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A história do poder é a história da captura das formas de crítica e resistência a ele. Este bem poderia ser o mote de certa tradição intelectual marxista, que se cristaliza na chamada Escola de Frankfurt (por esse motivo, sempre acusada de pessimista), e na qual se inscreve Vladimir Safatle. Como sabemos, uma das características que marca a especificidade da guinada intelectual dos frankfurtianos é a aliança entre teoria social crítica e psicanálise (a ausência completa desta em Habermas é suficiente para sinalizar que ele não é herdeiro desta tradição) - e, também aqui, com a presença decisiva de Lacan no rol analítico de Safatle, se pode notar a sua filiação a esta corrente. Este é um dos motivos pelos quais a acusação feita por Evando Nascimento - a de ser um "amálgama" intelectual - em relação a Cinismo e falência da crítica, que hoje discutiremos, ser falha: não leva em conta a centralidade que Adorno e Lacan possuem na análise de Safatle: Foucault e Deleuze, "estão, em larga medida, sendo criticados em pontos regionais e precisos", para usar os termos do próprio autor em sua resposta à Evando Nascimento. A meu ver, a postura de Nascimento reforça uma oposição que esteriliza o pensamento brasileiro, a oposição entre "pós-estruturalistas" e os "uspianos marxistas" (prova disso são os textos de encerramento do "debate", em que não se debate mais nada, pois a dicotomia fora traçada como premissa na resenha inicial) - e, a meu ver, a obra de Safatle deve, por isso, ser inserida neste contexto como um esforço de, partindo de uma teoria crítica frankfurtiana, dialogar criticamente com o "pós-estruturalismo", isto é, aproximar (no sentido de colocar em contato, o que não quer dizer fusionar)  correntes que, no Brasil, costumam ficar separadas como água e vinho (citar um autor de uma delas aparece como filiação imediata). Há, porém, um ponto em que a resenha de Nascimento é certeira: "a impressão", que se tem ao ler o livro, de "que teria havido na história do globo um período de total e pleno direito, após o qual ocorreria o advento de sociedades anômicas, em que predomina a crise de legitimação". Talvez se Safatle tivesse atentado mais à periferia global (ele o faz, mas de passagem), pudesse ter visto que, aqui, nunca houve crise de legitimação, porque nunca houve legitimação da racionalidade social.

Mas, antes das críticas, vamos ao diagnóstico traçado por Safatle. A situação que ele descreve se assemelha ao que Paulo Arantes, em Extinção (que discutimos no Clube de Leituras anterior), chamou de "estado de sítio moral da inteligência globalitária". Porém, Safatle vai mais além e procura compreender a lógica desta "petrificação geral da linguagem" (para usar outra expressão de Arantes), na qual identifica o "cinismo": "a recorrência de casos de enunciação da verdade que anulam a força perlocucionária da própria enunciação sem, contudo, transgredir os critérios normativos de enunciação e justificação" (p. 76). Não se trata de mera contradição performativa, como na hipocrisia, mas de um discurso que mantém a lei ao transgredi-la, mostrando como não é possível estabelecer um nexo seguro entre a lei e sua aplicação, isto é, para usar a terminologia de Safatle: mostrando como a indexação não é um processo inequívoco, está longe de ser uma subsunção lógica. Se o cinismo pôde funcionar como instrumento de crítica, hoje ele teria sido capturado e internalizado pelo status quo: "o cinismo é a continuação do princípio da identidade por outros meios" (p.60), ele mantém "a lei do valor ao mesmo tempo em que mina o valor da lei" (p. 102). Ou seja, não enfrentaríamos mais a "ideologia" enquanto "falsa consciência", mas sim enquanto "falsa consciência esclarecida", ou "ideologia reflexiva". Isto porque o capitalismo contemporâneo, como bem aponta Safatle a partir de uma indicação precisa de Adorno, é totalmente transparente. Aqui, a análise da configuração recente dos produtos da indústria cultural revela tudo: "Os [seus] conteúdos já são previamente ironizados e é isso que lhes permite continuar circulando": "Personagens de contos de fadas que não mais se reconhecem e criticam seus próprios papéis, propagandas que zombam da linguagem publicitária, celebridades e representantes políticos que se auto-ironizam em programas televisivos", etc. Como está cada vez mais claro, há um paralelo entre a situação de exceção atual e o fascismo: assim, Safatle, fazendo uso mais uma vez de uma análise de Adorno, argumenta que, neste, "tudo era aparência posta como aparência e, fato de suma importância, sabia-se disso" (p. 97). Poderíamos dizer, portanto, que O Grande Ditador, de Chaplin, não é uma paródia a Hitler, mas o seu perfeito retrato - e daí um certo mal-estar entre algumas pessoas que assistem ao filme (e o gozo de muitas outras). 

A ideologia, deste modo, não seria uma crença, mas "uma questão de repetição de rituais materiais", o que, sob o reino do cinismo, implica "uma inércia na modificação do agir (...) ainda maior, pois o sujeito se dessolidariza de seu próprio ato, que ganha a força do automatismo" (p. 106). Além do paralelo entre exceção contemporânea e fascismo, Safatle aponta para outra especificidade do capitalismo atual bastante visível: a centralidade do consumo em detrimento da produção. A partir desse dado, Safatle tenta mapear como isso acarretou (e foi acarretado por) uma mudança na "economia libidinal": a passagem de uma ética do trabalho e da poupança a uma "ética do direito ao gozo" - "a incitação e a administração do gozo se transformaram na verdadeira mola propulsora da economia libidinal" (p. 128). O resultado não seria tanto a "satisfação administrada", mas a "insatisfação administrada", pois há uma "desvinculação geral entre imperativo de gozo e conteúdos normativos privilegiados" (p. 132): o imperativo de gozo jamais é satisfeito, o "Goze!" é um significante vazio, jamais se identifica, senão parcialmente, com um objeto. Além disso, os produtos disponíveis à suposta satisfação já são de antemão ironizados (eles nem prometem mais a satisfação). Os objetos de consumo não disponibilizam só conteúdos determinados de certa formatação social (como uma crítica simplista insiste), mas "a pura forma da reconfiguração incessante que passa por e anula todo conteúdo determinado", pura forma essa possibilitada pela manutenção de um "único axioma intocável": "o processo de autovalorização do próprio capital. Axioma, e não código que determina o sentido dos fluxos que os processos de equivalência produzem" (p. 140). Até aqui, estou de acordo com o Safatle. Mas, a partir desse panorama, quero apontar algumas divergências:

1) Não estou inteiramente convencido de que a passagem do supereu repressor ao supereu que ordena o gozo implica necessariamente que o capitalismo contemporâneo não incuta mais culpa. Pelo contrário. Walter Benjamin, em "O capitalismo como religião", texto de 1921, identifica o capitalismo como a primeira religião sem dogma, no que converge com a análise de Safatle (no fato da ideologia não ser uma crença, mas repetição de rituais materiais), mas se afasta dela ao acrescentar que, além disso, o capitalismo, enquanto religião não produz a expiação, mas a culpa. Creio que a culpa seja a forma do capitalismo capturar a insatisfação em relação a ele (captura que Safatle também aponta, a partir de Guy Debord). Inserindo a insatisfação no domínio jurídico da culpa, que, como todo ato jurídico, pode ser compensado, transigido, julgado, o capitalismo se retroalimenta - basta ver o atual discurso da responsabilidade (também um termo jurídico) social, ambiental, do consumo responsável, etc. Porém, o capitalismo não expia a culpa, a produz. Daí que a retroalimentação se torne infinita. Ao exercermos o "consumo socialmente correto", tentamos expiar o inexpiável - e logo tentaremos a expiação em outra "forma de vida" oferecida como commodity. 

2) A partir desta idéia benjaminiana de que o capitalismo é uma religião puramente ritual, ou seja, sem dogma, gostaria de apontar outro ponto que está ausente em Cinismo ou falência da crítica. Não é propriamente uma falha de Safatle, já que ele não se propõe a investigá-lo, mas que poderia trazer mais elementos para a análise. Me refiro à passagem entre os dois regimes (aquele no qual se tentava legitimar as condutas e os discursos apelando a uma normatividade da racionalidade social, e o atual, em que esta é ironizada de antemão - ou, por outra, a passagem do supereu repressor ao supereu que ordena o gozo). Se Safatle explica muito bem tanto um quanto outro, não investiga a transição entre os dois regimes. Não estou falando aqui das mudanças infra-estruturais, mas do modo, do procedimento desta ruptura, desta descontinuidade. Isto poderia jogar luz no porquê, apesar do valor da lei ser minado, a lei do valor se manter, isto é, no porquê a "forma mercadoria" se sustentar. Acredito (mas por ora é só uma hipótese) que esta passagem se dá por um contínuo esvaziamento da função significante da linguagem, por um processo no qual todas as determinações referenciais entre significante e significado tivessem se "gastam". É como se quanto mais comunicação e informação, quanto mais linguagem houvesse, menos sentido se produziria. Ou seja, haveria uma íntima ligação entre a esfera pública (que nasce com a burguesia) e o esvaziamento dos significantes. No limite, todo significante é um significante vazio e indeterminado (como o imperativo "Goze!"). O sentido da Babel é esse: não a produção de línguas intraduzíveis entre si, mas a exposição do hiato, inerente à linguagem, entre significante e significado. As apostas na "ação comunicativa" ou mesmo na bizarra traduzibilidade eletrônica de conceitos, não ignoram esse dado; pelo contrário, intensificam o hiato: o que fazem é tratar a linguagem como pura forma, cujo conteúdo pode ser substituído (traduzido) ou valorado por uma racionalidade que se tornou procidemental (o melhor argumento). Vale quanto pesa: isto é, a linguagem se converteu em dinheiro (isto é, em uma pura forma destituída de valor, mas que torna todos os conteúdos equivalentes, isto é, cambiáveis). Isto explicaria porque a indústria cultural, a sociedade do espetáculo e do consumo são hoje eixos do capitalismo contemporâneo: este replica o hiato específico à linguagem (entre significante e significado), racionalizando-o (capturando-o) como instaurador de equivalências cambiáveis;

3) Antes de encerrar, mais umas linhas sobre a "forma mercadoria" e sobre este hiato inerente à linguagem. O diagnóstico, traçado por Safatle, de que o modelo atual de crítica faliu se dá no contexto da discussão sobre a indexação da lei: o cinismo dominante revelaria que a denúncia da inadequação entre ato e lei não serviria mais à crítica, pois o poder a internalizou: "Talvez estejamos tão acostumados a compreender racionalidade como normatividade que nos espantamos com situações nas quais o acordo intersubjetivo em relação a critérios e valores não nos leve a um acordo em relação aos modos de aplicá-los ou, ao menos, a maneiras de retirar a ambigüidade de sua aplicação" (p. 79). Porém, há toda uma linhagem "crítica", para a qual a reflexão sobre a linguagem foi essencial (pós-estruturalismo, feminismo, etc.), que jamais achou ser tarefa sua essa denúncia da inadequação entre ato e lei (antes, a inadequação lhe serve de premissa). Se alguma crítica faliu, foi uma crítica marxista embebida por demais em certo kantismo. Por isso, Safatle não tem como, depois de traçado o diagnóstico, analisar soluções propostas justamente por esta  "outra" linhagem crítica - é o que faz no capítulo dedicado à paródia. Se ele está correto em dizer que a paródia reforça o original - algo que Mário de Andrade, ele mesmo praticante inveterado da paródia, enunciava ao dizer que é o falso que valoriza o autêntico -, não acredito que ele o esteja quando aponta as limitações, por exemplo, da idéia de "profanação", do Giorgio Agamben, argumentando que o capitalismo a capturou. A profanação, segundo Agamben, é a restituição, daquilo que estava separado, numa esfera sacralizada, ao uso comum dos homens. A meu ver, o melhor exemplo de profanação foi descrito por Guy Debord, em sua análise da Revolta da população negra no bairro de Watts, em 1965: "A passagem do consumo à consumação realizou-se sob as chamas de Watts. As grandes geladeiras roubadas pelas pessoas que não possuíam eletricidade, ou que tinham a corrente cortada, é a melhor imagem da mentira da abundância tornada verdade em ação. A produção mercantil, assim que deixa de ser comprada, transforma-se em criticável e modificável em todas as suas formas particulares. Apenas quando paga com dinheiro, qual símbolo de um grau na sobrevivência, ela torna-se respeitada como um fetiche admirável". Não se tratava de expor a inadequação entre lei e ato, mas de mostrar como tal inadequação, quando não mediada pela forma dinheiro, ameaçava esta. Do mesmo modo, a crítica ao cinismo passa por encarar o hiato entre significante e significado como campo da ação humana, isto é, livre da mediação de uma linguagem convertida em pura forma, em dinheiro, da mediação entre equivalentes cambiáveis. Quando a linguagem se torna dinheiro, talvez a solução seja tornar o dinheiro linguagem.

Bem, para o pontapé inicial do debate, já falei demais. Abordei apenas alguns pontos do livro, mas tenho certeza que os companheiros do Clube irão esmiuçar todos os demais.


Sopro 16

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Está no ar, com um certo atraso devido a problemas técnicos, o Sopro 16 (o link é para o formato flash; para a versão em PDF, clique aqui). Neste número: uma resenha ("As assinaturas de uma política que vem") de Signatura rerum, livro de Giorgio Agamben (há uma tradução francesa disponível para download aqui), escrita por Vinícius Honesko; e a segunda parte do verbete "Vestígios", escrita por Cristiano Moreira (a primeira parte pode ser lida aqui). No próximo número, que deve sair dentro de uma semana, publicaremos a tradução de um pequeno, mas curiosíssimo texto de Walter Benjamin sobre Mickey Mouse.

P.S.: Amanhã acontece o debate sobre o livro Cinismo e falência da crítica, do Safatle. Se tudo der certo, já nessa madrugada dou o pontapé inicial da discussão.


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Estarrecidos com a nova moda de patrulha aos livros didáticos e paradidáticos, o pessoal do jornal literário Urtiga dedicou o número de agosto ao tema. Colaborei respondendo algumas perguntas feitas pelo professor e blogueiro Caio Ricardo Bona Moreira (que, aliás, já escreveu um post sobre o assunto): a entrevista, onde retomo e sistematizo muitos pontos de vista já esboçados aqui no blog, está disponível aqui.


Dia do Juízo (VI)

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Das muitas infâncias que tivera, nenhuma o marcara menos que a verdadeira. A vida de filho de camponês o entediava, como se fosse uma ininterrupta espera de algo, algo que não sabia, jamais saberia, o que era. O mundo, então, havia sido para ele apenas um índice de acesso aos sonhos que, por sua vez, eram a única via de acesso ao real. Ao contrário do que pensam os adultos, a imaginação é um fardo e exige disciplina. Deformar a realidade toma tamanho tempo e energia que não sobre o suficiente para as vicissitudes. Se pudesse conscientemente reunir estas reflexões quanto adulto, como tanto queria inconscientemente o hoje funcionário do Fórum, sempre impedido pelos prazos dos processos, se pudesse, cravaria sem sombra de dúvida: o autismo é a deformação da realidade em tão alto grau que esta se torna imaginação. Entretanto, também este devaneio metafísico ficara na adolescência.

A questão da cor, com as aulas de literatura, passou a ser a questão da linguagem. A solução pela história, que uma politização pastoral e precoce lhe incutira, se converteu na solução pela gramática, igualmente pastoral, mas agora mística. Começou a escrever um pequeno texto sobre Kafka que girava sobre o nome da personagem d´O Processo¬: como traduzir "K." ao português - se este não admitia a letra no analfabeto? A pergunta, mesmo aparentemente sem sentido ou qualquer sentido prático (o que, no fundo, dá na mesma), apresentava para o jovem interiorano duas soluções: J. ou L., uma regressiva, outra progressiva. No curto texto que escreveu - e jamais terminou -, argumentava que L. parecia ser a solução mais lógica, por ser linear, suprindo a falta de algo, por aquilo que lhe seguiria na ordem natural. O problema, e ainda que a formulação não fosse exatamente esta, mas poderia ter sido, é que a escolha pelo L. pressuporia o que quer substituir e a satisfatoriedade da sua substituição. Se o nosso alfabeto não reconhece o K., dizia o texto, não faz nenhum sentido postular aquilo que viria depois dele. A solução pelo J., acrescentava, correria o risco de identificar biografia e ficção, cor da terra e cor do sangue teria pensado alguns anos antes, Joseph Kafka. Mesmo assim, lhe parecia mais adequada. Interrompeu a redação sem explicar por quê, do mesmo modo que o K. interrompia o processo de tradução por sua ausência. O J., talvez quisesse dizer, sinalizaria justamente esta interrupção, a impossibilidade de transpor a falta, mas ao mesmo tempo a indicação de uma iminência, como se um relógio estancasse por faltar-lhe um minuto a designar, passando a marcar um eterno presente onde todo instante é o mesmo, à espera do seguinte, ainda ausente. A deriva metafísica juvenil não sabia que lhe dominaria a vida anos mais tarde. Não como reflexão. Como realidade.

*** 

(Dia do Juízo é uma ficção publicada, paulatinamente, aqui no blog, às sextas-feiras.)

I * II * III * IV * V


"Fogo amigo"

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A política (como ela é) é relacional, isto é, uma guerra de posições. Ou seja, diante de um campo dividido em dois pólos, um deles tendo como núcleo a bandeira da moralidade, se adoto esta (a idéia de que o governo é corrupto, não sabe administrar, aparelha o Estado, só quer saber de fazer aliança com a calhordice), então, querendo ou não, me coloco do lado daqueles que partilham desta bandeira, que fazem parte deste pólo (que dentro destes, há os que o fazem cinicamente, não importa). Foi o que fizeram Gabeira e o PSOL, que jogam o jogo da oposição demo-tucana. Agora, isso não quer dizer que não é possível tentar reorganizar o cenário, recriar os pólos que organizam o cenário. É o que há tempos alguns tucanos mais inteligentes e menos egóicos que FHC estão tentando dizer ao seu partido, pois sabem a farsa que é se organizar em torno a um núcleo tão frágil politicamente quanto a moralidade (UDN e Collor o comprovam). É também o que, recentemente, se esboçou no congresso do PSOL, com o aceno à centralidade que a crítica do modelo econômico atual deve ter no partido. E, por fim, é o que Marina Silva tenta com a sua saída do PT. Em nenhum momento desta transição ao PV, Marina Silva focou na temática da corrupção do governo Lula, porque sabe que, ao fazê-lo, iria desembocar na arena demo-tucana, o que ela não quer, na medida em que busca, justamente, criar um outro pólo. Assim como "nunca antes na história" dessa transição, Marina Silva se afirmou como candidata ambientalista (pois um pólo político meramente "ecológico" é igualmente frágil): antes, a sua insistência de que a crise atual do capitalismo, combinada às mudanças climáticas, implica a necessidade de mudança dos modelos de produção e consumo, revela que o que está agregado na sua bandeira do "desenvolvimento sustentável" é muito maior do que mera defesa das "araras azuis", como se ironiza por aí. O apelo ao "sonho", à possibilidade de recriar um projeto de desenvolvimento, por mais vago que seja, adquire força no atual cenário onde os dois pólos fortes se debatem pra ver quem é mais eficiente e pragmático na administração. Por isso, não podemos ficar pensando só na análise de curto prazo (a possibilidade de Marina ganhar a eleição presidencial), pois o que talvez esteja em jogo seja a reestruturação do cenário a médio ou longo prazo. Por isso, Marina tem insistido que não valia a pena fazer a luta dentro do PT, isto é, dentro de um dos pólos. As dificuldades de tamanha empreitada são enormes, mas foi justamente o que o PT (e em menor medida, o PSDB) fez, modificando o desenho do jogo (dominado, na década de 1980, pela arquitetura política da ditadura, bem como pelas forças pré-64). Marina Silva não se opõe ao pólo-PT, como não se opõe ao pólo-demotucano, ela se opõe a esta polarização. Agora, se os petistas (e me refiro também aos não-filiados, às vezes muito mais histéricos que os filiados) continuarem com essa cruzada de dizer que Marina joga o jogo da oposição (ainda que, em 2010, acredito que, a princípio, ela tire mais votos de uma candidatura tucana do que de Dilma), com direito as maiores baixarias (comparações com corredores quenianos, a chamando de "musa do verão da República Morumbi-Leblon", e outras frases feitas que só revelam a esterilização do discurso que dará o tom ano que vem) conseguirão, de fato, fazer com que ela o jogue. Se não derem espaço para que ela crie este novo pólo, e fecharem o próprio, definitivamente a empurrarão ao outro. "Não inventes o que não queres que aconteça", pra repetir uma fala que ouvi recentemente numa peça de teatro. Ano passado, o senador demo Agripino Maia lançou a candidatura de Dilma ao "acusá-la" de mentir sob tortura durante a ditadura. Os petistas estão inventando o que não querem que aconteça ao insistirem, como é tradicional na esquerda, que Marina Silva é traidora, só para não ter de fazer a auto-crítica que a sua saída do partido impõe. Mas de um partido com histórico de "fogo amigo" e capaz, como nenhum outro, de fomentar a oposição, já era de se esperar.

P.S.: Escrever este post foi um tanto doloroso - e era algo que eu preferiria não ter de fazer. Mas o alto grau de violência da reação dos blogueiros lulistas à saída de Marina Silva revela um grau de esterilização discursiva petista que me recuso a compartilhar. De certa forma, o próprio fato de eu escrever este post é um sintoma do que argumento nele. 
P.S.2: Meu computador pessoal está pifado, então está um tanto mais complicado para responder os comentários, escrever mais posts, bem como fazer as devidas linkagens. 


Há uma diferença fundamental entre os blogs e o Twitter, algo que transcende a limitação de caracteres: enquanto existe um número ilimitado de blogs (o blog é "só" uma forma, com plataformas infinitas), só existe um Twitter (forma e plataforma se confundem) - criar O blog seria algo como o projeto mallarmaico de escrever O livro. O sentido dessa diferença é algo a ser explorado (e para além da mera concentração econômica). Esta semana, Daniel Link identificou, na "decadência do blog" ocasionada pelo Twitter e pelo Facebook, um "limiar de transformação". Hoje, em artigo para o DC Cultura, Victor da Rosa reflete sobre "A invenção do Twitter" por parte de Félix Fénéon, crítico francês, que publicava "Notícias/Novelas de três linhas", em que fato e ficção, devido a forma em que eram enunciados, se tornavam indiscerníveis. Caberia notar que os pintores pontilhistas, aos quais Fénéon era próximo (como nota Victor), "nada mais faziam" que pintar em pixels. A história só se repete como farsa, isto é, como ficção. À "literatura" não cabe exclusividade alguma nesse papel. Falta só os críticos literários e professores de literatura - que, em sua maioria, preferem não saber o que são os blogs e o que é o Twitter - entenderem isso.

Acaba de sair o oitavo volume da revista Prisma Jurídico, editada pelo jurista e poeta Pádua Fernades. Colaborei com o artigo "[...] o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas": notas sobre o Direito Antropofágico:

A constituição dos Estados modernos se dá em um movimento duplo: uma apropriação "primordial", seguida de sua sacralização na esfera do Direito (e da identidade), ou seja, ampara-se na ideia de propriedade fundada na ocupação. Para as nações periféricas, fazer uso do mesmo procedimento significa recair no princípio que as excluiu enquanto eram colônias, como de fato aconteceu na concepção de Brasília, por exemplo. Todavia, na esteira das comemorações do centenário da independência brasileira (1822-1922), o movimento modernista - renegado, hoje, pelas fronteiras disciplinares do conhecimento, ao estudo no campo das letras e das artes - buscou questionar os princípios que baseiam este modelo de constituição nacional. É o caso da Antropofagia, abordada neste artigo, e de sua formulação "jurídica": a "teoria do grilo", da "posse contra a propriedade".

Esse é o resumo. O artigo completo, em formato .pdf, pode ser acessado aqui.

1) A política é a disputa na imaginação pública

Antes de tudo, é preciso esclarecer que, para o bem ou para o mal, o homem é "o animal que vai ao cinema". A imaginação, como esclarecem os filósofos árabes medievais na sua releitura de Aristóteles, é aquilo que liga o indivíduo ao intelecto comum à humanidade. Imaginar, portanto, é sempre um ato coletivo, pois remete à potencialidade humana. O homem é aquele que pode ou não fazer - não tem nenhum destino, nenhuma vocação biológica, como assevera Agamben; antes, sofre de um "déficit essencial", como o caracterizou Oswald de Andrade. A humanidade não tem instintos, a humanidade produz instituições, aquilo que Marx chamou de trabalho - mas o que caracteriza este trabalho é que, antes de ser realizado ele é sempre imaginado. A autoconsciência não é nada mais que a consciência de que se imagina. Sendo uma esfera de saída comum e/ou coletiva, a imaginação sempre foi a trincheira por excelência da política. Representações do outro, auto-representações, projetos, Utopias, símbolos, cerimoniais, nomenclaturas, vocabulário - os exemplos são infinitos e em cada um deles se trava um embate.

2) O Estado sempre foi a hegemonia da mediação da imaginação pública

Se aceitamos tal premissa, isso não quer dizer que possamos concluir que a situação em que certa forma e/ou conteúdo da imaginação pública se torna hegemônica possa ser caracterizada como Estado. Antes, o mais correto seria dizer que o Estado é a concentração da mediação da imaginação pública. Ele não é uma situação da imaginação pública que se estabiliza, mas uma pura forma que permite que qualquer situação se estabilize. Nesse sentido, ele não nasce da concentração da força física e do aparato fiscal - mas do censo e da censura, da medida enquanto parâmetro e ação. Não se trata só de proibição, mas também de informação: o Estado esvazia as formas da imaginação coletiva, substituindo-as por uma pura forma em que garante, antes de tudo, o seu controle, inscrevendo a sua marca, a marca da mediação. Daí a profusão de noções literárias, como a representação, no aparato estatal. Que algo tão recente e an-árquico como o Estado tenha deixado a sua marca como imprescindível à reorganização (e isto quer dizer, re-imaginação) da coletividade fica patente no fato do marxismo prescrever a mediação de um Estado proletário no caminho da sociedade sem classes. Mas a evidência mais clara de que o Estado é a hegemonia da mediação da imaginação pública é a pretensão da imprensa, dos meios de comunicação de serem o "quarto poder".

3) O quarto poder é hoje o Estado

Se, por muito tempo, o que conhecemos usualmente como Estado possuía a hegemonia da mediação da imaginação pública, mas precisava disputá-la ou negociá-la com outros Estados e formas para-estatais ou quase-estatais como o "quarto poder", hoje ele não mais possui esta hegemonia - o que quer dizer, que ele não é mais Estado. Antes, o "quarto poder" - não só os mass media, mas o que Guy Debord chamou de "espetáculo integrado" - se independizaram e tomaram para si não só a hegemonia, mas o monopólio da mediação: se converteram no Estado. Das hegemonias, passamos a homogenia. Se o "tipo puro" do Estado não é a hegemonia da mediação da imaginação, mas o seu monopólio, e se a imaginação, sendo comum à humanidade, desconhece fronteiras, não podendo ser mediada territorialmente, então talvez só hoje tenhamos de fato um Estado.




Tese sobre política

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Se, reformulando Gramsci, a política é a disputa pela esfera da imaginação pública, e se, como argumenta Guy Debord, a sociedade do espetáculo é a mediação social total pelas imagens, então poderíamos dizer que só hoje existe, de fato, um Estado, na medida em que só hoje existe um (weberiano) monopólio legítimo da imaginação por parte dos mass-media

Sexismo na política

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Desde anteontem (dia 24 de agosto de 2009) está no ar o blog coletivo Sexismo na política. O nome já diz ao que o blogue veio. Aos que acham que não há sexismo na política, com o argumento de que "tal comentário sobre o vestuário", ou "tal comentário sobre o marido" de uma figura política mulher poderia ter sido feita sobre uma figura política homem entrega o jogo: poderia ser feita, mas não é. A ditadura argentina e certos setores do radicalismo (UCR) exibiam os montes de vestidos e sapatos de Evita como mostra do desperdício de dinheiro público pelo peronismo. Esqueceram de contar, porém, ainda que a população saiba disso, que o voto feminino foi conquistado lá devido à ação de Evita. 

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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes

Twitter:
@alexnodari


Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa


Dia do Juízo

é uma ficção publicada aqui no blog às sextas-feiras.

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  • Paulo Moreira comentou no post O estado da arte do jornalismo: Benjamin dizia num comentário não me lembro em que texto que o jornal justapõe tantas notícias completamente díspares numa página porque ele dedica-se acima de tudo a expor "fatos" que são devidamente esquecidos no virar para a próxima página. A imprensa, em outras palavras, serve tipicamente mais ao esquecimento que reflexão crítica à memória. Ela
  • El Torero comentou no post "Raposa política": Nossa SC ainda é recheada de currais eleitorais e o nome Amin ainda é forte, Esperidião leva mais dois na legenda. É triste ir ao interior e ver sempre os mesmos pleiteando uma vaga à assembléia.
  • Cristina comentou no post "Raposa política": Concordo com a maioria dos comentarios sobre o JKB, mas lamento profundamente que este Estado seja tão conservador. A briga, relembrando o que foi colocado, pelo governo do Estado será travada pela direita. Não dá pra não achar que além dos equívocos do coronel também não tenham ocorrido erros estratégicos da esquerda, que por sua vez, não demonstr
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