Dia do Juízo (VI)

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Das muitas infâncias que tivera, nenhuma o marcara menos que a verdadeira. A vida de filho de camponês o entediava, como se fosse uma ininterrupta espera de algo, algo que não sabia, jamais saberia, o que era. O mundo, então, havia sido para ele apenas um índice de acesso aos sonhos que, por sua vez, eram a única via de acesso ao real. Ao contrário do que pensam os adultos, a imaginação é um fardo e exige disciplina. Deformar a realidade toma tamanho tempo e energia que não sobre o suficiente para as vicissitudes. Se pudesse conscientemente reunir estas reflexões quanto adulto, como tanto queria inconscientemente o hoje funcionário do Fórum, sempre impedido pelos prazos dos processos, se pudesse, cravaria sem sombra de dúvida: o autismo é a deformação da realidade em tão alto grau que esta se torna imaginação. Entretanto, também este devaneio metafísico ficara na adolescência.

A questão da cor, com as aulas de literatura, passou a ser a questão da linguagem. A solução pela história, que uma politização pastoral e precoce lhe incutira, se converteu na solução pela gramática, igualmente pastoral, mas agora mística. Começou a escrever um pequeno texto sobre Kafka que girava sobre o nome da personagem d´O Processo¬: como traduzir "K." ao português - se este não admitia a letra no analfabeto? A pergunta, mesmo aparentemente sem sentido ou qualquer sentido prático (o que, no fundo, dá na mesma), apresentava para o jovem interiorano duas soluções: J. ou L., uma regressiva, outra progressiva. No curto texto que escreveu - e jamais terminou -, argumentava que L. parecia ser a solução mais lógica, por ser linear, suprindo a falta de algo, por aquilo que lhe seguiria na ordem natural. O problema, e ainda que a formulação não fosse exatamente esta, mas poderia ter sido, é que a escolha pelo L. pressuporia o que quer substituir e a satisfatoriedade da sua substituição. Se o nosso alfabeto não reconhece o K., dizia o texto, não faz nenhum sentido postular aquilo que viria depois dele. A solução pelo J., acrescentava, correria o risco de identificar biografia e ficção, cor da terra e cor do sangue teria pensado alguns anos antes, Joseph Kafka. Mesmo assim, lhe parecia mais adequada. Interrompeu a redação sem explicar por quê, do mesmo modo que o K. interrompia o processo de tradução por sua ausência. O J., talvez quisesse dizer, sinalizaria justamente esta interrupção, a impossibilidade de transpor a falta, mas ao mesmo tempo a indicação de uma iminência, como se um relógio estancasse por faltar-lhe um minuto a designar, passando a marcar um eterno presente onde todo instante é o mesmo, à espera do seguinte, ainda ausente. A deriva metafísica juvenil não sabia que lhe dominaria a vida anos mais tarde. Não como reflexão. Como realidade.

*** 

(Dia do Juízo é uma ficção publicada, paulatinamente, aqui no blog, às sextas-feiras.)

I * II * III * IV * V


"Fogo amigo"

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A política (como ela é) é relacional, isto é, uma guerra de posições. Ou seja, diante de um campo dividido em dois pólos, um deles tendo como núcleo a bandeira da moralidade, se adoto esta (a idéia de que o governo é corrupto, não sabe administrar, aparelha o Estado, só quer saber de fazer aliança com a calhordice), então, querendo ou não, me coloco do lado daqueles que partilham desta bandeira, que fazem parte deste pólo (que dentro destes, há os que o fazem cinicamente, não importa). Foi o que fizeram Gabeira e o PSOL, que jogam o jogo da oposição demo-tucana. Agora, isso não quer dizer que não é possível tentar reorganizar o cenário, recriar os pólos que organizam o cenário. É o que há tempos alguns tucanos mais inteligentes e menos egóicos que FHC estão tentando dizer ao seu partido, pois sabem a farsa que é se organizar em torno a um núcleo tão frágil politicamente quanto a moralidade (UDN e Collor o comprovam). É também o que, recentemente, se esboçou no congresso do PSOL, com o aceno à centralidade que a crítica do modelo econômico atual deve ter no partido. E, por fim, é o que Marina Silva tenta com a sua saída do PT. Em nenhum momento desta transição ao PV, Marina Silva focou na temática da corrupção do governo Lula, porque sabe que, ao fazê-lo, iria desembocar na arena demo-tucana, o que ela não quer, na medida em que busca, justamente, criar um outro pólo. Assim como "nunca antes na história" dessa transição, Marina Silva se afirmou como candidata ambientalista (pois um pólo político meramente "ecológico" é igualmente frágil): antes, a sua insistência de que a crise atual do capitalismo, combinada às mudanças climáticas, implica a necessidade de mudança dos modelos de produção e consumo, revela que o que está agregado na sua bandeira do "desenvolvimento sustentável" é muito maior do que mera defesa das "araras azuis", como se ironiza por aí. O apelo ao "sonho", à possibilidade de recriar um projeto de desenvolvimento, por mais vago que seja, adquire força no atual cenário onde os dois pólos fortes se debatem pra ver quem é mais eficiente e pragmático na administração. Por isso, não podemos ficar pensando só na análise de curto prazo (a possibilidade de Marina ganhar a eleição presidencial), pois o que talvez esteja em jogo seja a reestruturação do cenário a médio ou longo prazo. Por isso, Marina tem insistido que não valia a pena fazer a luta dentro do PT, isto é, dentro de um dos pólos. As dificuldades de tamanha empreitada são enormes, mas foi justamente o que o PT (e em menor medida, o PSDB) fez, modificando o desenho do jogo (dominado, na década de 1980, pela arquitetura política da ditadura, bem como pelas forças pré-64). Marina Silva não se opõe ao pólo-PT, como não se opõe ao pólo-demotucano, ela se opõe a esta polarização. Agora, se os petistas (e me refiro também aos não-filiados, às vezes muito mais histéricos que os filiados) continuarem com essa cruzada de dizer que Marina joga o jogo da oposição (ainda que, em 2010, acredito que, a princípio, ela tire mais votos de uma candidatura tucana do que de Dilma), com direito as maiores baixarias (comparações com corredores quenianos, a chamando de "musa do verão da República Morumbi-Leblon", e outras frases feitas que só revelam a esterilização do discurso que dará o tom ano que vem) conseguirão, de fato, fazer com que ela o jogue. Se não derem espaço para que ela crie este novo pólo, e fecharem o próprio, definitivamente a empurrarão ao outro. "Não inventes o que não queres que aconteça", pra repetir uma fala que ouvi recentemente numa peça de teatro. Ano passado, o senador demo Agripino Maia lançou a candidatura de Dilma ao "acusá-la" de mentir sob tortura durante a ditadura. Os petistas estão inventando o que não querem que aconteça ao insistirem, como é tradicional na esquerda, que Marina Silva é traidora, só para não ter de fazer a auto-crítica que a sua saída do partido impõe. Mas de um partido com histórico de "fogo amigo" e capaz, como nenhum outro, de fomentar a oposição, já era de se esperar.

P.S.: Escrever este post foi um tanto doloroso - e era algo que eu preferiria não ter de fazer. Mas o alto grau de violência da reação dos blogueiros lulistas à saída de Marina Silva revela um grau de esterilização discursiva petista que me recuso a compartilhar. De certa forma, o próprio fato de eu escrever este post é um sintoma do que argumento nele. 
P.S.2: Meu computador pessoal está pifado, então está um tanto mais complicado para responder os comentários, escrever mais posts, bem como fazer as devidas linkagens. 


Há uma diferença fundamental entre os blogs e o Twitter, algo que transcende a limitação de caracteres: enquanto existe um número ilimitado de blogs (o blog é "só" uma forma, com plataformas infinitas), só existe um Twitter (forma e plataforma se confundem) - criar O blog seria algo como o projeto mallarmaico de escrever O livro. O sentido dessa diferença é algo a ser explorado (e para além da mera concentração econômica). Esta semana, Daniel Link identificou, na "decadência do blog" ocasionada pelo Twitter e pelo Facebook, um "limiar de transformação". Hoje, em artigo para o DC Cultura, Victor da Rosa reflete sobre "A invenção do Twitter" por parte de Félix Fénéon, crítico francês, que publicava "Notícias/Novelas de três linhas", em que fato e ficção, devido a forma em que eram enunciados, se tornavam indiscerníveis. Caberia notar que os pintores pontilhistas, aos quais Fénéon era próximo (como nota Victor), "nada mais faziam" que pintar em pixels. A história só se repete como farsa, isto é, como ficção. À "literatura" não cabe exclusividade alguma nesse papel. Falta só os críticos literários e professores de literatura - que, em sua maioria, preferem não saber o que são os blogs e o que é o Twitter - entenderem isso.

Acaba de sair o oitavo volume da revista Prisma Jurídico, editada pelo jurista e poeta Pádua Fernades. Colaborei com o artigo "[...] o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas": notas sobre o Direito Antropofágico:

A constituição dos Estados modernos se dá em um movimento duplo: uma apropriação "primordial", seguida de sua sacralização na esfera do Direito (e da identidade), ou seja, ampara-se na ideia de propriedade fundada na ocupação. Para as nações periféricas, fazer uso do mesmo procedimento significa recair no princípio que as excluiu enquanto eram colônias, como de fato aconteceu na concepção de Brasília, por exemplo. Todavia, na esteira das comemorações do centenário da independência brasileira (1822-1922), o movimento modernista - renegado, hoje, pelas fronteiras disciplinares do conhecimento, ao estudo no campo das letras e das artes - buscou questionar os princípios que baseiam este modelo de constituição nacional. É o caso da Antropofagia, abordada neste artigo, e de sua formulação "jurídica": a "teoria do grilo", da "posse contra a propriedade".

Esse é o resumo. O artigo completo, em formato .pdf, pode ser acessado aqui.

1) A política é a disputa na imaginação pública

Antes de tudo, é preciso esclarecer que, para o bem ou para o mal, o homem é "o animal que vai ao cinema". A imaginação, como esclarecem os filósofos árabes medievais na sua releitura de Aristóteles, é aquilo que liga o indivíduo ao intelecto comum à humanidade. Imaginar, portanto, é sempre um ato coletivo, pois remete à potencialidade humana. O homem é aquele que pode ou não fazer - não tem nenhum destino, nenhuma vocação biológica, como assevera Agamben; antes, sofre de um "déficit essencial", como o caracterizou Oswald de Andrade. A humanidade não tem instintos, a humanidade produz instituições, aquilo que Marx chamou de trabalho - mas o que caracteriza este trabalho é que, antes de ser realizado ele é sempre imaginado. A autoconsciência não é nada mais que a consciência de que se imagina. Sendo uma esfera de saída comum e/ou coletiva, a imaginação sempre foi a trincheira por excelência da política. Representações do outro, auto-representações, projetos, Utopias, símbolos, cerimoniais, nomenclaturas, vocabulário - os exemplos são infinitos e em cada um deles se trava um embate.

2) O Estado sempre foi a hegemonia da mediação da imaginação pública

Se aceitamos tal premissa, isso não quer dizer que possamos concluir que a situação em que certa forma e/ou conteúdo da imaginação pública se torna hegemônica possa ser caracterizada como Estado. Antes, o mais correto seria dizer que o Estado é a concentração da mediação da imaginação pública. Ele não é uma situação da imaginação pública que se estabiliza, mas uma pura forma que permite que qualquer situação se estabilize. Nesse sentido, ele não nasce da concentração da força física e do aparato fiscal - mas do censo e da censura, da medida enquanto parâmetro e ação. Não se trata só de proibição, mas também de informação: o Estado esvazia as formas da imaginação coletiva, substituindo-as por uma pura forma em que garante, antes de tudo, o seu controle, inscrevendo a sua marca, a marca da mediação. Daí a profusão de noções literárias, como a representação, no aparato estatal. Que algo tão recente e an-árquico como o Estado tenha deixado a sua marca como imprescindível à reorganização (e isto quer dizer, re-imaginação) da coletividade fica patente no fato do marxismo prescrever a mediação de um Estado proletário no caminho da sociedade sem classes. Mas a evidência mais clara de que o Estado é a hegemonia da mediação da imaginação pública é a pretensão da imprensa, dos meios de comunicação de serem o "quarto poder".

3) O quarto poder é hoje o Estado

Se, por muito tempo, o que conhecemos usualmente como Estado possuía a hegemonia da mediação da imaginação pública, mas precisava disputá-la ou negociá-la com outros Estados e formas para-estatais ou quase-estatais como o "quarto poder", hoje ele não mais possui esta hegemonia - o que quer dizer, que ele não é mais Estado. Antes, o "quarto poder" - não só os mass media, mas o que Guy Debord chamou de "espetáculo integrado" - se independizaram e tomaram para si não só a hegemonia, mas o monopólio da mediação: se converteram no Estado. Das hegemonias, passamos a homogenia. Se o "tipo puro" do Estado não é a hegemonia da mediação da imaginação, mas o seu monopólio, e se a imaginação, sendo comum à humanidade, desconhece fronteiras, não podendo ser mediada territorialmente, então talvez só hoje tenhamos de fato um Estado.




Tese sobre política

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Se, reformulando Gramsci, a política é a disputa pela esfera da imaginação pública, e se, como argumenta Guy Debord, a sociedade do espetáculo é a mediação social total pelas imagens, então poderíamos dizer que só hoje existe, de fato, um Estado, na medida em que só hoje existe um (weberiano) monopólio legítimo da imaginação por parte dos mass-media

Sexismo na política

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Desde anteontem (dia 24 de agosto de 2009) está no ar o blog coletivo Sexismo na política. O nome já diz ao que o blogue veio. Aos que acham que não há sexismo na política, com o argumento de que "tal comentário sobre o vestuário", ou "tal comentário sobre o marido" de uma figura política mulher poderia ter sido feita sobre uma figura política homem entrega o jogo: poderia ser feita, mas não é. A ditadura argentina e certos setores do radicalismo (UCR) exibiam os montes de vestidos e sapatos de Evita como mostra do desperdício de dinheiro público pelo peronismo. Esqueceram de contar, porém, ainda que a população saiba disso, que o voto feminino foi conquistado lá devido à ação de Evita. 

Não sou daqueles que acham que os petistas e/ou lulistas têm mania de perseguição. Eu mesmo acredito que o PSOL e Gabeira, por exemplo, fazem o jogo da direita, pelo foco estreito nos casos individuais de corrupção. Sou até mais realista que o rei em algumas situações: acho que o Protógenes, apesar de seu louvável trabalho na Polícia Federal, é, enquanto figura política, um perigo: alguém que tuita em terceira pessoa ("Protógenes escapa de emboscada...", etc.) e louva o "pai de família" (Hannah Arendt demonstrou há meio século atrás como o nazismo arregimentou justamente os "pais" preocupados com a segurança de sua família) me parece um risco, alguém que crê ser um novo Catão imbuído de uma missão moralizante - e um Gilmar Mendes já é o suficiente. Todavia, quanto à saída de Marina Silva do PT, não posso concordar com as análises simplistas que a reduzem ao curto prazo da questão eleitoral (aliás, a comparação da candidatura presidencial de Marina com os corredores quenianos é - não venham me dizer que não; por que não compararam Marina aos ciclistas, que fazem o mesmo? - uma referência de péssimo gosto a sua aparência física; a senadora, como todos sabem, possui uma saúde debilitada por intoxicação de metais pesados utilizados no tratamento de malária).  Se a candidatura de Marina à presidência serve à José Serra (fato de que não estou inteiramente convencido), então o responsável é Lula (ou seja, é Lula quem entregou essa de bandeja ao Serra; a fatura deve ser cobrada dele): basta lembrar que no caso da regularização fundiária de terras na Amazônia (o estopim da saída de Marina da pasta do meio-ambiente), o governo preferiu ficar ao lado da bancada ruralista (como quase sempre) e de um ministro que recentemente largou o cargo para não perder o emprego nos EUA...  A conversão de Marina Silva em uma força anti-petista ou anti-lulista, é uma construção midiática, que busca, também, capturá-la no discurso ambientalista em sentido estrito - a "agenda negativa" de que fala NPTO. A melhor ministra do meio-ambiente que já tivemos não nega as conquistas do governo Lula - pelo contrário, faz questão de ressaltá-las. Porém, acredita que, agora, a inflexão tem de ser outra: tem de ser na imaginação pública. Quem leu as diversas entrevistas que a senadora acreana deu nas últimas semanas, deve ter percebido o enfoque no longo prazo, e a presença recorrente de termos como "sonho" e "novo modelo civilizatório". Não estamos diante de termos vagos, mas de significantes vazios, isto é, políticos, que devem ser preenchidos pela ação humana, e que foram abandonados pelo PT. Trata-se, a meu ver, de sair da prisão gerencialista em que o "petucanismo" se enclausurou para buscar, ou melhor, para resgatar uma visão da política que a situe no terreno das possibilidades de reinvenção humana, ou se preferirem, de transformação do modelo sócio-econômico. Não há referências, nestas entrevistas, ao "problema ético" do PT - pois a senadora sabe que isto é um problema coletivo derivado da ausência da virtude, da ausência de projeto - a corrupção é sempre, antes de tudo,  corrupção da virtude, corrupção de um bem comum (só um projeto coletivo de bem comum freia a corrupção). Quem acredita que a saída de Marina do PT é meramente eleitoreira não acompanhou, por exemplo, as suas colunas na Folha de S. Paulo, em que destacava o momento histórico em que a recente crise econômica nos colocava, uma crise que possibilitava repensar os modos de produção e consumo. A crise "passou" (pela utilização do veneno como remédio) e continuamos a viver como se nada tivesse acontecido. A ida de Marina Silva ao PV se insere, portanto, no esforço de batalhar na imaginação pública pela necessidade desta transformação - e daí que ela situe o seu ingresso na fileira dos Verdes a uma reformulação programática do partido, que deixará o modelo europeu "negativista" para se tornar uma força que eu diria ser, usando as palavras de um amigo, verde por fora e vermelha por dentro. Por isso, tenho de discordar do Hugo Albuquerque: não se pode analisar a ida de Marina Silva ao Partido Verde pela composição atual deste - ela não vai sozinha, e, ainda que poucos políticos com mandato devam acompanhá-la, há diversos setores da sociedade civil que devem fazê-lo, incluindo empresários, ONGs e movimentos sociais. Não se assustem, por exemplo, se o MST apoiar a sua candidatura a presidência. Isto porque em pontos cruciais da agenda de Marina Silva se condensam problemas históricos do país a novidades do capitalismo (e vão no núcleo do conservadorismo desenvolvimentista de Lula) : basta mencionar os transgênicos, em que se reúnem patenteamento de DNA (biotecnologia), modelo fundiário, imperalismo não-produtivo (os royalties), ameaça a biodiversidade, padrões de consumo, desmatamento das reservas florestais, etc.  Isso para não falar em uma questão estratégica nacional que os militares ignoram: a soberania alimentar. É evidente que as dificuldades, mesmo as de pequena escala, são inúmeras: o fato de o PV ser uma sigla de aluguel na maioria dos Estados, o fato de Marina se reunir com figuras discutíveis como Pedro Simon e Fernando Gabeira, as posições de Marina quanto ao aborto, etc. Todavia, a figura de Marina Silva é, provavelmente, a única capaz de condensar as demandas polivalentes de uma esquerda ciente do momento histórico em que se encontra e da necessidade de transformação radical. Para se eleger, o PT escreveu uma carta-compromisso em que, como argumentei aqui, não pactuava com a ordem vigente, pois isso já havia feito, mas pactuava com a sua linguagem, a linguagem gerencialista petucana. A saída de Marina Silva do PT é uma tentativa de escapar desta linguagem, inventar uma nova - e a invenção de uma nova linguagem, de uma nova imaginação é o primeiro passo para a transformação política. Parafraseando Maiakovski, não há política revolucionária sem linguagem revolucionária. Marina Silva sabe disso.  

Dia do Juízo (V)

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O metrô empilhado de gente mais parecia um campo de concentração. A idéia não era dele, tinha lido em algum lugar - daria uma ficção, se já não tivesse sido escrita. Não bastava morar ao lado do quartel, tinha de ver os militares pela janela, a caminho do trabalho, na base dos morros. Acreditava, contudo, ter se acostumado já àquilo. Parecia ser um dia comum. A não ser pela estranha carta que recebera por debaixo da porta, sem destinatário, sem remetente, sem selo. Nela constava uma única frase: "A cadeira permanecerá vaga". Que significava aquilo? Haveriam errado na entrega? Enquanto relia a enigmática frase, lembrou que o Presidente viajaria ao exterior - estaria sendo ele comunicado de um golpe de estado? A presença do exército na cidade a pretexto de combater o tráfico de drogas poderia ser apenas um pretexto. Mas por que comunicar a ele, um burocrata menor? Enquanto pensava, meio adormecido, meio inquieto com o telefonema, começou a ouvir barulhos de papéis sendo rasgados. Não abriu os olhos para ouvir melhor. Eram envelopes sendo abertos! Uma imensidade deles. Olhou a seu redor, ainda de olhos fechados, e visualizou todos os passageiros do vagão abrindo envelopes idênticos ao que recebera. Liam mecanicamente, mesmo os analfabetos, que os bem pensantes acreditam não saberem ler, a mesmíssima frase: "A cadeira permanecerá vazia! Tentou descer na próxima estação; a multidão que subia, todos com o seu exemplar da carta na mão, o impedia. Intuitivamente, olhou para o relógio. Não marcava as horas, somente a data. Estava dez anos no futuro. Acordou ouvindo o rádio-relógio e a comentarista que achincalhava o presidente. Uma década depois terá recebido aquela carta.

*** 

(Dia do Juízo é uma ficção que publicarei, paulatinamente, aqui no blog, às sextas-feiras.)

I * II * III * IV


Sopro 15

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Sopro 15 (versão em PDF aqui) está no ar com O conceito de ficção, belíssimo texto do escritor argentino Juan José Saer, em tradução do professor e escritor Joca Wolff (a versão em espanhol do texto está disponível aqui). O visual do panfleto mudou um pouquinho, e o tamanho da versão em .pdf reduziu drasticamente, ficando mais rápido de carregar.

P.S.: Estarei fora do dia 15 a 22 para participar deste evento e passear um pouco em Buenos Aires. Quando voltar, pretendo voltar pro ritmo normal do blog, começando com um post sobre a ida de Marina Silva ao PV (caso isso se concretize). Adianto que não vejo isso com maus olhos, e partilho certas idéias expostas aqui (cheguei ao texto via tweet do @moysespintoneto). Se a candidatura de Marina à presidência serve à José Serra (fato de que não estou inteiramente convencido), então o responsável é Lula (ou seja, é Lula quem entregou essa de bandeja ao Serra; a fatura deve ser cobrada dele): basta lembrar que no caso da regularização fundiária de terras na Amazônia (o estopim da saída de Marina da pasta do meio-ambiente), o governo preferiu ficar ao lado da bancada ruralista (como quase sempre) e de um ministro que recentemente largou o cargo para não perder o emprego nos EUA...


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
poetas, filósofos, censores






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