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(Fonte da imagem: Marcelo Justo/Folhapress)

1. A Folha de S. Paulo noticiou que a OAB/SP divulgou nota pedindo a censura da "Série Inimigos" do artista Gil Vicente, que fará (ou faria) parte da Bienal de São Paulo. Na série, o artista "retrata a si mesmo matando personagens famosos como Fernando Henrique Cardoso e Lula". Segundo a OAB, "Uma obra de arte, embora livremente e sem limites expresse a criatividade do seu autor, deve ter determinados limites para sua exposição pública. Um deles é não fazer apologia ao crime como estabelece a vedação inscrita no Código Penal Brasileiro."

2. O problema que se coloca é mais complicado do que parece à primeira vista. Um dos pressupostos básicos quando se analisa a censura é abandonar de imediato a visão de uma luta ideológica entre liberdade de expressão e repressão obscurantista. Como tentei mostrar no post anterior, liberdade de manifestacão e censura estão mais intrincados do que parece. A liberdade por vezes é uma forma mais eficaz de controle.

3. No caso em questão, a censura à obra é uma prova clara de seu poder, de seu impacto. Há um poema/nota de Joan Brossa sintomático a esse respeito: "A censura suprimiu nove poemas:/sinal de que os outros não valem nada" (a tradução, extraída daqui, é de Ronald Polito). Alberto Pimenta, no excelente artigo "Liberdade e aceitabilidade da obra de arte literária", lembra que escritores como Eça de Queirós e Alfred Döblin defendiam que a arte se submetesse à mesma censura que os demais escritos, "vendo nessa igualdade perante a lei a justificação da sua importância social e a manifestação da sua liberdade". (Há duas frases do Döblin citadas por Pimenta que são sensacionais: " 'A arte é sagrada' praticamente não significa outra coisa do que: o artista é um idiota, deixem-no falar à vontade"; " 'A arte é livre', quer dizer, é totalmente inofensiva, os senhores e as senhoras artistas podem escrever e pintar o que lhes apetecer..."). Dito de outro modo: a liberdade concedida ao artista ou à obra (em suma, à arte) muitas vezes significa apenas sua inoperância - isolada numa esfera "especial", a arte não deve produzir efeitos sobre o mundo "real". Nesse sentido, Lévi-Strauss afirmou que "a nossa civilização" concedeu à arte "o estatuto de parque nacional, com todas as vantagens e os inconvenientes relacionados com uma fórmula tão artificial; e é sobretudo o caso de tantos setores da vida social ainda não desbravados, onde, por indiferença ou impotência e sem que o mais das vezes saibamos por que, o pensamento selvagem continua a prosperar." Comentando essa idéia da arte como  "parque natural ou reserva ecológica no interior do pensamento domesticado", Eduardo Viveiros de Castro apontará justamente o que implica tal confinamento: "O pensamento selvagem foi confinado oficialmente ao domínio da arte; fora dali, ele seria clandestino ou 'alternativo'. Valorizada como seja a experiência artística, ela nada tem a ver com o experimento científico: a arte é inferior à ciência como produtora de conhecimento. Ela pode ser emocionalmente superior, mas não é epistemologicamente superior." (É curioso notar que Paulo Leminski também usou a expressão "reserva ecológica" para se referir à arte; mas no seu caso, referia-se ao mercado: a arte seria uma "reserva ecológica" onde o mercado não entra). A liberdade que existe na arte não existe na vida. É por esta separação entre arte e vida estar tão bem acabada que Alain Badiou pôde afirmar que "Convencido de controlar a superfície inteira do visível e do audível pelas leis comerciais da circulação e pelas leis democráticas da comunicação, o Império não censura mais nada".

4. A justificativa da OAB para reivindicar a censura é de que as obras "demonstra [sic] um desrespeito pelas instituições que tais pessoas representam, como também o desprezo pelo poder instituído, incitando ao crime e à violência." Ou seja, as obras produziriam efeitos para além da "reserva ecológica" onde deveriam se confinar. Quando a teoria política moderna (a partir de Bodin, a quem se atribui o conceito de soberania que caracteriza o Estado) "redescobre" a censura romana, é sempre a função de controlar os efeitos que é ressaltada: ao censor cabe policiar aquelas ações ou manifestações que não são contrárias às leis, mas que disseminam maus-exemplos, que espalham vícios, que corroem os costumes - pequenos gestos ou palavras que vão minando a constituição política, possibilitando a sedição e a ruína do Estado. (Algo parecido se pode encontrar já em Platão para quem os poetas causariam a efeminação dos homens, e, assim, fariam ruir o edificio de sustentação da República).

5. Nesse sentido, a liberdade da arte é a liberdade da arte enquanto obra de arte. Se ela produz efeitos "não-estéticos", "não-contemplativos", se ela impulsiona ou pode impulsionar à ação, ela não está mais garantida pela liberdade. Aliás, com a liberdade de manifestação ou expressão em geral é assim. Os professores de Direito adoram dar como exemplo de uma manifestação que não é protegida pela liberdade de expressão o do sujeito que grita "Fogo!" em um teatro lotado sem que este esteja, de fato, pegando fogo. A jurisprudência americana diferencia entre expression e conduct: aquela é garantida constitucionalmente, mas quando se torna conduta (isto é, quando conduz) pode caracterizar crime: quando um líder da KKK vocifera em um comício "Vamos queimar negros" é crime; quando ele diz apenas "Vamos proteger os direitos da minoria branca" é apenas manifestação (isso tem a ver com a dimensão formal do Direito - e vem de longe: há um texto de um retórico grego antigo que relata como um caluniador se safa porque acusou o outro de ter "matado" - termo genérico - um terceiro e não de tê-lo "assassinado" - termo jurídico). Aqui pouco importa a intenção do autor (nisso, o Direito está anos-luz à frente da crítica literária: na Inglaterra, já partir do século XVII, o que o autor pretendeu não é avaliado pelas cortes, e sim os efeitos que a obra gerou).

6. Como o grande propósito da censura é evitar que certos atos, gestos, palavras produzam efeitos nefastos, ela se depara, desde sempre, com um paradoxo: censurar uma obra muitas vezes equivale a dotá-la de uma aura sagrada de proibição, tornando-a mais famosa. Na tentativa de evitar a produção de efeitos, estes se potencializam. Quando Milton, no seu famoso discurso perante o Parlamento britânico, defende a liberdade de impressão, este é um de seus argumentos. Alguns séculos depois, Marx dirá o mesmo: a censura não só é uma "medida policial", mas uma "má medida policial": "No país da censura, cada escrito proibido - isto é, impresso sem o censor - é um sucesso. Passa por mártir, e não existem mártires sem auréola e sem seguidores devotos. Passa por exceção, e, quanto maior for o valor que a liberdade tem para o homem, mais tornar-se-á uma exceção para a falta de liberdade geral. Todos os mistérios corrompem. Quando a opinião pública é um mistério para si mesma, é corrompida desde o inicio por todos os escritos que rompem formalmente as misteriosas cadeias. A censura transforma todos os escritos proibidos, bons ou ruins, em artigos extraordinários, enquanto a liberdade de imprensa priva todos os artigos de uma importância especial". Ou seja, às vezes é a própria censura que cria e amplifica os efeitos que queria eliminar. Pode-se dizer isso do pedido de censura da OAB: tirou a obra de Gil Vicente do confinamento do "parque natural" da arte, do parque de diversões que é a Bienal, trazendo-a para a seara política.

7. Há ainda mais um elemento, talvez o mais óbvio de todos, a saber, que a obra de Gil Vicente tinha o intuito de trazer a discussão sobre a relação entre arte e política para o centro do debate. O problema é que o tempo passa, mas continuamos andando em círculos. Há dois anos atrás, o centro do debate sobre a Bienal era a ação dos pixadores - e sua criminalização. Hoje, é a censura à Gil Vicente. Até quando a estética do choque vai ser necessária para que exista o debate da relação entre arte e política?

 
 



"Um autor não tem direitos, apenas deveres" (Jean-Luc Godard)

Quarta-feira, dia 15 de setembro, policiais civis cariocas "foram a uma loja copiadora da Escola de Serviço Social, apreenderam todo o acervo (inclusive as pastas com o material pedagógico deixado pelos professores daquela Unidade) e detiveram o proprietário da copiadora, que foi encaminhado para a Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial (DRCPIM), na Lapa. O rapaz, identificado apenas como Henrique, foi indiciado e responderá ao processo em liberdade." Conhecendo o modus operandi da Polícia do Rio de Janeiro, tem treta no meio: a justificativa para a ação foi uma denúncia anônima, mas se houvesse, de fato, intenção de coibir a prática ilegal de cópias, os policiais não se restringiriam a uma barraquinha de xerox, quando poderiam ter fechado todas as que operam não só na UFRJ, mas na UERJ, na Unirio, na Gama Filho, na Estácio de Sá, etc, em ações que "inspirariam" as polícias de outros estados a fazer o mesmo. Aliás, é pelo perigo disso acontecer que está na hora de começar a mudar esse quadro.

Quem freqüenta o meio universitário - seja como professor, como estudante, ou como diletante mesmo - sabe do grave problema que é o acesso ao "conhecimento" (imagina então pra quem não o freqüenta). O déficit das bibliotecas das universidades é alarmante (se, de fato, o governo Lula melhorou consideravelmente a situação das universidades, o aparelhamento - no bom sentido - das suas bibliotecas é um problema imenso que persiste e não é tratado como deveria), e a isso se soma a concentração do conteúdo dos periódicos acadêmicos de ponta em bancos de dados privados. Pro estudante ou professor, restam duas soluções: ou ele gasta grande parte de sua bolsa/salário em livros, ou copia ilegalmente (geralmente uma combinação de ambas). Todavia, mesmo assim não acredito que equipar melhor as bibliotecas ou reformar a lei de direitos autorais resolva o problema, ainda que possa, (e devem) mitigá-lo. A quantidade de publicações e a velocidade do mundo acadêmico hoje ultrapassam a capacidade das bibliotecas se manterem tão atualizadas como deveriam. Além disso, a mera concentração de livros ou do acesso a bons periódicos nas bibliotecas universitárias não resolve o problema de fundo que é tornar o conhecimento ou o pensamento comuns (para além das fronteiras universitárias).

Quanto à reforma dos direitos autorais, acho inócua. Primeiro porque não é possível garantir o direito ao autor de receber pela sua obra, e, ao mesmo tempo, possibilitar a reprodução (alguém tem de pagar a conta). Mas, principalmente, porque os direitos autorais expressam uma ideologia em que o conhecimento ou o pensamento são produções privadas, são mercadorias. Os direitos autorais regulam a produção do conhecimento, assinalando a cada autor o direito (até de alienar, como no caso dos ghost writers) a sua produção (livro, obra, texto), individualizando o conhecimento. Porém, e esse é o outro lado da moeda, esse dispositivo pelo qual o autor produz a sua obra é o mesmo que permite a sua responsabilização. Individualizar cada escrito a um autor é tanto garantir que ele tem direitos por ela, quanto permitir que ele possa ser total - e isoladamente - responsabilizado. Por isso, a singela ficha catalográfica, que identifica os dados da obra (autor, título, ano, editora) remete a uma regra do Index da Igreja Católica (a de número 43 na última edição), que proíbe a publicação de livros que não exibam nome e sobrenome do autor e do editor, e o ano da publicação. A regra remonta a uma Instructio do Papa Clemente VIII, datada da passagem do século XVI pro XVII, que obrigou os livros a exibirem nome, sobrenome, e país de publicação,  o que não era comum na medievalidade, que conheceu uma profusão de textos anônimos sobre os quais até hoje se debate a autoria. Desde então, todos os documentos que garantem a liberdade de expressão prevêem também tal mecanismo de individualização e responsabilização. Diz o art. 11º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789: "A livre comunicação das idéias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei". Por sua vez, diz o inciso IV do art. 5º da nossa atual Constituição: "é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato"; por sua vez, o inciso seguinte garante o direito de resposta. Vedar o anonimato é vedar o coletivo, o comum, aquilo que pode ser apropriado por qualquer um sem que constitua uma propriedade.

O capitalismo hoje é um capitalismo de acesso. Tornar comum o acesso ao pensamento é uma das tarefas de uma política que se queira revolucionária. Portanto, acredito que esteja na hora dos próprios autores começarem a agir. Josefina Ludmer propôs uma nova "política dos que escrevemos", cuja "consigna central sería que todo libro editado, como los periódicos, sea digitalizado y puesto en Internet cuando aparece, para que pueda ser leído y usado por cualquiera que pueda acceder libremente." Nesse sentido, acho que a primeira medida seria não publicar em periódicos cujo acesso não seja totalmente livre. A segunda seria só publicar livros por editoras que aceitem autorizar expressamente a reprodução. Não se trata de nenhuma novidade. Já em 1933, Oswald de Andrade publicava Serafim Ponte-Grande com a seguinte disposição de "direito" autoral: "Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado em todas as línguas". Mais recentemente, Giorgio Agamben, de modo mais comedido, dispôs, em seu livro O reino e a glória: "Por vontade do autor, este livro pode ser livremente reproduzido, sem fins lucrativos, em qualquer meio, desde que o texto não sofra alterações. A difusão na Internet e as traduções em línguas estrangeiras devem ser expressamente autorizadas pelo autor". Acredito que se deva ir mais longe e autorizar a reprodução também pela Internet, até para romper as fronteiras da cátedra. São pequenas medidas, mas que acredito que possam contribuir a médio prazo ao menos para evitar que casos como o do Rio de Janeiro anteontem aconteçam. Por isso, de minha parte, adotarei as duas medidas.


Sopro 35

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O Sopro 35 está no ar com o belíssimo ensaio Uma linguagem sem precursores da professora argentina Silvia Schwarzböck, traduzido por mim. O original foi publicado na revista Todavía no mesmo número em que saiu um excelente texto de Idelber Avelar sobre o heavy metal brasileiro.

Além disso, o novo número do Sopro traz o verbete Moldura Barroca, de Evandro de Sousa.

[Clique aqui para visualizar o Sopro 35 em PDF]


No final do post anterior, eu tentei ressaltar o funcionamento de armadilha que a linguagem pode adquirir no terreno do debate: definir os termos de uma discussão é ganhá-la de antemão - a surra histórica que Dilma deu em Agripino Maia no Senado se explica um tanto por isso: o demo-arenista levou o debate pra relação entre democracia e ditadura, e aí levou pau. Defender, mesmo que veladamente, a tortura, é algo que só as "raposas políticas" do PFL são capazes de achar que funciona.

O #DilmaFactsbyFolha (aos que não acompanharam, este post do Idelber explica o que foi o movimento) correu esse risco de dar munição ao "inimigo", usando a linguagem que ele queria. Em "essência", o #DilmaFactsbyFolha não visava apoiar Dilma, mas apontar a desmoralização da Folha de S. Paulo, mostrando o quão longe - às raias do absurdo, ou além dele - o jornal era capaz de ir para tentar derrubar aquele que não é seu candidato. Eleitores do Plínio, da Marina, eleitores não muito entusiasmados da Dilma participaram do "movimento", que não era expressão de uma estratégia organizada de campanha, tudo que a Folha queria que fosse pra poder desmoralizar o movimento, e taxá-lo de obra de "zumbis petistas incitados por lideranças". Pois bem, e não é que alguma grande "inteligência" ligada ao PT decidiu dar isso de bandeja? O responsável pelo twitter @ptnacional incitava as pessoas a usarem a tag #ondavermelha em todos os tweets relacionados ao #DilmaFactsbyFolha. Além disso, o sujeito se apropriava de tweets alheios sem dar crédito, como se ele (o @ptnacional, que não é um twitter oficial do partido, mas dá a impressão de que seja) fosse o autor, como se o #DilmaFactsbyFolha fosse estratégia de campanha. Por sorte, a força do movimento foi mais forte do que a tentativa (contraproducente) de apropriação, a ponto de ser o assunto da coluna de hoje do Ombudsman da Folha de S. Paulo. Mas é uma pena que se tenha dado margem para que o movimento fosse mitigado:

"O movimento batizado de #Dilmafactsbyfolha virou um dos assuntos mais populares ("trending topics") do Twitter em todo o mundo, impulsionado, em parte, pela militância política -segundo levantamento da Bites, empresa de consultoria de planejamento estratégico em redes sociais, 11 mil tuítes usaram um #ondavermelha, respondendo a um chamamento da campanha do PT na rede. Até o candidato a governador Aloizio Mercadante elogiou quem engrossou o coro contra o jornal.
Mas é um erro pensar que apenas zumbis petistas incitados por lideranças botaram fogo no Twitter. O partido não chegou a esse nível de competência computacional.
Na manada anti-Folha, havia muito leitor indignado, gente que não queria perder a piada, além de velhos ressentidos com o jornal."


Já que tem cientista político fazendo ficção por aí, não estaria na hora do pessoal da teoria literária, ou da análise do discurso, olhar de mais perto o blá-blá-blá eleitoral?

A primeira missão seria determinar se o eleitorado quer "renovação" ou "experiência". Vendo o horário político gratuito não dá pra entender direito. Um candidato a deputado quase grita "chega dos mesmos!", e o candidato seguinte, da mesma coligação, elenca suas realizações durante seus 16 anos de mandato. Isso cria um cenário esquisito, não só pela esquizofrenia, mas pelo fato de que o eleitor que votar querendo renovação ajuda a eleger a experiência - ou a "mesmice". Por falar nisso, tem um carro de som que passa aqui perto de casa todo dia reproduzindo o jingle da campanha de um candidato a deputado. O final da musiquinha é algo como "Fulano de tal 66666, o meu voto é só dele". Trata-se de uma falácia - e não só porque eu jamais votaria nesse Fulano, e se tivesse pensado em votar, teria desistido pela incomodação que é o carro de som. Pois o voto no Fulano não é só dele (pra ele), mas de toda a coligação. Esses dias a Folha fez uma "matéria" dizendo que os votos em Tiririca poderiam eleger outros deputados do seu partido, e mesmo do PT, com quem estão coligados (confere?). A recíproca é verdadeira: o voto a um dos muitos bons candidatos petistas a deputado em São Paulo pode ajudar a eleger o Tiririca; o voto mais "consciente" pode ser também um voto que naquele que representa o "grau zero do discurso eleitoral".

Ontem, li um tweet assim: "Aos tucanos que acusam @dilmabr de fugir. RT @ptbrasil: Dilma e Serra se enfrentam em debate Folha/RedeTV! neste domingo" (copiei o tweet, mas perdi o nome de seu autor). O curioso é que, ao defender a Dilma, o tweet acaba dando razão a quem a chamava de fujona por não ter ido no debate da Gazeta, porque a premissa é a mesma tanto para os "tucanos" que o tweet ataca, quanto para o autor do tweet: não ir ao debate é fugir. Como ela vai no debate da RedeTV!, os tucanos não podem acusar ela de fugir - essa é a conseqüência expressa da premissa. Como Dilma não foi ao debate da Gazeta, ela "fugiu" - essa é a conseqüência implícita da premissa. Não estou querendo aqui discutir se ela deve ou não ir aos debates - que perderam sua razão de ser, na medida em que o que aparece de fato nos debates não são partidos ou candidatos, mas quem as realiza e os mediadores dos candidatos (marqueteiros, assessores, toda essa parafernália viva). Só estou apontando para o fato de que o jogo político se joga, antes de tudo, na linguagem. Deixar o inimigo dominá-la equivale a perder mesmo ganhando.


O post abaixo compila algumas observações de um bate-papo que tive com o Fabiano Camilo no Google Reader/Buzz a partir desse post de Paulo da Luz Moreira. Como nem toda a meia dúzia de leitores do blog acompanha o Reader ou Buzz, e como acho que é um tema interessante pra reflexão, me concedi a liberdade de reproduzi-las em forma de post.

Os setores da esquerda que reivindicavam Vargas eram minoritários depois dos anos 1980. PT e PSDB tinham em comum a idéia de fugir do modelo varguista de fazer política (em 2002/2003, o Idelber chegou a escrever um texto argumentando que a eleição de Lula era a vitória contra o populismo). A reivindicação de Vargas pelo PT é recente, e tem a ver com o alinhamento desenvolvimentista do partido no governo. Mas tal alinhamento se dá em um contexto específico: vem depois da crise do mensalão. O governo Lula antes da queda do Dirceu era o governo do PT "sociedade civil" - pacto social, Conselhão (lembram dele?), Fome Zero, etc.; pós-mensalão, virou estatalista-desenvolvimentista (Fome Zero da sociedade/Estado virou Bolsa-Família do Estado), e passou a depender não do capital simbólico do PT, mas exclusivamente da figura do Lula, que se descola do partido. As conseqüências dessa mudança são enormes. O André Singer, num artigo bastante discutido internet afora, salientou a mudança do eleitorado petista, ou, ao menos, lulista, que deixa de se concentrar na classe média intelectualizada - que "cansou" - e passa a abarcar o antigo lupemproletariado e a nova classe média ascendente. A mudança também explica um pouco da escolha de Dilma - ex-brizolista - como candidata à sucessão de Lula, e se explica pelo próprio Lula, como única figura capaz de dar "coerência" pela própria figura ao que é o governo petista (é o que Ernesto Laclau chama de "populismo" - sem (pre)juízo de valor quanto ao termo).  A (re-)interpretação do passado atende a urgências específicas do tempo presente.

Atualização: O Idelber me passou o link ao seu texto, que já incorporei no post. Trata-se de "La experiencia del PT y la superación del populismo en Brasil", publicado no Bazar Americano, que até pouco tempo era pilotado por ninguém menos que Beatriz Sarlo.

Atualização 2: O Fabiano me passou o link para uma entrevista que Luiz Werneck Vianna deu ano passado ao Estadão. Nela, as duas fases do governo petista e o retorno de Vargas são abordados.


Direito e ditadura

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O pessoal do PET do Direito aqui da Universidade Federal de Santa Catarina está organizando um belo congresso sobre um tema que precisa ser discutido sistematicamente e com a profundidade que merece: a relação entre Direito e a ditadura brasileira. O evento acontecerá de 25 a 29 de outubro, e já estão confirmados grandes palestrantes, como Carlos Fico, Flávia Piovesan, Beatriz Kushnir, Gilberto Bercovici, entre outros - acredito que, em breve, a programação completa estará disponível. A chamada de trabalhos pra apresentação nas mesas de comunicação já foi lançada

P.S.: Se alguém da blogosfera afora decidir vir, me avise pra que possamos marcar um chope ou um café.


1. Ontem, circulou pela última vez a versão impressa do Jornal do Brasil. Por incrível que pareça, a única cobertura decente não só do fato, mas do papel histórico daquele jornal nos anos 1950 e 1960, foi feita por um canal esportivo, além do mais, pertencente a uma multinacional de entretenimento, a ESPN Brasil, talvez o único veículo no qual seja possível encontrar mais de uma dezena de bons jornalistas (velhos e novos) juntos.

2. Caso Verônica Serra: a declaração de renda dela foi entregue a terceiros porque havia um documento, com a assinatura dela autenticada em cartório, autorizando. Caso "goleiro Bruno": o ex-policial acusado de envolvimento na morte de Elisa, ex-namorada do Bruno, emprestava para a polícia um terreno que servia para o treinamento de uma força de elite; detalhe que pode parecer tautológico: o empréstimo do terreno aconteceu depois dele ter sido expulso da própria polícia para quem emprestava o terreno. 

3. A inutilidade dos cartórios (forma embrionária das "parcerias público-privadas", eufemismo para algo simples: o Estado dá a um cidadão/empresa privado/a o direito de lucrar por um serviço público sem ganhar nada em troca) e a desorganização estrutural da polícia: eram esses os temas que deveriam emergir (não digo nem que devessem ser tratados no calor da hora) dos dois acontecimentos. Mas talvez seja pedir demais dos jornais e da mídia; afinal, a maioria dos jornalistas que poderiam fazê-lo agora estão ocupados fazendo a cobertura esportiva.


Sopro 34

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O Sopro 34 apresenta:

"Repensando a trajetória de Oswald", texto de Luiz Costa Lima (um dos maiores teorizadores brasileiros da literatura), recém-publicado no livro Luiz Costa Lima. Uma obra em questão (Garamond, 2010), organizado por Dau Bastos (clique aqui para ver o índice e as páginas iniciais do livro);

"Misturar desejo com história", resenha de Uma fome (Record, 2010), livro de Leandro Sarmatz, escrita por Flávia Cera.

[Visualizar o Sopro 34 em PDF]


"Raposa política"

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Eu não sei de onde os tucanos tiraram a idéia de que ouvir conselhos de Jorge Bornhausen é um bom negócio. Provavelmente, tem em mente o status de "raposa política" que Bornhausen adquiriu nos círculos políticos e na mídia. Mas se a fama fazia jus à sua atuação durante a ditadura, ela não tem, no período democrático, o menor apoio na realidade, por um simples fato: agora temos eleições. Os feitos dessa "raposa política" depois da redemocratização (antes não vale, porque ser governador biônico não conta), são notáveis.

A primeira jogada de exímio enxadrista político em tempos de democracia foi em 1992. Com o governo Collor quase morto, Bornhausen assume a pasta equivalente à Casa-Civil (secretaria de Governo, salvo engano) para "salvar" o governo. Que cálculo político! Que perícia! Que timing! E todos sabemos o sucesso que foi a operação salva-Collor. Depois, em 1999, só se elege senador por Santa Catarina s custas de Amin, outro filhote da ditadura - Amin era candidato a governo na mesma chapa, e a eleição parecia casada; como diz um amigo, parecia que Bornhausen era candidato à vice do Amin. Como presidente do PFL (vamos descontar os tempos áureos do governo FHC, porque aí as condições eram favoráveis, e o PFL ainda possuía outros "caciques" influentes nos bastidores, como Marco Maciel, e gente eleitoralmente densa, como ACM), teve o mérito de reduzir o número de governadores do partido a ZERO (governador do DF não conta; é governador distrital - e além do mais, era Arruda, que logo virou ex-governador). Bornhausen prometeu acabar com a raça "petista" e disse, em 2006 (não vou fazer link pra fonte, mas é aquela revista bem confiável tratando-se de temas de interesse dos demotucanos), que Lula jamais se reelegeria. E foi essa "raposa política" que conduziu a "reformulação" do PFL naquele processo desastrado que todos conhecemos em que a sigla mudou várias vezes (D25, DEM) até chegar ao atual Democratas, nome que porta um evidente contra-senso: só um idiota pode achar que um partido que passa a liderança de pais para filhos, de César Maia para Rodrigo Maia, de ACM para ACM Neto, de Jorge Bornhausen para Paulo Bornhausen, se "renovou" e é "democrata", e não - o que ele sempre foi - oligarca (como dizia um professor meu: "PFL jovem é uma contradição em termos"). E falando em família, em 2002 decidiu eleger seu filho senador. Como grande "raposa política", traçou uma estratégia de campanha infalível: limitar a campanha ao grande feito único de "Paulinho" Playboy: ser contra os pardais (aqueles radares fixos que medem a velocidade nas Rodovias). Preciso dizer que Paulinho não se elegeu senador? O motivo para tanta habilidade política é simples: Bornhausen não entende nada de democracia. É um político formado na mentalidade da ditadura e sem densidade eleitoral. Ele não entende direito o que é uma eleição. Simples. E se os tucanos já não tem mais um projeto, não são os conselhos eleitorais de Bornhausen que vão ajudar. Se os políticos fossem tão inteligentes quanto a mídia diz, já teriam se livrado dos conselhos dessa "raposa".

P.S.: a sobrevida eleitoral do DEM em SC não conta pros méritos de Bornhausen. Foi a postura do PT em 2003, abandonando o governo eleito PMDB (Luis Henrique Silveira rompera com Serra pra aderir à onda Lula em 2002, mas o PT não aceitou fazer parte do governo), que deu sobrevida ao ex-PFL. O resultado: em 2010, o PMDB não aceitou se coligar ao PT, aliando-se ao PFL. Hoje em dia, o aliado "natural" do PT local é o PP de Amin.


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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
poetas, filósofos, censores






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