mais rasteiro. Acabo de ler no twitter que a platéia da Confecom gritava "Abaixo Pokemon, êêê Saci Pererê", como forma de defender a animação brasileira: além da comparação esdrúxula (comparar um personagem e mundo inventados com uma figura folclórico-mitológica é como comparar um robô a um dragão), revela uma concepção tacanha e oficialesca das novas tecnologias e dos artistas. Por que diabos o saci-pererê tem de ser símbolo da animação brasileira? E por que diabos o Pokemon tem que ser vaiado? Se tem algo que os japoneses sabem fazer como ninguém é animação. Abraços
Sim, Alexandre, por isso eu falei em tempo e em condições - que me parecem díficeis de se consolidar por conta da conjuntura: A possibilidade de uma candidatura Serra é assustadora e as pessoas têm dificuldades para conciliar uma crítica ao PT com uma oposição ao nefasto projeto que gira em torno da candidatura Serra. A isso se somam uma série de defeitos da esquerda brasileira como um acentuado idealismo e uma dificuldade em enxergar matizes; antes o PT era o paraíso, hoje ele é o inferno (ou continua sendo o céu), Lula era bonzinho e agora é Satã ou sempre foi mau e agora se revelou (o velho "eu não falei") e por aí em diante. Há contradições muito fortes dentro do PT desde que ele nasceu e isso que vemos é apenas a continuação de um processo - que é de certa maneira cronológico sim, talvez não devesse ser, mas é porque quem está envolvido nele pensa dessa maneira. Não dá para debater Governo Lula e rumos do PT sem refletir sobre o que realmente levou o governo Erundina a não dar certo na São Paulo dos fins dos anos 80 - e isso as pessoas não debatem ou porque não sabem ou porque não querem. Esse tipo de coisa é que tornava o Biscoito um lugar único, seja pela singularidade de Idelber enquanto intelectual ou pelo fato de ele estar boa parte do ano como expectador do Brasil, ao contrário de todos nós que estamos imersos quase que permanentemente nas cotendas políticas do país.
Esses malabarismos com números de pesquisa são um problema endêmico, não acham? Postei agora a pouco sobre uma dança dos números semelhante, se bem que bem mais macabra, com relação às eleições em Honduras.
Não me incomoda tanto a posição defendida por fulano ou sicrano, mas os golpes baixos do ponto de vista retórico. Sei que no mundo do discurso dominado pelas técnicas de marketing de hoje em dia isso parece um tremendo idealismo ingênuo, mas eu quero mais reflexão crítica independente e menos propaganda.
O próprio formato discursivo em que se comenta, quase sempre tendenciosamente, números de pesquisas de preferência por candidatos, é fruto dessa pobreza no debate político.
Sim, Paulo, estou de acordo. Pra haver reflexão crítica, é preciso coerência, como disse no post abaixo. Não dá pra usar uma pesquisa quando ela lhe é favorável, e descartar outra quando não. Pesquisas são pesquisas. Como prévias são prévias, e boas por si só, no formato de nossas instituições democráticas. Não podem ser ruins aqui e boas lá. Vejo muita gente discutindo as altas taxas de popularidade de Lula, quando o que deveria ser discutido é: por que, então, ele não utilizou essa aprovação pra forçar a melhoria de nossas instituições, por que não enfrentou o oligopólio da mídia de forma mais contundente, por que não realizou uma reforma agrária massiva? É claro que o governo Lula entrará para a história pela distribuição de renda que promoveu, mas poderia entrar na história por muito mais. Aliás, poderia mudar a história. Entrar na história e mudá-la são coisas diferentes. É o que diferencia, no "antigo" jargão de esquerda, reforma de revolução.
Abraços