A análise do Politika etc. sobre o grande perdedor da crise do Senado, o PSDB, que conseguiu a proeza de unir o PMDB e afastá-lo de Serra, é mais um exemplo da burrice patológica que domina a classe política brasileira. Os exemplos são infnitos: os aloprados do PT, a tentativa de renovação do PFL colocando como novos bastiões jovens com velhos sobrenomes (Rodrigo Maia, ACM Neto), um ministro que se envolve diretamente na quebra de sigilo bancário de um caseiro, a Marta Suplicy que joga fora toda sua militância contra a homofobia na disputa quase perdida à prefeitura, um presidente da Câmara dos Deputados que cobra propina de restaurante, um ex-presidente da República que se dá ao trabalho de conseguir empregos para a família (como se no Maranhão, de que é dono, não houvesse lugar suficiente para alocá-la sem estardalhaço), o grande senso de estratégia de Jorge Bornhausen, que conseguiu reduzir o número de governadores estaduais do PFL a zero (DF é distrito, não estado), a insistência em acreditar que Lula sangraria até a morte com o mensalão, a insistência em acreditar que Lula, desta vez, sangraria até a morte com a crise econômica, etc. etc. etc. É um mito a suposta sagacidade dos políticos tupiniquins. Mas, como todo mito, a sua verdade se revela na sua própria enunciação: estamos acostumados com os termos "raposa", "macaco velho", "águia" em referência a membros da classe política: é isso de fato que são, seres dotados de uma inteligência puramente instintiva, reativa, dominadas por um ambiente de horizontes reduzidos. Mas, com certeza, a maior burrada da classe política é a estratégia da oposição de ridicularizar Lula por sua pouca escolaridade (isso pensando sem ética nenhum, mas estrategicamente mesmo: em um país onde a educação formal da população é precária, fazer esta crítica é suicídio político). As altíssimas taxas de popularidade do Presidente, sua capacidade de se descolar do próprio partido, a desenvoltura com que fala o que quer e como quer (isto para não falar dos avanços históricos do país) não deixam dúvidas: em terra de bacharéis, o analfabeto é rei.

Dia do Juízo (IV)

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Meio da manhã. O rádio-relógio toca, para, em seguida, vomitar o comentário diário da jornalista. Esbravejava sobre a incompetência do Presidente da República, república prestes a entrar em frangalhos. Anestesiado ainda pelo sono, aquele homenzarrão, que um dia se inquietara com a terra vermelha e hoje havia se tornado um burocrata obcecado pela obsessão do tempo, esquecia as palavras da comentarista assim que as ouvia. 
O telefone voltou a tocar. Pressentia a catástrofe, a interrupção. Por isso mesmo, atendeu.
-Alô?
Silêncio infinito do outro lado da linha.
- Alo?! Você sabe que horas são?
- O Dr. Desembargador deseja os processos revisados na mesa dele hoje, disse, de um só golpe, uma voz feminina de lascívia mecânica.
- Que processos?, tentou disfarçar demonstrando surpresa.
- Os que você disse ao Dr. Assessor estarem prontos para a avaliação do Dr. Desembargador. Nenhuma alteração no tom de voz.
- Mas eles não estão prontos... hesitou... ainda não tive tempo de terminar.
- Você não disse ao Dr. Assessor do Dr. Desembargador que estariam prontos ontem?
Silêncio. O tempo estancara. Não deveria ter atendido. Sabia que não deveria. Sabia também que não deveria falar o que falou a seguir:
- Eu menti!
- Você... o quê?!
- Isso mesmo! Eu menti!
- Você mentiu! Respondeu a voz agora cheia de desejo, de um desejo prestes a ser satisfeito.
Silêncio.

*** 

(Dia do Juízo é uma ficção que publicarei, paulatinamente, aqui no blog, às sextas-feiras.)

I * II * III 


Sopro 14

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O Sopro 14 está no ar (link para a versão em Flash - link para a versão em .PDF), com as "Teses sobre arte contemporânea" de Alain Badiou, traduzido por Leonardo D'Ávila (aqui é possível encontrá-las em outras línguas); o texto de Robert Desnos para o dossiê "Conocimiento de Amérca Latina", publicado originalmente em espanhol na revista Imán, em Paris, na década de 1930 (a tradução é minha, com revisão do Alexander Araya); e os verbetes "Assistentes", de Jonnefer Barbosa e "Assalto ao céu", de autoria deste blogueiro.



Diego Cervelin acaba de estrear o mais novo blog do Cultura e Barbárie: Fiat ars pereat mundus. O seu texto inaugural vem bem a calhar no atual ambiente de discussão, onde impera a desqualificação pessoal de quem toma uma posição contrária - como no caso mais conhecido da resposta da Folha de S. Paulo à Fábio Konder Comparato e Maria Benevides, ou no caso recente, aqui da província, da grosseira e vazia resposta de Fátima de Lima a este texto de Victor da Rosa.

O telefone tocava novamente. O exercício militar parara - só para ser retomado no dia seguinte. As pastas de processos continuavam intocadas - mas lhe reavivaram o sonho de um amigo.

Trancafiado no último andar do Fórum, como represália de algum superior - cuja motivação  se desconhecia -, J. estava confinando a ser arquivista. Rodeavam-no pilhas e pilhas de processos, estantes e mais estantes abarrotadas deles. A mesa, idem. Somente a cadeira permanecia vazia. Não ousava sentar nela, com medo de encarar aquela infinidade de processos, todos antigos. Não lhe haviam dado nenhuma incumbência. Parecia estar ali para guardar a memória da lei. Veio a noite - ou melhor, o sono, já que a quantidade de pastas, papéis e poeira tapava todas as janelas, tornando impossível saber as horas. Entediado, decidiu tentar cochilar na cadeira. Foi seu erro. Os processos começaram a se abrir e se fechar, como se fossem bocas ameaçadoras. Os pés das estantes ganharam vida, elas começaram a andar na direção de J., cercando-o. 

O sonho se interrompia com um telefonema da secretária do desembargador.

*** 

(Dia do Juízo é uma ficção que publicarei, paulatinamente, aqui no blog, às sextas-feiras.)

I * II

***

P.S.: Estou tendo alguns problemas com SPAM nos comentários. Na busca de soluções, talvez algum comentário seja retido. Caso isso aconteça, peço que me enviem email para alexandre[ponto]nodari[arroba]gmail[ponto]com



Desenhar o Nome

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(A discussão sobre O estado da arte da discussão cultural me rendeu dois posts extras: O Incomparável - que aborda parte da temática deste post de Idelber Avelar - e o que publico agora abaixo. Agradeço aos que comentaram e me fizeram pensar no tema).

"Nós acreditaríamos num progresso humano se a criança nascesse alfabetizada. Mas enquanto ela aparecer no mundo, como nesses últimos quarenta séculos de cronica conhecida, nasce naturalmente na idade da pedra. E aí ficaria, primitiva e nhambiquara, se não a deformasse imediatamente. Não há motivos para se ter saudades das idades líticas. Todos os dias nascem milhões de homens pré-historicos". (Oswald de Andrade)

Minha sobrinha de 4 anos não escreve o nome; ela desenha o nome. Toda vez que ela diz que vai fazê-lo, ou peça que alguém desenhe por ela, enuncia uma verdade só possível de ser capturada durante o momento da alfabetização - e que se "perde" assim que este se completa: a de que a escrita está intimamente vinculada ao desenho, mais especificamente ao referencial. Mas, à diferença deste, a escrita não tem como referência algo como a realidade - como as aranhas, que ela insistia tenazmente em tentar imitar no papel -; a escrita é a sua própria realidade, a sua própria referência (daí que a arte abstrata se "limita", no fundo, a desenhar nomes). Na alfabetização (e devemos tomar o termo em sentido amplo, o aprendizado do nosso alfabeto que minha sobrinha está empreendendo agora é apenas uma das inúmeras formas de alfabetizações, tão numerosas quanto os "alfabetos" que a linguagem humana e natural oferecem), o que se aprende é que tais desenhos auto-referenciais, a escrita, constituem cifras, fórmulas, que, todavia, não levam além da esfera das imagens, da esfera dos desenhos. Quando se "descobre" que as letras do alfabeto não são desenhos que representam a realidade, a expectativa de que elas levem a algo mais, que elas sejam desenhos que, decifrados pelo saber secreto que se aprende levariam a outro lugar, a outra realidade, esta expectativa é logo frustrada, ao mesmo tempo que o estatuto originário da escrita enquanto desenho é confirmada. O que se descobre é que a leitura, o saber destas cifras sem referência, não produz nenhum efeito mágico sobre a realidade, mas tão somente - e isso é tudo - sobre a imaginação. O que a decifração - o gesto de leitura - dos desenhos auto-referenciais produz são novas imagens (referenciais ou não) que só existem durante o gesto de deciframento/leitura, pois a memória não é um arquivo que contém papéis desenhados. O cinema, por sua vez, opera em sentido inverso, é uma leitura às avessas, uma "desalfabetização": aquilo que, na leitura, são os efeitos do deciframento (as imagens produzidas), no cinema se converte nas cifras. O cinema é a tentativa de construir um alfabeto por meio das imagens. O que a leitura de um filme (das imagens montadas) revela, portanto, é uma cifra (que, sendo lida, se reconverte em imagens). Giorgio Agamben certa vez definiu o homem como o animal que vai ao cinema; neste sentido, ele é tão "arcaico" quanto a escrita. Ambos não passam de meios que não levam à lugar algum, exceto aquele reino comum de felicidade que atende pelo nome de imaginação - e que na história da humanidade abreviada que é a vida de cada um costumamos esquecer, mas que minha sobrinha insiste em afirmar, a cada vez que desenha o nome. Ao fazê-lo, ela comete aquilo que, no monoteísmo, é, ao mesmo tempo, a maior heresia e a maior aspiração. Ao desenhar o nome, ela, na verdade, escreve o nome de Deus.

Maior universidade do país, na maior cidade da Nação. Um dos filósofos contemporâneos profere sua conferência. Lá pelas tantas, cita Aristóteles (como faz há pelo menos trinta anos, muitas vezes focando na questão de um intelecto comum à humanidade, o que, argumenta, daria na noção marxiana de general intellect, ou seja, de consciência histórica genérica, o home como produtor auto-consciente, etc.). No público, começam os sussurros: "Então quer dizer que ele não é de esquerda?". Pânico e horror na maior universidade do país que fica na maior cidade da Nação.

A discussão (se é que se pode chamar de discussão quando só um dos lados argumenta, e o outro se limita a repetir clichês) surgiu no Twitter: Idelber Avelar dizia que "Os amigos de extrema-esquerda deviam resolver: vão propor algo concreto ou só repetir o udenismo moralista, anti-Lula, da direita?" (e remetia ao parágrafo final deste post do Miguel do Rosário). Nada mais acertado. A "extrema-esquerda" foca suas críticas ao PT na corrupção e na política econômica neoliberal (juros, superávit, etc.) - exatamente os mesmos pontos atacados pelos demo-tucanos (sim, agora é moda os "desenvolvimentistas" - segundo a mídia, é claro - que pararam o país por oito anos reclamarem da alta taxa de juros). Se ela quisesse se diferenciar do discurso conservador e, ao mesmo tempo, atacar o calcanhar de Aquiles do governo Lula (porque "ideário neoliberal" é algo que abrange tudo, mas ao mesmo tempo é muito vago), deveria virar suas baterias para a questão agrária (já imaginaram um demo, do tipo Kátia Abreu, vociferando contra a concentração latifundiária?). Jamais vou me esquecer de uma conversa que tive com um então colega de Direito, e hoje advogado, em 2002: ela revela, ao mesmo tempo, a modéstia de minhas esperanças e o tamanho de minha decepção: àquela altura já sabíamos que o PT no governo não mudaria muito do status quo, mas ao menos promoveria uma reforma agrária de verdade. Não há como discutir que os assentamentos estão hoje bem mais estruturados do que eram no governo FHC, que o número de famílias assentadas por ano aumentou, etc. Noves fora isso, não houve uma reforma agrária de verdade. E a culpa não é de Miguel Rossetto e cia., a culpa é de quem detém (ou retém) a verba (Pallocci, Mantega) e define a política do governo (Dirceu, Dilma, e, em última instância, Lula). Aliás, a própria existência de um Ministério do Desenvolvimento Agrário é reveladora da sua desimportância: como se fosse possível conciliar reforma agrária com política latifundiária - Ministério da Agricultura. (Neste sentido, se revela toda a verdade da posição de Zizek quando cogitaram a sua nomeação para algum cargo do governo esloveno, na década de 90: "o único que me interessava era o de ministro do interior ou o de chefe do serviço secreto - a idéia de ser o ministro da Educação, da Cultura ou da Ciência me pareceu asbolutamente  ridícula, indigna até mesmo de uma avaliação séria"). O problema das alianças do governo Lula não está tanto no fisiologismo dos aliados, quanto na dependência em relação a bancada ruralista - um setor conservador, que pode muito bem se casar com o neoliberalismo, mas que não pode ser definido por ele (daí a falência do discurso da extrema-esquerda nesse ponto). O viés conservador do lulismo se cristaliza na questão agrária. Outro exemplo disso é a falência da política ambiental, que levou à saída de Marina Silva, a melhor ministra do meio-ambiente que já tivemos, e que, no início do governo, acreditou que a agenda ambiental seria transversal (penetraria nos outros Ministérios). Transversalidade ambiental só houve com a pasta do Desenvolvimento Agrário (parcerias visando agroecologia com agricultores familiares e assentados), o que é sintomático do argumento que tento expor: não é que os pequenos agricultores, ou Rossetto e cia. tenham uma consciência ambiental inerente - a aliança com os ambientalistas se dá na medida em que ambos os setores são coagidos pelo conservadorismo do governo na questão agrária. (Transversalidade só existe na bancada ruralista, com membros de todos os partidos - e daí que uma crítica a ela atingiria todo o status quo). Mesmo com esta aliança, as derrotas não param. Primeiro, os transgênicos entraram pela porta dos fundos, com a legalização do ilegal (a ideologia do fato consumado), ameaçando a soberania alimentar e genética do país, bem como jogando no lixo a vantagem competitiva dos alimentos convencionais. Iludido pela alta das commodities, que fornecia uma balança comercial positiva, e pelo sucesso internacional do álcool de cana, o governo vendeu a alma aos ruralistas. Agora, loteará a Amazônia, maior reserva de biodiversidade do mundo. Comeremos mais carne (de soja transgênica, para os vegetarianos), mas nossos netos vagarão nos desertos - de propriedade de algum Blairo Maggi.

Adendos: A questão agrária é tão grave e tão transversal que até esqueci de falar de um bocado de coisas. A política atual em relação a ela produz falhas até mesmo em setores em que o governo vai bem, como a política indigenista e a agenda de Direitos Humanos: basta lembrar o assassinato de índios na disputa por terras (isso pra não falar do assassinato da freira). Aproveitando o embalo, e como eu gosto de adiantar possíveis objeções, se alguém da "extrema-esquerda" me dissesse que tudo isso que eu falei se deve às alianças feitas pelo governo pra impor sua agenda neoliberal (é só o que dizem), eu responderia que, nesta leitura, falta só um componente: Marx, que ensinava justamente a esquecer os personalismos. A bancada ruralista se esfacelaria (claro que fazendo um "auê" danado) se a sua base econômica (o latifúndio) fosse cortada pela raiz. O momento de ter feito uma reforma agrária de verdade, infelizmente, foi perdido: o início do governo Lula, quando o apoio e a comoção populares permitia que ele aprovasse o que quisesse.


Hugo Albuquerque escreveu, ontem, um post com o mesmo título, e que está rendendo uma boa discussão. Não teria muito a acrescentar, mas a última declaração do Gabeira foi tão absurda que não posso me manter calado.

O que é preciso ressaltar é que a comparação entre o aparelhamento do estado pelo PT e a limpeza étnica não é só exagerada e descabida porque o governo Lula não promove genocídios nem metafóricos, mas porque ela banaliza o próprio termo de comparação. A chacina étnica se torna mais suave quando comparada ao apoio lulista a José Sarney. Transcriando o velho Heráclito, todo texto é sempre, também, contexto e hipertexto (leitura do contexto) e não há como não ver o cenário histórico de "esquizofrenia coletiva", para usar o termo do Hugo, em que a afirmação de Gabeira se inscreve: a equiparação do stalinismo ao nazismo, a suavização de Mussolini, as reformas ortográficas latino-americanas que abrandam a ditadura e inventam a "intra-dictadura". Os vocábulos vão perdendo, assim, a sua determinação referencial (a linguagem se modifica historicamente) e, nesta indeterminação, nesta ausência de mundo (de linguagem, de referência) compartilhado, a política (que "não passa" da nomeação aglutinadora de reivindicações, como diria Laclau) perde seu chão. E abrem-se as alas para a despolitização, para a substituição da política pela "moral", para o Gabeirismo

Em tempo: pelas razões acima é que tenho algumas restrições quanto a cunhar o projeto do Azeredo de "AI-5 Digital". É evidente que não nego seu caráter altamente autoritário como instrumento de controle absurdo e desmedido, mas acho que nomeá-lo assim enfraquece tanto a percepção histórica do AI-5 quanto a crítica ao projeto.

P.S.: Vale a pena ler, também a Carta-aberta de Maurício Caleiro a Gabeira, escrita em março deste ano.


(Fiquei sabendo, via NPTO, que Jürgen Habermas acaba de completar 80 anos. Tenho uma série de restrições quanto a "teoria da ação comunicativa", e explicito algumas delas no texto abaixo, integrante do meu work-in-progress sobre a censura, que fica, também, como uma singela homenagem ao "herdeiro" da Escola de Frankfurt).

No final de seu ensaio sobre Walter Benjamin, Crítica conscientizante ou salvadora: a atualidade de Walter Benjamin, Jürgen Habermas argumenta que "uma teoria da comunicação lingüística que reintroduza as intuições de Benjamin numa teoria materialista da evolução social deve pensar" a seguinte passagem de Para uma crítica da violência: "existe uma esfera de entendimento humano, não-violenta a tal ponto que seja totalmente inacessível à violência: a esfera propriamente dita do 'entendimento', a linguagem". Todavia, Habermas omite as frases de Benjamin imediatamente anteriores a essa, que não passa de uma conclusão tirada a partir daquelas: na "conversa (...) um acordo não-violento não apenas é possível, mas a eliminação por princípio da violência pode ser explicitamente comprovada com um tipo de relação importante: a impunidade da mentira. Talvez não exista no mundo nenhuma legislação que originalmente puna a mentira". A depuração racionalizadora do insight benjaminiano se baseia na reconstrução histórica que Habermas faz da emergência da "publicidade" (ou esfera pública) burguesa, na qual exercem um papel essencial tanto a noção benjaminiana de "aura", quanto a concepção arendtiana da "esfera social".

Algo como uma esfera pública feudal, argumenta em Mudança estrutural da esfera pública, só pode ser entendida como uma exibição pública do status e da hierarquia, uma demonstração da soberania - o que Giorgio Agamben irá chamar, mais recentemente, de "Glória", incluindo nela, porém, o próprio consenso visado pelo teórico alemão. Haveria representação e publicidade, mas não "no sentido de alguém ser representante da nação ou de determinados mandantes" e sim ligada "à existência concreta do senhor e que confere uma 'aura' a sua autoridade": "Enquanto o príncipe e seus terra-tenentes 'são' o país, ao invés de simplesmente colocar-se em lugar dele, eles só podem representar num sentido específico: eles representam a sua dominação, ao invés de o fazer pelo povo, fazem-no perante o povo". Habermas associa esta "representatividade" feudal ao que chama de "atributos da pessoa", como "a insígnia (emblemas, armas), hábito (vestimenta, penteado), gesto (forma de saudar, comportamentos) e retórica (forma de falar, o discurso estilizado em geral), em suma: um rígido código de comportamento nobre", e, para tanto, ampara-se na distinção de Carl Schmitt entre "estilo representativo" e a discussão e o raciocínio: aquele prescindiria destes, típicos de uma publicidade burguesa que só apareceria depois; sua racionalidade viria da fala que se "enuncia conforme a si mesma", fala esta "não-discutidora e não-argumentativa", e que torna "visível" "uma dignidade humana", pressupondo para isso "uma hierarquia, pois a ressonância espiritual da grande retórica provém da crença na representação reivindicada pelo orador". Ou seja, a publicidade medieval se basearia na pura exibição de significantes privilegiados cujos significados não podem ser discutidos, ou mesmo enunciados: é o próprio e simples uso destes significantes, a cujo acesso existe um controle, do poder que expõe o seu significado contextual, isto é, nada mais que o status de seus portadores. Tal representação não comunica nada, ou melhor, é a sua não-comunicabilidade que comunica: uma racionalidade baseada na crença - em outras palavras, uma ficção.

A "aura" e a "autenticidade" que tais selos exibem derivam do fato de que estes acompanham seus portadores em todo lugar, confundem-se com eles, não só exibem, mas são a sua originalidade, conferindo-lhes aquilo que Walter Benjamin chamou, no seu ensaio sobre a reprodutibilidade técnica da arte, de "valor de culto": os nobres são orientados, continua Habermas, pelo "código de compoortamento cavalheiresco (...) não só em locais bem definidios, talvez 'em' uma esfera pública, mas a qualquer lugar, onde eles representam o papel de seus direitos senhoriais". A publicidade medieval é a própria aura.

Este estado de coisas - este estado da arte - se alteraria justamente com a entrada em cena do que Hannah Arendt chamou de "sociedade" ou "esfera social", a saber, a administração pública de assuntos privados, e que, para ela, impediria o florescimento de uma autêntica esfera pública. Habermas, por sua vez, na medida em que não entende o "dizer" do mesmo modo que Arendt (para ela, a função política da linguagem independe da produção de efeitos: "É verdade que o homem não pode proteger-se contra os golpes do destino, contra os golpes dos deuses, mas pode opor-se a eles e retrucar-lhes no falar e, se bem que esse retrucar não adianta nada, não mude a infelicidade nem atraia a felicidade, essas palavras pertencem ao acontecer como tal"), vê nesta guinada histórica promovida pelo mercantilismo justamente um dos fatores que implica na emergência da esfera pública moderna. Não só a base econômica do feudalismo começa a ruir, como também o constante intercâmbio de informações que se torna imprescindível com as atividades crescentes dos mercados e a formação de burocracias estatais e de exércitos permanentes, essenciais às disputas comerciais, abrem espaço para o que ele chamará de "publicidade" burguesa.

Porém, a esfera pública burguesa nasceria como esfera literária, antes de se tornar política - ainda que "esfera literária" aqui tenha sentido amplo, na medida em que é anterior à disciplinarização do saber, indicando, assim, um espaço de discussão, apresentação e exegese de textos e obras em que vige o argumento racional e não o status, espaço este brotado dos "cafés, dos salões, das comunidades de comensais", e posteriormente "mantido reunido através da instância mediadora da imprensa e sua crítica profissional". O conhecimento público - a publicidade burguesa - funcionaria como arma contra o segredo que fundamenta o saber hierárquico, baseando-se, para tanto, na idéia de igualdade entre os homens, ou melhor, como um debate público entre pessoas privadas, onde as diferenças ficariam de fora. Mas, tal esfera só se tornou possível com a mercantilização dos bens culturais: "como mercadorias, tornam-se, em princípio, acessíveis a todos", o que acarreta "o não fechamento do público": "todos (...) podiam, através do mercado, apropriar-se dos objetos em discussão. As questões discutíveis tornam-se gerais". É, portanto, a mudança provocada pelo capitalismo no estatuto da arte, que passa de insígnia do poder com valor imanente a objeto que extrai seu valor das cotações no mercados dos bens e das idéias, que permite que algo como uma esfera pública brote: "A arte, liberada de suas funções de representação social, torna-se objeto da livre escolha e de tendências oscilantes. O 'gosto', pelo qual, a partir de então, se orienta, expressa-se no julgamento de leigos sem competência especial, pois no público qualquer um pode reivindicar competência". A referência ao "gosto" é fundamental na argumentação habermasiana, como demonstra a citação que faz da passagem em que Gadamer trabalha "o ideário educacional de Gracian". Assim, a teoria da ação comunicativa não só indetificaria o "gosto" como saber constitutivo de uma esfera pública literária, que, por sua vez, criaria o ambiente (formaria um público) para uma esfera pública política, como o situaria também como parâmetro desta, na medida em que o gosto constituiria um saber sem verdade, a não ser o consenso de julgamento obtido pelo argumento mais racional - trata-se de tentativa análoga à arendtiana de identificar na Crítica do Juízo kantiano, isto é, o julgamento estético, os critérios para o debate e julgamento políticos. O que tanto Habermas quanto Arendt omitem - ou não vislumbram - é que o desenvolvimento de uma esfera racional de debate da arte - a Estética - pressupõe a anestetização da arte: Susan Buck-Morss demonstrou como a doutrina do "prazer desinteressado" de Kant, baliza da Estética moderna, se fundamenta justamente no mito do homo autotelus, auto-suficiente, insensível (desinteressado pelos) aos próprios sentidos, à estesia, ou seja, à sensação-efeito produzida pela arte. Por sua vez, Giorgio Agamben viu nesta "impossibilidade, para Kant, de definir o belo senão através de formulações puramente negativas" (prazer desinteressado, por exemplo), o estatuto híbrido do gosto, renegado na "perspectiva da estética tradicional", do qual Kant tinha ciência, mas com o qual não soube lidar: "o belo é um excesso da representação sobre o conhecimento e que é justamente esse excesso que se apresenta como prazer". 

A arte, ou a publicidade medievais (pois se indeterminavam), tais como entendidas por Habermas, enquanto insígnias do poder, aliam este excesso à esfera da dominação; já a esfera pública literária, também no modo como é retratada em Mudança estrutural da esfera pública, pretende controlar o excesso isolando-o na arte, "fechando o corpo", por assim dizer, do homem público. Separam-se, assim, significante e significado como campos distintos: obra e discussão do seu sentido. Se, no feudalismo, o que era controlado era o acesso aos significantes, na modernidade são os efeitos destes que tem de ser sublimados no debate racional: o prazer tem de se desinteressar. Isto não é sem conseqüências para o campo da política. As palavras de ordem que guiam a análise (e as futuras propostas) de Habermas são: "racionalizar a dominação". A cisão entre sujeito racional e objeto de discussão, intimamente relacionada à mais arraigada instituição da censura moderna, a figura do autor, que se diferencia do público (sendo, assim, mais fácil de ser identificado e controlado), permite isolar significante de significação, cada qual em sua esfera autônoma. E mais: a separação de algo como a esfera da arte (e da Estética, ou da representação) da esfera do poder torna possível consagrar esta como domínio da racionalidade, bem como separar algo como representação perante o povo da representação do ou pelo povo, retórica de discurso, esfera pública literária de esfera pública política. A perda da "aura" pela exposição/publicidade burguesa não acarretou a racionalização da dominação (e Habermas está consciente disso), mas eclipsou o elo por onde arte e política se unem, elo cuja elucidação é premente, com a conversão da publicidade em publicitarização (fato de que o teórico alemão também está ciente, mas que acredita ser possível superar dialeticamente). Isolando duplamente os significantes (a primeira barreira de contenção é a obra; a segunda é a Estética, que a racionaliza), a modernidade viveu a ilusão de poder se fiar na significação. Nunca como agora arte e política estiveram tão cindidos: a arte, separada da vida, não produz efeitos, nem prazer - tampouco representa a dominação. Enquanto isso, o poder monopoliza para si os atributos que alguns séculos atrás compartilhava com a arte. O excesso contido na arte se manifesta na política - e nesse sentido, a "sociedade do espetáculo", e não uma esfera pública política, é o que brota da esfera pública literária. Talvez só hoje seja possível falar na "arte da política".


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
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