Sopro 35

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O Sopro 35 está no ar com o belíssimo ensaio Uma linguagem sem precursores da professora argentina Silvia Schwarzböck, traduzido por mim. O original foi publicado na revista Todavía no mesmo número em que saiu um excelente texto de Idelber Avelar sobre o heavy metal brasileiro.

Além disso, o novo número do Sopro traz o verbete Moldura Barroca, de Evandro de Sousa.

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No final do post anterior, eu tentei ressaltar o funcionamento de armadilha que a linguagem pode adquirir no terreno do debate: definir os termos de uma discussão é ganhá-la de antemão - a surra histórica que Dilma deu em Agripino Maia no Senado se explica um tanto por isso: o demo-arenista levou o debate pra relação entre democracia e ditadura, e aí levou pau. Defender, mesmo que veladamente, a tortura, é algo que só as "raposas políticas" do PFL são capazes de achar que funciona.

O #DilmaFactsbyFolha (aos que não acompanharam, este post do Idelber explica o que foi o movimento) correu esse risco de dar munição ao "inimigo", usando a linguagem que ele queria. Em "essência", o #DilmaFactsbyFolha não visava apoiar Dilma, mas apontar a desmoralização da Folha de S. Paulo, mostrando o quão longe - às raias do absurdo, ou além dele - o jornal era capaz de ir para tentar derrubar aquele que não é seu candidato. Eleitores do Plínio, da Marina, eleitores não muito entusiasmados da Dilma participaram do "movimento", que não era expressão de uma estratégia organizada de campanha, tudo que a Folha queria que fosse pra poder desmoralizar o movimento, e taxá-lo de obra de "zumbis petistas incitados por lideranças". Pois bem, e não é que alguma grande "inteligência" ligada ao PT decidiu dar isso de bandeja? O responsável pelo twitter @ptnacional incitava as pessoas a usarem a tag #ondavermelha em todos os tweets relacionados ao #DilmaFactsbyFolha. Além disso, o sujeito se apropriava de tweets alheios sem dar crédito, como se ele (o @ptnacional, que não é um twitter oficial do partido, mas dá a impressão de que seja) fosse o autor, como se o #DilmaFactsbyFolha fosse estratégia de campanha. Por sorte, a força do movimento foi mais forte do que a tentativa (contraproducente) de apropriação, a ponto de ser o assunto da coluna de hoje do Ombudsman da Folha de S. Paulo. Mas é uma pena que se tenha dado margem para que o movimento fosse mitigado:

"O movimento batizado de #Dilmafactsbyfolha virou um dos assuntos mais populares ("trending topics") do Twitter em todo o mundo, impulsionado, em parte, pela militância política -segundo levantamento da Bites, empresa de consultoria de planejamento estratégico em redes sociais, 11 mil tuítes usaram um #ondavermelha, respondendo a um chamamento da campanha do PT na rede. Até o candidato a governador Aloizio Mercadante elogiou quem engrossou o coro contra o jornal.
Mas é um erro pensar que apenas zumbis petistas incitados por lideranças botaram fogo no Twitter. O partido não chegou a esse nível de competência computacional.
Na manada anti-Folha, havia muito leitor indignado, gente que não queria perder a piada, além de velhos ressentidos com o jornal."


Já que tem cientista político fazendo ficção por aí, não estaria na hora do pessoal da teoria literária, ou da análise do discurso, olhar de mais perto o blá-blá-blá eleitoral?

A primeira missão seria determinar se o eleitorado quer "renovação" ou "experiência". Vendo o horário político gratuito não dá pra entender direito. Um candidato a deputado quase grita "chega dos mesmos!", e o candidato seguinte, da mesma coligação, elenca suas realizações durante seus 16 anos de mandato. Isso cria um cenário esquisito, não só pela esquizofrenia, mas pelo fato de que o eleitor que votar querendo renovação ajuda a eleger a experiência - ou a "mesmice". Por falar nisso, tem um carro de som que passa aqui perto de casa todo dia reproduzindo o jingle da campanha de um candidato a deputado. O final da musiquinha é algo como "Fulano de tal 66666, o meu voto é só dele". Trata-se de uma falácia - e não só porque eu jamais votaria nesse Fulano, e se tivesse pensado em votar, teria desistido pela incomodação que é o carro de som. Pois o voto no Fulano não é só dele (pra ele), mas de toda a coligação. Esses dias a Folha fez uma "matéria" dizendo que os votos em Tiririca poderiam eleger outros deputados do seu partido, e mesmo do PT, com quem estão coligados (confere?). A recíproca é verdadeira: o voto a um dos muitos bons candidatos petistas a deputado em São Paulo pode ajudar a eleger o Tiririca; o voto mais "consciente" pode ser também um voto que naquele que representa o "grau zero do discurso eleitoral".

Ontem, li um tweet assim: "Aos tucanos que acusam @dilmabr de fugir. RT @ptbrasil: Dilma e Serra se enfrentam em debate Folha/RedeTV! neste domingo" (copiei o tweet, mas perdi o nome de seu autor). O curioso é que, ao defender a Dilma, o tweet acaba dando razão a quem a chamava de fujona por não ter ido no debate da Gazeta, porque a premissa é a mesma tanto para os "tucanos" que o tweet ataca, quanto para o autor do tweet: não ir ao debate é fugir. Como ela vai no debate da RedeTV!, os tucanos não podem acusar ela de fugir - essa é a conseqüência expressa da premissa. Como Dilma não foi ao debate da Gazeta, ela "fugiu" - essa é a conseqüência implícita da premissa. Não estou querendo aqui discutir se ela deve ou não ir aos debates - que perderam sua razão de ser, na medida em que o que aparece de fato nos debates não são partidos ou candidatos, mas quem as realiza e os mediadores dos candidatos (marqueteiros, assessores, toda essa parafernália viva). Só estou apontando para o fato de que o jogo político se joga, antes de tudo, na linguagem. Deixar o inimigo dominá-la equivale a perder mesmo ganhando.


O post abaixo compila algumas observações de um bate-papo que tive com o Fabiano Camilo no Google Reader/Buzz a partir desse post de Paulo da Luz Moreira. Como nem toda a meia dúzia de leitores do blog acompanha o Reader ou Buzz, e como acho que é um tema interessante pra reflexão, me concedi a liberdade de reproduzi-las em forma de post.

Os setores da esquerda que reivindicavam Vargas eram minoritários depois dos anos 1980. PT e PSDB tinham em comum a idéia de fugir do modelo varguista de fazer política (em 2002/2003, o Idelber chegou a escrever um texto argumentando que a eleição de Lula era a vitória contra o populismo). A reivindicação de Vargas pelo PT é recente, e tem a ver com o alinhamento desenvolvimentista do partido no governo. Mas tal alinhamento se dá em um contexto específico: vem depois da crise do mensalão. O governo Lula antes da queda do Dirceu era o governo do PT "sociedade civil" - pacto social, Conselhão (lembram dele?), Fome Zero, etc.; pós-mensalão, virou estatalista-desenvolvimentista (Fome Zero da sociedade/Estado virou Bolsa-Família do Estado), e passou a depender não do capital simbólico do PT, mas exclusivamente da figura do Lula, que se descola do partido. As conseqüências dessa mudança são enormes. O André Singer, num artigo bastante discutido internet afora, salientou a mudança do eleitorado petista, ou, ao menos, lulista, que deixa de se concentrar na classe média intelectualizada - que "cansou" - e passa a abarcar o antigo lupemproletariado e a nova classe média ascendente. A mudança também explica um pouco da escolha de Dilma - ex-brizolista - como candidata à sucessão de Lula, e se explica pelo próprio Lula, como única figura capaz de dar "coerência" pela própria figura ao que é o governo petista (é o que Ernesto Laclau chama de "populismo" - sem (pre)juízo de valor quanto ao termo).  A (re-)interpretação do passado atende a urgências específicas do tempo presente.

Atualização: O Idelber me passou o link ao seu texto, que já incorporei no post. Trata-se de "La experiencia del PT y la superación del populismo en Brasil", publicado no Bazar Americano, que até pouco tempo era pilotado por ninguém menos que Beatriz Sarlo.

Atualização 2: O Fabiano me passou o link para uma entrevista que Luiz Werneck Vianna deu ano passado ao Estadão. Nela, as duas fases do governo petista e o retorno de Vargas são abordados.


Direito e ditadura

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O pessoal do PET do Direito aqui da Universidade Federal de Santa Catarina está organizando um belo congresso sobre um tema que precisa ser discutido sistematicamente e com a profundidade que merece: a relação entre Direito e a ditadura brasileira. O evento acontecerá de 25 a 29 de outubro, e já estão confirmados grandes palestrantes, como Carlos Fico, Flávia Piovesan, Beatriz Kushnir, Gilberto Bercovici, entre outros - acredito que, em breve, a programação completa estará disponível. A chamada de trabalhos pra apresentação nas mesas de comunicação já foi lançada

P.S.: Se alguém da blogosfera afora decidir vir, me avise pra que possamos marcar um chope ou um café.


1. Ontem, circulou pela última vez a versão impressa do Jornal do Brasil. Por incrível que pareça, a única cobertura decente não só do fato, mas do papel histórico daquele jornal nos anos 1950 e 1960, foi feita por um canal esportivo, além do mais, pertencente a uma multinacional de entretenimento, a ESPN Brasil, talvez o único veículo no qual seja possível encontrar mais de uma dezena de bons jornalistas (velhos e novos) juntos.

2. Caso Verônica Serra: a declaração de renda dela foi entregue a terceiros porque havia um documento, com a assinatura dela autenticada em cartório, autorizando. Caso "goleiro Bruno": o ex-policial acusado de envolvimento na morte de Elisa, ex-namorada do Bruno, emprestava para a polícia um terreno que servia para o treinamento de uma força de elite; detalhe que pode parecer tautológico: o empréstimo do terreno aconteceu depois dele ter sido expulso da própria polícia para quem emprestava o terreno. 

3. A inutilidade dos cartórios (forma embrionária das "parcerias público-privadas", eufemismo para algo simples: o Estado dá a um cidadão/empresa privado/a o direito de lucrar por um serviço público sem ganhar nada em troca) e a desorganização estrutural da polícia: eram esses os temas que deveriam emergir (não digo nem que devessem ser tratados no calor da hora) dos dois acontecimentos. Mas talvez seja pedir demais dos jornais e da mídia; afinal, a maioria dos jornalistas que poderiam fazê-lo agora estão ocupados fazendo a cobertura esportiva.


Sopro 34

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O Sopro 34 apresenta:

"Repensando a trajetória de Oswald", texto de Luiz Costa Lima (um dos maiores teorizadores brasileiros da literatura), recém-publicado no livro Luiz Costa Lima. Uma obra em questão (Garamond, 2010), organizado por Dau Bastos (clique aqui para ver o índice e as páginas iniciais do livro);

"Misturar desejo com história", resenha de Uma fome (Record, 2010), livro de Leandro Sarmatz, escrita por Flávia Cera.

[Visualizar o Sopro 34 em PDF]


"Raposa política"

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Eu não sei de onde os tucanos tiraram a idéia de que ouvir conselhos de Jorge Bornhausen é um bom negócio. Provavelmente, tem em mente o status de "raposa política" que Bornhausen adquiriu nos círculos políticos e na mídia. Mas se a fama fazia jus à sua atuação durante a ditadura, ela não tem, no período democrático, o menor apoio na realidade, por um simples fato: agora temos eleições. Os feitos dessa "raposa política" depois da redemocratização (antes não vale, porque ser governador biônico não conta), são notáveis.

A primeira jogada de exímio enxadrista político em tempos de democracia foi em 1992. Com o governo Collor quase morto, Bornhausen assume a pasta equivalente à Casa-Civil (secretaria de Governo, salvo engano) para "salvar" o governo. Que cálculo político! Que perícia! Que timing! E todos sabemos o sucesso que foi a operação salva-Collor. Depois, em 1999, só se elege senador por Santa Catarina s custas de Amin, outro filhote da ditadura - Amin era candidato a governo na mesma chapa, e a eleição parecia casada; como diz um amigo, parecia que Bornhausen era candidato à vice do Amin. Como presidente do PFL (vamos descontar os tempos áureos do governo FHC, porque aí as condições eram favoráveis, e o PFL ainda possuía outros "caciques" influentes nos bastidores, como Marco Maciel, e gente eleitoralmente densa, como ACM), teve o mérito de reduzir o número de governadores do partido a ZERO (governador do DF não conta; é governador distrital - e além do mais, era Arruda, que logo virou ex-governador). Bornhausen prometeu acabar com a raça "petista" e disse, em 2006 (não vou fazer link pra fonte, mas é aquela revista bem confiável tratando-se de temas de interesse dos demotucanos), que Lula jamais se reelegeria. E foi essa "raposa política" que conduziu a "reformulação" do PFL naquele processo desastrado que todos conhecemos em que a sigla mudou várias vezes (D25, DEM) até chegar ao atual Democratas, nome que porta um evidente contra-senso: só um idiota pode achar que um partido que passa a liderança de pais para filhos, de César Maia para Rodrigo Maia, de ACM para ACM Neto, de Jorge Bornhausen para Paulo Bornhausen, se "renovou" e é "democrata", e não - o que ele sempre foi - oligarca (como dizia um professor meu: "PFL jovem é uma contradição em termos"). E falando em família, em 2002 decidiu eleger seu filho senador. Como grande "raposa política", traçou uma estratégia de campanha infalível: limitar a campanha ao grande feito único de "Paulinho" Playboy: ser contra os pardais (aqueles radares fixos que medem a velocidade nas Rodovias). Preciso dizer que Paulinho não se elegeu senador? O motivo para tanta habilidade política é simples: Bornhausen não entende nada de democracia. É um político formado na mentalidade da ditadura e sem densidade eleitoral. Ele não entende direito o que é uma eleição. Simples. E se os tucanos já não tem mais um projeto, não são os conselhos eleitorais de Bornhausen que vão ajudar. Se os políticos fossem tão inteligentes quanto a mídia diz, já teriam se livrado dos conselhos dessa "raposa".

P.S.: a sobrevida eleitoral do DEM em SC não conta pros méritos de Bornhausen. Foi a postura do PT em 2003, abandonando o governo eleito PMDB (Luis Henrique Silveira rompera com Serra pra aderir à onda Lula em 2002, mas o PT não aceitou fazer parte do governo), que deu sobrevida ao ex-PFL. O resultado: em 2010, o PMDB não aceitou se coligar ao PT, aliando-se ao PFL. Hoje em dia, o aliado "natural" do PT local é o PP de Amin.




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O SOPRO 33 apresenta cinco fragmentos de Furio Jesi sobre a relação entre mito, imagem e linguagem, publicados pela primeira vez em 1999, na revista Cultura Tedesca (em organização de Giorgio Agamben e Andrea Cavalletti) e aqui traduzidos por Diego Cervelin.

Além disso, uma resenha de Del deporte y los hombres, de Roland Barthes, escrita por Victor da Rosa.

[ Visualizar o Sopro 33 em PDF ]




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"Direito de ser traduzido, reproduzido e deformado
em todas as línguas"

Alexandre Nodari

é doutorando em Teoria Literária (no CPGL/UFSC), sob a orientação de Raúl Antelo; bolsista do CNPq. Desenvolve pesquisa sobre o conceito de censura.
Editor do
SOPRO.

Currículo Lattes







Alguns textos

"a posse contra a propriedade" (dissertação de mestrado)

O pensamento do fim
(Em: O comum e a experiência da linguagem)

O perjúrio absoluto
(Sobre a universalidade da Antropofagia)

"o Brasil é um grilo de seis milhões de quilômetros talhado em Tordesilhas":
notas sobre o Direito Antropofágico

A censura já não precisa mais de si mesma:
entrevista ao jornal literário urtiga!

Grilar o improfanável:
o estado de exceção e a poética antropofágica

"Modernismo obnubilado:
Araripe Jr. precursor da Antropofagia

O que as datilógrafas liam enquanto seus escrivães escreviam
a História da Filha do Rei, de Oswald de Andrade

Um antropófago em Hollywood:
Oswald espectador de Valentino

Bartleby e a paixão da apatia

O que é um bandido?
(Sobre o plebiscito do desarmamento)

A alegria da decepção
(Resenha de A prova dos nove)

...nada é acidental
(Resenha de quando todos os acidentes acontecem)

Entrevista com Raúl Antelo


Work-in-progress

O que é o terror?

A invenção do inimigo:
terrorismo e democracia

Censura, um paradigma

Perjúrio: o seqüestro dos significantes na teoria da ação comunicativa

Para além dos direitos autorais

Arte, política e censura

Censura, arte e política

Catão e Platão:
poetas, filósofos, censores






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