julho 2009 Arquivo
Depois do debate memorável de ontem (aos participantes, vocês não imaginam o quanto lhes sou grato), é impossível não levar o Clube de Leituras adiante. Pensei em discutirmos Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle. O motivo da escolha é que o livro, não só se insere na mesma coleção, a "Estado de sítio", do Extinção, como aborda problemas correlatos, da perspectiva da crítica e da teoria. Sendo um adorniano heterodoxo, já que com um forte aporte lacaniano, Safatle vai mais a fundo na investigação do esgotamento das categorias tradicionais. Além disso, ele se propõe a analisar algumas saídas para o estado de coisas atual - tarefa que Antônio Barros nos propôs no último debate. Cinismo e falência da crítica teve uma recepção esquizofrênica pela Folha de S. Paulo quando foi lançado: o resenhista acusou Safalte de fazer uma salada de frutas teórica. Por mais que se discorde dos argumentos do livro, nada mais injusto: o autor mobiliza seu arsenal teórico adorniano-lacaniano para analisar propostas pós-estruturalistas. Acho que vale a pena lermos, pois marca uma inflexão de certa endogenia que marca a academia brasileira dos últimos anos. Safatle fez seu doutorado sob a orientação de Alain Badiou e participa ativamente do debate público brasileiro, tendo escrito recentemente sobre a assimetria entre Israel e Palestina e a repressão policial aos estudantes da USP. Acho que rende uma boa discussão. Moysés Neto e Rodrigo Cássio já toparam. Mais alguém? Definiríamos a data em conjunto (só não posso de 12 a 23 de agosto). Ou sugerem outro livro?
Atualização (18 de julho de 2009): Confirmado o debate do livro do Safatle no dia 10 de setembro.
Atualização (17 de julho de 2009): Vale a pena ler essa interessante reflexão de Hugo Albuquerque sobre a blogosfera escrita a partir do debate do Extinção.
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"Não estamos mais diante da guerra, mas agora sim, diante da política como mera continuação da guerra" (p.29). Com esta inversão da famosa definição de Clausewitz, Paulo Arantes dá o tom, já nas primeiras páginas, que dominará todo o Extinção, seu mais recente livro, publicado na coleção "Estado de sítio", que ele mesmo coordena, da editora Boitempo. A guerra a que o autor se refere é de tipo novo, a "guerra cosmopolita", modalidade que se torna possível com o fim da guerra fria e a eliminação do inimigo em sentido tradicional. Dentro desta lógica, o novo inimigo - o terrorismo - ameaça agora não um Estado-Nação (ou um agrupamento deles), mas a própria humanidade (neste sentido, ele é um meta-inimigo - para os interessados, já escrevi sobre isso). Para conter "tamanha" ameaça, vige um "estado de sítio mundial" e uma guerra que é, ao mesmo tempo, cirúrgica (teleguiada e televisionada, o que provoca à anestetização, à insensibilidade quanto aos seus efeitos - "colaterais") e sem limites (na medida em que uma guerra contra tão nefasto e difuso inimigo é mais do que justa, justifica qualquer medida). A palavra-chave aqui - e, acredito, de todo o livro - é "energia": não se trata mais de dizimar as linhas inimigas, mas de "provocar o colapso" das "condições de vida" (p.55) do inimigo, eliminar a "vitalidade energética do adversário" (p. 54), como diz Virilio. Daí a crueldade explícita da nova guerra, a "assimetria do sofrimento" inerente a ela. E é pela energia, pela reprodução das condições de existência do capitalismo - altamente dependente do combustível fóssil -, que se guerreia, como a Segunda Guerra do Golfo deixou mais do que evidente até mesmo para os mais do que crédulos. O problema é que o "programa suicida do capitalismo", levado a cabo agora pelo "governo da exceção" empurra o mundo para a "falência ecológica generalizada", que, por sua vez, implicará em mais guerra: "Um aquecimento global dramático pode levar países à guerra por acesso a água, terras agriculturáveis e localizações para assentamentos populacionais" (p.81).
O modelo de "guerra cosmpolita" vem acompanhado de uma mudança no modelo territorial dos Estados (e do sistema econômico em geral): agora se trata não de manter um aparato produtivo, mas de controlar o acesso, o que exige aparato militar. Por isso, a noção norte-americana de fronteira volta a ser a dos tempos de conquista do velho oeste: fronteira passa a ser sinônimo de fazer a fronteira, à diferença que, hoje, a nova fronteira abrange, como o inimigo difuso, o mundo. (É curioso que Paulo Arantes não extraia todas as conseqüências conceituais de tal noção de fronteira. A ambigüidade que ela carrega é comum às palavras que indicam medida ou limite, a começar por aquela: medida é tanto um padrão, quanto a criação de um padrão ou a aplicação do padrão - "tomar uma medida" pra resolver um assunto, por exemplo. Seria interessante pensar nessa ambigüidade para compreender o que podemos chamar de "ideologia bandeirante" - bandeira deriva de bando, termo que indica pertencimento e exclusão, tanto é que dá tanto em bandana, bandagem, quanto em bandido e banimento - que dominou o pensamento paulista do começo do século XX, como também a insistência desenvolvimentista de penetrar o "Brasil profundo", da qual Brasília é a prova viva). Com essa fronteira ampliada, fica fácil intervir em qualquer parte do mundo em que o inimigo - ou o recurso energético desejado - aparecer (Sloterdijk assinala que os primeiros globos, contemporâneos às descobertas, isto é, aos primórdios da globalização, já apontavam para esta disponbilização do mundo). O paradoxo do novo modelo é que, prescindindo de uma base territorial unívoca, ele, no mesmo gesto em que abrange todo o mundo, permite que o próprio centro global se periferize - o sinal evidente é a população abandonada quando da passagem do katrina -, desde que certos espaços vitais privilegiados sejam protegidos na forma de bunkers. Estamos diante, portanto, de uma "fratura brasileira do mundo": o novo capitalismo de acesso (a recursos, a dados) é, na verdade, uma "volta redonda do capitalismo": "Por mais assombroso que pareça, já vivemos tudo isso antes: na Colônia. Daí a forte impressão que se tem hoje em dia, no coração do sistema mundial, de que o deserto em expansão por estas terras de miséria e impotência, na verdade, parece anunciar uma dramática periferização do planeta. Por isso, numa hora limiar como a presente, vem mais do que ao caso insistir na atualidade da assim chamada Acumulação Primitiva, que de primitiva, obviamente, não tinha nada, como de resto o demonstra o caráter 'avançado' do experimento colonial que engendrou a horrenda sociedade brasileira de ontem e de hoje. Explico-me: enquanto a Europa ainda se arrastava no emaranhado do Antigo Regime, em sua franja colonial se encontrava em plena ebulição um verdadeiro laboratório de vanguarda do capitalismo total. Várias guerras bárbaras de limpeza étnica depois, a banalização de todo um território, por força de uma razão econômica de novo tipo, repovoado por assentamentos humanos exclusivamente empresariais e, por isso, voltados integralmente ao mister selvagem de extração de mais-valia com uma intensidade e crueldade jamais vistas na história do trabalho humano, pelo menos desde os tempos do trabalho escravo nas minas do Império. O que antes se apresentava como uma zona residual de comportamentos extremos, a exceção que prosperava nos subterrâneos da normalidade burguesa em formação, desde então ameaça tornar-se a regra nos momentos de colapso do sistema. Foi assim com o apocalipse nazi: nunca é demais lembrar que a principal mágoa dos bons europeus com os hierarcas do Terceiro Reich era o tratamento "colonial" que lhes estava sendo dispensado. Completava-se assim o sentido da colonização. Quando se diz que o imperialismo está de volta, impulsionado por novas rodadas de acumulação por espoliação - privatizações, ajustes fiscais, expropriações via patentes, guerras de pilhagem, etc. -, é novamente disso que se trata, da recaída em nossa condição originária de exploração aberta, desavergonhada, direta e seca. De volta portanto ao deserto colonial de vanguarda da mais rasa necessidade econômica. Pois que de necessidade se trata, não há mais nada a fazer a não ser aquilo que deve ser feito, governa-se cada vez mais por medidas administrativas - exatamente como nas colônias" (p.274-275).
Aqui reside, a meu ver, o grande mérito do livro: apontar como a história da periferia do mundo, longe de ser uma excrescência ou estágio a ser superado, aponta para a verdade ou essência do sistema global. A famosa tese de Walter Benjamin (epígrafe da coleção em que o livro se insere), que só se tornou clara pra ele com a ascensão do nazismo - "o estado de exceção em que vivemos é a regra" - já havia sido enunciada, cá nos trópicos por gente tão diferente como Rui Barbosa, Araripe Jr. e Oswald de Andrade (e seria repetida anos mais tarde por um autodidata como Antônio Fraga). Talvez justamente este negligenciamento da experiência periférica explique a outra modalidade de extinção apontada por Paulo Arantes: "a petrificação geral da linguagem" (p.77), "um arranjo mental destinado a tornar desnecessário o simples ato de pensar" (p. 160), em última instância, "a extinção pura e simples da capacidade de discernimento" (p. 161). Acompanhando o estado de sítio global e permanente, teríamos um "estado de sítio moral da inteligência globalitária" (p.160), um "grau zero alcançado pela vida ideológica, quando 'conceito' se tornou sinônimo de 'ameaça'" (p.52). A dependência da periferia global em relação ao centro não era superável - era condição do sistema, e não ter apontado suficientemente para isso tenha nos impedido de chegar ao "conceito de história que corresponda a verdade", para retomar a tese benjaminiana, da atual periferização do mundo.
Se, por um lado, ou melhor, por um plano, concordo com o panorama da extinção da inteligência - ele cabe à grande mídia, por exemplo - por outro, não sei se estamos próximos ao fim do discernimento ou do "grau zero da ideológica" - depende do que entendemos por "grau zero". Em vez de fim do discernimento, talvez seja melhor falar de cinismo (todo mundo sabe que a invasão do Iraque se deu por causa do petróleo e não pra combater o terrorismo, e os senhores da guerra sabem que não enganam ninguém, mas estão se lixando para isso - sobre o tema, fica já a proposta, podemos discutir, no próximo Clube de Leituras, Cinismo e falência da crítica, de Vladimir Safatle). Em vez de "grau zero da vida ideológica", prefiro falar de um "grau zero" da terminologia ideológica: no novo cenário global, a antiga terminologia que pautava o debate se esvaziou, ou melhor, se indeterminou, perdeu a referência aglutinadora que possuía: tanto comunismo-igualdade, quanto capitalismo-liberdade se esvaziaram, sobrando um único termo, a democracia, que, diante de uma paz que se confunde com a guerra infinita, também se indeterminou (basta lembrar o Patrioct Act, e as "reformas ortográficas" brasileira e argentina, com a inclusão, nos respectivos vocabulários, das palavras "ditabranda" e "intradictadura"). Mais do que extinção da inteligência, o que vemos é a extinção da imaginação - que Arantes sugere, mas não aprofunda - o que nos impede de aproveitar a chance que o "grau zero" oferece, a saber, o de determinar novos sentidos aos antigos termos ou - o que seria ainda melhor - inventar toda uma nova terminologia da política e das relações sociais (é esta ausência da imaginação que caracteriza, a meu ver, o que o autor chama de "ajuste intelectual tucano-petista" - isto foi tema de um dos meus primeiros posts -, ainda que eu discorde bastante da tábula rasa que ele faz nas entrevistas, pois acredito que teria de matizar mais o cenário político nacional).
O antropólogo anarquista David Graeber lembra da importância que a imaginação possuía na concepção marxiana de humanidade: "Nós pressupomos o trabalho numa forma que o marca como exclusivamente humano (...)", lemos n'O Capital, "o que distingui o pior arquiteto da melhor das abelhas é (...) que o arquiteto ergue sua construção na imaginação antes de erguê-la na realidade". Por isso Graeber afirma que "o que nos torna humanos não é tanto a 'razão' (ao menos no sentido moderno de resolução de problema), mas a imaginação. (...) Os humanos vislumbramos o que queremos antes de fazê-lo; como conseqüência nós também podemos imaginar alternativas. A inteligência humana é assim inerentemente crítica, o que, por sua vez, é crucial à concepção marxiana de história porque abre esta à possibilidade da revolução". Se 1968 quis colocar a imaginação no poder, talvez hoje, diante da ameaça da extinção da humanidade e de seu pressuposto, a imaginação, o correto seja voltar esta contra o poder.
Em linhas gerais - e para não me alongar ainda mais - esta é a minha leitura do Extinção, que considero um baita livro, ainda que me incomode o pouco o plano panorâmico adotado por Paulo Arantes - não sobre até as considerações conceituais, nem faz leituras detidas dos acontecimentos, preferindo um tom intermediário que o leva, a meu ver, a tomar certas conclusões apressadas - como em arte, em relação ao governo Lula, aos ataques do PCC, todos temas que espero que sejam levantados no debate e que talvez guardem relação com o passado político do autor. Mas me agrada algo que é característico em todos os textos do Paulo Arantes: a virulência, a crítica ferina e desbocada, sinônimo, a meu ver, daquilo que até pouco tempo se chamava engajamento, mas que prefiro chamar de vida, para contrapor ao tom morto-vivo, modorrento que domina os debates atuais. Deixei um bocado de temas de fora, mas esta é a vantagem de uma discussão coletiva: ela se mantém sempre aberta.
Aos que se interessarem pelo texto de Fábio Salvatti e/ou pelo ERRO Grupo, recomendo também a leitura deste texto do Victor da Rosa.
No número anterior do Sopro (12), publicamos um texto de Slavoj Zizek sobre a falsa simetria entre Nazismo e Stalinismo, e mais recentemente Hugo Albuquerque também escreveu sobre o assunto.
Quem traduziu o texto do Zizek foi Rodrigo Cássio, responsável pelo que considero as melhores análises de cinema na blogosfera. Vale a pena conferir, por exemplo, esta leitura de Tarantino.

Minha companheira de vida e trabalho, Flávia Cera, acaba de inaugurar seu blog, o mundo-abrigo, hospedado no Cultura e Barbárie, que agora contabiliza 4 blogs. Nem preciso dizer o quanto desejo o sucesso e a vida longa de Flávia na blogosfera, não porque ela seja metade de mim ou vice-versa, mas porque um multiplica o outro. Não somos um - cada um é dois. O "mundo-abrigo" é uma definição do amor.
No final do ano passado, a Folha de S. Paulo organizou um debate sobre os 50 anos do caderno Ilustrada. Uma questão, atravessada pela melancolia, dominou: como fazer que o jornalismo cultural volte a "pautar" a cena e o debate artísticos? A explicação mais convincente para o declínio do suposto papel de protagonista da cultura do jornal, foi a de Marcos Nobre, que argumentou que este se voltou ao mercado para poder fugir à tensão entre academia e imprensa. Por mais que teoricamente o argumento pareça fazer sentido, uma olhadela rápida no Ilustrada dos últimos meses mostra que não há tanto distanciamento quanto parece. Dois exemplos. Quando da palestra de Antonio Candido, intelectual de referência para a esquerda brasileira durante a ditadura militar, para o lançamento de um volume de correspondências de Mário de Andrade, a Folha cobriu o evento. Mas Candido não disse nada de importante, se limitou a anedotas. E o jornal as reproduziu, dois dias depois, no dia 27 de maio desse ano, como se tratasse de algo monumental, com direito a narrar a dificuldade de subir ao palco do acadêmico. No mesmo Ilustrada, dois meses antes, quando do lançamento de Leite Derramado de Chico Buarque, foi publicada uma resenha de tamanho desproporcional para o caderno, de Roberto Schwarz em que ele analisa o romance com as mesmas categorias com que analisou Machado de Assis a partir da década de 1970 e 1980, justamente o auge do jornal. Os mesmos intelectuais de referência do jornalismo cultural paulista continuam tendo espaço. E talvez esse seja o problema. O problema não é que o jornalismo cultural não promova mais o debate, não produza mais efeitos; o problema é que a arte, entendida pelas categorias das décadas passadas, não produz mais efeitos. É evidente que a notícia da palestra de Antônio Cândido sobre um livro de Mário de Andrade ou uma resenha de Schwarz em que ele compara Chico a Machado não produzirão efeitos. É este sistema do grande autor, do grande intelectual, da grande obra que não funciona mais. Outro exemplo: o rodapé literário e as resenhas, que seguem o padrão do jornal e, portanto, devem classificar a qualidade do livro, dificilmente dão alguma indicação diferente do bom ou ótimo. Sabendo do mercado editorial brasileiro pelo Ilustrada, tem se um panorama excelente, quando a verdade é outra; cada vez são publicadas mais porcarias. Provavelmente, nenhum dos livros classificados como ótimo mudará a vida de alguém ou pautará debate duradouro.
Sylvia Colombo tentou defender o caderno: argumentou que, entre outras coisas, o Ilustrada cunhou o termo Bienal do Vazio, liderando a discussão nesse ponto e "debate a prisão da jovem pichadora e, mais ainda, promove este amplo debate sobre si própria, sua história e perspectivas". Ora, ao debater a prisão da pichadora, isto é, ao centrar-se na polêmica, o jornal revela a sua incapacidade de compreender "novas" manifestações artísticas ("novas" com muitas aspas, porque elas datam da "era de ouro" do caderno), como as performances e os happenings: as categorias com que lêem a cena cultural são (e possivelmente sempre foram) obsoletas. Cobrir a prisão da pichadora e debatê-la não faz do Ilustrada uma frente no debate cultural. No máximo o credencia como o Cidade Alerta da cultura - aliás, outro exemplo da incapacidade conceitual do caderno de ler o país: para os ilustrados, é apenas lixo. E o lixo não interessa. Interessa o "crítico literário mais célebre do país", não importa o que diga.
P.S.: Não há nada tão ruim que não possa piorar. A situação cá na província é muito pior: não são as categorias inadequadas que regem; vige o silenciamento mesmo. Silenciamento da imprensa (e dos atores culturais em geral) tão arraigado que impossibilita a publicação de um texto como este, que se "limita" a apontá-lo.
Sylvia Colombo tentou defender o caderno: argumentou que, entre outras coisas, o Ilustrada cunhou o termo Bienal do Vazio, liderando a discussão nesse ponto e "debate a prisão da jovem pichadora e, mais ainda, promove este amplo debate sobre si própria, sua história e perspectivas". Ora, ao debater a prisão da pichadora, isto é, ao centrar-se na polêmica, o jornal revela a sua incapacidade de compreender "novas" manifestações artísticas ("novas" com muitas aspas, porque elas datam da "era de ouro" do caderno), como as performances e os happenings: as categorias com que lêem a cena cultural são (e possivelmente sempre foram) obsoletas. Cobrir a prisão da pichadora e debatê-la não faz do Ilustrada uma frente no debate cultural. No máximo o credencia como o Cidade Alerta da cultura - aliás, outro exemplo da incapacidade conceitual do caderno de ler o país: para os ilustrados, é apenas lixo. E o lixo não interessa. Interessa o "crítico literário mais célebre do país", não importa o que diga.
P.S.: Não há nada tão ruim que não possa piorar. A situação cá na província é muito pior: não são as categorias inadequadas que regem; vige o silenciamento mesmo. Silenciamento da imprensa (e dos atores culturais em geral) tão arraigado que impossibilita a publicação de um texto como este, que se "limita" a apontá-lo.
(Começo a publicar aqui, às sextas-feiras, os fragmentos que compõem a pequena novela que comecei a escrever, coincidentemente ou não, à mesma época em que parei de publicar aqui no blog - entre agosto e janeiro passados. Nunca concluí o texto; aliás, quando voltei a escrever no blog, não consegui mais escrever a novela. Talvez unindo as duas coisas consiga levar o Dia do Juízo a cabo.)
Tiros. Todo dia, àquela mesma hora, já não mais madrugada, mas ainda não manhã, os militares praticavam no campo de treino vizinho a seu prédio. Como sempre, acordou com os estampidos. A televisão continuava ligada no mesmo canal, que noticiava agora a prisão de um motorista aparentemente fora de si. Abafado pelo relato da repórter, não se podia ouvir o que o policial dizia para conter o homem careca e forte, que berrava incessante e guturalmente. O movimento dos lábios, porém, deixava claro o que a voz emudecida pela edição da matéria ocultava: Pára ou eu te apago!
Acendeu um cigarro enquanto olhava a pilha de processos que se avolumava sobre a mesa de jantar. Precisava trabalhar. O telefone tocou. Mas não podia. Mais uma vez o telefone. Precisava antes organizar a dispersão do mundo. Tocou. Tocou. Não atendeu. Não tinha mais tempo para isso. Apagou o cigarro. Absorto, tentou recordar-se do tempo.
Tiros. Todo dia, àquela mesma hora, já não mais madrugada, mas ainda não manhã, os militares praticavam no campo de treino vizinho a seu prédio. Como sempre, acordou com os estampidos. A televisão continuava ligada no mesmo canal, que noticiava agora a prisão de um motorista aparentemente fora de si. Abafado pelo relato da repórter, não se podia ouvir o que o policial dizia para conter o homem careca e forte, que berrava incessante e guturalmente. O movimento dos lábios, porém, deixava claro o que a voz emudecida pela edição da matéria ocultava: Pára ou eu te apago!
Acendeu um cigarro enquanto olhava a pilha de processos que se avolumava sobre a mesa de jantar. Precisava trabalhar. O telefone tocou. Mas não podia. Mais uma vez o telefone. Precisava antes organizar a dispersão do mundo. Tocou. Tocou. Não atendeu. Não tinha mais tempo para isso. Apagou o cigarro. Absorto, tentou recordar-se do tempo.
O pressuposto que ampara a idéia de que a corrupção é uma via de mão única é certa antropologia pessimista que nos assola desde os primórdios da colonização e que teve talvez sua melhor condensação no hoje esquecido Retrato do Brasil, de Paulo Prado (à época, 1928, um best seller), livro que foi desmontado, ponto a ponto, por Oswaldo Costa no seu "Moquém", coluna que mantinha na Revista de Antropofagia. Provavelmente o ensinamento mais marcante que eu recebi nos meus anos de graduação em Direito foi a enunciação - irônica - deste pressuposto por uma filósofa do Direito odiada pela maioria dos alunos (que, sintomaticamente, preferem homenagear um desembargador aposentado que "provava" que filosofia do Direito não servia pra nada a partir da brilhante constatação de que não existiam Escritórios de Causas Filosóficas...): "no Brasil, não existe presunção de inocência: aqui, todo mundo é corrupto até prova em contrário". É possível aventar, ainda que fosse preciso uma investigação de estilo frankfurtiano pra comprovar, que tal concepção nasce na elite colonizadora (é o argumento de Oswaldo Costa, e temos que lembrar que Paulo Prado pertence ao equivalente dessa elite no século XX): é assim que ela via a "massa" de desterrados, índios, negros e mestiços que aqui habitavam, projetando neles a própria culpa. De algum modo - que, novamente, só uma investigação aprofundada poderia demonstrar como - esta concepção de que aqui é o Mal, ou o abandono de Deus que vige (o Novo Mundo sempre foi encarado de forma ambivalente, tanto como Paraíso, quanto como Inferno), se espalhou por todo o corpo social (é provável que as camadas sociais intermediárias e as dominadas tenham percebido que riqueza e posição social pressupõem jogar o jogo do Diabo, para ficar na metáfora). Hoje, é impossível apontar e criticar alguma irregularidade, algum chamado "desvio ético", sem que alguém retruque que "ninguém é santo", ou insinue que você também apronta lá das suas. É por isso que o "mensalão" adquiriu tamanha importância mediática (e, nesse sentido, foi o verdadeiro erro histórico do PT, talvez mais que a capitulação ao neoliberalismo): ele veio confirmar esta antropologia pessimista, provou que todos dançam com o Diabo. O "mensalão" teve o efeito psicológico de livrar da culpa setores que espoliam a Nação e a Viúva há séculos e que, em transe pela catarse produzida pelos "aloprados", assumiram publicamente esta culpa, que agora podiam estender, sem medo, a toda a sociedade: "Eles, que tanto nos criticavam, são iguais a nós". Como disse, o outro lado da moeda desta concepção negativa do brasileiro como corrupto nato é a projeção da culpa no Estado. Se existe meia dúzias de fraudes no Bolsa-Família ou nos assentamentos de terra, é melhor acabar de uma vez com o renda mínima e a reforma agrária. Se o currículo Lattes da Dilma Rousseff tem dados falsos e o portal de currículos do CNPq abriga um currículo forjado do Galvão Bueno (dois no universo de um milhão), é preciso criar mecanismos de controle e não punir os estelionatários. Quando todo mundo é corrupto por princípio, então todo mundo tem que arcar com os crimes cometidos pelos poucos corruptos de fato.
Meu último post acabou criando uma pequena polêmica, que me fez pensar um bocado de coisas. A grande vantagem do debate é que ela força os interlocutores a repensar seus argumentos; no que o debate escrito é ainda mais proveitoso, pois eles tem tempo pra fazê-lo com certo tempo. Devido à extensão que minha resposta tomou e pelo caráter mais genérico de algumas coisas que argumento, me permito fazê-la aqui na forma de post e não na caixa de comentários. O debate suscitado me provocou ainda outra reflexão mais conceitual, que espero publicar aqui no blog em breve.
Antes de tudo, é preciso não esquecer da ambiguidade da máxima "Não se pode comparar" que se revela no Incomparável. Aquilo que não pode ser comparado, o Incomparável, o é justamente na medida em que superou, pela comparação a tudo ou a todos. Quando dizemos que tal obra ou pessoa é incomparável, estamos dizendo que ela está um patamar acima das demais, que ela é um monumento, que ela, em suma, é intocável (tem o "corpo fechado"). A máxima, portanto, pode ter como conseqüência a monumentalização, o fechamento de toda e qualquer coisa ou pessoa, o que corresponde, a meu ver, a atomização mais extremada. O sentido político disso fica claro pra mim numa propaganda: Coca-cola, Viva as diferenças.
Na "verdade verdadeira", eu não pretendi defender a comparação em si (ainda que não a condene - tendo briga, estou dentro: assim, não tenho problema algum em dizer que Macunaíma, de Mário de Andrade, é infinitamente melhor que Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, juntos - o que não implica, de modo algum que eu jogue os últimos na lata de lixo; escolhi fazer e fiz minha dissertação mais sobre Oswald que sobre Mário). O que eu "quis dizer" é que, por vezes, usa-se da máxima "Não se pode comparar" para negar o caráter hipertextual que o mundo possui (característica que fica mais explícita na cultura, ou melhor, no que entendemos por "artes"). A linguagem "não passa" de infinitas referências tanto ao "mundo" e/ou ao "real" quanto a si mesma. Isto sempre foi e sempre será desde a antropogênese. O "mundo" não vira uma grande rede a partir da internet - esta apenas explicita um dado intrínseco, o de que a linguagem (a cultura) é uma sucessão de comentários a um grande livro não escrito que chamamos de "mundo" (ou de "real").
Dito isso, eu entendo que o "Não se pode comparar", quando referido à diferença de linguagens entre o cinema e a literatura, possa ter uma função didática (ainda que acredite - e esse será o tema de outro post que a discussão me provocou - que desde o "momento" em que se percebe que a escrita é um desenho sui generis, pois auto-referencial, tal diferença fica clara, ainda que não seja expressa tão explicitamente), é preciso tomar cuidado para não atravessar a fronteira onde o didatismo se converte em autoritarismo: é preciso, antes de enunciar a "verdade", saber se o interlocutor não a conhece.
Para explicar, vamos aos fatos. O que motivou o post abaixo foram diversas discussões que se assemelham, não pelos conteúdos, mas pelo uso da máxima por parte de meus interlocutores. Tentei condensá-los no exemplo mais recente de conversas que tentei travar a partir de um filme. Sempre que dizia - e é importante notar que o poder dos significantes é sempre superior ao dos significados, daí o furo da teoria habermasiana da ação comunicativa - que os dois contos de Machado de Assis em que Júlio Bressane dizia (explicitamente) ter se inspirado para fazer o filme eram infinitamente melhores que este, ouvia como resposta a máxima. Ainda tive tempo de sugerir que o filme era uma banalização monotemática de um motivo, descontextualizado, tanto na forma, quanto no conteúdo, dos contos: o caráter obsessivo-compulsivo dos personagens. Fui censurado pela máxima e não pude desenvolver o raciocínio, o que faço aqui. Não só Bressane "entrega o jogo" logo de cara - em A causa secreta, um dos contos, ficamos o conto inteiro querendo saber o misterioso porquê do comportamente obsessivo-compulsivo de um dos personagens para nos frustarmos ao final, que não revela causa qualquer, pois ela é, de fato, secreta, o que quer dizer, infundada (o que Machado põe em cena é o modo como a autoridade, a aura, se fundamenta tão-somente no segredo sobre o seu (não)fundamento) -, já que fica óbvio, desde o começo do filme, que o comportamento obsessivo-compulsivo dos dois personagens não tem causa, sendo o objeto de desejo substituído a 3 por 4, como também, o diretor não extrai os efeitos dessa inversão formal (é o ritmo do filme, e não uma antecipação narrativa do conteúdo que deixa claro no início do filme o que só transparece no final do conto). Os dois personagens obsessivo-compulsivos de A erva do rato não tem, desde sempre, aura. Mas Bressane não trabalha em cima deste seu caráter profano. É pura rotina - ou seja, repetição. Nada "acontece", mas tampouco este não acontecer é explorado. Antes, resvala pro que o cinema brasileiro "tem de melhor": melhor pelada a torto e a direito. E também para o riso. Se, no conto de Machado, o que está em jogo é o processo de fetichização (ou reificação) - o comportamento obsessivo-compulsivo é mórbido e sádico, ele vai coisificando o objeto de desejo -, no filme de Bressane, estamos diante do fetiche pronto, acabado e embalado para o consumo (fica óbvio que, depois da morte da parceira que fotografava nua de todos os ângulos, o personagem interpretado por Selton Mello iria dar um jeito de continuar com seu comportamento, o que acaba fazendo fotografando o esqueleto da morta - obviedade ou explicitude que também não é explorada). A pura medialidade não alcança seu potencial crítico - não ultrapassa a esfera do entretenimento.
Pra arrematar, uma curiosidade, que resume tudo: quando perguntei a meus interlocutores se haviam lido os contos do Machado (e não foi no mesmo dia da exibição do filme), a resposta foi negativa. Se se tratam de linguagens diferentes como argumentavam, a leitura dos contos só ressaltaria isso. É comparando que se pode chegar à conclusão de que não se pode comparar. Usar a máxima para escamotear uma referência hipertextual explícita do autor (no caso, direto) seria o mesmo (na verdade, seria pior) que eu me negar a ver o filme por já ter lido os contos - o que não fiz. Meus interlocutores viram o filme e se negaram (pois, para fazê-lo bastava vontade: com acesso a internet e quinze minutos de leitura, estaria tudo resolvido) a ler os contos. Se o que fiz (i.e., seguir uma referência) é uma com-paração, prefiro ser um comparatista doente a insistir, como um mantra que um produto cultural produz seu sentido sozinho.
Atualização (5/7/2009): Pra ter uma visão diferente (e fundamentada) de A erva do rato, vale ler os comentários de Jair Fonseca a este artigo (o artigo em si é um malabarismo só, consegue ver amor (?!?!) no filme, realmente uma proeza).

"Não se pode comparar" - é a máxima quando o que se quer proteger é a autonomia de uma obra. Não é contra a comparação que este argumento se volta, é contra qualquer exterioridade: um mecanismo de imunização. Não se pode mencionar outra linguagem que não a do "suporte", não se pode trazer à tona outro momento histórico, mesmo quando é a obra que o requer, não se pode cruzar poetas, mesmo quando um deles cita o outro. Se você fala prum estudante de cinema - ou prum cinéfilo, dá na mesma - que o filme de certo diretor não passa de uma banalização monotemática dos contos de um escritor consagrado nos quais o próprio diretor diz que se inspirou (e mesmo que o próprio diretor ressalte isso em todas as exibições públicas e que a menção aos contos compareça em todas as sinopses, até nas mais curtas), o estudante/cinéfilo te responderá que "Não se pode comparar as duas linguagens" - um argumento que, inconscientemente ou não, é de uma autoridade brutal e visa a infantilização, pois desde pelo menos a alfabetização qualquer um percebe a diferença entre uma imagem de TV e a página de um livro. "Não se pode comparar" é, na verdade, de um eufemismo pra "cada macaco no seu galho", que, por sua vez, quer dizer: há mercado para todos e não venha mexer no meu peixe.
(Um exemplo contrário a esta lógica que a confirma por sua excepcionalidade é o Vistos e escritos, melhor blog "sobre cinema" que conheço. A sua leitura dos filmes de Tarantino é, também, a melhor que já vi. Arte e crítica não são competições olímpicas, mas também não são Jogos Abertos).



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