Intervenções

"Um autor não tem direitos, apenas deveres" (Jean-Luc Godard)

Quarta-feira, dia 15 de setembro, policiais civis cariocas "foram a uma loja copiadora da Escola de Serviço Social, apreenderam todo o acervo (inclusive as pastas com o material pedagógico deixado pelos professores daquela Unidade) e detiveram o proprietário da copiadora, que foi encaminhado para a Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), na Lapa. O rapaz, identificado apenas como Henrique, foi indiciado e responderá ao processo em liberdade." Conhecendo o modus operandi da Polícia do Rio de Janeiro, tem treta no meio: a justificativa para a ação foi uma denúncia anônima, mas se houvesse, de fato, intenção de coibir a prática ilegal de cópias, os policiais não se restringiriam a uma barraquinha de xerox, quando poderiam ter fechado todas as que operam não só na UFRJ, mas na UERJ, na Unirio, na Gama Filho, na Estácio de Sá, etc, em ações que "inspirariam" as polícias de outros estados a fazer o mesmo. Aliás, é pelo perigo disso acontecer que está na hora de começar a mudar esse quadro.

Quem freqüenta o meio universitário - seja como professor, como estudante, ou como diletante mesmo - sabe do grave problema que é o acesso ao "conhecimento" (imagina então pra quem não o freqüenta). O déficit das bibliotecas das universidades é alarmante (se, de fato, o governo Lula melhorou consideravelmente a situação das universidades, o aparelhamento - no bom sentido - das suas bibliotecas é um problema imenso que persiste e não é tratado como deveria), e a isso se soma a concentração do conteúdo dos periódicos acadêmicos de ponta em bancos de dados privados. Pro estudante ou professor, restam duas soluções: ou ele gasta grande parte de sua bolsa/salário em livros, ou copia ilegalmente (geralmente uma combinação de ambas). Todavia, mesmo assim não acredito que equipar melhor as bibliotecas ou reformar a lei de direitos autorais resolva o problema, ainda que possa, (e devem) mitigá-lo. A quantidade de publicações e a velocidade do mundo acadêmico hoje ultrapassam a capacidade das bibliotecas se manterem tão atualizadas como deveriam. Além disso, a mera concentração de livros ou do acesso a bons periódicos nas bibliotecas universitárias não resolve o problema de fundo que é tornar o conhecimento ou o pensamento comuns (para além das fronteiras universitárias).

Quanto à reforma dos direitos autorais, acho inócua. Primeiro porque não é possível garantir o direito ao autor de receber pela sua obra, e, ao mesmo tempo, possibilitar a reprodução (alguém tem de pagar a conta). Mas, principalmente, porque os direitos autorais expressam uma ideologia em que o conhecimento ou o pensamento são produções privadas, são mercadorias. Os direitos autorais regulam a produção do conhecimento, assinalando a cada autor o direito (até de alienar, como no caso dos ghost writers) a sua produção (livro, obra, texto), individualizando o conhecimento. Porém, e esse é o outro lado da moeda, esse dispositivo pelo qual o autor produz a sua obra é o mesmo que permite a sua responsabilização. Individualizar cada escrito a um autor é tanto garantir que ele tem direitos por ela, quanto permitir que ele possa ser total - e isoladamente - responsabilizado. Por isso, a singela ficha catalográfica, que identifica os dados da obra (autor, título, ano, editora) remete a uma regra do Index da Igreja Católica (a de número 43 na última edição), que proíbe a publicação de livros que não exibam nome e sobrenome do autor e do editor, e o ano da publicação. A regra remonta a uma Instructio do Papa Clemente VIII, datada da passagem do século XVI pro XVII, que obrigou os livros a exibirem nome, sobrenome, e país de publicação,  o que não era comum na medievalidade, que conheceu uma profusão de textos anônimos sobre os quais até hoje se debate a autoria. Desde então, todos os documentos que garantem a liberdade de expressão prevêem também tal mecanismo de individualização e responsabilização. Diz o art. 11º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789: "A livre comunicação das idéias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei". Por sua vez, diz o inciso IV do art. 5º da nossa atual Constituição: "é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato"; por sua vez, o inciso seguinte garante o direito de resposta. Vedar o anonimato é vedar o coletivo, o comum, aquilo que pode ser apropriado por qualquer um sem que constitua uma propriedade.

O capitalismo hoje é um capitalismo de acesso. Tornar comum o acesso ao pensamento é uma das tarefas de uma política que se queira revolucionária. Portanto, acredito que esteja na hora dos próprios autores começarem a agir. Josefina Ludmer propôs uma nova "política dos que escrevemos", cuja "consigna central sería que todo libro editado, como los periódicos, sea digitalizado y puesto en Internet cuando aparece, para que pueda ser leído y usado por cualquiera que pueda acceder libremente." Nesse sentido, acho que a primeira medida seria não publicar em periódicos cujo acesso não seja totalmente livre. A segunda seria só publicar livros por editoras que aceitem autorizar expressamente a reprodução. Não se trata de nenhuma novidade. Já em 1933, Oswald de Andrade publicava Serafim Ponte-Grande com a seguinte disposição de "direito" autoral: "Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas". Mais recentemente, Giorgio Agamben, de modo mais comedido, dispôs, em seu livro O reino e a glória: "Por vontade do autor, este livro pode ser livremente reproduzido, sem fins lucrativos, em qualquer meio, desde que o texto não sofra alterações. A difusão na Internet e as traduções em línguas estrangeiras devem ser expressamente autorizadas pelo autor". Acredito que se deva ir mais longe e autorizar a reprodução também pela Internet, até para romper as fronteiras da cátedra. São pequenas medidas, mas que acredito que possam contribuir a médio prazo ao menos para evitar que casos como o do Rio de Janeiro anteontem aconteçam. Por isso, de minha parte, adotarei as duas medidas.


O post abaixo compila algumas observações de um bate-papo que tive com o Fabiano Camilo no Google Reader/Buzz a partir desse post de Paulo da Luz Moreira. Como nem toda a meia dúzia de leitores do blog acompanha o Reader ou Buzz, e como acho que é um tema interessante pra reflexão, me concedi a liberdade de reproduzi-las em forma de post.

Os setores da esquerda que reivindicavam Vargas eram minoritários depois dos anos 1980. PT e PSDB tinham em comum a idéia de fugir do modelo varguista de fazer política (em 2002/2003, o Idelber chegou a escrever um texto argumentando que a eleição de Lula era a vitória contra o populismo). A reivindicação de Vargas pelo PT é recente, e tem a ver com o alinhamento desenvolvimentista do partido no governo. Mas tal alinhamento se dá em um contexto específico: vem depois da crise do mensalão. O governo Lula antes da queda do Dirceu era o governo do PT "sociedade civil" - pacto social, Conselhão (lembram dele?), Fome Zero, etc.; pós-mensalão, virou estatalista-desenvolvimentista (Fome Zero da sociedade/Estado virou Bolsa-Família do Estado), e passou a depender não do capital simbólico do PT, mas exclusivamente da figura do Lula, que se descola do partido. As conseqüências dessa mudança são enormes. O André Singer, num artigo bastante discutido internet afora, salientou a mudança do eleitorado petista, ou, ao menos, lulista, que deixa de se concentrar na classe média intelectualizada - que "cansou" - e passa a abarcar o antigo lupemproletariado e a nova classe média ascendente. A mudança também explica um pouco da escolha de Dilma - ex-brizolista - como candidata à sucessão de Lula, e se explica pelo próprio Lula, como única figura capaz de dar "coerência" pela própria figura ao que é o governo petista (é o que Ernesto Laclau chama de "populismo" - sem (pre)juízo de valor quanto ao termo).  A (re-)interpretação do passado atende a urgências específicas do tempo presente.

Atualização: O Idelber me passou o link ao seu texto, que já incorporei no post. Trata-se de "La experiencia del PT y la superación del populismo en Brasil", publicado no Bazar Americano, que até pouco tempo era pilotado por ninguém menos que Beatriz Sarlo.

Atualização 2: O Fabiano me passou o link para uma entrevista que Luiz Werneck Vianna deu ano passado ao Estadão. Nela, as duas fases do governo petista e o retorno de Vargas são abordados.


"Raposa política"

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Eu não sei de onde os tucanos tiraram a idéia de que ouvir conselhos de Jorge Bornhausen é um bom negócio. Provavelmente, tem em mente o status de "raposa política" que Bornhausen adquiriu nos círculos políticos e na mídia. Mas se a fama fazia jus à sua atuação durante a ditadura, ela não tem, no período democrático, o menor apoio na realidade, por um simples fato: agora temos eleições. Os feitos dessa "raposa política" depois da redemocratização (antes não vale, porque ser governador biônico não conta), são notáveis.

A primeira jogada de exímio enxadrista político em tempos de democracia foi em 1992. Com o governo Collor quase morto, Bornhausen assume a pasta equivalente à Casa-Civil (secretaria de Governo, salvo engano) para "salvar" o governo. Que cálculo político! Que perícia! Que timing! E todos sabemos o sucesso que foi a operação salva-Collor. Depois, em 1999, só se elege senador por Santa Catarina s custas de Amin, outro filhote da ditadura - Amin era candidato a governo na mesma chapa, e a eleição parecia casada; como diz um amigo, parecia que Bornhausen era candidato à vice do Amin. Como presidente do PFL (vamos descontar os tempos áureos do governo FHC, porque aí as condições eram favoráveis, e o PFL ainda possuía outros "caciques" influentes nos bastidores, como Marco Maciel, e gente eleitoralmente densa, como ACM), teve o mérito de reduzir o número de governadores do partido a ZERO (governador do DF não conta; é governador distrital - e além do mais, era Arruda, que logo virou ex-governador). Bornhausen prometeu acabar com a raça "petista" e disse, em 2006 (não vou fazer link pra fonte, mas é aquela revista bem confiável tratando-se de temas de interesse dos demotucanos), que Lula jamais se reelegeria. E foi essa "raposa política" que conduziu a "reformulação" do PFL naquele processo desastrado que todos conhecemos em que a sigla mudou várias vezes (D25, DEM) até chegar ao atual Democratas, nome que porta um evidente contra-senso: só um idiota pode achar que um partido que passa a liderança de pais para filhos, de César Maia para Rodrigo Maia, de ACM para ACM Neto, de Jorge Bornhausen para Paulo Bornhausen, se "renovou" e é "democrata", e não - o que ele sempre foi - oligarca (como dizia um professor meu: "PFL jovem é uma contradição em termos"). E falando em família, em 2002 decidiu eleger seu filho senador. Como grande "raposa política", traçou uma estratégia de campanha infalível: limitar a campanha ao grande feito único de "Paulinho" Playboy: ser contra os pardais (aqueles radares fixos que medem a velocidade nas Rodovias). Preciso dizer que Paulinho não se elegeu senador? O motivo para tanta habilidade política é simples: Bornhausen não entende nada de democracia. É um político formado na mentalidade da ditadura e sem densidade eleitoral. Ele não entende direito o que é uma eleição. Simples. E se os tucanos já não tem mais um projeto, não são os conselhos eleitorais de Bornhausen que vão ajudar. Se os políticos fossem tão inteligentes quanto a mídia diz, já teriam se livrado dos conselhos dessa "raposa".

P.S.: a sobrevida eleitoral do DEM em SC não conta pros méritos de Bornhausen. Foi a postura do PT em 2003, abandonando o governo eleito PMDB (Luis Henrique Silveira rompera com Serra pra aderir à onda Lula em 2002, mas o PT não aceitou fazer parte do governo), que deu sobrevida ao ex-PFL. O resultado: em 2010, o PMDB não aceitou se coligar ao PT, aliando-se ao PFL. Hoje em dia, o aliado "natural" do PT local é o PP de Amin.


UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), 2001 (ou 2002, não me lembro direito): estoura uma grande greve de servidores (e talvez também professores, também não lembro, mas a greve foi enorme, durou meses, e teve ocupação do Núcleo de Processamento de Dados da Universidade, o que gerou uma encrenca com o governo estadual, porque o tal NPD prestava um serviço indispensável à administração estadual), que imediatamente paralisa as atividades da Universidade, esvaziando-a. Os "estudantes", provavelmente por intermédio do CEB (Conselho de Entidades de Base, que reúne os dirigentes dos Centros Acadêmicos) decidem chamar uma assembléia pra decidir a sua "participação" ou "posicionamento" sobre a greve. Os vinte gatos pingados presentes (provavelmente um integrante de cada umas das 8 facções de esquerda, acompanhado de seu devido pupilo doutrinado, uns dois militantes pagos do PCdoB - fáceis de identificar, são uns caras cabeludos de 30 anos de idade que já fizeram milhões de cursos em universidades diferentes, e que você encontra a qualquer hora do dia em qualquer lugar da universidade, como se eles tivessem o poder de estar em vários lugares ao mesmo tempo -, mais uns dois integrantes do DCE - Diretório Central dos Estudantes - que, à época era dirigido por um grupo de anarco-artistas e "bichos-grilo"), decidem, então, que também entrariam em greve, não só em apoio às reivindicações salariais dos servidores, mas também com uma pauta própria de reivindicações (a maioria legítima e até hoje não atendidas). Em vez de aqueles vinte declararem que aqueles vintes apoiariam a greve (como, de fato, fizeram, participando dos protestos, do acampamento no NPD, etc.), coletivizaram a decisão, e, então - conseqüência lógica - os cerca de trinta mil estudantes da Universidade naquele dia entraram em greve por decisão da Assembléia Geral (sic) dos Estudantes.

Passam-se alguns meses, servidores entram em acordo com o governo e saem da greve. Um calendário de reposição de aulas é discutido e aprovado, e tudo volta à normalidade. Umas semanas depois de toda a Universidade estar funcionando regularmente, ocorre uma reunião do CEB, com mais ou menos os mesmos integrantes da  "Assembléia". Um dos "bichos-grilo" se "inscreve" para falar e decide usar seu tempo para ficar em silêncio. Vaias dos integrantes das facções e de seus pupilos (mais destes do que daqueles). Ninguém respeita a "fala" do bicho-grilo. Seguem-se algumas discussões (não lembro sobre o quê, mas com certeza foram muitos "informes" e provavelmente algum assunto que nunca falta nessas reuniões, como o apoio à Cuba, essas coisas), até que outro "bicho-grilo" se "inscreve" e decide falar. Argumenta que ele - como os estudantes em geral - ainda estava em greve, afinal nenhuma Assembléia - o órgão máximo dos estudantes - havia decidido pôr fim à paralisação. Vaias, gritos histéricos dos burocratas das facções; "Isso é piada!", diz um deles. 

De fato, tudo já estava normalizado e os estudantes assistiam todos às suas aulas. Mas é verdade também que, formalmente, aquela greve dos estudantes nunca terminou. Na verdade, ela nunca começou - só que isso, apesar de ser tão óbvio quanto a lógica da argumentação do "bicho-grilo", era mais complicado de fazer aqueles burocratas entenderem. A recusa dos burocratas ao silêncio era uma recusa do vazio de sua própria representação, da sua própria insignificância - uma recusa da sua falsidade ideológica.


Quem esperava que o casal 20 da Rede Globo deixasse de lado a postura PittBull que exibiu diante de Dilma e Marina pra entrevistar Serra, se enganou - e se esqueceu que tal postura já se revelou com todos os candidatos na série de entrevistas de 2002 e/ou 2006. Pode ser que tenha havido mais boa vontade com Serra, mas o tom inquisitivo, como se tivessem questionando um acusado, se mostrou também diante do candidato tucano. É uma forma de, supostamente, demonstrar independência, igualando "independência" à ferocidade de um inquérito policial (e uma tendência no "jornalismo" que se vê também em programas estúpidos como o Pânico ou o CQC). Mesmo assim, as entrevistas da Vênus Platinada trabalharam, de "forma" "independente", contra Lula. Para os dois candidatos não-petistas, foram feitas perguntas sobre o "mensalão petista", ainda que até hoje não se saiba o que foi aquilo que chamam de "mensalão". Pouco importam as respostas dos entrevistados. O que importa é recolocar em circulação um significante que, independente de seu significado concreto, possui uma carga negativa e produz uma associação imediata ("mensalão" = corrupção; mensalão aconteceu no governo Lula; Governo Lula é corrupto). A maior amenidade da Globo com Serra pouco importa quando a Vênus Platinada, mostrando "independência", recauchuta um significante vazio que só beneficia um dos lados da disputa. 

1. Alguns meses atrás, ouvi de um amigo que Marina Silva, ao não tocar nos problemas que São Paulo passou naquela época de fortes chuvas (já não lembro ao certo o mês, mas a entrevista de Marina a que se referia meu amigo foi dada no mesmo período), estava fazendo o que se esperava dela, afinal "como ela iria falar mal de seu chefe?". O "chefe", é claro, seria José Serra, e o que motivava a ligação Marina-Serra era o fato (ou a hipótese) de que a candidata do PV, roubando votos da candidatura petista, servia aos interesses de Serra.

2. Hoje, no Vi o Mundo, o Azenha sugere que tucanos e Globo decidiram inflar a candidatura de Plínio para, assim, tentar levar a eleição ao segundo turno. A conclusão, implícita - e explicitada pelos comentaristas do post -, é óbvia: Plínio está sendo usando para o jogo demo-tucano.

3. Objetivamente, os dois raciocínios são válidos - com a ressalva de que são válidos apenas se aceitarmos a premissa de que só existem dois pólos disputando. Todavia, Marina e Plínio, se acabam servindo à candidatura tucana, não estão alinhados com o pólo demo-tucano. São casos bem diferentes daqueles em que alguém supostamente fora da polaridade petucana adota um dos lados: o caso de Gabeira na eleição municipal, e, agora, novamente, na estadual; é o caso também de Heloísa Helena na eleição em 2006, na medida em que seu discurso praticamente se restringiu à moralização pós-mensalão; e seria o caso da candidatura de Ciro Gomes ao governo de São Paulo, impedindo a vitória de Alckmin no primeiro turno, e possibilitando a vitória de Mercadante no segundo - aliás, é incrível como o PT faz questão de não governar o estado paulista, rifando novamente Eduardo Suplicy.

4. É claro que a subida de Marina e Plínio agora servem à Serra (como poderiam servir à Dilma, se Serra estivesse a ponto de levar a eleição no primeiro turno). Agora, isso não autoriza alguém a chamar Serra de chefe de Marina, ou de vincular a candidatura de Plínio aos interesses petucanos sem mais. Antes de tudo, a subida Marina serve à Marina e a subida de Plínio serve à Plínio. E mais: a subida dos dois serve justamente para tentar quebrar a lógica dualista que rege as análises petucanas. Uma boa posição de Marina e Plínio força as suas plataformas a serem, se não ouvidas e acatadas, ao menos levadas em consideração no segundo turno (aliás, quando Marina lançou sua pré-candidatura, alguns dias depois, Dilma já estava por aí falando de meio-ambiente). Só um maniqueísmo tosco desconsidera isso.


Recentemente, foi lançado, pela Boitempo, O que resta da ditadura, organizado por Edson Telles e Vladimir Safatle. Os artigos dos livros apresentam várias faces da persistência do entulho autoritário. A meu ver, uma das principais - não sei se abordada no livro, já que não terminei a leitura ainda - é a lógica binária do Terror, que produz uma cisão no interior do povo (e, no limite, no interior do próprio sujeito) entre amigo e inimigo, e em que qualquer gesto que tenha a possibilidade mínima de ressoar como falta de engajamento é encarado como hostilidade e conivência. (Sobre o assunto, Ana Longoni escreveu um excelente livro, Traiciones, no qual mostra como sobreviver a um regime bárbaro e testemunhar contra ele pode ser lido como um sinal de traição pela resistência). Por isso, a ditadura permanece não só quando Agripino Maia vê uma imoralidade no fato da Dilma ter mentido sob tortura, mas também quando um "intelectual" petista compara o exílio do então presidente da União Nacional dos Estudantes José Serra a um "abandono" da resistência ou quando um blogueiro, que acha que auto-crítica é criticar os outros, afirma que Caetano Veloso foi preso pela ditadura porque quis aparecer (pois deveria ter se exilado antes). A lógica da ditadura, a lógica do Terror, faz ver ameaças por todo o lado. Diante do outro, só vê duas opções - amigo ou inimigo. Invocá-la para fins eleitorais não é só perversão. É, daí sim, conivência com um modo terrorista de pensar.

P.S.: Pra que fique claro: uma Comissão da Verdade (ou melhor, a punição dos torturadores e da cadeia de comando que vai deles até o alto escalão - basta ler as atas das reuniões do Conselho de Segurança Nacional pra que fique claro o quão ciente ele estava do que ocorria no país) NÃO segue uma lógica do Terror. Esta lógica é produzida intencionalmente, é fruto de uma decisão. A lógica do Terror se impõe aos sujeitos (e é internalizada neles) através de um imenso aparato, que vai do discursivo-censório ao policial-torturador. A identificação dos agentes instituidores e mantenedores desta lógica é essencial ao seu desmonte.


Acredito, como bom leitor de Foucault, que os dispositivos de poder (sempre relacionados a um saber) estão embrenhados até nos recônditos menos esperados da vida cotidiana - o que inclui o futebol. Talvez só a modalidade do esporte bretão conhecida como "futebol brasileiro" (Mauro Cezar Pereira sempre adverte que ele não deve ser confundido com o "futebol" que se pratica no resto do mundo - não pela sua beleza, mas pelas suas idiossincrasias) conheça a figura no comentarista de arbitragem - um ex-árbitro - em suas transmissões televisivas. (E provavelmente só aqui os jogadores chamem os técnicos de "professores"). É ele e só ele que tem acesso à lei, aos meandros da lei, ao seu conteúdo, seu sentido e sua aplicação. É como se a lei fosse uma dimensão inacessível sem a mediação de alguém que já a aplicou, que já foi árbitro não só aos telespectadores, mas também ao narrador e ao comentarista do futebol "propriamente dito". Aos outros, só cabe especular sobre a lei - mas a sua verdade mais profunda só é conhecida pelo ex-juiz. Às vezes, essa submissão ao saber-poder do comentarista de arbitragem beira o absurdo, como nos casos em que o narrador pergunta a ele se a bola tocou ou não na mão do jogador - como que duvidando da própria visão. Em uma sociedade autoritária, o acesso à lei - mesmo a lei de apenas 17 regras que rege o futebol - é sempre mediada por um guardião, que, no fundo, como na parábola de Kafka, tem como função evitar a entrada na lei daquele a quem supostamente ela seria destinada.

Como pode um cidadão, ou melhor, um cidadão ao quadrado, já que representante de outros cidadãos, entrar na mais alta Corte de Justiça do seu país, cometer um crime que a Constituição onsidera tão grave a ponto de enumerá-lo explicitamente como uma violação aos Direitos e Garantias Individuais, recobrindo-o com o manto excepcional da imprescritibilidade e inafiancabilidade, e sair impune? Foi o que aconteceu semana passada, no Supremo Tribunal Federal. É assustador saber que nenhum dos 11 magistrados de "reputação ilibada" e "notável saber jurídico" - muitos deles nomeados por Lula - deu voz de prisão ao racista. As causas desse lapso de dever cívico dos ministros do STF são profundas. Dizem respeito à própria estrutura do Direito. Se o senador tivesse usado o vocabulário do seu mentor, que os jornalistas adoram caracterizar como uma "raposa" da política, um grande "estrategista", aquele mesmo que transformou seu partido em um satélite do PSDB, e tivesse dito que "melhor do que as cotas raciais, é acabar com essa raça de uma vez", ou, ao invés de dizer que as "negras" (escravas) mantinham "relações consensuais" com os brancos (seus patrões), tivesse dito que "as pretas, putas como eram, gostavam mesmo é de dar, e mesmo de apanhar", provavelmente o resultado seria outro. No plano do conteúdo, aparentemente, pouco importa a maneira em que o ilustre senador enunciou o que enunciou: dizer que a relação que um sujeito tem com algo que é, para ele, um objeto, uma coisa - é isso que um escravo é, uma mercadoria, um "bem móvel" - é consensual, quando um dos lados não pode consentir é um absurdo. Todavia, no plano do Direito, essa diferença é tudo. Todo mundo sabe que a KKK é, foi, sempre foi, será, sempre será e sempre continuará sendo uma organização racista. Porém, agora que não advogam mais publicamente que os negros devem ser queimados, mas que os brancos são discriminados (sic), eles podem fazer comícios por aí. O problema reside na dimensão formal do Direito. E esse problema o acompanha desde o seu nascimento: ao contrário do que muitos acham, o termo latino "ius" não remete à Justiça (a própria formação do termo "iustitia" é tardia), mas a jurar, "iurare".Direito é juramento, é repetição de fórmulas, ou melhor, a enunciação da fórmula correta. Para que algo se inscreva na esfera do Direito, ele precisa se formalizar, se tornar fórmula. Não se trata aqui apenas de inscrição na legislação, em uma lei elaborada pelo Poder Legislativo. O Direito pode existir - e continuar calcado no formalismo - mesmo ali onde não há lei em sentido estrito, o que é provado pelo Direito costumeiro. A formalização é um processo maior do que a lei, e engloba  toda a máquina judiciária, o que inclui juízes, decisões judiciais, advogados, juristas, a chamada "doutrina", chegando até a sociedade. Trata-se da fixação de conteúdos permitidos ou proibidos em fórmulas. Esse é o paradoxo do que se costuma chamar, em geral pejorativamente, de "politicamente correto": ao mesmo tempo que produz avanços materiais inegáveis, está limitado à própria formalidade. Ou seja, as fórmulas - aquilo que (não) se pode fazer ou dizer - repercute sobre o mundo, modifica o mundo, mas elas não perdem a sua dimensão de fórmulas (a não ser que se seja um marxista muito enviesado e se acredite que a expansão do Direito levará à sua abolição dialética). Aqueles que defendem o Direito como um mecanismo de transformação social (ou mesmo só como uma ferramenta progressista), mais cedo ou mais tarde esbarram nesse paradoxo: o Direito só garante aquilo que está consubstanciado em fórmulas (e são justamente fórmulas que, por vezes, impedem a transformação social). A partir do momento que se defende o reconhecimento jurídico de certos direitos que o Direito não reconhece, se está defendendo a formalização desses direitos. De fato, a oposição entre direito material e direito formal é inócua: na medida em que a formalização dos direitos é um processo histórico, todo direito formal já foi apenas um direito material, e pode voltar a sê-lo. Ninguém é condenado por emitir discursos de conteúdos racistas (matéria) - só existe o crime de racismo quando este é enunciado de uma certa forma, por uma certa fórmula. Que o ilustre senador possa deixar o STF impune é prova clara disso.


PNDA (1929)

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Em 1929, um grupo de intelectuais planejou realizar o Primeiro Congresso Brasileiro de Antropofagia, no Rio de Janeiro. O secretário de educação do Espírito Santo se envolveu, apoiou a iniciativa, de modo que o Congresso, agora Mundial, se realizaria em Vitória. Por alguns motivos, até hoje não muito esclarecidos, o Congresso não aconteceu. Mas a idéia era discutir uma série de teses que seriam debatidas e convertidas "em mensagem ao Senado e à Câmara, solicitando algumas reformas da nossa legislação civil e penal e na nossa organização político-social". Entre os responsáveis pela elaboração da maquete do Congresso, estava nada menos que Pontes de Miranda, provavelmente o jurista mais erudito que o Brasil já teve no século XX (também estava Raul Bopp, que faria larga carreira na diplomacia). Devido à divisão do conhecimento em disciplinas, aprendemos, desde a escola, que a Antropofagia foi um movimento literário. Com isso, nas universidades, só se estuda a Antropofagia nos cursos de Letras (ou no máximo, naquelas relacionadas ao campo artístico). Nada mais falso - nunca vi um movimento literário que não produzisse uma obra literária sequer (os antropófagos diziam que sua obra mais acabada era Macunaíma, de Mário de Andrade, que negava o rótulo e, além do mais, era atacado pelo grupo). Uma rápida olhada no "decálogo" de teses que seriam discutidos no Congresso revela a politicidade do movimento e o quanto não saímos do lugar:

I - Divórcio. [Só regulada no Brasil em 1977]
II - Maternidade consciente. [ou seja, a legalização do aborto]
III - Impunidade do homicídio piedoso. [a saber, a descriminalização da eutanásia]
IV - Sentença indeterminada. Adaptação da pena ao delinqüente. 
V - Abolição do titulo morto. [o que implicaria reforma agrária: o título morto é o título de uma propriedade que não se usa]
VI - Organização tribal do Estado. Representação por classes. Divisão do país em populações técnicas. Substituição do Senado e Câmara por um Conselho Técnico de Consulta do Poder Executivo.
VII - Arbitramento individual em todas as questões de direito privado. [a tal mediação e/ou arbitragem que tá tão em alta nos dias de hoje] 
VIII - Nacionalização da imprensa. [precisa falar algo?] 
IX - Supressão das academias e sua substituição por laboratórios de pesquisas.
(Outras teses serão posteriormente incluídas).

Se tivéssemos levado a sério pelo menos um terço desta espécie de Plano Nacional de Direitos Antropofágicos, não teríamos hoje a celeuma toda em cima dos PNDHs. Ah, mas era coisa de "artista" não é mesmo? 


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

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