Meio da manhã. O rádio-relógio toca, para, em seguida, vomitar o comentário diário da jornalista. Esbravejava sobre a incompetência do Presidente da República, república prestes a entrar em frangalhos. Anestesiado ainda pelo sono, aquele homenzarrão, que um dia se inquietara com a terra vermelha e hoje havia se tornado um burocrata obcecado pela obsessão do tempo, esquecia as palavras da comentarista assim que as ouvia.
O telefone voltou a tocar. Pressentia a catástrofe, a interrupção. Por isso mesmo, atendeu.
-Alô?
Silêncio infinito do outro lado da linha.
- Alo?! Você sabe que horas são?
- O Dr. Desembargador deseja os processos revisados na mesa dele hoje, disse, de um só golpe, uma voz feminina de lascívia mecânica.
- Que processos?, tentou disfarçar demonstrando surpresa.
- Os que você disse ao Dr. Assessor estarem prontos para a avaliação do Dr. Desembargador. Nenhuma alteração no tom de voz.
- Mas eles não estão prontos... hesitou... ainda não tive tempo de terminar.
- Você não disse ao Dr. Assessor do Dr. Desembargador que estariam prontos ontem?
Silêncio. O tempo estancara. Não deveria ter atendido. Sabia que não deveria. Sabia também que não deveria falar o que falou a seguir:
- Eu menti!
- Você... o quê?!
- Isso mesmo! Eu menti!
- Você mentiu! Respondeu a voz agora cheia de desejo, de um desejo prestes a ser satisfeito.
Silêncio.



Wow. A voz com desejo a ser satisfeito, reverberante mesmo em alguma repartição pública, é de assustar pelo tanto que requebra. Parece até que vem junto um sussuro de "te peguei", seguido de um sorriso de súcubo ou de íncubo.